Ruy Tatu, O Eremita de Banco da Vitória.

eremita de banco da vitóriaPor Roberto Carlos Rodrigues.

O eremita de Banco da Vitória se chamava Ruy Tatu e não tinha registro de nascimento. Ele costumava dizer que seu nome era Ruy dos Santos, mas era conhecido em nossa comunidade apenas como Ruy Tatu. Ruy ganhou esse apelido devido às caças que ele vendia todos os sábados na feira de Banco da Vitória, onde os tatus eram os maiores e mais bonitos. Todavia, muitos acreditavam e o chamavam de Rui Tatu por que ele vivia literalmente num buraco, debaixo de uma rocha, nas imediações do Morro do Miliqui, nos limites dos municípios de Ilhéus e Uruçuca. 

Ruy Tatu era um homem negro não usava armas de fogo para caçar. Normalmente as caças eram pegas em armadilhas ou então golpeadas com facões ou foices, na maioria dos casos nas cabeças dos animais. Ruy costumava caçar enveredando no mato e seguindo as trilhas dos animais. Como ele próprio dizia, muitas vezes, em suas tocaias o animal se aproximava dele sem sentir a sua presença. Esse era o seu artifício de caças. Para tanto, o caçador do Morro do Miliqui evitava se banhar durante suas caçadas e comumente andava nu no meio da mata. Depois de matar qualquer animal, ele dizia que rezava para a alma dos bichos.

Todos os sábados Ruy Tatu ia até a feira do Banco da Vitória e ali vendia rapidamente as suas caças espetaculares. Eram tatus, capivaras, teiús, pacas, jacarés e algumas aves como perdizes, sabiás, irerês, patos e pirús selvagens. Em pouco mais de uma hora todas as caças eram vendidas e Ruy ia então comprar suas mercadorias para levar para sua toca. Ele comprava peixes salgados, carne de boi, sal, um pouco de pó de café, aguardente e algumas velas. O dinheiro que ele arrecadava em suas vendas ninguém nunca soube o que ele fazia.

Quando ia ao Banco da Vitória Ruy Tatu vestia uma calça curta amarrada por uma tira de corda e uma camisa, ambas rasgadas. Jamais ele usou sapatos em sua vida e apesar de ganhar muitas roupas de presente, notava-se que ele utilizava uma roupa até acabar, sem jamais lavá-la.

Ruy Tatu tinha uma baixa estatura e mal-mente chegava a um metro e meio de altura. Ele não pesava mais que cinquenta quilos e sempre andava com um facão amolado pendurado na cintura. Quando ia ao Banco da Vitória ele passava o dia inteiro na comunidade e muitas vezes comprava coisas como vários espelhos, brinquedos, cadernos, lápis, panelas, corte de tecidos, bolos etc. Muita gente sabia que aqueles utensílios deviam ser dados de presente a alguém. Mas jamais se descobriu para quem Ruy dava essas coisas, já que na sua toca onde ele morava não havia nada que identificasse uma moradia. A cama era uma tarimba de biriba, coberta com palhas de palmeiras. Não ali havia bancos, cadeiras, armários etc.

Algumas roupas doadas ficavam penduradas nas árvores próximas a sua toca. O fogo era aceso no terreiro e as panelas ficavam também penduradas em artes de bambus. Ruy raramente recebia visitas e quando isso acontecia, ele estava sempre escondido no meio da mata observando cuidadosamente quem se aproximava da sua toca. Quando isso ocorria era os seus amigos Courinho, Veio Cotó, Xisto e Tiago Gomes, Antônio Cardoso e o velho João Batista, que também caçava naquela região. 

Pouco se sabe da origem de Ruy Tatu e da sua família. Ele dizia que seu pai tinha sido escravo nas bandas de Lagoa Encantada e que ele foi para os limites da antiga Sesmaria Victória, levado por uma tia que o criara. Ali ficou até o resto da sua vida. Havia pessoas em Banco da Vitória que dizia que Ruy Tatu tinha mais de 100 anos quando morreu em 1998. Ruy passou muitos dias sem aparecer em Banco da Vitória e isso chamou a atenção de alguns moradores que foram até a sua toca e o encontraram bastante doente devido as inflamações nos pés provocados por contaminação de bichos de porcos. Levado para o hospital de Ilhéus, Ruy se recuperou e depois foi transferido para uma casa de repouso em Itabuna, onde morreu em menos de 30 dias de internação.

