Festa de Santos Reis em Banco da Vitória

folia-de-reisPor Roberto Carlos Rodrigues.

Agora, 06 de janeiro passa mudo e esquecido em Banco da Vitória. Poucos dos atuais moradores sabem o que significa esta data no nosso calendário. Outrora, nesta data se festejava os Santos Reis. Algumas pessoas chamavam a festa de Folias de Reis, outros, de Reisados. Em Banco da Vitória a Festa dos Santos Reis fechava os festejos natalinos do ano anterior.

Nesta data tinha Reisados na Rua da Represa, na União, na rua do Campo e na casa de Dona Romana, na Rua da Bica (Atual Duque de Caxias).

Os três reis Magos eram festejados em toda a comunidade e nesta ocasião os Ternos de Reis desfilavam pelas ruas e o festejo se concluía na igreja de Nossa Senhora da Conceição, onde a missa dos Reis Magos selava a tradição católica.

Os festejos dos Ternos de Reis iam de casa em casa cantando músicas em louvor aos Santos Reis e benzendo os lares.

A Festa de Reis de Banco da Vitória servia também como abertura dos festejos católicos da comunidade. Por conta disso, logo após os festejos dos Reis Magos se iniciavam os preparativos para a festa de São Sebastião, no dia 20 de janeiro.

Agora, 06 de janeiro passa mudo e esquecido em Banco da Vitória e em 20 de Janeiro não se ver mais as canoas enfeitadas descendo o rio Cachoeira, rumando para Ilhéus, onde se festeja seu padroeiro

Deste passado tão distante, restaram apenas saudades e nada mais.

Os Ternos de Reis se dissiparam nas espumas do tempo. Ficaram esquecidos. Agora em Banco da Vitória se festeja apenas o Arrocha e o Funk. Ambos pagãs.

Quando o Banco da Vitória virou as costas para o Rio Cachoeira.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

capa2b1Quem passa pela comunidade de Banco da Vitória, pela Rodovia Jorge Amado, e ver as casas e comércios que atualmente adornam as duas margens dessa rodovia, acredita que o rio Cachoeira fica nos fundos da localidade. Geograficamente isso ocorre. Mas, nos primórdios da fundação dessa secular localidade sul baiana, as ruas e as casas de Banco da Vitória ficavam de frente para este rio.

O atual bairro de Banco da Vitória é uma das localidades mais antigas do Sul da Bahia e a sua ocupação ocorreu no final do século XV, quando do desbravamento inicial feito pelos portugueses na antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus.

Segundo o historiador João da Silva Campos, em Crônicas da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, a ocupação das margens do rio Cachoeira teve início na década de cinquenta dos anos quinhentistas. É desse período a abertura de uma picada a margem esquerda do rio Cachoeira que, léguas acima, iria encontrar o assentamento jesuítico da localidade das Árvores ferradas (atual bairro de Ferradas, em Itabuna).

O tosco caminho feito pelos desbravadores portugueses se iniciava na atual localidade de Banco da Vitória e ia até Ferradas. Neste ponto a Trilha do Banco se encontrava com a estrada aberta pelos jesuítas que interligava a Vila de Nossa Senhora das Escadas de Olivença (atual Olivença) à Ferradas.  

A partir dali essa estrada se chamava Caminho do Sertão, passava pela Palestina (atual Ibicaraí) alcançava o Planalto da Conquista, cortava todo o sudoeste do estado da Bahia até encontrar as terras distantes de Minas Gerais.

Segundo Silva Campos, os jesuítas e desbravadores portugueses criaram diversas localidades ao longo do Rio Cachoeira, como Tanguape, Mariape (Atual Região de Maria Jape), Banco do Furtado, (localidade próxima ao atual Banco da Vitória), Pirataquicê, Cachoeira de Itabuna etc.

