Você já dançou no Forró de Dona Raquel?
Se a sua resposta for sim, meus parabéns. Se não, me desculpe, mas você é menos feliz que muitos de nós.
Dona Raquel era uma católica devota de Nossa Senhora da Conceição e morava na Rua São Pedro. Todos os anos, em sua casa, ela realizava o melhor forró de Banco da Vitória. Dona Raquel era mulher forte e iluminada. Ela sabia sorri da vida e bailava como se fosse uma pluma ao vento.
No seu famoso São João, ela era a dançarina mais requisitada e tinha até fila de homens, esperando uma ‘mão de dança’ com a famosa dona casa e festeira.
Todos os anos, no mês de junho, Dona Raquel pedia aos seus filhos Canuto e Julinho que pintasse a casa e reformasse o piso da sala. Os garrafões de licor já estavam esfriando debaixo da mesa da cozinha. Ela enfeitava a frente da casa com bandeirolas coloridas e mandava fazer uma grande fogueira no meio da rua. No dia de São João, as exatas seis horas da tarde, dona Raquel ligava a radiola Tarteka e o forró começava para jamais acabar.
Primeiro, se tinha as crianças dançando e comendo milho cozido e bolo de milho. Depois, a partir das nove horas, se iniciava o forró mais procurados pelos festeiros de Banco da Vitória.
A casa de dona Raquel não era grande e na sala pequena só cabiam no máximo doze casais dançando. A festa tinha regras bem definida, como por exemplo: era proibido dá pum no meio do salão; homem não podia portar armas na cintura (todos que chegavam armados entravam pelo beco da casa e davam as suas armas para dona Raquel guardá-las); não se podia dançar a ‘indecente bate-coxa”; as mulheres não podiam ‘dar malas’; os bêbados não entravam no salão; dançarino ‘cintura de pedra’ dançava sozinho; mulher vestida de calça não era bem vinda; não podia dançar de rosto colado nem se chamegar demais. Além disto, havia mais duas regras irredutíveis: só se tocava músicas juninas e só haviam dois tipos de licor, o de primeira, oferecido para a ‘velha guarda’ e freqüentadores ilustres e o de segunda, feito com álcool desdobrado que era oferecidos para os gulosos e perturbados beberrões.
Todos os anos, na noite de São João, a casa de dona Raquel ficava pequena devido a quantidade de gente que ia lá dançar forró. Dona Raquel recebia todos com um sorriso encantador, um copo de licor de jenipapo e um punhado de amendoim cozido. Seu João de Coló, Nestor Cotó, Jonas Porco-e-touro, Seu Xisto Gomes, seu Júlio, Dantinha, Antônio Isaias e Nelson Fontes não perdiam este forró por nada deste mundo. Carmerindo, Gogó de Sola, Pedro Melo, Jarinho, Oficial, Seu Alfredo, Deca e muitos outros moradores gastavam os seus sapatos dançando a noite inteira no forró de dona Raquel.
As damas não faltavam para a dança. Além de dona Raquel, tinha dona Constância, Dete Catatau, Yracy, Maria Zoinho, Dona Rosália do Alto, dona Margarida, Estelita de Rabada Gorda, dono Maria, Loura, Teca, Dona Vaninha, dona Dete de Cabo Jonas e sua filha Edinha, Maria de Aries, Guda e muitas outras dançarinas de primeira mão.
Todos os anos seu Nestor Cotó e seu Diva levavam as suas quadrilhas para dançar na porta casa de dona Raquel e ai então a festa era completa e a nossa geração podia dançar no forró mais animado da região. A festa mesmo só acabava às oito horas da manhã do dia seguinte e dependendo do estoque de licor, no dia de São Pedro tinha mais forró e a casa ficava lotada de porta-a-porta.
Quando junho acabava, dona Raquel ia dançar na festa da Rua Dois de Julho. Ali ela era recebida como a primeira dama das festas juninas.
Até hoje é impossível passar pela Rua São Pedro sem olhar para a velha casa de dona Raquel e não sentir saudade da sua festa magistral nas noites de São João. Há quem diga que, passando por lá ainda se ouve as musicas que ali tocava e animava mais da metade da nossa gente festeira.
Um dia, Deus percebeu que Dantinha andava triste no céu e pensou em arrumar uma dançarina de primeira, especialista em forró, para animar os ares celestiais. No dia seguinte, no meio da tarde morna do outono de Banco da Vitória, dona Raquel mudou de endereço e foi bailar no céu dos justos e alegres.












