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Qual o morador mais folclórico de Banco da Vitória? Dê a sua opinião. Participe!

juryAconteceu na Bahia. Mais precisamente em Ilhéus.

Um senhor não se relacionava. Vivia encerrado dentro de casa. Não abria as janelas nem de dia. Fechado pior que um molusco. Lia e estudava. Detestava ruídos. Almejava a paz, solidão e silêncio. Acima de tudo, silêncio, para sua meditação, para a sua paz interior.

Os garotos da redondeza sabiam de seus hábitos e predileções. Por isso mesmo, irritavam-no. De forma reiterada. Com impertinência, postavam-se embaixo de sua janela e punham-se a produzir toda série inimaginável de ruídos. Como na época não haviam ainda as “motocas”, não as aceleravam, de escapamento aberto. Mas faziam barulhinho equivalente. Senão equivalente, incomensurável para o Ilhéus primitivo e tranqüilo, no início da década de 30. Leia Mais!

copia-de-neguinhaEssa semana, o Banco da Vitória acordou triste. Sem nossa autorização e consentimento, a nossa amiga Neguinha resolveu deixar todos nós órfãos. A família do nosso amigo Carmerindo perdeu uma irmã incomum e uma filha singular. O Banco da Vitória perdeu uma das suas moradoras mais amada, aguerrida, guerreira, lutadora e vencedora.

Neguinha foi registrada como Celita Lima dos Santos. Todavia, pouca gente sabia desse seu nome. Era conhecida famosamente em nossa comunidade como a menina e mulher que não via tempo ruim para nada. Se era preciso descarregar um caminhão de coco, Neguinha era a primeira a ‘lombar’ um cacho dos frutos. Se era para bater uma laje, Neguinha era a primeira a chegar e a última a sair. Se era para ajudar, ela era a primeira a tomar iniciativa. Se algo tinha de ser feito, sinônimo disso era Neguinha.

Se, porém, era para reclamar, bradar ou emitir a sua forte opinião, Neguinha não pedia licença para ninguém. Ela gostava de dizer que tinha a língua solta, que não guardava segredos nem tinha medo de nada nem ninguém. Por sinal, muitos meninos da minha época tinham medo dos braços de Neguinha que de vez em quando dava umas tapas em uns garotos brabões ou botava para correr um grupo de meninas arruaceiras.

Neguinha tinha uma iniciativa incomum para qualquer coisa. Mulher de audácia, não esperava nada para ser feito. Fazia antes de ser solicitado. Não gostava de moleza nem andava choramingando ou triste. Sempre a vimos como adjetivo de trabalho e luta. Sempre soube sorri com facilidade e adorava um arrasta-pé regado a cervejas geladas.

Apesar da sua fama de ‘braba’ e ‘esquentada’, Neguinha tinha o coração mole e altruísta e gostava de ajudar todo mundo. Às vezes, fazia o que não podia só ver alguém feliz. Muita gente sabia que ela podia esbravejar com alguém e até mesmo brigar, mas horas depois, já estava sorrindo, pedindo desculpas e dizendo, ‘ – amanhã é outro dia… eu sou assim mesma!’.

Neguinha costumava dizer que raramente tinha dormido fora de Banco da Vitória. Isso só acontecia quando ela ia para a Romaria de Bom Jesus da Lapa. Fora disso, ela viveu toda a sua vida entre o Rio Cachoeira e a Mata que circunda a nossa comunidade. Ou seja, ela nasceu, viveu e morreu no melhor lugar do mundo. Quis Deus que o seu coração falhasse exatamente nos melhores anos da sua vida.

A família de Carmerindo está, por hora, combalida e ferida. Eles perderam a Neguinha mulher-para-toda-obra e filha desejada por todos os pais. Nesse momento, sofremos com eles, mas sabemos que em breve contaremos muitas alegres e famosas estórias deixadas por nossa amiga Neguinha.

Eu, em particular, vou sofrer com saudade do caruru delicioso que minha amiga sempre guardava um parto especial para mim. Vou sentir saudade também das nossas longas conversas, ao pé do balcão do seu restaurante, (todas essas, obviamente regadas por cervejas geladas). Vou, como todos os seus amigos, sentir saudade do exemplo de ser humano que foi a nossa amada Neguinha.

Estamos todos tristes em Banco da Vitória. Meu amigo Nem está viúvo e seus filhos, Adriana e Chalinho estão órfãos de uma mãe rara, de uma amiga para todas as horas e principalmente de uma mulher que nunca viu dificuldade na vida.

Em verdade, Neguina não viveu simplesmente, mas sim lutou sem temor por toda sua vida. Como todas as guerreiras, ela nos deixou um grande exemplo de perseverança, esperança e fé.

Quando daqui a alguns anos se falar em Neguina, ela então se tornará o que sempre foi para todos nós: Uma lenda viva da comunidade de Banco da Vitória.