Inicialmente o Banco da Vitória ficava de frente para o Rio Cachoeira e sua primeira rua se Chamava Trilha do Banco. A Trilha do Banco se iniciava nas proximidades da atual escola Herval Soledade, margeava a atual rua Dois de Julho, os fundos da Praça Guilherme Xavier e a Travessa da Rua Aldair. A partir deste ponto o caminho margeava o Rio Cachoeira.

As primeiras cabanas e depois casas de moradias foram erguidas na margem da Trilha do Banco e ficavam todas de frente para o Rio Cachoeira.  Isso perdurou até o meado do século XIX quando foi implantado o Porto do Jenipapo que ficava na atual Rua Dois de Julho (bem em frente a atual quadra de esportes). Naquela época a trilha do Banco mudou de nome e se chamava Rua do Porto.

No final do século XIX e início do século XX o Porto do Jenipapo era o maior porto fluvial do Sul da Bahia e por ele eram escoadas milhares de toneladas de cacau. Nessa época, o povoado de Banco da Vitória tinha um comércio pujante e a localidade era conhecida como a primeira capital do cacau, (segundo o geógrafo Milton Santos que em seu livro Zona do Cacau, dedicou um capítulo inteiro ao Banco da Vitória).

Quando da abertura da estrada que interliga Ilhéus à Itabuna na década de 20 do século passado, o comércio de Banco da Vitória se transferiu da margem do Rio Cachoeira para margem da nova estrada. Por fim, quando do primeiro asfaltamento dessa estrada, na década de 50 do século passado, a localidade de Banco da Vitória deu as costas definitivamente para o Rio Cachoeira e concentrou sua atenção os movimentos da rodovia.

O Rio Cachoeira que foi a artéria principal do Banco da Vitória, atualmente apenas recebe os dejetos e esgotos da localidade. O povo que era apaixonado por embarcações, hoje só tem olhos para veículos de todos os portes e cores.

Quem passa apenas por Banco da Vitória e não conhece sua história não acredita que essa simples localidade Ilheensse foi no início do século passado um dos maiores centros comerciais do estado da Bahia. Ao redor do porto do Jenipapo haviam diversos órgãos municipais e estaduais, dezenas de armazéns de cacau e diversas empresas de exportação do ouro das terras do sul da Bahia.

O Banco da Vitória deu as costas para o Rio Cachoeira e o desenvolvimento social econômico esqueceu da localidade.

Atualmente o Banco da Vitória é um bairro dormitório e seu comércio nem de longe lembra as reluzentes memórias do início do século passado.

O rio Cachoeira continua passando pelo Banco da Vitória. A história do desenvolvimento do Sul da Bahia continua passando bem distante deste povo ribeirinho.

Prosas de Banco da Vitória – A Moda do Palito de Dente no Canto da Boca.

palito-de-dente

Por Roberto Carlos Rodrigues.

Dizem os antropólogos que o hábito de espalitar os dentes é um dos mais antigos da humanidade. O ser humano, segundo estes estudiosos, sempre recorreu aos talos de capins ou lascas de árvores para limpar os dentes, após as refeições. Contudo, em Banco da Vitória, nos anos setenta do século passado, desfilar pelas ruas com um palito de dente preso no canto da boca, virou moda e status social.

De meninos a velhos, de lavadeiras de roupa aos funcionários públicos, todo mundo, – nas tardes da localidade -, exibiam sempre um palito de dente no canto da boca.

Ninguém sabe ao certo como essa moda apareceu em Banco da Vitória. Uns diziam que o povo da localidade ribeirinha gostava de ostentar um palito de dente no canto da boca para dizer para as demais pessoas que estava de “bucho cheio.  Que tinha acabado de “filar a boia”. Talvez fosse uma forma de mostrar-se autossustentável. Mas o problema é que o tal palito de dente no canto da boca ficava a tarde inteira nos lábios do povo.  Tinha gente que passava o dia inteiro com um palito de dente nos lábios.

Havia até alguns usuários dessa prática condenada pelos dentistas que mantinham na carteira de dinheiro, uma parte reservada só para guardar os palitos de dentes que seriam usados durante todo o dia.