Como ele bem sabia, viver em sociedade não combinava com o seu estilo de vida eremita. Antes de morreu Ruy perguntou a uma freira se ele seria perdoado por Deus por ter matado tantos animais. A religiosa sorriu e disse-lhe que ele já tinha sido perdoado por ter vivido como um verdadeiro anjo das matas. Logo depois Ruy descansou em paz e um dos seus sonhos não foi realizado. Ser sepultado no cemitério de Banco da Vitória. Ruy Tatu foi sepultado numa cova rasa do cemitério de Itabuna e sobre sua sepultura só havia um pedaço velho de madeira com três números escritos. O eremita do Banco da Vitória se transformou então num indigente morto.

 

 

A Seca enfezada da molesta do cachorro.

rios secoPor Roberto Carlos Rodrigues.

Só quem viveu, viu a seca enfezada da molesta do cachorro em Banco da Vitória. As matas, antes resplandecentes e luminosas, todas mescladas de todos os tons escuros dos verdes e perfumada pelos borrifos diários do calor úmido das terras, empalideceram, amarelaram e secaram igual as folhas de um velho chuchuzeiro cortado na tora e jogado no terreiro, barcaça sob o sol.

Antes chovia todos os dias por essas bandas. De manhãzinha, logo depois dos primeiros lumes do Astro-Rei, vinha uma chuvarada vezeira regar o cacaual, molhar as beiradas dos rios e refrescar os capins nas margens dos brejos. Todos anos, nos meses de agosto a outubro chovia sem dada dó nem piedade. Em setembro a primavera era sempre molhada e até o final do ano as enchentes eram quase semanais. Raros eram os festejos da Padroeira de Nossa Senhora da Conceição em que o rio Cachoeira não estivesse caudaloso e demasiadamente cheio.

Antes dessa seca da enfezada da molesta do cachorro, por todo canto se via o verde da Mata Atlântica e debaixo deste cobertor natural o cacau explodia em frutos e sonhos.

A terra escura, berço dos cacauais, era úmida por mais de cinco palmos de profundidade. Por todo canto havia um roçado, uma burara, um sitiozinho. O aroma do cacau pairava por todos os ventos. Continuar lendo

Lançamento: livro Prosas e Causos de Banco da Vitória. (Versões em PDF e áudio (MP3).

Lançamento: livro Prosas e Causos de Banco da Vitória. (Versões em PDF e áudio (MP3).CAPA 1 N1.jpg

Agora você pode relembrar as divertidas prosas e causos de Banco da Vitória contadas por Roberto Carlos Rodrigues em duas formas: (1) – Arquivo PDF (para ler no seu computador ou tablet (e imprimir, se quiser!) e (2) – em arquivos de áudio (MP3), para você poder ouvir no seu celular, no carro, no som da sua casa ou no PC.

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O melhor Sobe-e-Desce do Mundo.

cozido_musculo_legumesPor Roberto Carlos Rodrigues

Por aí a rústica receita culinária tem diversos nomes e alcunhas. Chamam-na de cozido, guisado, refogado, cozinhado, panelada, verdurada, panela doida entre outros sinônimos. Mas em Banco da Vitória, a carne do peito de boi mal cozido e adornado de todos os tipos de verduras disponíveis na cozinha, chama-se apenas Sobe-e-Desce, – comida para quem não tem paciência.

A receita é simples, porém, caprichosa. A carne preferencialmente tem de ser peito de boi, cortada em pedaços pequenos, temperados com alho, cebola, tomates, pimentão, sal, cominho, urucum, pimenta do reino, louro, salsa e coentro. A carne é colocada no caldeirão (Deus nos livre da panela de pressão, que não serve para essa iguaria!) com água cobrindo-a apenas alguns dedos de altura e o fogo deve ser brando para que o cozimento seja lento, porém, perfeito.

O tempo de cozimento das carnes é o mesmo que se gasta para descascar as verduras. Essas, na quantidade suficiente para não caracterizar o pecado da gula. São batatas doces, roxas e inglesas, chuchus, gilós, maxixes, repolhos, couves, abóboras, bananas da terra, inhames, aipim e o indispensável quiabo, – esses, no mínimo sete dúzias.

A carne do sobe e desce tem de ficar no ponto de corrute. Ou seja: nem dura nem mole. Tem de ficar no ponto de os dentes fazerem o barulho de “corrute”, ao cortá-las.

Após a segunda fervura das carnes, as verduras devem sem colocadas no caldeirão e este tampado. Aí então, está na hora de fazer o molho com trinta e sete pimentas malaguetas, regado no limão balão e uma pitadinha de sal. Normalmente o molho é quem chega primeiro a mesa. Depois vem o arroz e a lata lotada de farinha. Feijão cozido pode ter, mas não combina com os opíparos prazeres do Sobe-e-Desce.

