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Por Roberto Carlos Rodrigues

Por Roberto Carlos Rodrigues

No dia que eu completei 16 anos de idade, o Banco da Vitória quase foi destruído por causa da Guerra das Malvinas. Eram 04:50 da manhã quando a população de Banco da Vitória acordou assustada com um som infernal que passou sobre a nossa localidade e destelhou várias casas, derrubou muitas plantas, afugentou animais e deitou todos os capinzais das margens do Rio Cachoeira.

Modelo dos aviões F5 Tiger que passaram sobre Banco da Vitória

Modelo dos aviões F5 Tiger que passaram sobre Banco da Vitória

Depois do susto e dos relatos de alguns moradores que já estavam acordados naquela fria manhã de junho, se soube que sobre Banco da Vitória, passaram dois aviões a jato da Força Aérea Brasileira fazendo vôos rasantes e seguindo o percurso do Rio Cachoeira, rumo ao mar de Ilhéus. Soube-se então depois porque os aviões supersônicos passaram tão baixos e fizeram tantos estragos em nossa comunidade. A razão de tudo isso era o conflito entre o Reino Unido e a Argentina, por causa das ilhas chamadas Malvinas, que deram nome a essa guerra.

Em Banco da Vitória, os moradores da beira do rio perderam nesse dia vários utensílios e criações. Teve gente que perdeu o galinheiro inteiro. As aves sumiram nos ares por causa das turbinas dos aviões. Muitas casas perderam as telhas e as cabanas dos pescadores da União foram todas destruídas. Mas quem perdeu mesmo foi a Argentina que teve 649 soldados mortos no conflito e ainda perdeu a guerra. A Inglaterra, que reassumiu as ilhas Malvinas teve um grande custo nessa guerra e ainda viu 255 soldados morrem nessas batalhas.

Para saber o porquê dos aviões da FAB sobrevoarem tão baixo sobre Banco da Vitória e fazerem ali tantas destruições, precisamos recorre a um fato que aconteceu exatamente dois dias antes do nosso susto e quase colocou o Brasil no confronto que ocorria no sul do nosso continente. Vamos aos fatos:

bombardeiro britânico Vulcan, da RAF interceptado pela FAB

bombardeiro britânico Vulcan, da RAF interceptado pela FAB

Eram 10h50 do dia 4 de junho de 1982, quando os radares brasileiros detectaram o bombardeiro britânico Vulcan, da RAF (Royal Air Force), voando a 340 quilômetros ao sul do Rio de Janeiro. O aparelho voltava das Malvinas à sua base na ilha de Ascensão, no oceano Atlântico, mas teve um defeito mecânico que o impediu de fazer um reabastecimento aéreo e ficou sem combustível. Como o avião não respondeu ao contato por terra, dois caças F-5 Tigger II da FAB o interceptaram e o conduziram à base aérea do Galeão. Por estar oficialmente neutro no conflito, o Brasil não poderia autorizar a passagem de um avião de um país beligerante – no caso o Reino Unido – em seu espaço aéreo. A aeronave britânica foi apreendida por vários dias e sua tribulação ficou em solo brasileiro, enquanto se desenrolava as negociações para a devolução do aparelho militar inglês.

Dias depois o avião da RAF teve as suas armas apreendidas pela aeronáutica brasileira e foi liberado junto a sua tripulação, que rumaram para a Ilha de Ascensão.

Essa interceptação se tornou um triunfo para a Força Aérea Brasileira que se mostrou capaz de proteger e garantir o espaço aéreo do nosso país. Por outro lado, assustou a população brasileira que preferia só assistir o conflito.

Depois deste fato histórico a FAB ficou em alerta quanto ao nosso espaço aéreo no período do conflito das Malvinas e para poder demonstrar o seu poder de interceptação fez vários exercícios de guerra e um destes ocorreu exatamente na manhã de 06 de junho de 1982, o dia que o Banco da Vitória quase foi pelos ares.

Para entender porque os aviões a jato passaram sobre Banco da Vitória naquela manhã é só recorrer a mapa do Brasil. A base aérea de onde os aviões em exercício de guerra decolaram fica em Anápolis, que dista 140 KM de Brasília. Com bem sabemos, a capital brasileira fica na direção de uma linha reta até Ilhéus. De Anápolis até ilhéus se tem 1.470 km. Naquela manhã os aviões F 5 decolaram para fazer uma interceptação fictícia e demonstrar que a capital brasileira estava também bem protegida, quanto o nosso litoral. Nessa rota de vôo, os aviões supersônicos vieram sobrevoando o percurso do rio Cachoeira e nas imediações de Banco da Vitória resolveram (e só Deus sabe o porquê!) passar a poucos metros do leito do nosso rio.