Uma coisa era certa, era quase impossível ver um pai de família, nas tardes de Banco da Vitória, sem um palito de dente no canto da boca.

Caixa de palitos de dente da marca Gina passou a ser vendido como produto de primeira necessidade. Espalitar os dentes com talos de capim ou palitos de fósforo era coisa de pobre. Quem estava “por cima da carne seca” usava o famoso palito de dentes Gina. Essa era a senha da ostentação das alegres tripas locais.

O velho vaqueiro Getúlio não tinha um só dente na boca, mas desfilava o dia inteiro com um palito de dente no canto da boca. Um dia, João de Coló encontrou o seu amigo de prosa e o questionou:

– Getúlio, você não tem dentes na boca, pra quê ficar o dia inteiro desfilando com esse palito de dente na boca? É para dizer para o povo que você já comeu hoje?

Seu Getúlio trocou o palito de dente do canto da boca, alisou seu fino bigode e respondeu com outra pergunta.

– João de Coló, já que seu pau não sobe há tanto tempo, por que você não corta ele e joga fora?

As perguntas ficaram sem respostas e a velha amizade acabou naquela tarde.

Enquanto isso, no armazém de Zé Cotoco, caixas de palitos de dentes da marca Gina dividiam espaços com as caixas de fósforo, cigarros e isqueiros a gás. E o povo de Banco da Vitória continuou inventando moda. Mas isso já uma outra história.

Banco da Vitória. A minha Aldeia.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

Essa é minha aldeia.

Este é meu povo amarronzado

Trabalhador e festeiro.

Minha aldeia fica nas margens do Rio Cachoeira.

Bem aqui, onde todos os dias, o mar vem beijar nossas matas.

Minha aldeia é protegida pelos Altos da Santa Clara, da Bela Vista e da Mata da Rinha.

Lá de cima dar para ver os horizontes se perderem nas distâncias verdes.

Dá para sentir o cheiro de Ilhéus logo ali, no leste próximo.

Dar para sentir o mar em maresias, perfumes de Iemanjá.

Daqui dá para ouvir o mar pelos búzios.

Dar para orientar nossos sonhos pelos brilhos das estrelas.

Daqui de cima vejo tudo. Ilhéus ali, Cachoeira acolá, Salobrinho por traz dos morros, Itabuna em vapores, denunciando sua presença mercantil.

Do outro lado do rio, debruça Maria Jape, Demanda e depois Rio do Engenho.

Em dias claros de verão dar para ver as colinas de Olivença, os rastros altos de Una, caminhos de Canavieiras. Terras abrandadas e prósperas

Lá por trás dessas minhas serras, descortinam-se os batentes do Iguape, os ares místicos da Lagoa Encantada e os cacauais de Uruçuca.

No alto, bem alto, o céu de Deus acoberta minha gente

E protege nossas ambições.

Minha aldeia é verde e azul.

Adquira a versão completa deste poema Aqui.

A Enterrada Viva de Banco da Vitória

A Enterrada Viva de Banco da Vitória

Agosto sempre foi um mês perverso com o povo de Banco da Vitória. Mortes, tragédias, crimes e até assombrações aconteciam neste mês invernoso. Desde que o arruado tomou cara de povoado, como moradores fixos pelas redondezas e algumas casas comerciais espalhadas pelas ruas tortas e empoeiradas, o povo de Banco da Vitória sonhava com um ano que não tivesse o mês de agosto na sua composição.

Na época dos antigos festejos juninos o povo da localidade se alegrava e os forrós de são João e são Pedro se estendiam até o meado de julho. Contudo, quando esse mês se findava, o povo de Banco da Vitória se entristecia e guardava suas lágrimas para serem derramadas no próximo mês. Era certo que haviam mortos em agosto. Sabiam certamente.

Foi no mês de agosto que morreram carbonizados os Moreira, num incêndio cruel que consumiu a casa onde eles moravam e por conta disso cinco almas voltaram para a casa do Pai Celestial.