Pouco tempo depois destampa-se o caldeirão e retira as verduras que são colocadas numa bandeja grande. Em outro tacho são colocados os pedaços de carne e um pouco do nutritivo caldo. O restante do caldo que fica no caldeirão faz-se o escaldado (este, diferente do pirão). O escaldado é colocado em uma travessa e essa encostada aos personagens principais do prato, que adornam a mesa da cozinha.

Logo se ver as fumaças exalando das verduras (não pode chama-las de legumes, que são coisas de ricos), das carnes e do escaldado. Os pratos são feitos com um pouco de tudo e regado com uma boa colherada de molho de pimenta.

Logo se ouvem os “currutes” dos dentes gemendo sobre a carne malcozida e as seivas escorrendo pelos cantos das bocas.

O Sobe-e-Desce é comido sob o barulho das prosas na cozinha. Os adultos comem na mesa, a criançada no quintal e a vizinha bisbilhoteira sempre aparece nessas horas fazer uma visita sem ser convidada. A comida sempre serve para mais uma.

Depois da comilança, palitam-se os dentes, bebe-se um cafezinho passado na hora, esticam-se as canelas sobre as esteiras de taboa e sonha com a futura janta. Mais isso já é outra estória, com outros paladares e noturnos ingredientes.

Hugo Kaufmann – O provedor mor de Banco da Vitória.

Hugo-KaufmannEste cidadão da foto chamava-se Hugo Kaufman. Por conta dos esforços deste incansável empresário o Banco da Vitória saiu da condição de simples arruado e se transformou, no meio do século passado, em um dos lugares mais prósperos das margens vitoriosas do Rio Cachoeira.

A história de Hugo Kaufmann vai muito além dos limites da Fazenda Victória. Conheça um pouco dessa história e sua importância para o todo sul da Bahia.

Hugo Kaufmann nasceu em 28 de dezembro de 1876 na cidade de Derendingem, no Cantão, suíço alemão de Soluthurn, na Suíça.

Menino ainda trabalhou na firma Le Doux & Cia., no Havre. Em 1903 foi contratado, em Paris, pela firma C. F. Keller & Cia. Para trabalhar na sua subsidiária brasileira, Braem Wildgerger & Cia., sediada no Brasil, na Bahia. No mesmo ano veio para o Brasil onde em 1906 abriu em Ilhéus uma filial da empresa sendo seu diretor até 1908, quando fundou a Hugo kaufmann & Cia., da qual participava também Wildberger e Cia., em 1918 se separaram.

Em 1926 Hugo Kaufmann comprou a Fazenda Victória, que antes pertencia ao alemão Hermann Lüssenhop.

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Cinquenta Seis de Junho.

roberto foto novaPor Roberto Carlos Rodrigues

Parece que foi ontem, mas de tão distante, aquele 06 de junho já se perdeu entre as folhas amareladas dos meus velhos calendários. Nasci numa manhã friorenta de uma segunda-feira. Era dia de São Norberto, sacerdote alemão e franciscano, famoso por suas pregações que atraiam multidões e produzia inúmeras conversões. Recebi o nome de artista: Roberto Carlos, mas o que determinaram realmente o meu sucesso foram meus sobrenomes: Rodrigues do Nascimento. Vim com a vontade de vencer no sangue. Não vim apenas para apreciar a paisagem. Vim para ajudar fazer paisagens.

Entre os tombos e os escorregões, aprendi a dançar. Entre os nãos e o impossível, resolvi arriscar. Entre as dificuldades e as decepções, aprendi a ter fé. Entre o medo e a incerteza, aprendi a ter a coragem que não me pertencia. Assim, de dia em dia, vivendo apenas um dia de cada vez, fui vencendo a morte e sobrevivendo apenas para dizer que vale a pena viver. – Isso vale muito.

Os dias tristes ficaram no esquecimento. Dos dias felizes, restaram as matizes replicáveis. Da vida que vivi e vivo ficou a lição que o amor é o verdadeiro porquê da vida.

Das pessoas que cruzei pelas veredas das horas, todas me ensinaram alguma coisa. Nunca sair de um encontro com as mãos vazias ou cheias demais ao ponto de derramar sobras. Sempre tive o que dividir e principalmente aceitar o que era generosamente ofertado. Dessa forma, fui ajudando e sendo ajudado. Fui vivendo feliz.

Nunca vi ninguém viver tão feliz como eu. Vivo em um tipo de felicidade que pouca gente entende. Na verdade, só Deus e eu entendemos. E isso é tudo e mais um pouco. Não invejo a vida de ninguém pois ninguém viveu a vida que eu vivi e vivo. Eu sou único.

