Crônicas de Banco da Vitória

Por Roberto Carlos Rodrigues. Do livro Prosas e Causos de Banco da Vitória.

Roberto Carlos RodriguescaricaturaSou suspeito para falar do amor que tenho por minha aldeia, – o meu querido Banco da Vitória do Rio Cachoeira -, um taco de terra espremido entre este rio e as franjas da Mata Atlântica que antes cobriam os Altos da Santa Clara, Bela Vista e da Mata da Rinha. Sei, – graças a Deus -, que essa sintomatologia não é só minha, é de muita gente, muita gente mesmo! Em Banco da Vitória mora uma gente amada que sabe muito bem amar sua terra.

Vou descrever como era o “meu” Banco da Vitória.

Quando eu nasci, o Banco da Vitória fervilhava de gente, comércios e desenvolvimento. Era o fim da década de sessenta e, o cacau continuava em voga e propiciava todos os tipos de sonhos e oportunidades para quem gostava de trabalhar. Meu pai (Carlos Cardoso, filho de Dona Maria e seu Antônio Cardoso) era de família de comerciantes de produtos da lavoura regional, como: farinha, milho, feijão, arroz, açúcar etc., a maioria oriundo das terras do Morro do Miliqui (fundos da Fazenda Vitória e perto da atual estrada de Uruçuca).

A minha mãe, Ilza Rodrigues (Bebé) era filha de um neto de escravo de origem Banto, oriundo do Recôncavo baiano, chamava-se Feliciano de Assis. Minha vó era neta de índios Tupi, era conhecida como Dona Cabocla.

Na época da minha meninice, havia em Banco da Vitória uma grande feira na atual praça Guilherme Xavier. Neste local existia um grande galpão, chamado de “Barracão” onde se vendia de tudo e mais um pouco. Encontravam-se á venda no barracão de comida à vestidos de chita; de espingarda à terço, de sandálias de couro curtido à rolo de fumo. Até bala de clavinote tinha à venda.

Ao redor daquele barracão, que ficava enfrente a atual Igreja católica, moravam as pessoas mais abastadas do local e era comum vermos aos domingos fregueses e vendedores de diversas cidades da região cacaueira que viam mercantilizar na feira do Banco da Vitória.

Fui um dos privilegiados por poder saborear os deliciosos quitutes que Dona Maroca vendia ao lado do antigo Barracão. Só quem comeu sabe do que falo.

Durante a semana o barracão servia de local para os meninos “baterem um baba de cinco jogadores em cada time” e durante as noites o local era o ponto de namoro da rapaziada da época.

Lembro-me também que existia na praça Guilherme Xavier um antigo chafariz, que era chamado de ‘gomador’, (porque tinha um formato de antigo ferro de passar roupas). Esse chafariz ficava em frente ao atual clube social. Na minha meninice este chafariz já não mais funcionava, mas era outro local de encontros noturnos dos namorados. Na década de setenta demoliram o “gomador” e no início dos anos oitenta foi a vez de o Barracão ser demolido. Com isso, a feira de Banco da Vitório mingou até acabar de vez.

O campo de futebol de Banco da Vitória era um espetáculo à parte. Aos domingos ocorria ali jogos fabulosos, com torcedores em todo os seus limites do campo e grande era movimentação de pessoas em nossa comunidade por conta do futebol dominical.

Os times de futebol da minha época eram o Ypiranga, fundado por Zeca Serafim em 1938 e comandado por Xisto Gomes; o Cruzeiro de Zé da Linhagem; o Bahia de Zé Pote e o Flamenguinho de Zé Bolão e Zé Vieira. Existia ainda a rivalidade entre os times “de baixo” e os “do alto da Bela Vista”. A mesma rixa existia entre os times de Banco da Vitória quando jogavam contra os times de Ilhéus, Itabuna, Salobrinho, Sambaituba e da Proa.

Depois dos jogos de futebol, os bares e as casas comerciais ficavam lotados de fregueses até tarde da noite.

Nas noites dos finais de semana, o Banco da Vitória dormia embalado pelas músicas bregas, tocadas no antigo “caroço”, prostíbulo regionalmente famoso, devido suas lindas ‘meninas’ e suas brigas homéricas. Por sinal, vale ressaltar que o nome do estabelecimento “O Caroço” foi dado e instituído por um dos maiores boêmios de Banco da Vitória, que foi Dantinha, irmão de Seu Oliveira.

Eu estudava na Escola Herval Soledade e frequentava “os babas” nos campos do Pacaembú, do Pé de Amêndoa (atual quadra de esportes da Rua Dois de Julho) e no areal que existia e se estendia pelos fundos das casas de Seu Nilton, (pai de Lito) e dona Inez, esposa do saudoso Zé Melo, pais de Paulo Tarurim.