Foi no mês de agosto de 1958 que o louco Adonael matou em Banco da Vitória o pai e a mãe, seus três irmãos pequeninos, as duas meninas, suas sobrinhas. Adonoel também matou o gato da família e aleijou para sempre o cão Cacique. Depois foi tomar banho no rio como que nada estivesse acontecido.

Foi no mês de agosto de 1962 que um surto de gripe dizimou 23 pessoas da localidade em menos de 20 dias. Foi nessa triste ocasião que morreram dona Lela, Seu Timóteo, Aristide de Terta, Neuzinha de Lau, a jovem Cleide, filha de Luiz Antão, Soraia Antofil, filha de Antero Batista e a querida professora Carmem Miranda, entre outros.

Porém, nada se compara ao pavor que o povo de Banco da Vitória viveu no mês de agosto de 1976, quando uma tragédia abalou a localidade e durante os 31 dias daquele mês o povo sofreu atônito e calado.

Primeiro de agosto, quando tudo começou, caiu num sábado e quando o mês terminou numa terça-feira, dia trinta e um, o povo estava apavorado e certo que aquele tinha sido o pior mês de agosto de todos os tempos.

Do mês de agosto que agora relato, foi o único mês que quase não morreu ninguém em Banco da Vitória. Soube-se que desde a contagem dos tempos naquelas bandas, aquele foi o primeiro e o único mês de agosto que o cemitério da localidade engoliu apenas um único corpo humano. Isso jamais se repetiu na história de Banco da Vitória e mesmo sem tantas mortes o mês de agosto de 1976 ficou para sempre marcado como o mês da enterrada viva de Banco da Vitória.

Vamos aos fatos e relatos dessa história.

Contam os mais velhos que uma linda moça chamada Júlia morava com seus pais no início da Rua Dois de Julho. Filha amada, nascera sobre os confortos que seus pais jamais tiveram quando nasceram pobres nos tórridos sertões das Alagoas. Atraídos pelas fortunas criadas pela lavoura cacaueira, seus pais vieram para o sul da Bahia como retirantes e encontraram nas margens do Rio Cachoeira a forma exata da realização dos seus sonhos. Em Banco da Vitória, Seu Pedro Azevedo e dona Carminha encontraram o solo fértil para suas ambições e ali enriqueceram, e puderam criar seus cinco filhos e uma única menina, Júlia.

Quando nascera em janeiro de 1955, Júlia parecia um anjo de olhos verdes, iguais a duas gudes de vidro. De tão bonita, sua beleza infantil intrigava o povo local que nunca tinha visto uma criança tão bonita como aquela. Muita gente vinha até a casa comercial da família Azevedo para ver a criancinha que mais parecia um dos anjos pintados nos tetos da capela Cistina, na distante Roma, capital da Itália.

Contra o mau olhado dos agourento a criança tinha sempre duas figas de ouro penduradas nos braços gordos. No peito trazia um pequenino crucifixo que tinha sido benzido pelo bispo de Ilhéus, quando do seu batizado na lendária igreja de São Jorge, no centro da cidade secular baiana. Atrás da porta da casa havia uma ferradura pendurada num prego velho e enferrujado e, no berço da pequenina Julia, uma diminuta bíblia vivia escondida entre os alvos e quentes lençóis.

De bebê celestial, a criança linda e educada, depois, de moçoila encantadora, a jovem desejada e mulher fatal duraram 21 anos, que foi a idade que ela tinha quando morrera na noite de 30 de julho de 1976 e fora sepultada no dia seguinte, no cemitério de Banco da Vitória.

A notícia da morte repentina da bela Júlia Azevedo estremeceu toda a sociedade de Ilhéus e surpreendeu todo o povo de Banco da Vitória.

– Como pode uma jovem sadia, bela e encantadora dormir serenamente e não acordar mais? Questionava o povo de Banco da Vitória e ninguém achava respostas.

Seus pais, abalados com o triste passamento da exuberante e jovial filha, levaram o corpo da jovem para a Santa Casa de Misericórdia de Ilhéus, onde após uma manhã de exames e mais exames, os médicos constataram a sua morte.