Agora lambo os dedos lentos e calejados e viro lentamente a página do livro da vida. 17.800 é a sua numeração. São cinquenta seis de junhos que estou por aqui. São 50 anos de vida ou melhor 50 anos de oportunidades e sonhos, encontros e surpresas. Belas surpresas.

Não vou fazer balanço do que fiz, não fiz ou do que pretendo fazer. Vou apenas fazer o que sempre fiz e que determina minha existência: Vou vivendo um dia a cada vez. Somente o dia de hoje e as lembranças de seus ancestrais. Nada mais. Amanhã é apenas uma audaz pretensão.

Nunca gostei de festa de aniversário. Normalmente quando faço isso, não compareço. Estranhamente não gosto de receber parabéns! Prefiro a saudação Viva! Viva a vida!

Hoje faço 50 anos de vida e vejo que tudo foi tão breve que já estou com saudade de ontem. Pois ontem – sempre o ontem! -, foi o dia mais difícil da minha vida. Os ontens são terríveis e se não tomarmos pulsos eles estragam o hoje e duvidam do amanhã. Mais são agora apenas ontens. Isso basta.

Por sinal, amanhã pretendo acrescentar mais um dia no livro da minha vida. Se Deus me conceder essa proeza, espero fazer o que faço todos os dias: tentar fazer o Mundo melhor e pelo menos fazer uma pessoa feliz. Tomara que essa pessoa seja você.

Viva a vida e que ela dure o que que tiver de durar, pois a felicidade não tem prazo de validade.

Da minha vida tenho feito o melhor que posso para ser feliz e útil. Não posso reclamar dos meus resultados. Tenho tanta felicidade que chego até distribui-la com quem me cerca. Quanto mais eu doo-a mais sou feliz.

Não é a quantidade de dias vividos que determina uma vida feliz. Uma vida feliz é apenas uma forma de viver. Escolha a melhor forma de viver e seja feliz com a vida que Deus Lhe deu, e que você pode melhorá-la.

Sua vida não é um simples presente de Deus. É UM PRESENTE ESPECIAL DE DEUS e entre as inúmeras almas Ele escolheu você para compartilhar a nossa existência.

O melhor presente que eu pretendo receber hoje de você é saber que você jamais duvidará de Deus. Pois Deus é fiel, justo e cumpridor de promessa.

Na minha vida tem sido assim. Deus quer que também seja assim na sua vida. Por sinal, feliz aniversário para você também. Afinal, todo dia é dia de comemorar.

Viva! Viva a vida!

Assista ao vídeo:

  

Projeto Cozinha Alternativa de Banco da Vitória fracassa em 90 dias.

comida4Por Roberto Carlos Rodrigues.

A ideia era inovadora e revolucionária. Encabeçada pelas Cáritas Diocesanas de Ilhéus, chancelada pelo então médico do posto de saúde local Dr. José Moura Costa e com o apoio de Dona Lia, Dona Enaura, Dona Bela e Dona Lindaura foi implantada com festa e alarido o projeto da Cozinha Alternativa de Banco da Vitória. Era junho de 1981 e Dr. Moura preocupado com os altos índices de colesterol, triglicérides, glicemia e ácido úrico dos moradores do distrito de Banco da Vitória, sugeriu a mudança radical da alimentação do povo e coube-lhe trazer o apoio da Prefeitura de Ilhéus para financiar o projeto piloto da cozinha alternativa.

Na missa de domingo o padre falou da importância do projeto e já na segunda-feira seguinte estavam diversos universitários e seminaristas do sul do Brasil, visitando as casas dos moradores de Banco da Vitória e instruindo-os sobre os novos hábitos alimentares baseados na comida verde.

Na casa de Dona Lia instalaram mais de seis fogões a gás e no clube social foram ministradas as palestras e aulas culinárias que ensinava o povo a ter uma vida mais saudável e longeva.

Os universitários gaúchos e paranaenses ensinavam fazer cozidos de semente de jaca, moqueca de coração de bananeira, lasanha de repolho com molho de talo de couve, bolinho de talos de agrião, doce de casca de melancia, patê de berinjela, feijoada vegetariana entre outras iguarias do mundo vegetal.

Foram quinze dias de aulas e mais aulas intensas, todas repletas de surpreendentes receitas e novos conhecimentos culinários da revolucionária cozinha alternativa. As donas de casas de Banco da Vitória desfilavam com diversos cadernos cheios de receitas de almoços, jantares, sopas e doces feitos com cascas de frutas, talos de hortaliças e até bagunço de jaca.

A euforia com a cozinha alternativa foi tanta que teve até pessoas que mudaram os hábitos e roupas, passaram andar apenas com roupas brancas, fitas no cabelo, usavam mel no lugar do açúcar, chá de camomila no lugar do café. Só comiam pão integral e bebiam apenas leite de soja. Viva a natureza!

