O Segredo de Brabão – O cachorro mais feroz de Banco da Vitória.

brabãoPor Roberto Carlos Rodrigues

Esta estória não é minha. Não inventei nada e, se por ventura, os possíveis herdeiros do cachorro Brabão quiserem processar alguém, que processem João Santana, filho dos saudosos Antônio de Isaías e Dona Lindaura, pois foi ele quem propagou a fama de Brabão em toda a região de Banco da Vitória. Na verdade, eu que não conheci Brabão – o cachorro mais feroz de Banco da Vitória, nunca acreditei nesta estória deveras surpreendente. Mas, tratando de relatos de João Cu de Leão, quem sou eu para duvidar.

Segundo João Santana, Brabão era o cachorro de estimação de Odilon, este funcionário da Prefeitura Municipal de Ilhéus e encarregado, junto ao seu amigo Alfredo (pai de Liminha e Jovali) das limpezas das ruas do então distrito de Banco da Vitória.

Brabão era um cão de poucos amigos e seu nome se justificava pela quantidade de pessoas que ele tinha mordido. Cachorro classificado como vira-lata raciado com parentes distantes dos pastores alemães, Brabão, era conhecido na Rua dos Artistas como o cachorro mais valente da localidade. Mordia desde pequeninas moscas até mocotós de cavalos, burros e bois. Para ser sincero, Brabão era um cão assassino. Na sua rua ele era implacável, violento e cruel. Mordia. Mordia e m.o.r.d.i.a.

Criado na coleira e preso como condenado, Brabão quando fugia de casa o povo gritava:

– Fechem as portas, prendam as crianças e socorram os cachorros e gatos pois Brabão fugiu. Era um alvoroço quase regional.

Em Banco da Vitória se sabia: o cachorro mais violento e cruel de todas as beiradas do Rio Cachoeira era Brabão de Odilon.

Mas o tempo foi passando e Brabão foi diminuindo a ferocidade e se tornou um cão de porta de casa, sem coleira, sem amarras, sem arruaças. Ali, no batente da sua casa Brabão continuou sendo o valente cão da localidade. Mais não mordia mais ninguém. A não ser alguns bêbados arrelientos e meninos perturbados.

Porém, Brabão continuou mantendo sua autoridade nas redondezas. Nenhum cachorro ou gato se atrevia passar pela Rua dos Artistas sem antes receber uma carreira quase mortal de Brabão. Pode-se dizer que Brabão era o rei da Rua dos Artista. Isso, até os seus dez anos de idade.

Um dia, na verdade uma manhã de sábado ensolarado, Brabão estava no seu posto, isto no degrau da casa de Odilon, tomando um sol matinal, quando sem mais nem menos, um caminhão de mudança parou pouco em frente da casa vizinha a de Brabão.

Era um caminhão de mudanças. Um novo inquilino iria morar na vizinhança. Quando abriram o caminhão baú quem saiu de dentro foi um pequeno cachorro piche. De um tiro só o cachorro adentrou a casa nova, em menos de cinco segundos ele percorreu todos os ambientes e como um raio, saiu da casa e começou a correr pela Rua dos Artistas, reconhecendo o território e pingando sua urina nas portas das casas.

Brabão quando viu aquele toloco de bosta preta correndo feito um raio da silibrina, ficou alerta e pensou: – Quem está tripa preta pensa que é? Vou matar numa dentada só. Ele vai ver.

No outro lado da rua o cachorro piche preto correu até a casa de Gerolino, atravessou a rua. Veio mijando de porta em porta e passou bem em frente à casa de Brabão como se este nem estivesse ali. O minúsculo cachorro entrou no bar de Xisto gomes. Saiu e foi até a venda de Seu Joaquim. Atravessou a rua, entrou na padaria de seu Hugo, cruzou as frentes das casas de seu Antônio de Isaías, a Visquera, seu José Lavigne e, dobrando a esquina, desceu mijando nas portas das casas da Rua Aldair.

Neste instante, Brabão que só assistia aquele desaforo minúsculo, já estava embebecido de raiva e mais raiva e com os dentes preparados para destroçar o intruso, quando ouviu a nova vizinha chamá-lo: – Mickey vem cá.

– Ora ora, chama-se Mickey o futuro morto. Pensou Brabão, se preparando para o bote e arrematou. Do jeito que está vai mijar logo logo no meu focinho. – Deixa ele subir a rua que eu vou mostrar quem manda neste pedaço. Conclui seus pensamentos malignos.

A vizinha entrou na casa e em seguida, com a mesma velocidade que desceu a rua o tal Mickey a subiu. Quando ele chegou no cruzamento da Rua Aldair com a Rua dos Artista, Brabão estava a sua espera. Em um só bote Brabão latiu ferozmente e tentou morder mortalmente o pobre piche. O cachorro pequenino se esquivou, escorregou sobre as pedras do calçamento da rua e desceu a rua dos Artista no dobro da velocidade de quando a conheceu. Na sua cola, desceu Brabão latindo e fungando no rastro do podre cachorrinho.

O piche dobrou a esquerda, depois a direita, depois mais uma vez a direita, correu, correu e correu e Brabão no seu encalço, latindo e mostrando seus dentes afiados. No meio da praça Guilherme Xavier, o assustado piche teve um surto de redenção, parou de correr bruscamente e ficou imóvel feito uma estátua.

Brabão que corria na velocidade de um míssil soviético, diante daquela súbita parada do piche quase perdeu as unhas nos cimentos da praça, tentando frear. Desorientado, ele caiu sobre o pescoço, ralou o focinho e machucou as costas. Mesmo assim, Brabão se levantou e partiu para o ataque do piche que se mantinha imóvel no meio da praça.

Chegando perto do piche, Brabão percebeu que o desgraçado se mantinha imóvel feito uma minúscula estátua preta. Fingia ser o que não era. Brabão então se aproximou do desgraçado e desaforado cão e rugiu nas suas orelhas. O piche continuou imóvel e silencioso.

– Corre miserável. Corre agora para eu rasgar você em dois em uma só mordida. Pensou Brabão com a boca cheia de salivas, os dentes brilhando e o gosto de sangue já quase sendo sentido na garganta.

Quanto mais Brabão rugia nos ouvidos do piche mais este ficava imóvel e sério. Virou estátua.

Foi aí que o segredo de Brabão foi revelado.

Depois de mais de dez minutos de ameaças, o medroso piche começou a piscar os olhos, mexer com as orelhas, balançar levemente o rabo e se mover cautelosamente. Primeiro o piche cheirou o focinho de Brabão, depois suas patas e por fim alcançou o rabo. Debaixo deste, bem no furico de Brabão, o piche deu duas cheiradas profundas e depois carinhosamente lambeu o cu de Brabão.

Brabão, agora já relaxado e acalmado, olhou meigamente para o pequeno piche, piscou os olhos e como uma cadela latiu melodicamente:

– Uau! Uau! Uau!

Naquele dia descobriram que Brabão queimava o aro. Era gay.

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