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Naqueles tempos, Osmário, – hoje nosso reconhecido pastor evangélico -, era chamado em Banco da Vitória pelo apelido de ‘Seu Tum’. ‘Seu Tum’ era um pescador fantástico e um fabuloso jogador de futebol. Ele jogava de ponta direito arisco – como dizia Zé da Alinhagem.
Durante as partidas de futebol, ‘Seu Tum’ fazia gols de todos os tipos e modos. Ele era a alegria das tardes de domingo em nossa comunidade. Os laterais e zagueiros sofriam com os dribles curtos e ligeiros do baixote jogador de futebol. Os goleiros temiam a presença de Seu Tum nos time adversários. Já a torcida adorava ver esse excelente jogador abrilhantar o futebol de Banco da Vitória.
Além de excelente jogador de futebol, Seu Tum já foi lutador de box e teve como treinador o exímio boxer da fama internacional, Cabo Jonas. Apesar de baixa estrutura física, Seu Tum era um boxeador ligeiro e arisco e não tinha medo de lutar com ninguém, – indiferente do peso ou altura do adversário.
Um dia houve uma luta de box memorável no clube social de Banco da Vitória. Seu Tum desafiou um outro lutador de box e outras artes marciais, conhecido como Florêncio, o então marido de Dona Eunice do carramachão.
Florêncio era um homem tarugado e forte, negro de quase dois metros de altura e beirava os cem quilos de peso. Quando a luta começou todo mundo já sabia do resultado. Ia haver o massacre de seu Tum. Florêncio, auto intitulado ‘O Matador’ ia acabar aquela luta logo no primeiro round.
Isso de fato ocorreu, em parte. Seu Tum apanhou igual uma mala velha para largar a poeira antiga, mas não desistiu do desafio. Florêncio bateu em Seu Tum por mais de 10 minutos e a torcida pedia o fim da luta.
Mas ai apareceu o elemento surpresa. Cabo Jonas piscou o olho para seu boxer, indicando o golpe secreto e Seu Tum ganhou a luta.
O fato aconteceu assim: no meio da pancadaria, ‘Seu Tum’ deu um chute nos culhões (testículos) de Florêncio. O negão desabou no chão feito um saco cheio de cacau e de lá não se levantou. Florêncio gemia feito um bezerro capado enquanto Seu Tum pulava e mostrava os bíceps.
Seu Tum foi então logo dado como vencedor da luta, pelo árbitro, que por ocasião oportuna, era o próprio Cabo Jonas. O clube social só faltou vir abaixo diante dos gritos dos espectadores! As mais de 400 pessoas presentes desta luta memorável saíram com o vitorioso Seu Tum nos ombros, gritando e festejando pelas ruas de Banco da Vitória. Florêncio foi carregado para casa, onde ficou muitos dias sem sair da cama.
‘Seu Tum’ passou uns dias ‘entocado’, sem sair de casa, como medo do revide jurado por Florêncio, diante da imagem de São Jorge, seu santo protetor. Depois, os dois boxeres se encontraram na Taiobinha de Seu Júlio e tudo se acertou entre amizades, risadas e doses de pinga.
Uma noite, havia festa no clube social, onde o Good Som de Jorjão animava o baile de Banco da Vitória. O porteiro era Jorjão e os seus mais de dois metros de altura, cento e cinqüenta quilos de raiva e pouca paciência. Foi então que chegou Seu Tum já afogado na cangibrina e os outros sinônimos da aguardente de Banco da Vitória – e subiu os degraus de acesso ao clube. Na portaria, ele tentou entrar na festa sem pagar o ingresso.
Jorjão repudiou a sua investida e num só golpe, tirou o pequenino Tum da porta do clube social. Seu Tum se sentiu ofendido pela aversão de Jorjão e por mais de meia hora tentou furar o bloqueio do já irritado porteiro. Por último, o Jorjão deu um violento cascudo em seu Tum e o empurrou de escada a baixo. O pobre Seu Tum caiu quase no meio da Praça Guilherme Xavier e saiu de lá chorando pelas ruas. As pessoas da praça zombaram do choro infantil do nosso fantástico jogador de futebol.
‘Seu Tum’ foi se consolar no bar de Zé da Linhagem, na rua do campo. Lá ele se queixou do acontecido e sensibilizou Cabo Jonas, que resolveu tirar satisfação do ocorrido.
Cabo Jonas saiu de venta aberta pela Rua do Campo rumando para aportaria do clube social. Foi seguido por Seu Tum que ainda choramingava e se queixava. Cabo Jonas chegou à porta do clube bradando e enfurecido. De lá gritou forte:
– Quem bateu em Tum? Quem bateu em Tum? Quem bateu em Tum? Eu quero saber agora! Me digam que fez essa maldade!
