A Faculdade de Medicina de Banco da Vitória.

Por Roberto Carlos Rodrigues

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Muitas pessoas que circulam pela Rodovia Jorge Amado, nas imediações da localidade de Banco da Vitória, não sabem que ali, em tempos áureos já funcionou uma faculdade de Medicina. Na verdade, não era uma faculdade com uso das cátedras e ensino de nível superior, Era, por assim dizer, uma faculdade livre da medicina popular e alternativa.

Naquele então distrito de Ilhéus, só se morria mesmo de morte morrida e ou morte matada. De doença, por mais assustadora que essa fosse, tinha-se sempre um remédio certeiro e eficaz. Ali, os remédios e as curas estavam por todos os cantos e formas, nas rezas, nas plantas, nos frutos, nas águas, na terra e até nas fezes de alguns animais.

Entre aquele povo sempre havia um vizinho curandeiro, uma velha preta, um candomblezeiro, uma velha parteira ou então, meros palpiteiros de curas e remédios salvadores. Estes, vezeiros dos balcões das bodegas.

Se uma pessoa estava com a espinhela caída, um defluxo, catarro nos peitos, com o estômago virado, uma dor de facão ou na titela, câimbras nas batatas das pernas, dor nas cadeiras ou no vazio, ali tinha cura imediata.

Nos quintais das casas sempre havia uma farta e diversificada horta medicinal. Boldo para as doenças do estômago, Capim-Santo para as dores de cabeça. Erva cidreira para acalmar os nervos. Transagens para regular as regras femininas. Mastruz para as contusões e machucados. Goiabeira para as diarreias. Alecrim para o intestino. Babosa para as cicatrizes. Carqueja para o fígado. Confrei para as úlceras. Hortelã para os pulmões. Entre tantas.

Além das ervas, utilizavam-se também cascas de paus, pedaços de raízes, raspas de ossos, cinzas de chifres de bois, olhos de peixes secos, terras e algumas vezes, xarope de fezes de gatos para combater o peito chiado das crianças.

Chás, ungentos, garrafadas, infusões, pastas e cremes curativos eram feitos por todos os cantos e distribuídos entre os vizinhos. Em algumas bodegas tinha até uma farmácia de ervas medicinais em infusões em cachaças de todas as qualidades. Ali, os beberrões tinham motivos de sobra para procurar as curas para os seus tantos males e doenças.

Em Banco da Vitória, se uma pessoa estivesse com uma dor ou uma doença ia encontrar no mínimo dez “doutores” em curas alternativas para palpitarem sobre os possíveis remédios e, na maioria dos casos, com testemunhos de usuários que diziam que tinham sido curados por aqueles.

Um dia, no balcão da Visgueira, famosa venda que meu pai tinha na localidade, situada no início da Rua dos Artistas, estavam seus fregueses vezeiros. João de Coló. Cabo Jonas, Pedro Melo e Antônio de Isaías, quando chegou Ailton Gomes anunciando a morte de Fulô de Nezinha. Ailton nem terminou de dar a triste notícia e foi quase interrompido por João de Coló que disse:

– Morreu de derrame. Tenho certeza.

– Oxi! Como você sabe se Fulô acabou de morrer agora mesmo e você estava aqui? Virou adivinho foi? Questionou Cabo Jonas.

– Acertou! Foi derrame. Arrematou Ailton Gomes.

João de Coló terminou de beber seu Rabo de Galo e concluiu sua fala:

– Todo viado morre de derrame ou do coração. Parece, pelo jeito que, dar o cu aumenta a pressão e estoura os vasos da cabeça. Fulô de Nezinha dava um cu amuado. Morreu de acidente de trabalho.

Cabo Jonas arregalou os olhos e questionou seu amigo de prosas:

– João de Coló onde foi que você estudou esse diagnóstico dos infernos? Desde quando dar o cu aumenta a pressão cardíaca?

– Tá duvidando? Argumentou Coló – Dá seu cu para ver se eu não estou certo ou não. Aumentar a pressão. E tem mais: Deixa eu ir para casa pois está na hora da minha punhetinha diária. Punheta faz bem danado para as vistas. É por isso que eu não uso óculos.

– Ah! Não vai dar não! Arguiu, no canto do balcão Antônio de Isaías e indagou:

– Cabo Jonas você sabia que o melhor remédio para impotência é dormir com uma vela acessa enfiada no rabo?

João de Coló se calou abruptamente e esperou o revide do parceiro de oliotrias.

Cabo Jonas coçou a barba quase branca, tirou o cigarro da boca e disse:

– Fui! Hoje a prosa aqui está ao gosto de Satanás. Vou me preparar para o velório do xibungo da Ruinha. Assim é bem melhor.

Por uma porta saiu Cabo Jonas e pela outra saiu João de Coló.

Dentro da bodega Antônio de Isaías sorria e zombava dos dois médicos de araque. Pedro melo apenas observava e sorria. Era melhor assim. Sabia.

A Faculdade de Medicina de Banco da Vitória nunca formou ninguém. Graças a Deus.

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