A guerra das Malvinas que se iniciou no dia 02 de abril de 1982 terminou com a vitória do Reúno Unido em 14 de junho deste mesmo ano. Em Banco da Vitória o susto durou por vários dias e gerou diversas versões.

Arara, pai de Tatá e Veinho, disse que perdeu naquela manhã umas vinte e tantas galinhas. As barracas de palhas de Cundunga, Gogó de Sola e seu Taurindo que ficavam na beira do rio foram dizimadas pelas forças dos ventos. As canoas do Porto de João de Colo afundaram como pedras. Osório, que já estava no matadouro naquelas horas, disse que viu os aviões passarem ‘varendo’ o rio cachoeira e levando nos seus ventos um bambuzal inteiro. Dona Consessa disse que caiu da cama com o susto e quase quebrou a cavícula.

Cabo Jonas disse que as saias de Dona Deth, que estão quarando no varal do quintal da sua casa, foram encontradas três dias depois na casa de um amigo seu, na Sepetinga, em Ilhéus. Pior ainda aconteceu com os sapatos importados da marca mocacy de Tonny Neto. Cabo Jonas tinha os consertado e lustrados primorosamente no dia anterior. Depois o par foi colocado sobre o telhado para tomar sereno e amaciar as solas. No sopapo dos aviões a jato, um pé foi parar em plena Rua Marquês de Paranaguá, no centro de Ilhéus. Um outro pé do sapato jamais foi encontrado. – Deve ter caído nos quintos do inferno!.Fiquei no prejuízo. Choramingava e dizia Cabo Jonas enquanto mostrava para todo mundo os prefixos dos aviões jatos que passaram sobre Banco da Vitória e somente ele foi capaz de ver e anotar essas numerações.

Roberto Carlos Rodrigues

Veja um vídeo com os modelos de aviões que passaram sobre Banco da Vitória: F5 Tiger II FAB

Bombardeiro Vulcan:

Veja os vídeos documentários sobre essa guerra:


Caça do futuro:


Fonte: Grandes Advogados, Grandes Julgamentos – Pedro Paulo Filho – Depto. Editorial OAB-SP

Sílvio Farias

O Professor Paulo José da Costa, de São Paulo, renomado criminalista, relatou um dos mais folclóricos eventos ocorridos no Tribunal do Júri, em crônica publicada pela imprensa paulista.

Aconteceu na Bahia. Mais precisamente em Ilhéus.

Um senhor não se relacionava. Vivia encerrado dentro de casa. Não abria as janelas nem de dia. Fechado pior que um molusco. Lia e estudava. Detestava ruídos. Almejava a paz, solidão e silêncio. Acima de tudo, silêncio, para sua meditação, para a sua paz interior.

Os garotos da redondeza sabiam de seus hábitos e predileções. Por isso mesmo, irritavam-no. De forma reiterada. Com impertinência, postavam-se embaixo de sua janela e punham-se a produzir toda série inimaginável de ruídos. Como na época não haviam ainda as “motocas”, não as aceleravam, de escapamento aberto. Mas faziam barulhinho equivalente. Senão equivalente, incomensurável para o Ilhéus primitivo e tranqüilo, no início da década de 30.

O zunido reboava dentro da casa hermeticamente fechada, como se fosse uma caixa acústica. O seu solitário eremita punha-se louco.

Fazia de tudo. Punha algodão nos ouvidos, panos nas janelas. Não eliminava a barulheira atroz.

Mas ele não saia de seu posto. Firme nele. Sem arredar pé da casa e sem abrir as janelas.
Um dia abriu violentamente uma das janelas. Num gesto de desespero. Dela surgiu, abruptamente, desvairado, a gritar e a empunhar uma espingarda. “Parem! Parem, por amor de Deus! Vão embora, senão eu atiro!”

Os meninos prorromperam em gargalhadas estrepitosas. Riram-se muito, mas não se foram. Ficaram, primeiro a rir e a observar. Depois, prosseguiram no rumor das latas, de ferros e demais instrumentos infernais.

