Gatão – O homem que enganou a pobreza.

gatão

Por Roberto Carlos Rodrigues.

O dia 21 de setembro de 2017 logo será esquecido. No próximo domingo, nem lembraremos o que almoçamos no dia que nosso amigo Gatão morreu e se despediu definitivamente de Banco da Vitoria. Edvilson Cardoso, assim como todos nós, quando da nossa partida definitiva, será lembrado por uns, – isso, por poucos dias, e com o passar dos dias, existirá apenas na lembrança de um punhado de pessoas.

Infelizmente, vivemos em tempos confusos e sem referências de amizades. Não sabemos amar nossas lendas vivas, nem muito menos as mortas. Gatão foi prova disso.

Hoje, ainda falamos da saudade que agora sentimos de Gatão. Amanhã, não saberemos, nem porque sentiremos saudade dele.

Gatão, em vida, viveu como um palhaço que levava apenas alegria sem restrições ou preconceitos. Ele nunca se queixou da sua dor, da sua vida humilde, nem jamais disse temer a morte. Viveu um dia por vez. Seus anos lhes bastaram.

Em sua franqueza existencial, Gatão brincou com suas dificuldades e transformou-as em apenas coisas imaginárias. Foi um verdadeiro mágico.

Gatão nunca quis riquezas, casas imponentes, coisas caras, crias ou qualquer tipo de bens. Apenas quis viver em um perfeito estado de poesia. Foi um poeta de poemas sem títulos. Não deixou nada escrito. Apenas a sua lembrança poderá provar sua existência.

Se amou alguém, Gatão nunca disse. Se se apaixonou, nunca demonstrou. Se tinha raiva de alguém, soube também esconder. Se teve inveja, por certo, foi apenas dos pássaros que sobrevoam os céus da nossa comunidade e por seus próprios motivos e razões, cantarolam enquanto voam.

Edvilson Cardoso viveu como um eremita urbano. Ajudando uns, ajudado por outros. Teve alguns amigos e talvez dois ou três descontentes com o seu jeito de viver. Inimigos não teve. Tenho certeza.

A sua razão de viver era alegrar as pessoas, principalmente as crianças. Destas, ele jamais se distanciou. Em verdade, ele não quis crescer e em sua mente, era apenas mais uma criança também. Foi feliz deste jeito.

Quando a vida lhe maltratou demais, ralou seus joelhos, secou suas lagrimas e feriu a sua alma, Gatão soube vencer as adversidades, criando para si um mundo prospero, porém ilusório e imaginativo. Em vez de choramingar ou reclamar dos viés do seu existir, ele vestiu-se de um personagem rico, bondoso e generoso e, como quem vive mais no palco de que na vida real, ele se vestiu deste seu heterônimo pomposo e sepultou de vez o cidadão chamado Edvilson Cardoso. Gatão ficou rico de sonhos.

Quem o via falar das suas riquezas imaginárias, podia achar que Gatão estava louco, desvariado. Mas louco ele não era nem nunca foi. Na verdade, foi muito sábio, e dentro do seu mundo imaginário, foi mais feliz do que muita gente que se acha lucida e inteligente.

Junto a Jaia, Marcelo, Fabão, Maroto , Dei, Ericarlos, Elidê, Dine, Jaqueline, Luciana, Elí, Jacy, Rita Nunes e Eu, Gatão viveu seus melhores dias. Éramos amigos inseparáveis e amávamos de forma igual e ele sempre estava no meio do nosso amor.
Mas, quem o amou mais foi sua mãe, Rosilda. Era quem o melhor o entendia.

Agora Gatão se torna saudade para algumas pessoas e lembranças eternas para outras.

O Banco da Vitoria, se tornou um lugar mais triste sem a presença da Gatão.

Apenas as crianças d’agora saberão o tamanho dessa perda.
Daqui a alguns dias Gatão será apenas saudade para alguns dos seus poucos amigos.

Talvez a sua grande lição de vida foi nos ensinar a driblar as dificuldades com imaginação e criatividade. Afinal, pelos menos, em seu castelo de sonhos ele era rico e feliz. Assim dizia.
Por certo, ele era muito mais feliz do que muitos de nós, todos escravos das nossas desmedidas ambições e tantos compromissos. Coisas, por sinal, que Gatão nunca quis tê-las.

Por certo, o milionário Gatão foi mais feliz que o cidadão Edvilson Cardoso. Ele foi sábio na louca opção. Soube driblar a vida e fez um gol no time da morte. Venceu-a de um a zero.
Do seu jeito e forma, Gatão alcançou mais facilmente a eternidade e de lá, tenho certeza, zomba de nós, – todos bobos, tolos e verdadeiramente loucos por tantas coisas que nunca nos pertencerão.

Agora a saudade de Gatão tem gosto ar. O mesmo ar que todos nos respiramos e que ninguém é dono.

O belo é saber que a morte iguala a todos seres humanos. Todos.

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