A lei de Rita Sassarica.

foda-se-pePor Roberto Carlos Rodrigues.

Naqueles tempos ninguém conhecia Maria da Penha Maia Fernandes e bater em mulher era coisa corriqueira nas bandas do rio Cachoeira. Os falsos machistas diziam que batiam sem saber, mas as mulheres sabiam porque estavam apanhando. Por essa desgraçada ordem, algumas mulheres viviam com as bocas machucadas, costas marcadas de “pano de facão”, dedos quebrados, dentes moles. De vez em quando uma Maria corajosa colocava óleo quente no ouvido do marido agressor, (futuro defunto) e o brabão ia para os quintos dos infernos. Mesmo assim, nesse jogo de violência o placar dos homens estava sempre dez mil a zero. As mulheres sempre perdiam.

Mas como sempre não é eterno, um dia as coisas mudam. E mudaram em Banco da Vitória.

Era onze horas da manhã de uma segunda-feira do outono de 1974 quando se ouviu os pipocos na Rua de Trás. Três tiros de trinta e oito. Sons de balas novas, pólvora virgem, chumbo em alma de fogo.

Correm os vizinhos para a origem dos tiros. Acodem a mulher com o trabuco fumegante nas mãos, o morto, ainda quente caído no corredor. Dois tiros nos peitos e no telhado furado pela terceira bala a luz do sol do quase meio dia entrava e marcava a cozinha com um facho de luz, tão alvo, quase azul celestial.

Uns mexem no morto para ver alguns sinais de vida. Desistem logo. Outras consolam a assassina. Tiram a arma ainda quente das suas mãos. Dão-lhe um copo com água. Acomodam-na numa cadeira. Enxugam o sangue que sai da sua boca roxa, fruto dos murros do marido, agora morto e inerte.

– Um dia a gente cansa. – Um dia a gente cansa. Repete a assassina.

É Rita de Cássia, filha de Antônio Domingos e Dona Naldinha. Casada com Gregório Militão, capataz da Fazenda Alvorada, chefe de mais de 50 homens e ordens de todos os tipos e calibres.

As crianças estavam na escola na hora dos tiros e não puderam ver o pai caído no corredor, nem a mãe sendo presa pelo cabo Aristides e o soldado Juvenal.

– Eu sabia que isso um dia ia acontecer. Falou a vizinha da esquerda. – Mulher de coragem, cansou de apanhar. Retrucou a outra vizinha.

O enterro foi no dia seguinte. O capataz brabão tomou barro na cara no mesmo horário que Rita de Cássia prestava depoimento na delegacia de Ilhéus.

Delegado zangado, voz rouca, dono de um bigode preto, igual uma lagarta de fogo, e dentes manchados de nicotina, de nome Dr. Aristeu Cardoso. Perguntou o delegado a assassina:

– Matou seu marido porque dona Rita de Cássia?

– Cansei doutor. Cansei de apanhar, um dia sim um dia não caia no pau. Quatro surras por semana não é boa coisa não. Agora ele não bate mais em ninguém.

– A senhora já tinha dado parte dele? Perguntou o delegado Dr. Aristeu Cardoso, olhando para o escrivão que redigia o depoimento. Era o magricelo João de Athayde, veterano dos carteados e amantes dos conhaques importados.

– Dar parte para quê? Para apanhar ainda mais? Para ser zombada pelos senhores da polícia? Não carece de parte não. Disse a mulher olhando as marcas das algemas nos seus pulsos morenos.

– Já que a senhora diz que apanhava há tanto tempo, porque resolveu matar seu marido logo ontem? Perguntou o delegado alisando o bigode.

– Na verdade, seu doutor não era de hoje que eu pensava em matar aquele desgraçado. Já vinha com isso a muito tempo na cachola. Mas sempre tirava isso da cabeça. Mas ontem foi demais. Eu estava sozinha em casa, meninos na escola, o desgraçado no eito do mundo, eu sem ter muito o que fazer. Resolvi esquentar minha perereca, pois o brabão não era bom da cama. Dava uma por semana, olhe lá! Subia em cima de mim feito um animal. Metia com raiva e gozava logo. Depois dormia feito uma cascavel. Eu ficava na vontade. Ontem resolvi bater uma siririca para aliviar as tensões. Quando eu estava no bem bom aparece o homem na porta do quarto. Já gritando, o que é isso? O que é isso? Tá faltando homem aqui em casa?  Não deu nem tempo de eu arrumar a calçola. Ele subiu em cima de mim e começou a me bater, bater e bater. Aí eu corri, fugi dele. Fui até o armário peguei o revolve e sentei o dedo. O resto o senhor já sabe.

Uma hora depois, no restaurante Flor do Cacau, na Praça Cairu, o Delegado Dr. Aristeu almoça junto ao policial José Umberto e o escrivão João de Athayde, quando fala:

– Umbertinho, você precisa ver a qualidade da morena jambo. Trinta e poucos anos, toda torneada. Peitos duros, bunda grande, boca carnuda, olhos miúdos, cabelos pela cintura. O miserável do marido morredor em vez de socorrer a esposa siririqueira com uma foda de dar nó no pau, não, resolve bater na mulher porque ela bateu uma siririca. Veja o que deu. Morreu e a assassina agora está aí deixando a cadeia doida e alvoroçada. A nega é toda boa. Boa não, é ótima. Otimissíma.

O delegado Cardoso pigarreou e diz:

– Não fica muito tempo presa não. Tem muita gente para depor a favor dela. Apanhava demais. Se julgada, vai ser legítima defesa. O marido que se fudeu. Morreu com o pau mole. Concluiu.

Quinze dias depois Rita foi solta. Respondeu o processo em liberdade. Foi depois julgada e absorvida. Não voltou a morar em Banco da Vitória. Foi morar em Inema, era manteúda de Dr. Clóvis Dantas, seu advogado de defesa. Uma vez por semana o advogado ia até Inema, correr suas roças e aproveitava para dar uma trepada bem dada com Rita de Cássia. Nos demais dias quem azeitava a xoxota de Rita Sassarica era o magricela Arisvaldo Costureiro. Arisvaldo dizia que dava três sem tirar de dentro. Verdade ou não, Rita Sassarica vivia sorrindo pelas ruas de Inema. Devia ter seus motivos. Mas isso já uma outra estória.

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