A barba de Dona Constância.

barba.jpgPor Roberto Carlos Rodrigues

A venda A Visgueira foi o cenário da prosa. Valter Ramos tomava uma cerveja gelada enquanto conversava com Ailton Gomes. Ambos, sentados nas cadeiras do lado de fora do estabelecimento. No balcão da bodega, Antônio de Isaías tomava uma cana e conversava com Jonas Porco e Touro e Genésio Cambista, quando o padeiro Pedro Preto entrou xingando e logo pediu uma dose de Bituri. Meu pai, Carrinho, o atendeu e colocou uma dose completa da cana que foi bebida em um só gole. Sem lamber os berços seu Pedro quase explodiu:

– Ou lugar da peste este sul! – Oh lugar para as mulheres gostarem de ser putas, prostitutas, melitrinas, quengas. A mulher deste meu funcionário João, – corno tipo maxixe, entrou agora na minha padaria mais fantasiada do que a macaca do circo dos turcos. Batom vermelho cor diabo na boca. Os olhos pintados de roxo. As bochechas chamuscadas de vermelho. As pestanas dos olhos aparecidas com um zói de gambá… Tomei um susto da peste. As mulheres no Norte não têm essa papagaiada não. Lá as mulheres têm até bigode e barba. Só que o marido pega a navalha raspa a cara da mulher. Tira bigode. Tira barba. Tira tudo. Até os pentelhos. Lá homem manda. Manda e manda.

Jonas Porco e Touro argumentou:

– Aqui é diferente, amigo Pedro. Lá em casa, por sinal, com tantas mulheres, eu nem ligo mais. Até uma cobra jaracuçu que apareceu no quintal, Ivonete pegou e está criando a bichinha. Todo dia ela passa batom na cobra, passa perfume. Só não coloca brincos porque a serpente não tem orelhas. Se tivesse, sei não…

Seu Pedro olhou firmemente para o amigo Jonas e depois de refletir o que ia falar, por fim questionou:

– Sua filha passa batom e perfume na cobra? Na jaracuçu? Não tem medo não?

– Sim. Passa batom em Zumira todos os dias. Zumira é o nome da cobra de estimação de Ivonete. Concluiu Jonas.
– Carrinho! Me dar uma outra dose de Bituri. Vou voltar a fazer meus pães que eu ganho mais. Disse seu Pedro.

Enquanto Carrinho servia a nova dose de cana. Antônio de Isaías questionou:

– Mas Pedro, aqui as coisas mudaram. Você se diz muito homem e coisa e tal. Então eu tenho uma proposta para você. Aqui na Rua de Palha mora dona Constância, nossa amiga. Constância não tem bigode não. Mas tem uma barba rala. São uns fiapos brancos no queixo. Vá lá então e arranca a barba dela. Se você quiser eu compro as giletes e te dou. Dou uma caixa com dez lâminas para você. Vai lá e faz a barba de Constância.

Seu Pedro, com o copo de vidro na mão, ficou olhando para seu amigo e vizinho, pensando o que ia falar. Depois, em um só gole, bebeu a cana. Enxugou os lábios com o avental e concluiu seu argumento:

– Raspar a barba de Constância? Tirar aqueles fiapos brancos do queixo dela. Eu? Indagou seu Pedro Preto. – Prefiro passar batom na cobra de Ivonete. Concluiu.

E saiu sem pagar a conta…

Dona Constância faleceu trinta e cinco anos depois. Foi sepultada com seus cabelos brancos. Todos belos e divinos.

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