No dia do encerramento do projeto da cozinha alternativa a mesa para exposição dos pratos tinha mais de 70 metros de comprimento e dava voltas dentro do clube social. As alunas mostravam seus pratos feitos com sobras de frutas, flores e verduras. Bolos de todos os tipos, gostos, cores, odores e ingredientes. Para todos os visitantes eram servidos chás de folhas de tangerina, rosas vermelhas, cidreira e hortelã. Até o licor de jenipapo era sem álcool.

Naqueles dias a palavra carne era proibida a sua pronuncia dento do clube social de Banco da Vitória. A gordura das frituras era maldita igual as pragas do maligno. Sal e açúcar foram réus julgados e condenados ao exílio perpétuo.

Numa segunda-feira seguinte a festa de encerramento do curso os universitários os seminaristas sulistas foram embora de manhã cedinho. Estavam felizes e realizados com suas alunas dedicadas e aplicadas.

Naquela semana muitos casamentos quase azedaram em Banco da Vitória. As esposas queriam fazer os pratos vegetarianos e os maridos não queriam nem saber da tal cozinha alternativa feita de mato. Teve casa que foi imposto pelo marido irritado à fervura do feijão adubado ”com tudo dentro” no café, almoço e janta, todos os dias. Fatada era comida três vezes por semana. A sopa noturna era feita com duas rabadas e cinco ossos de patinho. Quando era para comer galinha matavam-se logo quatro. De sobremesa no mínimo 8 cocadas para cada participante do almoço e mais três copos de suco bem doce…

– Eu não sou lagarta para comer mato.

– Quem nasceu para comer cascas de jaca foi jegue.

– Sopa sem gordura é igual água de brejo.

– Feijão ser carne é igual missa sem padre.

Foi o que se ouvia por todos os cantos de Banco da Vitória.

Em poucos dias os cadernos repletos de deliciosas e saudáveis receitas vegetarianas foram para os fundos dos armários e o colesterol voltou a ser servido nas casas três vezes aos dias.

Os fogões de Banco da Vitória voltaram aos seus antigos cardápios. Mocotó, buchada, sarapatel, jabá assada, cozido de peito de boi, feijão adubado, Rabada gorda, fígado ao molho, bife acebolado, perfil assado, torresmo com bisteca, feijoada carioca, carne assada, farofa de banha de porco e pirão de farinha. Muita farinha.

O projeto da cozinha alternativa de Banco da Vitória infelizmente fracassou em menos de 90 dias e nosso povo voltou a desfilar pelas ruas mostrando suas panças cheias e reluzentes. Tão reluzentes, quase fatais.

Feliciano de Assis – A pedra angular de Banco da Vitória.

FELICIANOPor Roberto Carlos Rodrigues.

Feliciano de Assis é nome de praça em Banco da Vitória. O cidadão que dá nome a essa praça ajudou literalmente construir com suas mãos boa parte do atual bairro de Ilhéus. Feliciano era pedreiro e blaster. Cortava pedras para construção de fundações de casas e prédios, quebrava britas e fazia paralelepípedos e meios-fios para calçamentos de ruas e praças. Por certo, quando andamos pelas atuais ruas calçadas de Banco da vitória pisamos em dezenas de milhares de pedras que foram cortadas com esmero pelo pai de Jair Rodrigues de Assis e seus irmãos e irmãs.

Feliciano de Assis nasceu em 09 de junho de 1903, na cidade de Cachoeira de São Felix, no recôncavo baiano. Era neto de ex-escravo e trazia em seu sangue os rastros dos negros Bantos. Seus familiares eram praticantes do Candomblé nas cidades de Cachoeira e Santo Amaro. Porém, Assis não era praticante dessa religião. Ele era católico e seguidor do Animismo, (culto em devoção as almas), mas era apaixonado pelas obras de Jesus Cristo, seu ídolo mor.

Feliciano de Assis chegou ao Banco da Vitória em 1926 com apenas 23 anos de Idade.  Estava com seu amigo inseparável por toda vida, Gonçalo. Veio exercer a sua profissão de demolidor de pedreiras e transforma-las em paralelepípedos, meios-fios, blocos de pedras e britas de todos os tamanhos.

Vale citar que na década de 20 a região cacaueira necessitava de mão de obra especializada, principalmente, na construção de estradas, ruas e casas. Neste efeito, muito artífices e profissionais eram recrutados em outras cidades e estados, para trabalhar na então rica Região cacaueira.

