Dicionário de Banco da Vitória – Versão 2018

Conheça as expressões e palavreados que os antigos moradores de Banco da Vitória utilizavam, no século passado. Baixe aqui a versão gratuita deste livreto: http://bit.ly/2D1keWV

Dicionário de Banco da Vitória

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Pequena Crônica Ilheense

Por Roberto Carlos Rodrigues

CACAUEm Ilhéus, no século passado, abaixo de Deus, o cacau reinava e comandava. Nem Satanás ousava aparecer por aquelas bandas. O chocolate, com seu gosto adocicado era apenas uma mistura de suor com vaidades e mais umas gotinhas de ilusões. Bebida dos deuses, colchões dos coronéis. Incentivador de sonhos de todos os quilates. O povo marrom dos berços carnudos vivia sorrindo, como quem vive em num sonho sem fim que se sonha acordado. Tudo era belo, possível e ao alcance dos dedos. Uns eram ricos de fato. Outros, de conversas. Quem nascia em Ilhéus era, de alguma forma aparentado com os frutos de ouro. Uns eram filhos, outros irmãos, tios, netos, primos, avós. Apenas o trabalhador rural era vizinho distante. Muito distante. Riqueza por todos os cantos. Progresso pelos ares. Mansões, castelos, talheres de prata todos os dias nos almoços e nas jantas. Na cidade, fábricas e grandes lojas por todas as ruas. Empregos e oportunidades por todos os ares. Um dia, uma bruxa apareceu por aquelas plagas. A velha desgraçada, montada na sua vassoura feita de galhos secos de cacaueiros, açoitou os ares daquele lugar por toda a noite e disseminou sua peste pelos quatro cantos do território da antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus. O cacau quase morreu. Definhou nos galhos. Apodreceu no chão. Nem semente teve para manter a linhagem. Quase sumiu. O povo do lugar, sofreu mais que as roças de cacau queimadas pela peste da vassoura de bruxa. Uns morreram de desgostos, outros de raiva. Os mais fracos se mataram, os mais fortes fugiram. Ilhéus, a antiga princesinha do sul da Bahia, se contentou com posto de dona de pousada e agora vive de suas velhas lembranças e dos seus belos horizontes. O cacau que antes era quase um deus para aquele povo, agora é apenas um macumbeiro sonhador que dizem que anda fazendo milagres por aquelas bandas. De ebós e mandingas, de rezas e patuás, há quem diga que em algumas roças, um novo cacau cresce e floresce, viçoso e cheiroso, iguais seus tataravôs no início do século passado. Há quem não acredite nisso e diz que os novos frutos dos cacaueiros são adubados com novos suores, novos rostos. Só isso. Em Ilhéus, no início deste século, abaixo de Deus, o cacau não reina nem comanda. Mas ainda faz muita gente sonhar. Principalmente, os que não são filhos desta terra.

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Salve Eliodoro!

paperbackstack_511x457 (1)Por Roberto Carlos Rodrigues

Quem não tem o que fazer, normalmente inventa confusão. Foi exatamente o que aconteceu naquela tarde agostina em Banco da Vitória. Duas horas da tarde, no céu um sol adoentado nem secava nem ardia. Apenas brilhava opaco. Das beiradas do rio Cachoeira vinha um vento frio e preguiçoso. Sem soprar, nada varia. Apenas esfriava as juntas dos velhos adoentados. Debaixo do sol estava gostoso ficar. Algo morno por ali. Nas sombras das árvores, um frio traiçoeiro e rasante. Foi exatamente neste ambiente insosso que a confusão começou.

Em frente a venda A Visqueira apenas três desocupados se fingiam de fregueses. Eram Cabo Jonas, Tonho Silibrina e Gazula. Um ônibus da Sulba parou na beira da rodagem. Dele desceram Seu Onofre, Dona Adélia, (sua esposa) e Zito Costureiro. Vinham de Itabuna. Os três, como se morassem no mesmo teto, cruzaram a Rua dos Artistas ao mesmo tempo. Quando seu Onofre passou bem em frente à Visgueira, Tonho Silibrina saudou o senhor:

– Boa tarde seu Onofre. Como vai Eliodoro? Boa tarde Zito. Tudo bem?

Seu Onofre fez que não ouviu e não respondeu nem a saudação nem a indagação. Dona Adélia, fez cara feia, fungou e disse algo para o marido. Ambos continuaram andando, sem olhar para os clientes da Visgueira. Zito respondeu uma boa tarde em murmúrios.