O corpo da jovem Júlia chegou ao Banco da Vitória no início da tarde daquele sábado e ali a comunidade chorou aquele triste acontecimento.

A antes jovem e bela Júlia estava Irreconhecível no seu caixão de defunto. A pele, antes bela, clara e lisa, se escurecera e mostrava rígida, quase enrugada. Os olhos antes verdes envermelharam, e inchados, não se fecharam. Ficaram abertos como em ares de espantos. A boca, antes carnudas e desejada, também não pode ser fechada e mesmo um lenço atado ao crânio utilizado para fechá-la, parece que contribuiu para deformar seu queixo que se deslocou para o lado direito e deformou totalmente seu rosto.

– Não é Júlia dentro daquele caixão. Dizia quem a via adornada de tantas flores de várias cores e tantos perfumes.

– Não pode ser Júlia. Confirmavam suas tristes amigas. – Não pode ser ela nesse caixão.

Mas era sim Júlia que ali estava morta, feia, Irreconhecível e tristemente fria.

A Sereia de Banco da Vitória. Contos de Banco da Vitória.

sereia

Por Roberto Carlos Rodrigues.

Maré igual, aquele povo nunca tinha visto. O rio Cachoeira parecia um lençol de água prateada lambendo os matagais das suas margens. As aguas foram aumentando no meio de março e, já no final deste mês, exatamente no dia 28, a maré subiu a níveis jamais visto. As grandes marés de março eram famosas e vezeiras naquelas beiradas. Porém, igual àquela do ano de 1984, nunca teve outra igual. E foi exatamente na maré fabulosa e resplandecente deste ano que a sereia voltou a aparecer e intrigar o povo de Banco da Vitória.

Aparições da bela sereia não era novidade em Banco da Vitória até o meio do século passado. O povo deste arruado incrustado na margem esquerda do rio Cachoeira já vivia com quase cem anos de relatos de aparições de sereias nas margens do rio, principalmente nas noites de lua cheia, quando este astro facheava sua luz prateada sobre as águas claras do velho rio sul-baiano.

Canoeiros, pescadores, trapicheiros e empregados de fazendas de cacau ribeirinhas já relatavam aparições da linda mulher-peixe que aparecia nas noites de lua cheia, cantando sobre as pedras do rio, enfeitiçando os desavisados e levando para o fundo dos mares pobres homens apaixonados.

O canto da sereia – dizia os marinheiros estrangeiros que abundavam o velho centro de Ilhéus – é uma melodia divina, cantada com uma doçura sem igual, quase angelical e apaixonante. – Quem ouve o canto da sereia se joga no mar e morre afogado nos lábios de Iara. Profetizavam os trapicheiros do Porto do Jenipapo em Banco da Vitória.

Em toda a beira-mar ilheense haviam diversos relatos de pessoas que ouviram o canto da sereia e muitos dessas pessoas, ou morreram afogadas tentando tocar na bela sereia ou então ficaram por dias e mais dias, como loucas, alunadas, tân-tân das cabeças.

Nas beiradas dos rios Almada, do Engenho e principalmente no Cachoeira não faltavam relatos de homens seduzidos pela sereia. Muitos morreram nas águas e seus corpos jamais foram encontrados. Outros, depois foram encontrados nos areais como moribundos. Mas jamais foram os mesmos. Viveram como loucos até morrerem velhos. Assim como morrem os velhos lobos do mar.

Os relatos da sereia sempre eram os mesmos. Diziam que a rainha das águas aparecia sentada numa pedra, com a calda submersa e alisando seus lindos e brilhosos cabelos longos, que em parte cobriam seus seios e outra parte escorria sobre as costas e mergulhavam nas águas. Normalmente a sereia tinha um espelho em uma das suas mãos e usava uma grande concha como pente. A sua beleza era singular e encantadora. Os cabelos eram pretos e brilhosos. A pele era clara e fina. O rosto era arredondado. Neste, faiscantes olhos azuis refletiam a luz do luar. O nariz era afinado e delicadamente avermelhado. Os lábios eram carnudos, e em cores de morangos maduros, cantavam a mais bela canção do mundo. O sorriso, de um branco sem igual, parecia as espumas mais claras das ondas do alto mar. O corpo era forte a avolumado. Não se via costelas sobre sua silhueta esbelta, porém, era sexualmente atraente.