Em pouco tempo o jovem sanfelixta se estabeleceu em Banco da Vitória e no início da década de 30 se casou com Virginia Rodrigues de Assis (Dona Cabocla), irmã de Nestor Pereira e João Rodrigues (João de Coló). Desta união nasceram 11 filhos que sobreviveram, que são assim nomeados: Pupu (Antônio) Vastir, Dada (Idalício) Menininha (Giomar), Nilza, Vaninha, Ilza, Idalice, Big (Geny) e Jair, todos com o sobrenome do Clã Rodrigues de Assis. (E eu na rebarba!).

Feliciano de Assis era um ser especial. Teria sido o que quisesse ser. Era uma pessoa altamente carismática, calma, cativante, envolvente e inteligente. Adorava ajudar as pessoas mais humildes e participava de todos os mutirões que ocorriam na então vila de Banco da Vitória. Além de cortar pedras, ele sabia lidar com madeiras, construir telhados, edificar casas e prédios, pintar paredes e fazer calçamentos de ruas e passeios. Por conta disso ajudou com suas mãos erguer muitas casas e prédios em Banco da Vitória e na cidade de Ilhéus.

Como cortador profissional de pedras através de explosões controladas utilizando dinamites, (conhecido como Blaster), Seu Feliciano atuou também em diversas pedreiras de Ilhéus e principalmente na pedreira do Iguape, que naquela época fornecia pedras para a construção do Porto do Malhado, em Ilhéus. Desta forma, quando você olhar para o Porto Internacional de Ilhéus, lembre-se que ali também tem os frutos das mãos de Feliciano de Assis.

Por certo, dezenas de ruas nas cidades de Ilhéus e Itabuna foram calçadas com as pedras moldadas pelas mãos de Feliciano de Assis. Contudo, fora de Banco da Vitória, sua maior contribuição na construção civil foi fornecer pedras para a construção do paredão da encosta do Hospital São José, (entre a ladeira de Vitória e a Rua Bento Berilo), no centro de Ilhéus. Portanto, ao passar por estes logradouros saiba que as mãos de Feliciano de Assis contribuíram para tais feitos.

Cidadão admirado em Banco da Vitória, Feliciano de Assis era um tipo de decano extraoficial dessa comunidade. Várias pessoas recorriam a ele para ouvir orientações e conselhos. A sua forma de viver e criar sua prole, – baseadas no trabalho árduo, na justiça social e na ética -, dava-lhe ares de diplomacia e sabedoria que deviam ser seguidas por todos.

Por gostar de vestir-se sempre com camisas de linho branco e utilizar paletós engomados, gravatas listradas e chapéus aristocráticos, Feliciano era chamado por seus amigos de “O Diplomata Negro”. Nestor Pereira, seu cunhado chamava-o de “pavão raro”.

As mulheres de Banco da Vitória chamavam-no de “Cheiroso”. Isso porque Assis sempre usava os melhores perfumes, – principalmente os de fragrâncias suaves e românticas. Era naturalmente apaixonante. Dizia-se.

Feliciano de Assis foi um dos primeiros moradores da praça que hoje o homenageia. Quando ele construiu sua casa neste logradouro na década de 30 do século passado, apenas duas casas rústicas e um pequeno curral existiam ali. Uma casa de taipa existente pertencia aos Onorato e a outra casa pertencia ao saudoso seu Miguel, vizinho de Feliciano. Um pequeno curral pertencente aos Souza ficava nas imediações das atuais casas de seu Miguel e Ivone Santos.

Além das diversas ruas que calçou em Banco da Vitória Feliciano de Assis ajudou a construir (como voluntario e agente comunitário) diversas obras sociais da comunidade como: a Igreja Católica e a antiga igreja evangélica, o clube Social, o convento das freiras, as construções das casas dos padres, (No Alto da Bela Vista), nesta região o antigo salão social (hoje escola municipal) e a represa da rua da Presa. Foi deste ilustre morador de Banco da Vitória a iniciativa de criar a fonte da Água Boa, quando da abertura da nova estrada ligando Ilhéus à Itabuna, nos anos cinquenta do século passado.

Feliciano de Assis, assim como Laércio Souza, foram um dos poucos moradores de Banco da Vitória que puderam se dizer “conhecidos” do escritor itabunesse Jorge Amado. Em diversas vezes, em passagens pelo Banco da Vitoria, Amado conversou com seu Feliciano, que naquela época “cortava” pedras no Rio Cachoeira, bem em frente a atual bica da Água Boa.

Exímio pescador, Feliciano de Assis era um naturista devoto e aplicado. Só pescava o que comia com sua família e era um defensor dos animais e da natureza. Não comia caças. Gostava dos cantos de pássaros como curiós, papa-capins e sabias. O quintal da sua casa era um verdadeiro pomar onde os pássaros vinham deliciarem.