Ninguém sabe o que aconteceu na casa do casal nem o que eles lá conversaram. Só se sabe que em menos de dez minutos seu Onofre apareceu na frente da Visgueira com um facão nas mãos e tentou golpear Tonho Silibrina. Tonho pulou para o meio da rua com um tamborete nas mãos e se defendia dos golpes do pano de zinco.

– Calma seu Onofre. Dizia Tonho enquanto pulava e se defendia dos golpes da arma branca. O dono do facão não sabia usá-lo como arma. Malmente para descascar coco.

– Eliodoro, né! Quem você quer saber como está? Então eu vou te mostrar. Vou abrir um buceta na sua cara já já, seu filho de uma égua.

O negro Gazula entra no meio da briga. Toma o facão de um. Arranca o tamborete da mão do outro. As mulheres das ruas gritam em coro misericórdia! Alguns maridos vêm socorrer seu Onofre, que agora com um pedaço de bambu tenta golpear o sorridente Tonho Silibrina.

– Você tem de mim respeitar, seu xibungo da peste. Gritava seu Onofre. Tenho idade de ser seu pai. Vagabundo. Agora você fica com essa safadeza de ficar me perguntando como está meu Eliodoro. Você agora é quem manda no meu cu, é? Eu vou te lascar todo. Gritava o sexagenário, pulando com um pedaço de bambu nas mãos.

Tonho, mais sorridente ainda, dizia em tons de zombaria: – segura o homem, pois ele está nervoso. Tá com sangue quente. Segura o sergipano…

A turma-do-deixa-disso ataca novamente pelo meio da briga. As vizinhas de Onofre segurando o brigão. A confusão foi logo desfeita e levaram o pobre seu Onofre para casa, onde deram-lhe água com açúcar para acalmar os nervos. A facão foi devolvido para seu Edílio, vizinho de Onofre que advertiu:

– Isso não é coisa de homem, Tonho. É coisa de moleque safado. E saiu bufando com o facão do vizinho nas mãos.

Cabo Jonas que só assistia a briga. Por fim se levantou do tamborete pintado de azul e disse para Zé Birro, balconista da Visgueira:

– Menino Zé dos Birros, por obséquio, me empresa uma caneta para eu poder fazer uma anotação aqui. O balconista atendeu o pedido de mestre em oliotria e viu quando este se dirigiu para o Tonho Silibrina e o indagou:

– Toinho, por gentileza, como é mesmo esse sinônimo de cu que você falou para seu Onofre?

– Eliodoro. Disse o brigão se ajeitando no tamborete. Eliodoro é como povo lá do meu sertão chama o cu. Isso, cu de rico, pois cu de pobre chamam de Bozó ou Arruela.

– Eliodoro. Eliodoro. Gostei deste sinônimo cusístico. Vou anotar e colocar na minha lista de nomes de cus.

– Ora! ora! Disse quase gritando Gazula: Não me diga que o senhor tem uma lista com os nomes que os cus têm?

– Tenho sim Gazulinha. Respondeu Cabo Jonas e continuou: Tenho uma lista com quase trezentos nomes que dão aos cus por todos os cantos desta terra. Chamam o sofrido por aí de: Anel, Aro, Ânus, Bufador, Caçapa de Rola, Cagador, Fedegoso, Fiofó, Ás de Copa, Franzido, Forever, Mealheiro, Olho Cego, Orifício, Pisca-Pisca, Parreco, Rabeta, Revertério, Rêgo, Roscoif, Sublitório, Tarraqueta, Tuba, Tripa-gaiteira, Tubi, Tubo Bufalínico, Tuzinho, Veia Cagafetânea, Zé de Boga, Zerefino e até Forebis, como diz o nego Muçum. Agora vou incluir na minha lista esse novo nome. Eliodoro. Gostei! Nome de cu de gente rica e requintada. Eliodoro. Conclui.

Depois Cabo Jonas devolveu a caneta para o balconista da venda, se despediu da turma e se dirigiu para sua casa. Bem em frente à Rua da Palha, Cabo Jonas olhou assustadoramente para a rua e gritou:

– Foge Tonho Silibrina. Onofre vem ali correndo por aqui com um trinta e oito na mão. Foge para não morrer agora!