– Mulher de beleza igual não existia sobre o manto da terra. Diziam os que jurava ter visto uma sereia. – Voz mais bela, também. Argumentavam outros.

Em Banco da Vitória tinha quem jurava ter visto a sereia nas pedras do velho rio Cachoeira. Havia quem acreditava nessas aparições. Havia quem dizia que eram apenas conversas de bêbados e pescadores. Uma coisa era certa, até o dia 28 de março de 1984, a sereia de Banco da Vitória era apenas uma lenda, uma superstição ou suposição. Porém, após essa data a sereia de Banco da Vitória se tornou um fato concreto, real e vivido e, muita gente da comunidade, – e não apenas um ou outro pescador mentiroso -, pôde de fato ver uma sereia.

Sabe-se que maré monstruosa que agora relato invadiu as beiradas de Banco da Vitória na boca da noite. Nos dias anteriores, a maré já tinha avisado que estava despontando de forma anormal e espichada. Porém, foi naquela noite que as águas atlânticas invadiram os casebres da beira do rio e alagou vários brejos e riachos da região. A maré daquela noite invadiu a estrada entre Ilhéus e Itabuna, na altura da fazenda de Lilito e pela primeira vez na história contada do rio Cachoeira, ela atingiu a altura dos batentes da fazenda Pirata.

Em Banco da Vitória, aquela maré cobriu a Pedra de Guerra, alagou o campo do Pacaembu e adentrou nos brejais da Fazenda Victória.

Por certo, a sereia da nossa história subiu o caudaloso rio Cachoeira, então avolumado naquela maré grande de março e, apaixonada por nossas paisagens, se embriagou com aquelas plagas e se perdeu quando a maré vazou. A pobre sereia afoita e desesperada se alojou no riacho que escorre pelas terras do convento das freiras e ali fez sua morada por aquela noite, enquanto esperava a nova maré alta e com ela, o caminho para o mar.

Porém, a rainha das águas não contava com os latidos incessantes dos cães de guarda do convento, que percebendo aquela figura estranha nas águas do riacho, latiram a noite inteira e não deixaram as freiras dormirem.

Na manhã do dia seguinte, seu Assis Calazans, (pai de Nem, Carmem, Rosilda e Fiu), então funcionário do convento, quando chegou para trabalhar, percebeu que havia algo estranho na água do riacho e depois de averiguar o vulto nas águas percebeu que se tratava de um peixe grande que ficara preso no remanso do riacho. Seu Assis adentrou o riacho e descobriu que o vulto na água era apenas uma pele estranha de algum peixe mas estranho ainda. A pele fedia como couro de curtume, era meio esverdeada e se soltava em pequenos pedaços. Após sair do riacho, Seu Assis pensou: – Isso é pele de sereia. É melhor deixar onde está. Ele não se enganou. Aquela pele era apenas o disfarce da nossa sereia. A sereia estava viva, bem viva, por sinal, no fundo daquele riacho, bem pertinho do seu pé, quando ele ali entrou.

Quando a maré encheu no dia seguinte, o sol ardia no meio do céu e a pobre sereia não pôde sair do seu esconderijo. Teve de esperar a maré da noite para poder ir embora. Ela só não contava com um fato trágico que ocorrera naquele dia nas margens do Rio Cachoeira, em Banco da Vitória. Naquela tarde, duas pobres crianças morreram afogadas no rio, e grande parte da população do então distrito de Ilhéus foi para suas margens, acompanhar as buscas e resgates dos corpos.

Já era tardinha quando por fim a maré grande invadiu novamente o riacho do convento das freiras e a jovem sereia pôde sair do seu refúgio.