Como eu era do time dos “pernas de pau” e péssimo jogador de futebol, malmente frequentava os babas dos “bons de bola” que aconteciam no Campo Central. Neste local eu era um assíduo espectador e tive a oportunidade de ver atletas espetaculares como Zé da Torta, Carmerindo, Chanhã, Déi, Nido, Orlando de Zé Orlando, Nei de Gaguinho, Quibe, Cabeludo, Jaia, Vera de Gaguinho, Diva, José Ivonildo, Joel de Ailton Gomes, Biinha, João Cu-de-Leão, Edinho, Fabão entre tantos outros fantásticos atletas. Aldair, – capítulo à parte da nossa história -, foi a maior estrela dessa geração e até hoje nos oferece o seu espetacular futebol, quando aqui nos visita.

Os times de futebol de Banco da Vitória quando iam jogar em outras localidades, o meio de transporte utilizado era as carrocerias dos caminhões de Seu Joval, Aurindo, Zé Orlando, seu Nestor Pereira ou na caçamba de Zé Bolão.

Durante a semana, os meninos da minha época, estudavam pela manhã e durante as tardes se embrenhavam nos brejos para armar arapucas, pegar passarinhos ou caçar codornas, araquãs e preás. Depois jogava-se “o baba do dia” e ia se banhar no Rio Cachoeira, – na época totalmente despoluído.

Nos finais de semanas as farras ocorriam na beira do rio cachoeira, nas antigas tapagens, onde as famílias faziam “cozinhados” e pescarias e os meninos e meninas iam aprender a nadar.

No verão íamos todos para as matas da Rinha ou da Fazenda Vitória comer jacas, araçás, goiabas, graviolas, mamões entres tantas frutas nativas. Um dos meus passatempos mais preferidos era pescar no Rio Cachoeira com meu tio João de Coló ou acompanhar o meu avô Seu Feliciano, nas retiradas das pedras que ele cortava com marretas no meio do rio Cachoeira.

Vale também citar que naquela época existiam no Rio Cachoeira as famosas “praias” do porto de Xisto Gomes; a barragem de Cundunga e o porto de João de Coló. Aos domingos esses locais ficavam lotados de pessoas da comunidade e de gente de outros locais que vinham pescar e se divertir com amigos e familiares.

As festas colegiais em Banco da Vitória eram memoráveis. Tínhamos as festas das escolas como a festa da escolha da rainha e princesas da primavera, rainha do milho, concursos de beleza nas escolas etc. Tinha também o carnaval no Clube Social, as quadrilhas de São João (animadas por Nestor Cotó, Seu Diva e o eclético Cabo Jonas). Havia a festa da primavera, que só terminava depois da festa de Nossa Senhora da Conceição, quase no final do ano.

Nas comemorações natalinas e da passagem do ano (ano-novo), a praça Guilherme Xavier, Rua dos Artistas, Rua do Campo e no Alto da Bela Vista havia centenas de barracas onde comia-se diversos quitutes e bebia-se cervejas, refrigerantes, refrescos, caldo de cana e aguardentes de fabricação local. Naquela época, nos finais de ano os moradores de Banco da Vitória pintavam suas casas e todo mundo usava roupas e sapatos novos. As barracas dessas festas só eram desmontadas após a festa de Reis, em 6 de janeiro. Nessas ocasiões tinha ainda os parques infantis ou os circos armados no campo do ‘pé de amêndoa’, na Rua 2 de Julho.

Diversas vezes tivemos trios elétricos animando os carnavais de Banco da Vitória. Na festa de Momo tinha os blocos locais dos mascarados, o Piru de ZIto Costureiro e os “pauzinhos de Cabo Jonas”.

Nos festejos juninos quase não se comprava bebidas nem comidas. Havia licores, bolos, pamonhas, cocadas, mingaus e mungunzás, tudo gratuito e disponíveis nas janelas de várias casas. Os licores e os quitutes que minha vó Dona Cabocla fazia eram famosos e arredavam grande quantidade de pessoas da comunidade e até de Ilhéus e Itabuna, para deliciá-los.

Na festa de São João havia o ritual de pular fogueira e realizar pactos de compadres e comadres de fogueira. Por conta disso, havia muitos meninos que eram compadres e comadres “de mentirinha”.

Apesar de ser um povo humilde, a comunidade de Banco da Vitória sempre viveu exalando generosidade espontânea. Ali ninguém passava fome e o pouco que se tinha dividia-se com os mais carentes.

Eram comum também as visitas as roças e fazendas de cacau. Professoras ou mães arrumavam “um passeio do feriado” e toda a garotada ia conhecer a Fazenda Vitória, a Fazenda Porto Novo, o Morro do Miliqui, a Mata da Rinha, a represa do Alto da Bela vista, a represa do Iguape ou a distante Fazenda Demanda, perto do Japu.