Tonho Silibrina, se levantou com o grito assustador e fugiu para dentro da Visgueira. Nas esquinas das ruas, Cabo Jonas sorria e zombava do cabra froixo. Instante depois Tonho Silibrina saiu da venda e viu que era tudo brincadeira de Cabo Jonas. Antes de sentar-se novamente, Tonho gritou:

– Vai tomar no cu Cabo Jonas!

Cabo Jonas, já do outro lado da pista respondeu sorrindo e gritando:

– No cu não! E arremeteu: O meu ânus agora se chama Eliodoro. E me respeite, seu sodomita impolido.

Sodomita Impolido é a sua mãe! Respondeu Tonho Silibrina. 
Nem ele nem Gazula nunca souberam o que significava aquela frase.

Melhor assim.

Zezinho Sem Cotovelos

Por Roberto Carlos Rodrigues.

DOR 56Só Deus sabe o destino que levou Zezinho Sem Cotovelos. Há quem diga que ele mora no bairro de Monte Cristo, na vizinha cidade de Itabuna, onde é pequeno comerciante. Outros dizem que ele voltou para Santa Brígida, sua terra natal, no tórrido sertão baiano, já quase na divisa do estado de Pernambuco, onde continua trabalhando com gado. Uma coisa é certa: de Banco da Vitória Zezinho sumiu para sempre.

Zezinho sem Cotovelos era freguês vezeiros dos bares de Banco da Vitória. Ali tinha diversos amigos, dois ou três admiradores e um renca de desafetos. Zeferino Francisco do Santos era vagueiro de uma fazenda do outro lado do rio, nas bandas da Vila Cachoeira. Ele era um homem pequeno, branquelo, do rosto fino e cabelos escorridos. Os olhos eram miúdos, pareciam com olhos de pássaros. O bigode fino cobria-lhe os lábios avermelhados e ressecados. O sorriso era amarelado, herança dos anos e mais anos do cigarro na boca. Vestia-se sempre com indumentárias de vaqueiro. Na cinta trazia sempre um facão amolado. Na bota de couro, escondia o punhal com cabo de osso. Nas costas, cruzava-se o rifle de repetição e no bornal, escondido debaixo dos panos, o revolver trinta e oito e mais um punhado de balas. Zezinho sempre andava no lombo de uma mula marrom e arruaceira. Gostava de galopar.

Em Banco da Vitória Zezinho sem Cotovelos nunca deu um tiro ou matou alguém. Mas havia quem acreditasse ser ele criminoso lá nas bandas por onde nascera e que encontrara um bom refúgio sendo vaqueiro numa fazenda do sul da Bahia. No povoado, era pacifico e brincalhão.

Era amigo dos cachaceiros do povoado de Banco da Vitória e de vez em quando jogava futebol com seus pares. Conhecia todos os donos de bodegas da localidade e todas as sextas-feiras se refugiava em Banco da Vitória, onde se divertia, bebia como os amigos e dançava nos cabarés da localidade. Ali se sentia em casa.

Dizia ser solteiro. Não tinha esposa nem filhos. Vivia na casa da fazenda e só tinha amigos em Banco da Vitória. Aos domingos, Zezinho sem Cotovelos gostava de passar o dia nas margens do rio Cachoeira, onde fazia assados, cozinhados e pescarias. Todas, obviamente, regadas a garrafas de cachaças. Foi exatamente em um domingo ensolarado de março que Zeferino Francisco do Santos se tornou Zezinho sem Cotovelos.

Acompanhados dos seus amigos de farras e bebedeiras, Zeferino foi para as correntezas do Rio Cachoeira onde pretendia passar todo o dia de domingo. No local onde hoje se ver erguida a ponte para Maria Jape, aos fundos do convento das freiras, havia uma grande corredeira de pedras escorregadias, onde a água do rio Cachoeira descia fazendo barulho nas pedras. A profundidade neste local não passava de meio metro e as barragens de pedras servia para fazer uma grande piscina na parte de cima do rio. Ali, no meio das mornas correntezas, estava Zeferino com seus amigos de bebedeira quando o pior aconteceu.

Zeferino estava se banhando na parte rasa da correnteza, com o corpo submerso e somente a cabeça do lado de fora da água quando sentiu algo se enrolar ao seu corpo. É uma cobra. Pensou rapidamente. Realmente era uma cobra. Uma cobra grande. O amarelinho tentou se levantar das pedras escorregadias e não conseguiu. Quando ficou de joelhos sobre as pedras. Perceber que realmente era uma cobra enrolado no seu corpo. Zeferino dei um grito tão grande que no dia seguinte, o morubixaba Garapa disse ter ouvido lá nas bandas do matadouro. Osório, disse também ter ouvido o mesmo berro lá no meio da ladeira do Alto da Bela Vista.