A pobre e bela princesa das águas estava tão agitada e louca para sair daquele riacho,  que nem percebeu as pessoas nas margens do rio. Saltando sobre as águas naquela boca de noite, a sereia foi vista por dezenas de pessoas que gritavam, se assustavam e assustavam o ser saltitantes sobre as águas.

– É uma sereia. É uma sereia. Gritou alguém, na Pedra de Guerra.

Não! É apenas um boto? Argumentou outrem.

É uma sereia. Afirmou veementemente Cabo Jonas. E arrematou: – É Elísia, minha amiga sereia lá das águas de São João da Barra do Pontal. É uma sereia sim. Posso afirmar. De sereias conheço tudo e mais um pouco. Concluiu.

Os corpos das duas crianças foram encontrados minutos depois da sereia assustar tanta gente na beira do rio Cachoeira e por dias só se falou desse fato em Banco da Vitória.

Dias depois, seu Assis pescando durante a madrugada, avistou uma mulher sentada sobre uma pedra no meio do rio. Ele se assustou. Pensou ser uma sereia ou uma assombração. Mas a mulher sentada na pedra do rio não cantava nem se alisava, como fazem as sereias. Apenas olhava as águas do rio e nessas, o brilho da lua minguante. Com medo e na dúvida, Seu Assis deu como concluída sua pescaria noturna e remou de volta sua canoa até o porto de João de Coló.

Assim que chegou perto da Bica da água Boa, ele olhou para trás e viu que o vulto não estava mais sentado na pedra, mas sim seguia sua canoa.

– Vale-me Deus. Disse trêmulo seu Assis, enquanto via o vulto da sereia acompanhando sua embarcação até o porto.

Antes de chegar ao porto de João de Coló, a sereia submergiu, olhou alegremente para ele, sorriu suave, jogou duas pérolas brancas dentro da sua canoa e depois sumiu nas águas.

Somente Seu Assis viu o rosto daquela bela sereia e ele afirmou até morrer: – A sereia era negra. A mais bela mulher negra que seus olhos aimorés puderam ver.

A sereia negra das águas de Banco da Vitória sumiu e jamais foi vista por essas bandas. Ela voltou para sua eterna morada no fundo da Lagoa Encantada. Acreditou-se.

As duas pérolas dadas de presente pela sereia a seu Assis encontram-se guardadas na casa de dona Conceição, sua viúva. Dona Conceição mostra as pérolas para quem quer vê-las. Porém, apenas quem acredita em sereias podem vê-las como pérolas. Os incrédulos veem apenas dois pedaços de pedras sem valor.

Dona Conceição todos os dias alisa suas duas belas pérolas. Depois, sorri alegremente e lembra do seu grande amor, que o tempo levou.

A Ilhéus da Minha Época

alcidesPor Alcides Kruschewsky

Eu nasci em 09 de abril de 1960, na rua D. Eduardo, número 25, no centro. Hoje, alguns a chamam de “Beco do Vezúvio”. O parto aconteceu no quarto de meus avós Alcides e Hilda. Enquanto minha avó Elvira, mulher de vovô Zuca Bastos(ambos emprestados de tio Guiga) adentrava o quarto com uma tesoura a querer cortar o meu umbigo, para desespero dos presentes, meu pai, que saiu em tresloucada correria na busca de Doutor Moura Costa, caía da lambreta. Só depois, minha mãe e eu fomos levados à maternidade Santa Isabel para cuidados e observações.
Quando me dei por gente, comecei a entender ao meu derredor e que esse arredor era o que chamamos de Ilhéus. Aqui, sempre perto da praia, esta era a extensão do nosso quintal e, as nossas casas se estendiam às calçadas. Aprendi a ler muito cedo, antes da idade escolar, com Diva Halla , na casa de seus pais, que do quintal até a frente, na rua Coronel Paiva, cercava literalmente, o Bar Maron. Era tudo divertido e ia para às aulas onde veria o relógio “cuco”, anunciando cada hora, inesquecíveis horas, com muita satisfação.