Jorjão, vendo a assombração sonora que Cabo Jonas fazia na portaria do clube social, se aproximou do nosso ilustre amigo e também gritando disse, nos bigodes de Cabo Jonas:
– Fui eu!! e daí?
Cabo Jonas olhou o porte físico de Jorjão, tosou o cidadão de cima a baixo, mediu com os olhos a largura dos seus ombros e retrucou na hora:
– Bem feito! Bem feito! Tum tá muito ousado quando bebe. Bem feito. Bem feito mesmo. Se fosse eu dava uns dez cascudos nesse menino ousado e teimoso…
Cabo Jonas foi logo embora pela mesma rua por aonde veio.
Na verdade, Cabo Jonas foi para casa tomar um engrossante feito por Dona Deth, sua querida e dedicada esposa. Seu Tum foi para a Pedra de Guerra, tomar banho e curar a ressaca.
Por Roberto Carlos Rodrigues
Antigamente, quem nascia em Banco da Vitória era conhecido como os ‘comem concreto’. Isso porque a nossa gente era boa de boca, comia de tudo e não fazia cerimônia na hora da mastigação. O nosso povo jamais soube o que era fome, pois tinha os frutos das matas, a abundância de caças e um rio farto de peixes e mariscos.
Gente magra em Banco da Vitória não existia. Todo mundo era buchudo e pançudo. Desde criancinha todo mundo aprendia a gostar de pirão de siris, de visgo de jaca e do travor do biri-biri. Comer siris e caranguejos se aprendia aos 03 anos de idade. Aos cinco anos já se sabia pescar carapicuns, robalos e moréias. Aos 08 anos, os meninos mergulhavam no fundo do rio e de lá trazia siris, pitus e aratanhas. As meninas já sabiam pescar de redes e jererés.
Comer bem sempre foi uma das nossas qualidades maiores. Em Banco da Vitória todo mundo era bom de boca e comia de tudo. Na verdade a gente comia mesmo era de mão, desprezando talheres de todas as naturezas e fins. As frutas abundavam em todos os quintais. Eram bananas, mamões, jacas, abius, jenipapos, laranjas, carambolas, mangas, cocos e siriquelas. Nas beiras do rio Cachoeira haviam as goiabas, araçás, canas, taramarindo, carambolas, groselhas, amêndoas etc. Junto aos pássaros, todos nós comíamos as frutas e éramos duros de sermos vencidos por doenças bobas.
Do rio cachoeira viam os peixes e mariscos. Eram as tainhas gordas, robalos ovados, carapebas, moréias, carapicuns, traíras entre tantos outros peixes. Os mariscos fervilhavam sobre as pedras. Eram siris, caranguejos, guaimúns cevados, moapéns, ostras, pititingas, camarões e os famosos pitus.
Das matas vinham as caça como as pacas, tatus, teiús, veados, capivaras, sarués, jacaré e até jibóias que eram comidas pelos ‘bebúns’.
Naquela época frango se chamava galo e era comida de dia de domingo. Marcarão era comida de rico e leite em pó era capricho de poucos. O povo simples comia mesmo era feijão com arroz e farinha torrada e uma lasca de carne assada na brasa.
Moquecas e pirão faziam parte da nossa janta e sopa era comida de doente. As meninas quando estavam apaixonadas chupam limões com sal e pirão de mulher parida se fazia com caldo de galinha cozida no fogão a lenha.
No dia de Cosme e Damião se servia um farto caruru e tinha menino que corria as sete-freguesias e cominam mais de dez pratos da iguaria rara e deliciosa.
Agente não adoecia facilmente, pois éramos todos bem alimentados pelos ares de Banco da Vitória. Nos ‘babas’ de futebol, as canelas dos meninos se chocavam e só faltava sair labaredas da jogadas poucas amistosas. Raramente se via um menino ou menina com o braço ou pé quebrado. Tudo isso só era possível devido a nossa alimentação farta e principalmente natural.
As canas eram rasgadas nos dentes. O coco seco era comido como pudim de menino pobre e o mocotó moqueado se comia desde pequenininho. Como não havia miojos e iogurtes, a gente se lambuzada de frutos e o próprio banho de rio já servia para trazer uns camarões para se comer aferventados. Normalmente se tomava café com banana da terra, batata doce, aimpim ou então fruta-pão.
Concreto mesmo a gente não comia, como se dizia. Mas barro era comida de muitas crianças da barriga verde. Tinha gente que não aquetava ver um buraco no reboca da casa de taipas. Ali se ajeitava e fazia uma boquinha naturalista.
Mas isso já é uma outra velha e longa estória do nosso Banco da Vitória do Rio Cachoeira.
Roberto Carlos Rodrigues