Quando conseguiu se levantar nas pedras escorregadias, Zeferino viu que a imensa cobra se enrolara nas suas pernas, pelo seu tronco e pescoço e que a cabeça da serpente estava entre suas mãos firmes. Gritando igual um condenado, Zeferino caiu nas pedras escorregadias, enrolado na cobra. O dois desceram as corredeiras do Rio Cachoeira entre mergulhos e gritos. A cobra tentando morder o rosto de Zeferino e este tanto deslaçar a víbora do seu corpo.

– Pega a facão! Gritou Bigode, parceiro de bebedeira de Zeferino.

– Pega um pau da cerca das freiras. Gritou nego Nide. Idem.
Vamos socorre o homem. Gritou Zé Amarelinho. Idem.
Mas a luta era particular entre Zeferino e a cobra molhada e juntos eles desceram se ralando pelas pedras, tomando solavancos e caldos. Fazendo espumas, remexendo o leito do rio. Derramando sangues entre as tocas dos pitus e calambaus.

Cento e oitenta e oito metros abaixo, quase perto da Pedra de Guerra, a cobra por fim largou o assustado Zeferino e desceu o rio Cachoeira. O vagueiro destemido, todo estropiado e azougue, foi socorrido pelos amigos e levado para a areal do porto de Ares. Ali descobriram que Zeferino estava com o rosto todo machucado das dentadas da cobra assassina. Tinha perdido um dente, a bermuda e os couros dos cotovelos.

– Era uma jiboia. Disse alguém. Não é venenosa não. Morde mais não mata. Não tem peçonha. Conclui o alguém.

– Traz a cachaça para queimar os ferimentos. Disse Bigode e foi atendido. Zeferino tomou uma talagada de cana e sentiu o ardor nos cotovelos ensanguentado. Estava em estado de choque.

Foi levado para o hospital em Ilhéus onde foi medicado e no mesmo dia voltou para sua casa na fazenda, onde ficou acamado por três dias. Quando voltou ao Banco da Vitória recebera o apelido de Zezinho Sem Cotovelos. Seus braços em tipoias comprovavam a assertiva.
Havia em Banco da Vitória quem dissesse que Zeferino não gostava da alcunha zombeteira. Mas ele preferia ser chamado de Zezinho Sem Cotovelos do que Zezinho Todo Cagado. Isso, em alusão a situação que o encontraram do dia da luta com aquela maldita cobra no Rio Cachoeira.

Infelizmente os couros dos cotovelos de Zeferino não se recuperaram. Já o apelido, se tornou eterno.

Macarrão ao Molho de Azeite de Dendê

Por Roberto Carlos Rodrigues

6-molhoQuando você ouvir alguém falar que já viu de tudo neste mundo, pergunte se ela já viu (e comeu) macarrão ao molho de azeite de dendê. Provavelmente, se essa pessoa não for de Banco da Vitória, ele nunca viu essa nobre iguaria e não sabe o que está perdendo.

Comenta-se pelas cozinhas do mundo a fora que a origem do macarrão é disputada por chineses, italianos e árabes. Segundo alguns queimadores de panelas, foi Marco Pólo, aventureiro italiano do século 13, que teria trazido o macarrão da China para a Itália. No Brasil, o macarrão foi trazido pelos imigrantes italianos no final do século dezenove só e se popularizou entre nossa gente nos anos setenta do século passado. Quando então “ a pasta’ deixou de ser comida de italianos e se tornou coadjuvante da boia de muitos brasileiros.

Já o azeite de dendê, outro ingrediente do nosso prato peculiar, tem origem no oeste da África e foi introduzido no período do Brasil Colônia pelos escravistas portugueses e até hoje faz parte da comida do nordestino, principalmente dos baianos.

Segundo os italianos, o macarrão deve ser temperado com azeite extra virgem de olivas, alhos, manteigas, molhos de tomates e finas especiarias. Segundo essa mesma fonte, deve degustá-lo “ al dente”, ainda morno, salpicado com queijo parmesão e preferencialmente um ramo do aromático manjericão para harmonizar os ares e paladares. E bom vinho tinto. É claro!