Passava na porta do Bar Maron e sempre cumprimentava Dona Lurdes, sentada à porta numa cadeira de lona diretor, aproveitando a brisa: – “ Boa tarde Dona Lurdes”! – “ Boa tarde , Alcidinho, como vai Silvinha e sua avó? Aproveitava para respirar fundo, sugando o delicioso aroma de quibe frito que exalava da cozinha magistral daquela senhora, esposa de Emílio Maron. Às vezes ela me parava para mandar algum mimo para minha avó e, às vezes, eu ia levar-lhe flores que vinham do Rio do Braço, dos jardins de Vovó. Essa troca de gentilezas era comum, Ilhéus era assim.

A “minha rua”, e isto quer dizer mais do que rua, uma turma de amigos, quarteirões de gente que se conhece, posso afirmar, era a maior e melhor do mundo, pois era quase do tamanho da cidade, um território. Marcávamos esses postes, como fazem os cachorros, com xixi. Corríamos essas ruas, ladeiras, morros e praias de pés descalços e passeávamos de trem, barcos, velhos ônibus ou de bicicletas, algumas reformadas, nos trinques. Dominávamos as praias, suas ondas e correntes com a habilidade inata dos praianos.

Então, em minha memória, como na de tantos, estão rostos, nomes, costumes, expressões e lugares. E isso é Ilhéus! Continuar lendo

O melhor para o Banco da Vitória.

A eleição municipal do próximo domingo irá definir o futuro de Ilhéus e não seu passado. Sob a batuta da turma de Jabes Ribeiro o Banco da Vitória sofreu mais quatro anos de descaso e nenhuma das promessas do mentiroso profissional que ocupa o cargo de prefeito ilheense foi cumprida. O povo de Banco da Vitória deve estar consciente do ódio particular de Jabes Ribeiro para com a nossa gente. Basta andar em nosso bairro para ver o quanto Jabes odeia nossa comunidade. Votar em Cacá e dizer que o governo de Jabes Ribeiro foi ótimo para a nossa comunidade e que seu grupo merece mais quatro anos no poder.

Será que devemos passar por isso novamente e por mais quatro anos?

Quem realmente ama o Banco da Vitória não pode nem deve votar no candidato de Jabes Ribeiro. Precisamos renovar nossas esperanças e dar um basta neste descaso para com a nossa comunidade.

Opções para prefeito temos de todos os tipos. Particularmente acredito que a melhor opção para o Banco da Vitória seja Marão e José Nazal.

Aos meus amigos, parentes e conterrâneos peço que pensem em nossa comunidade na hora de votar e, se possível, votem em Marão e Nazal. Pois estes eu poderei falar diretamente e cobrar melhorias para o nosso bairro. Aqueles que amam o Banco da Vitória podem votar em qualquer dos candidatos a prefeito. Mas uma coisa é certa: Votando em Marão e Nazal você estarão fazendo exatamente a mesma coisa que eu faria se estivesse morando aí.

Em primeiro lugar votem nos nossos candidatos a vereador. Temos Dico, Edvaldo Gomes e Joel Borges. Depois votem 55 e elejam Marão e Nazal.

Assim que sair os resultados da nossa vitória, vou mostrar para vocês como REALMENTE poderemos mudar a nossa história. O Banco da Vitória será o primeiro bairro de Ilhéus a ter uma autonomia social. Em suma: teremos um conselho de moradores para estudar e definir nossas prioridades.

Mas isso só será possível se elegermos Marão e Nazal. Se votarmos no 55.

Que Deus ilumine sua decisão e que você possa expressar o amor pelo nosso Banco da Vitória através do seu voto.

Vote 55 e deixe que o nosso futuro seja bem melhor que o nosso passado.

Com a vitória do 55, no ano que vem vou passar 6 meses em Banco da Vitória para poder implantar o nosso conselho de moradores.

Vote 55. Ao votar, pense no Banco da Vitória que você deseja.

Muito obrigado e até a nossa comemoração no próximo domingo.