Apesar de não praticar a religião dos seus ancestrais, Assis costumava visitar os centros de Candomblés da comunidade, onde sempre era recebido como Iyaegbé ou Babaegbé (autoridade nata). Afinal, seus tios e primos eram respeitados Iyalorixás do Recôncavo Baiano.

Além de criar uma prole grande, o casal Seu Feliciano e Dona Cabocla também criaram inúmeros netos e bisnetos. Todos, – de filhos a netos e bisnetos, receberam um enfoque especial para os estudos e a educação. Dessa forma, os Rodrigues de Assis se transformaram em modelo de família na sociedade de Banco da Vitoria. Os filhos e netos do casal eram chamados na comunidade de “os pretinhos inteligentes”. Isso porque, numa época que se negligenciavam as prioridades da educação de crianças, todos os Rodrigues de Assis sabiam ler e escrever e muito destes se formaram e tornaram profissionais altamente capacitados. Feliciano não era apenas feliz no nome. Era também no saber.

Faleceu em 11 de junho de 1984, dois dias depois de completar 81 anos de idade. Foi levado à gloria. Todos sabem disso em Banco da Vitória. Até as pedras que forram as nossas ruas e casas.

Feliciano de Assis foi feliz por toda vida. Fez jus ao nome de batismo.

Feliciano de Assis era pai da minha mãe Ilza Rodrigues do Nascimento. Quando essa faleceu em dezembro de 1970, acolheu-me na sua casa como mais um neto querido. Ali fui criado e educado. Sou feliz por essência.

Notas:

1 – LEI Nº 2641, DE 15 DE DEZEMBRO DE 1997  Dá nome de Feliciano de Assis, à praça dos esportes no Banco da Vitória, nesta cidade.

O Prefeito do Município de Ilhéus, Faço saber que a Câmara Municipal de Ilhéus aprovou e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º Fica denominada de FELICIANO DE ASSIS, a Praça dos Esportes no Banco da Vitória, nesta Cidade.

Art. 2º Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 3º Revogam-se as disposições em contrário.

Gabinete do Prefeito Municipal de Ilhéus, em 15 de dezembro de 1997, 464º de Capitania e 116º da Elevação à Cidade. JABES RIBEIRO – Prefeito

2 – CEP

Praça Feliciano de Assis, Banco da Vitória Bahia – CEP 45661.000.

3 – Domicílios

Total de endereços encontrados: 17
Domicílios particulares: 16
Edificações em construção: 1
Quantidade estimada de moradores nesse logradouro: 54

Casas comerciais – 2

A Tabaca de Luiza Preta

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Por Roberto Carlos Rodrigues

Chamava-se Maria Luiza dos Santos. Mas era conhecida como Luiza Preta. Mulher pequenina, de pernas e braços finos, pés diminutos, corpo franzino, cabeça pequena e olhos miúdos. O cabelo pixaim estava sempre escondido sob os lenços coloridos. O sorriso era fulminantemente branco e espontâneo. Dizia ser das bandas de Cachoeira de São Felix, nas fraldas do Recôncavo Baiano. Chegou ao Banco da Vitória num domingo de feira na Praça Guilherme Xavier. Passou quase invisível no meio da multidão que comprava e vendia tantas mercadorias. Luiza e seus quatros filhos mendigaram na feira e dormiram de barriga cheia – coisa rara nos últimos dias. Naquele dia ela jurou perante a igreja de Nossa Senhora da Conceição – Deste lugar eu não saio mais nunca. Infelizmente não pode cumpri a promessa.

Na segunda-feira seguinte já estava lavando roupas de ganho no rio Cachoeira. Na quarta-feira já estava dormindo num barraco emprestado e em pouco tempo se transformou em Luiza Preta de Banco da Vitória, a Luiza mais amada do nosso povoado.

Mulher trabalhadeira sem igual, Luiza Preta lavava roupas, remendava lonas de caminhões, fazia cangalhas, cortava taboas e fazia esteiras. Fazia também redes de pescas e jererés, rendava caçuás, cortava lenha na mata, carregava água em latas na cabeça. Na verdade, “se virava” de todos os jeitos e modos para alimentar seus filhos.

Em pouco tempo fez um barraco de taipa na Rua da Represa e lá foi morar com suas crias. Logo começou a vender doces e quitutes na feira de Banco da Vitória. Eram doces de jenipapo, carambola, groselhas, araçás, goiabas e a famosa cocada preta chamada Tabaca de Luiza Preta. Luíza chamava seu doce de cocada preta, mas meu pai Carrinho, amante primaz da iguaria de Luiza, botou o nome de Tabaca de Luiza Preta. Carrinho argumentava que o doce tinha razões para ser assim chamado: – a iguaria era pequenina, preta feito betume, gostoso e irresistível e era impossível comer uma só. Meu pai comprava uma dúzia dessa cocada e comias ainda pelas manhãs.