Contudo, em Banco da Vitória, tudo isso era teoria gastronômica. O povo das barrancas do Rio Cachoeira, acostumado a colocar azeite de dendê em todos os pratos, logo achou que podia temperar macarrão com o óleo do dendezeiro.

– Isso não combina não! Arguia Tonho Martins, então funcionário as Sucam. Dendê é para moqueca, vatapá e quiabada. Macarrão é para comer com galinha cozida. Isso, aos domingos. Concluía elegantemente.

– Não gosto de macarrão não. Falava repugnando o padeiro Pedro Preto. Parece lombrigas. Como não. Prefiro meu jabá assado, com feijão e farinha torrada. Falava salivando.

– Pois bem, eu gosto é de macarrão ao molho de azeite de dendê. Dizia Zito Costureiro. Deixo primeiro a mulher servi a meninada depois esquento a panela do macarrão, coloco meia xícara de dendê, jogo onze pimentas malaguetas verde e mexo tudo. Desligo o fogo coloco o macarrão africanizado no prato fundo, cubro com farinha grossa, quase crueira. Mexo tudo novamente e como de mão. Pois não gosto de garfo. Como, como e como o macarrão ao molho de azeite de dendê quem nem lembro do bife ou do peixe frito. É uma delícia. Depois chupo os dedos para tirar o azeite dos cantos das unhas, espalito os dentes e vou deitar na minha rede, onde dou dois ou três peidos bem dados e depois durmo. Concluiu.

– Mas macarrão não combina com azeite de dendê não! Zito… Argumentou Tonho Martins.

Zito Costureiro olhou atentamente para o amigo e disse: Tonho o que tem de combinar é roupa. Entende? Tom sobre tom, essas coisas. Agora macarrão com dendê deve encher o bucho. Esse negócio de combinar não vale neste casdo. Por sinal, vozinha só toma café com dendê. Ela bota uma colher de dendê dentro da xícara com café e bebe lentamente o chá preto engordurado. Ela gosta. Fazer o quê? Eu nunca tomei não, mais qualquer dia desse eu também vou colocar dendê o café e experimentar. Não mata não. Vozinha tá com 98 anos nas costas e ainda dança forró. Então…

– Gostoso não deve ser essa mistura. Disse seu Pedro Padeiro. Nem cheiroso. Pois misturar café com azeite de dendê deve criar um cheiro de suor de cu do jegue. Tem de beber com o nariz tampado. Conclui.

– Pronto! Disse Zito Costureiro e argumentou: Começamos a prosa na culinária e já estamos desbeiçando para perfumaria. Pois bem, agora eu vou comer macarrão com azeite de dendê e depois vou beber essa nova bebida que Pedro Preto acabou de inventar. O suor do cu do jegue. Ou melhor: café pingado com azeite de dendê.

Seu Pedro Preto então, quase se despedindo disse: – gosto é igual a cu. Cada um tem o seu.

– Mas tem quem goste do cu dos outros. Retrucou Zito Costureiro.

– Vou trabalhar, viu? Que é melhor. Disse seu Pedro saindo da bodega.

Tonho Martins olhou para Zito e perguntou: – Dona Zefinha, sua vó e minha madrinha toma café com dendê mesmo ou você está inventando essa estória?

Zito respondeu na bucha: – é melhor tomar café com azeite de dendê do que com formicida tatu ou cianeto. Você não acha?

Vixe! Arguiu Tonho Martins. Já vamos agora para a química? Primeiro vou beber mais um rabo de galo antes de enveredar nessas prosas venenosas.

Zito Costureiro olhou para o amigo, alisou o fino bigode e disse:

– Painho só gostava de comer banana cozida cobertas de cinzas. Cinzas quentes e com brasinhas fumegantes…

E ainda era o meio da tarde. A prosa foi longa.

São João em Banco da Vitória – #1

forro-do-pedroPor Roberto Carlos Rodrigues

A casa era pequena. Na frente, uma porta e uma janela pintadas de azul. Ambas abertas. No meio do terreiro, a grande fogueira ardia por toda noite. Bombas explodindo nos cantos do terreiro, pistolões explodindo no céu. Este, todo estrelado. No braseiro, milho assado, costela de porco e pertinho dele, o aromático caldeirão cheio de quentão, tampado para não deixar exalar os cheiros das ervas daquele lugar. Na banqueta encostada ao vão da casa, a mesa sortida de diversos licores. O rei jenipapo adoçando os berços das moças, acompanhado dos sabores das garrafas de carambola, groselha, cacau, cravo, pitanga e lúdico licor de creme de leite. Junto ao pé da mesa, um garrafão verdecido, ainda pelo meio, da legitima aguardente Santa Clara. Bebidas para os cabras da peste que não gostavam de bebidas doces.