O senhor pôs-se a berrar. de forma desconexa. Nem se ouvia o que dizia. Sua voz era inteiramente abafada e encoberta pela algazarra, que foi num crescendo estrepitoso.
De repente, atirou. A esmo. O projétil foi ter ao paralelepípedo. Ricocheteou. E foi atingir um dos garotos, que caiu no solo, com uma mancha vermelha no peito.
Os demais, espavoridos, fugiram.

Nunca mais se ouviu algazarra alguma, em torno da casa do eremita.

Naquele dia, porém, ele saiu. Para ir à Polícia, para ser interrogado.

Ultimado o inquérito, passou-se à fase processual instrutória. Dela, chegou ao julgamento.
Incumbiu-se da defesa o advogado Sílvio Faria. Um profissional experimentado, afeito ao debate. Experimentado e hábil. Muito hábil mesmo.

No dia do julgamento, quando lhe foi dada a palavra, dirigiu-se nos termos de praxe:

“Excelentíssimo senhor doutor juiz-presidente do Egrégio Tribunal do Júri desta Comarca de Ilhéus. Nobre representante do Ministério Público. Senhores cidadãos jurados que compõem este respeitável conselho de sentença.”
Fez o intróito, sorveu lentamente dois goles d´água e sentou-se.

Esperou alguns segundos e levantou-se pela segunda vez. “Excelentíssimo senhor doutor juiz-presidente do Egrégio Tribunal do Júri desta Comarca de Ilhéus. Nobre representante do Ministério Público. Senhores cidadãos jurados que compõem este respeitável conselho de sentença.”

Sentou-se novamente e novamente bebeu os goles d´água que restavam no copo.

Dali a momentos, alçou-se pela terceira vez, para repetir a mesma saudação: “Excelentíssimo senhor doutor juiz-presidente do Egrégio Tribunal do Júri desta Comarca de Ilhéus. Nobre representante do Ministério Público. Senhores cidadãos jurados que compõem este respeitável conselho de sentença.”

O juiz impacientava-se. Mexia-se na sua cadeira. Os jurados, um tanto perplexos, também. O advogado sentou-se, uma vez mais e repetiu a mesma cena da água.

Quando se levantou e pela quarta vez, ultimada a saudação inicial, ia tomar a água, foi advertido pela Presidência: “Advirto o digno defensor de não prosseguir desta forma, sob a pena de declarar o réu indefeso e dissolver o conselho de sentença”.

O advogado fez ouvidos de mercador.

Repetiu a cena, como se não tivesse havido a advertência.

Aí o juiz perdeu a paciência e as estribeiras. Desatou a censurar o advogado, de forma áspera e indelicada.

Era o que pretendia o advogado, que só então iniciou a defesa:

“Vejam, ilustres juízes de fato que compõem este Júri. O magistrado sereno, o magistrado equilibrado, o magistrado imparcial irritou-se desta maneira porque repetimos, algumas vezes, uma simples saudação. Que dizer, então, deste homem, tantas vezes molestado, tantas vezes importunado? Dias, semanas, meses. Sua reação tinha que ser esta. E a resposta, aparentemente violenta, não podia ser outra.”

E foi adiante em suas considerações.

O Júri compreendeu o drama daquele homem. Absolveu-o , por reconhecer estar ele, no momento do crime, com perturbação dos sentidos.”

Paulo José da Costa

juryAconteceu na Bahia. Mais precisamente em Ilhéus.

Um senhor não se relacionava. Vivia encerrado dentro de casa. Não abria as janelas nem de dia. Fechado pior que um molusco. Lia e estudava. Detestava ruídos. Almejava a paz, solidão e silêncio. Acima de tudo, silêncio, para sua meditação, para a sua paz interior.

Os garotos da redondeza sabiam de seus hábitos e predileções. Por isso mesmo, irritavam-no. De forma reiterada. Com impertinência, postavam-se embaixo de sua janela e punham-se a produzir toda série inimaginável de ruídos. Como na época não haviam ainda as “motocas”, não as aceleravam, de escapamento aberto. Mas faziam barulhinho equivalente. Senão equivalente, incomensurável para o Ilhéus primitivo e tranqüilo, no início da década de 30. Leia Mais!

Editor:

Roberto de Carrinho - Fale conosco pelo e-mail: bancodavitoria@hotmail.com

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