Por ultimo o desejo de todos nós: Viaje em paz minha amiga, pois a sua saudade será capaz de curar a ferida que por hora sangra em nossos corações. E não se esqueça de em vez em quando cantarolar ai pelo céu aquela música que você tanto adorava cantar e dançar. Aquela que dizia assim:

“Eu já passei
Por quase tudo nessa vida
Em matéria de guarida
Espero ainda a minha vez
Confesso que sou
De origem pobre
Mas meu coração é nobre
Foi assim que Deus me fez…

E deixa a vida me levar
(Vida leva eu!)
Deixa a vida me levar…”

Deixa a vida me levar – Composição de Sergio Meriti

Bavi, 17 de Janeiro de 2009.

Roberto Carlos Rodrigues

O Fictício e o Imaginário: Narrativas orais dos ribeirinhos do Banco da Vitória.

seu-tume“… No Banco da Vitória, os grupos sociais que sobrevivem diretamente do rio Cachoeira – em sua maioria pescadores, lavadeiras, areeiros e trabalhadores rurais desempregados -, costumam contar causos que supostamente “aconteceram” dentro e/ou nas proximidades do rio. Trata-se de narrativas orais que, em geral, abordam o cotidiano dessas pessoas; somando-se a isso a liberdade criadora e imaginativa de seus contadores. Em tais narrativas, as situações reais, o simbólico e o imaginário são tecidos conjuntamente como resultado de experiências vividas e/ou inventadas. São causos em que os contadores são, normalmente, as personagens principais, testemunhas ou simplesmente ouvintes dos episódios narrados.

Fato que poderemos constatar a seguir com o causo narrado de forma muito espirituosa pelo Seu Osmário, pescador desde criança, naquela localidade. Seu Tum, como é conhecido entre os seus companheiros, é um senhor de 54 anos, estudioso dedicado da Bíblia…” Leia mais

Pesquisa ajudou a derrotar fungo de cacau.

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Cabrucas são plantações de cacau misturadas com árvores de mata atlântica

Se depender do sul da Bahia –mais precisamente da Ilhéus de “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado–, os “chocólotras” podem ter mais esperanças. Vítima do fungo vassoura-de-bruxa, o cacau da região está ressurgindo, com promessa de gerar exportação, incentivar o ecoturismo e ajudar a preservar a mata atlântica.

Um dos exemplos onde esse tripé já existe é a fazenda Porto Novo, que tem entre os sócios o geneticista Gonçalo Pereira, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“Fechamos negócio com dez navios neste verão para que turistas visitem a fazenda e compreendam desde a cabruca até como se faz chocolate”, disse à Folha.

Cabrucas são plantações de cacau misturadas com árvores de mata atlântica, que refrescam o cacaueiro fazendo sombra.

A ligação de Pereira com a região surgiu quando ele resolveu estudar a genética da vassoura-de-bruxa, praga que acabou com a produção cacaueira na Bahia durante os anos 1990. A produção de cacau em Ilhéus despencou das 390 mil toneladas anuais em 1988 para 100 mil toneladas em 2000.

O tempo de prejuízos, porém, começa a virar apenas uma lembrança. Em 2005, a Porto Novo voltou a exportar. “Foram 13 toneladas de cacau. Somos o maior exportador do país”, diz Raphael Hercelin, parisiense radicado em Ilhéus que agora administra os 870 hectares da fazenda.

O mérito pelo ressurgimento do cacau em Ilhéus é repartido pela ciência, pela cultura e pelo trabalho empírico –neste caso, o crédito é de Edvaldo Sampaio, de outra fazenda.

O agrônomo, que nunca aceitou a derrota imposta pelo fungo, conseguiu fazer seus pés de cacau reagirem no campo. Primeiro com enxertos de plantas mais resistentes. Depois, com uma adubação especial. E, terceiro, induzindo o florescimento do cacau no primeiro semestre– o fungo, devido ao ciclo, ataca mais no segundo.

Quando o trabalho de Pereira deu os seus primeiros resultados, produtor e cientista uniram seus conhecimentos, e tudo foi para o campo. Sampaio, até então, trabalhava sozinho.

Hoje, explica Hercelin, a receita tem como base os dados empíricos, mas, em alguns casos, a ciência também está presente. Primeiro vem a poda para deixar o cacau forte. Depois a adubação química especial e, em terceiro lugar, o corte dos anéis da planta, necessário para alterar a data de floração.

Mas o trunfo atual da centenária cultura cacaueira baiana é a cabruca, que não existe na África. Além de o cacaueiro ficar à sombra no meio da mata, a diversidade botânica se torna maior. Assim, a área fica mais refratária a eventuais pragas.

Os produtores, dentro desse ressurgimento, reivindicam que esse tipo de plantação seja considerado área de reserva para poderem ampliá-la. Segundo Durval Mello, da ONG Instituto Cabruca, a região tem hoje 400 mil hectares de cabruca.

“Caso a cabruca não seja aceita como reserva”, diz o ambientalista, “70% dela deixará de existir”. O manejo, que hoje defende Ilhéus do fungo, é apenas o passo inicial. A região, mesmo investindo em cacau fino, não pode ainda produzir como a África.

Fonte: Gazeta

Editor:

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