Amendoins assados e cozidos, pamonhas, mingaus de milho, bolo de tapioca, bolo de puba, lelê, leitão assado, paca cozida, galinha assada, piru cozido, caldeirão de sarapatel. A mesa estava florida das iguarias do lugar. As bocas, todas satisfeitas.

Bebuns por todos os cantos. Crianças correndo no terreiro e na minúscula sala os casais dançam no chamego do forró intermitente. Sanfoneiro caolho. Ruim das vistas, mas bom das mãos. A sanfona gemendo como se estivesse em um surto de epilepsia controlada. O zabumba batendo feito coração em taquicardia. O triangueiro marcando os passos da dança. O violão coordenando a harmonia da música e o pandeiro repicando feito guizo de cascavel. A música não parava nunca. A dança também não.

Dentro da sala apenas dez casais dançando. Não cabia mais. No lado de fora, uma procissão de gente dançando e esperando a vez de entrar na sala de reboco novo, pintado recentemente de azul. Na cumeeira, o lampião acesso. No ar o cheiro de cacau exalando daquele povo feliz e trabalhador.

De vez em quando um dançarino mais animado gritava no meio da sala: – Viva São João! Todo mundo respondia junto: VIVA! Fogos estouravam novamente no céu. O povo inventava uma quadrilha ao redor da fogueira e dança corria solta. A alegria exalava no ar e a poeira se espalhava entre os passos coordenados. Xote e baião, xaxado e forró eram como irmãos siameses. A festa não tinha fim.

Suor pingando no chão. Junta-se ao orvalho da fria madrugada. O arrasta-pé vai até o nascer do dia. O povo nem olha para os relógios. Espera o sol anunciar o novo dia. Enquanto isso, dançam sorridentes. Povo mais feliz que aqueles ribeirinhos não tem naquelas redondezas.

No início da manhã ainda tem gente ao redor da fogueira e bêbados dormindo nas sombras das árvores. Um bêbado acorda debaixo da grande jaqueira e grita: Viva São João! Os demais parceiros acordam subitamente e respondem em coro: Viva. Depois voltam a dormir, como se estivessem sincronizados. A ressaca dos licores durava dias e mais dias.

Os donos da casa se despedem das visitas. – Até para o ano. Dizem, sorridentes e satisfeitos. Até. Respondem os casais com os pés cobertos de poeiras e as roupas suadas. As cabeças estão repletas de alegrias e os corações ainda dançam no ritmo do forró de Banco da Vitória. O famoso forró Danado de bom.

No rádio de pilha, colocado agora em cima da mesa, onde ainda tem as sobras dos licores e das comidas, ouve-se Luiz Gonzaga cantar: Olha pro céu meu amor, ver como ele está lindo… Não podia haver trilha sonora melhor para aquela bela manhã de junho. Era São João.

Defuntos no Banguê e a Ladeira do Descansa Caixão.

rede 2Por Roberto Carlos Rodrigues.
 
Antigamente os mortos das regiões rurais de Banco da Vitória eram conduzidos das suas casas até o cemitério da localidade em um tipo de transporte chamado Rede de Banguê. Normalmente, nessas ocasiões, se cortava um pau de Biriba com aproximadamente três metros de comprimento e neste era pendurada uma rede, onde era transportado o morto. Dois homens fortes se encarregavam de conduzir a rede com o defunto e o pau apoiado nos ombros. Ao longo do caminho até o cemitério, os carregadores se reversavam no transporte do morto.
 
Quando o defunto era das regiões de Maria Jape, Japu, Beco, Rio do Engenho, Demanda ou Repartimento, este era conduzido no banguê até a beira do rio Cachoeira, onde era colocado em uma canoa e posteriormente, na Pedra de Guerra, transferido para um caixão de defunto.
 
Quando o féretro vinha da região norte da localidade de Banco da Vitória, de Morro do Miliqui, Lava-pés e Lava-pés de Baixo, por exemplos, o morto era conduzindo no banguê até o meio da ladeira da Alto da Santa Clara, onde em uma pedra localizada a esquerda dessa ladeira, era colocado em um caixão de defunto. Daí o nome deste local ser também conhecido em Banco da Vitória como Ladeira do Descansa Caixão.
 