Tínhamos ainda os passeios para “as beiradas de baixo e de cima”, para “O Beco” (nas margens da Fazendo Porto Novo) ou até “a curva perigosa” onde tinha-se um grande areal incrustados de siris e camarões. Ficava atrás da atual torre da rádio Santa Cruz.

Nos tempos áureos do cacau, a CEPLAC promovia festas e íamos visitar aquele colosso perto de Itabuna. Ao voltarmos estávamos empancados de guloseimas e comidas e cheios de presentes de natal.

Já rapazotes, íamos pescar carapicuns no fundo da igreja católica ou camarão nas pedras do Rio Cachoeira. Nessa época, as festas do Clube Social eram eventos memoráveis. Ali tocavam conjuntos musicais de Itabuna, Ilhéus, Valença e Itajuípe. A minha geração pegou ainda a ‘época das equipes de som” que promoviam festas magníficas. Foi o tempo das equipes Good Som, Brunal Som, Gepi Som, Saravedo Som, entre outras.

Na geração anterior a minha, as festas do Clube Social eram embaladas pelas bandas Lord Show, os Brasas e Os Apaches, bandas de Itabuna.

Na nossa época, no Hotel e Churrascaria Rio Cachoeira funcionava uma frívola boite. Neste hotel hospedavam artistas e autoridades nacionais, bem como os times de futebol profissional que vinha jogar em Itabuna ou Ilhéus.

Havia também festas dançantes no Salão dos Padres (no alto da Bela Vista) e no Clube de Zé Pote. Todavia, as “baladas” mais animadas ocorriam na “Boite de Dona Loura”, que primeiramente funcionava na Rua do Campo e se chamava “Recanto” e depois se transferiu para Praça Guilherme Xavier e tinha o nome de “Gruts”. Havia a “Boite de Edvaldo de Dona Lia”, que funcionava no início da Rua dos Artistas, próximo a rodovia Jorge Amado.

Os moradores mais românticos dançavam no Bar de Diva, no Bar de Godó ou na cabana de “Gilda”, que ficava perto do matadouro municipal. Os intelectuais da comunidade se reuniam no Bar Zebrinha, de Josias Xavier, também conhecido como “Tarzan”.

A turma do matadouro frequentava o Bar de Lindor. Os mais boêmios frequentavam os bregas de ‘Seu Júlio’ e ‘Bembeu’ (o famoso “Caroço) “.

A rapaziada bacana frequentava o “Blitz Bar”, de Jaia de Péricles, que ficava na praça Guilherme Xavier. Existia também o Bar de Xisto Gomes, com suas famosas mesas de sinuca, A “Visgueira” de Carrinho e “A Taiobinha” de Seu Júlio.

No começo dos anos noventa, o “point’ do Banco da Vitória era a cabana “Tainá”, – reduto eclético do ritmo caribenho chamado Lambada. Essa cabana ficava em frente ao antigo Hotel Rio Cachoeira. Era nesse local que extraordinário dançarino Fernando Menezes, “O Fernandinho da Caixa” exibia os seus gesticulados passos de danças caribenhas, – sempre acompanhado por dançarinas primazes como Leia de Dona Lurdes, Cristina de Dona Cabocla, Meirinha entre outras.

Ser jovem em Banco da Vitória era um privilégio de poucos agraciados com um reduto de paz. Não havia na nossa comunidade a violência que impera hoje em dia. As drogas existiam, porém, os raros usuários se diziam que a erva venenosa era apenas para “curtição” ou “tirar uma onda”.

Era comum também, naquela época encontrar os jovens namorando nas praças. Nos finais de semanas sempre havia um casamento se festejar. Todos os sábados tinha sempre um aniversário para comemorar e nos domingos, ocorriam as festas de batizados católicos.

Nas segundas-feiras, quando íamos para os colégios em Ilhéus, fazíamos os “relatórios” dos festejos do final de semana e já nos preparávamos para o próximo. A maioria dos rapazes trabalhava nas feiras, no matadouro ou como vendedores ambulantes. Dessa forma, sempre tinha-se um dinheirinho para pagar os caprichos da juventude. Éramos uma juventude sem riqueza, mas com grandes esperanças e contagiante alegria.

Graças a Deus este “meu” Banco da Vitório foi de todo mundo. Graças a Deus o “nosso” Banco da Vitória é atualmente um celeiro de gente empenhada e aguerrida. Aqui brotam sonhos e obras que muitos acham impossíveis.

Posso dizer que sinto orgulho dessa geração de novos vencedores que vemos atualmente em Banco da Vitória. Posso acreditar que seus dias serão iguais aos nossos, ou quiçá, melhores.

Cada morador tem o “seu” Banco da Vitória no peito. Deus, – eu tenho certeza, tem essa terra protegida por Suas mãos.

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