Luiza Preta gostou da propaganda que os feirantes faziam da sua cocada. Mas não a chamava de Tabaca de Luiza Preta. Dizia ser apenas “cocada de coco queimado. Durante a feira de Banco da Vitória era comum os feirantes gritarem: Luiza ainda tem Tabaca Preta aí?

Luiza sorria e mandava uns dos seus filhos entregar a iguaria.

O padre não gostava do nome da iguaria de Luiza Preta. As esposas de               Banco da Vitória reclamavam do nome pejorativo do doce (mas as comiam escondidos). Tinha gente que comprava a cocada preta só para poder chegar em casa e perguntar: – quem quer comer a Tabaca de Luiza Preta? A meninada em peso gritava: – EU!!. E o doce era consumido sobre lindos sorrisos e deliciosas brincadeiras.

Em pouco tempo a vida de Luiza Preta mudou por conta do seu quitute famoso. Todo domingo ela vendia centenas de cocadas pretas. Durante a semana seus filhos e filhas vendiam os quitutes nas ruas de Banco da Vitória.

Luiza Preta vivia sorrindo e alegre com o sucesso dos seus doces.

Forrozeira e festeira, no mês de junho de 1974, Luiza Preta foi passar os festejos juninos na sua terra natal. Lá chegou bem melhor do que saiu. Estava bem vestida, usava bolsa tiracolo reluzente, dinheiro no bolso. No seu cantinho de chão, ajudou amigos e parentes, comprou sapatos e roupas para os sobrinhos, fez uma festa na casa do seu irmão e comemorou o melhor São João da sua vida.

Mas isso não agradou todo mundo. Seu ex-marido, vestido de inveja e ciúmes, a assassinou no meio da festa junina. Luiza Preta foi esfaqueada e enterrada em Cachoeira São Felix. Ela jamais voltou ao Banco da Vitória.

A morte cruel de Luiza Preta azedou o Banco da Vitória. A feira local ficou triste e sem gosto e dizia-se por lá: – quem comeu a Tabaca de Luiza Preta, comeu. Quem não comeu, se fodeu.

Nenhum filho ou filha de Luiza Preta conseguiu refazer a receita do doce de nome pejorativo da sua mãe. Dias depois eles foram embora de Banco da Vitória. Ali jamais voltaram.

Quem mais sofreu com a morte trágica de Luiza Preta foi o lendário Courinho. Este de fato e via de provas “comeu” por muitos anos a verdadeira tabaca de Luiza Preta. Foram amantes felizes.

Livro: Dona Lia – A Matriarca de Banco da Vitória

Conheça a vida, trajetória, história e o legado de Dona Lia, A Matriarca de Banco da Vitória. O livro e o áudio são gratuitos e podem ser baixados clicando nas figuras abaixo:ebook grátis itercriar 2

capa liaDona Lia A Matriarca de Banco da Vitória. Por Roberto Carlos Rodrigues

A casa é fácil de ser encontrada. Fica no número 17 na Praça Guilherme Xavier, no Centro de Banco da Vitória.  Na pequena varanda, uma senhora octogenária observa a calmaria daquele ambiente que bem conhece como poucos. Seus olhos buscam o céu azul do lugar e suas lembranças repousam sobre todo aquele solo, paralelepípedos e sua gente trabalhadora e feliz. Dona Lia, está bela e reluzente como uma linda senhora. Ela viu aquele arruado se transformar em povoado. O povoado em vila, a vila em distrito e este em bairro de Ilhéus. Dona Lia viu muita gente nascer, viver e morrer naquele lugar. Ela é uma testemunha viva da evolução dessa comunidade ribeirinha. Dona Lia baixa lentamente os olhos e observa carinhosamente suas mãos, agora tão cansadas e frágeis. Depois sorri calmamente como quem lembra de algo bom. Levanta a vista, olha novamente as onze arvores que adornam a praça Guilherme Xavier e sorri estridentemente como uma criança alegre. Dona Lia está feliz e realizada. Ela faz parte da alma deste lugar.

Muita gente amou e ama fervorosamente o Banco da Vitória. Muita gente fez e faz muito por esta comunidade. Muitos recitam seus amores poéticos por este lugar. Contudo, ninguém contribuiu mais para o desenvolvimento da nossa comunidade do que Seu Joaquim e sua amada esposa Dona Lia.