Como descritos nos anais da cidade de Ilhéus, desde o meado do século XVIII só era permitido no município sul baiano o sepultamento por meio de caixão de defuntos. Para as pessoas carentes ao governo municipal oferecia gratuitamente o caixão de defunto. Para os escravos não se aplicavam este critério. Normalmente estes eram sepultados nos confins das fazendas e sesmarias, envoltos apenas de sujos lençóis. Mesmo anos depois da abolição da escravatura no Brasil, muitas cidades proibiam o sepultamento de negros nos cemitérios municipais. Acredita-se que este critério racista só foi mudado a partir da segunda década do sédulo XX.
 
Apesar da rede de carregar defunto ser chamada de banguê na região de Banco da Vitória, na verdade, este termo era conhecido no Brasil afora como identificador de um tipo de transporte feito com madeiras e couros, utilizado para carregar os restos de canas de açúcar, usando para tal tarefa a força de dois escravos. O banguê dos engenhos de açúcar era carregado pelas mãos dos homens. Já a rede de banguê era carregada nos ombros destes.
 
A rede de Banguê era também utilizada nessa região ilheense para transportar doentes, das suas casas até os postos médicos e hospitais. Naquela época, quando uma pessoa chegava viva ao Banco da Vitória, sendo carregada na rede de banguê, logo se sabia que a doença era grave. Por conta disso, o termo Rede de Banguê, era, para aquele povo ribeirinho, quase uma extrema-unção.
 
Antigamente a Ladeira do Descansa Caixão era um local assombrado em Banco da Vitória. Hoje, esta via de acesso ao Alto da Santa Clara é apenas um aplausível mirante. Agora, vivos e mortos são transportados em reluzente e potentes veículos. Banguê? nunca mais.

Como a antiga Rua da Palha virou Dr. Laureano

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Quem atualmente passa pela rua Dr. Laureano em Banco da Vitória, pisando em lapidados paralelepípedos e vendo-a adornada por belas casas e alguns pequenos prédios, na maioria das vezes, não sabe que até pouco tempo esse logradouro se chamava Rua da Palha, em homenagem as diversas casas de taipas, todas cobertas de palhas de palmeiras nativas, que existiam no local.
 
Na verdade, a Rua da Palha era um caminho nos fundos da Rua dos Artistas e da Rodovia Ilhéus Itabuna, que interligava o antigo caminho da Fazenda Victória (atual Rua Dr. Bernadino), (que se iniciava onde hoje temos o clube social e cortava quase ao meio o atual campo de futebol). No outro extremo da Rua da Palha tinha o início da Rua dos Artistas.
 
Este caminho começou a ser ocupado no final dos anos quarenta do século passado como um encurtador de caminho para quem vinha da praça Guilherme Xavier e precisava alcançar o ponto de ônibus que ficava na Rodovia Ilhéus Itabuna, sem precisar passar pela Rua dos Artistas, onde havia um grande lamaçal feito de escorregadio barro vermelho (bem em frente a atual casa de Ivony Santos).
 
Entre a Rua dos Artistas e a Rua da Palha havia 3 “becos” que interligavam essas vias. Um beco iniciava onde atualmente tem-se o mercadinho de Eduardo. Outro Beco era encostado a atual casa de Dui e o terceiro beco ficava entre a casa do saudoso Odilon e a atual farmácia de Carlos.
 
Entre a Rua de Palha e a Rodovia Ilhéus Itabuna havia apenas um “beco” ao lado da atual casa do nosso amigo Bigu, que interligava estes logradouros.
 
Nos anos sessenta iniciaram as construções das casas de alvenarias na Rua de Palha que foi alargada. Porém, a rua ficou sem calçamento até a década de oitenta do século passado, quando recebeu o nome de Rua Dr. Laureano.
 
Acredita-se que o nome desta rua é uma homenagem ao médico paraibano Napoleão Rodrigues Laureano, nascido em Natuba (PB), em 22/09/1914 e morto no Rio de Janeiro em 31/05/1951. Dr. Laureano era um ativista social e é considerado o patrono dos cancerosos, devido suas ações nessa área da medicina. O nome de Dr. Laureano consta em diversas ruas, um bairro na cidade do Rio de Janeiro e um hospital na Paraíba.
 
Na Rua da Palha moraram diversas personalidades da nossa comunidade como: Deúde e dona Alaíde, Seu Luiz, Dona Constância, Zé Da Alinhagem, Carmerindo. Seu Vavá Ramos, Professora Adélia, Dona Bernadina, Seu Amorzinho entre outros. Nesta rua moram: Dona Célia, Humberto, Creusa Martins, os irmãos Valter e Jaílton Ramos, Iraci, Cassê, as irmãs Pereiras entre tantos outros e outras.
 
A atual Rua Dr. Laureano nada lembra a antiga Rua da Palha com seus barracos de taipas cobertos de folhas de palmeiras. É um excelente lugar para morar na nossa comunidade por duas simples razões: está perto de tudo e a vizinhança é excelente.
 
Assista ao documentário sobre a vida de Dr. Laureano neste link: https://www.youtube.com/watch?v=WrihinSDSOc
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A barba de Dona Constância.

barba.jpgPor Roberto Carlos Rodrigues

A venda A Visgueira foi o cenário da prosa. Valter Ramos tomava uma cerveja gelada enquanto conversava com Ailton Gomes. Ambos, sentados nas cadeiras do lado de fora do estabelecimento. No balcão da bodega, Antônio de Isaías tomava uma cana e conversava com Jonas Porco e Touro e Genésio Cambista, quando o padeiro Pedro Preto entrou xingando e logo pediu uma dose de Bituri. Meu pai, Carrinho, o atendeu e colocou uma dose completa da cana que foi bebida em um só gole. Sem lamber os berços seu Pedro quase explodiu:

– Ou lugar da peste este sul! – Oh lugar para as mulheres gostarem de ser putas, prostitutas, melitrinas, quengas. A mulher deste meu funcionário João, – corno tipo maxixe, entrou agora na minha padaria mais fantasiada do que a macaca do circo dos turcos. Batom vermelho cor diabo na boca. Os olhos pintados de roxo. As bochechas chamuscadas de vermelho. As pestanas dos olhos aparecidas com um zói de gambá… Tomei um susto da peste. As mulheres no Norte não têm essa papagaiada não. Lá as mulheres têm até bigode e barba. Só que o marido pega a navalha raspa a cara da mulher. Tira bigode. Tira barba. Tira tudo. Até os pentelhos. Lá homem manda. Manda e manda.

Jonas Porco e Touro argumentou:

– Aqui é diferente, amigo Pedro. Lá em casa, por sinal, com tantas mulheres, eu nem ligo mais. Até uma cobra jaracuçu que apareceu no quintal, Ivonete pegou e está criando a bichinha. Todo dia ela passa batom na cobra, passa perfume. Só não coloca brincos porque a serpente não tem orelhas. Se tivesse, sei não…

Seu Pedro olhou firmemente para o amigo Jonas e depois de refletir o que ia falar, por fim questionou:

– Sua filha passa batom e perfume na cobra? Na jaracuçu? Não tem medo não?

– Sim. Passa batom em Zumira todos os dias. Zumira é o nome da cobra de estimação de Ivonete. Concluiu Jonas.
– Carrinho! Me dar uma outra dose de Bituri. Vou voltar a fazer meus pães que eu ganho mais. Disse seu Pedro.

Enquanto Carrinho servia a nova dose de cana. Antônio de Isaías questionou:

– Mas Pedro, aqui as coisas mudaram. Você se diz muito homem e coisa e tal. Então eu tenho uma proposta para você. Aqui na Rua de Palha mora dona Constância, nossa amiga. Constância não tem bigode não. Mas tem uma barba rala. São uns fiapos brancos no queixo. Vá lá então e arranca a barba dela. Se você quiser eu compro as giletes e te dou. Dou uma caixa com dez lâminas para você. Vai lá e faz a barba de Constância.

Seu Pedro, com o copo de vidro na mão, ficou olhando para seu amigo e vizinho, pensando o que ia falar. Depois, em um só gole, bebeu a cana. Enxugou os lábios com o avental e concluiu seu argumento:

– Raspar a barba de Constância? Tirar aqueles fiapos brancos do queixo dela. Eu? Indagou seu Pedro Preto. – Prefiro passar batom na cobra de Ivonete. Concluiu.

E saiu sem pagar a conta…

Dona Constância faleceu trinta e cinco anos depois. Foi sepultada com seus cabelos brancos. Todos belos e divinos.