Macarrão ao Molho de Azeite de Dendê

Por Roberto Carlos Rodrigues

6-molhoQuando você ouvir alguém falar que já viu de tudo neste mundo, pergunte se ela já viu (e comeu) macarrão ao molho de azeite de dendê. Provavelmente, se essa pessoa não for de Banco da Vitória, ele nunca viu essa nobre iguaria e não sabe o que está perdendo.

Comenta-se pelas cozinhas do mundo a fora que a origem do macarrão é disputada por chineses, italianos e árabes. Segundo alguns queimadores de panelas, foi Marco Pólo, aventureiro italiano do século 13, que teria trazido o macarrão da China para a Itália. No Brasil, o macarrão foi trazido pelos imigrantes italianos no final do século dezenove só e se popularizou entre nossa gente nos anos setenta do século passado. Quando então “ a pasta’ deixou de ser comida de italianos e se tornou coadjuvante da boia de muitos brasileiros.

Já o azeite de dendê, outro ingrediente do nosso prato peculiar, tem origem no oeste da África e foi introduzido no período do Brasil Colônia pelos escravistas portugueses e até hoje faz parte da comida do nordestino, principalmente dos baianos.

Segundo os italianos, o macarrão deve ser temperado com azeite extra virgem de olivas, alhos, manteigas, molhos de tomates e finas especiarias. Segundo essa mesma fonte, deve degustá-lo “ al dente”, ainda morno, salpicado com queijo parmesão e preferencialmente um ramo do aromático manjericão para harmonizar os ares e paladares. E bom vinho tinto. É claro!

Contudo, em Banco da Vitória, tudo isso era teoria gastronômica. O povo das barrancas do Rio Cachoeira, acostumado a colocar azeite de dendê em todos os pratos, logo achou que podia temperar macarrão com o óleo do dendezeiro.

– Isso não combina não! Arguia Tonho Martins, então funcionário as Sucam. Dendê é para moqueca, vatapá e quiabada. Macarrão é para comer com galinha cozida. Isso, aos domingos. Concluía elegantemente.

– Não gosto de macarrão não. Falava repugnando o padeiro Pedro Preto. Parece lombrigas. Como não. Prefiro meu jabá assado, com feijão e farinha torrada. Falava salivando.

– Pois bem, eu gosto é de macarrão ao molho de azeite de dendê. Dizia Zito Costureiro. Deixo primeiro a mulher servi a meninada depois esquento a panela do macarrão, coloco meia xícara de dendê, jogo onze pimentas malaguetas verde e mexo tudo. Desligo o fogo coloco o macarrão africanizado no prato fundo, cubro com farinha grossa, quase crueira. Mexo tudo novamente e como de mão. Pois não gosto de garfo. Como, como e como o macarrão ao molho de azeite de dendê quem nem lembro do bife ou do peixe frito. É uma delícia. Depois chupo os dedos para tirar o azeite dos cantos das unhas, espalito os dentes e vou deitar na minha rede, onde dou dois ou três peidos bem dados e depois durmo. Concluiu.

– Mas macarrão não combina com azeite de dendê não! Zito… Argumentou Tonho Martins.

Zito Costureiro olhou atentamente para o amigo e disse: Tonho o que tem de combinar é roupa. Entende? Tom sobre tom, essas coisas. Agora macarrão com dendê deve encher o bucho. Esse negócio de combinar não vale neste casdo. Por sinal, vozinha só toma café com dendê. Ela bota uma colher de dendê dentro da xícara com café e bebe lentamente o chá preto engordurado. Ela gosta. Fazer o quê? Eu nunca tomei não, mais qualquer dia desse eu também vou colocar dendê o café e experimentar. Não mata não. Vozinha tá com 98 anos nas costas e ainda dança forró. Então…

– Gostoso não deve ser essa mistura. Disse seu Pedro Padeiro. Nem cheiroso. Pois misturar café com azeite de dendê deve criar um cheiro de suor de cu do jegue. Tem de beber com o nariz tampado. Conclui.

– Pronto! Disse Zito Costureiro e argumentou: Começamos a prosa na culinária e já estamos desbeiçando para perfumaria. Pois bem, agora eu vou comer macarrão com azeite de dendê e depois vou beber essa nova bebida que Pedro Preto acabou de inventar. O suor do cu do jegue. Ou melhor: café pingado com azeite de dendê.

Seu Pedro Preto então, quase se despedindo disse: – gosto é igual a cu. Cada um tem o seu.

– Mas tem quem goste do cu dos outros. Retrucou Zito Costureiro.

– Vou trabalhar, viu? Que é melhor. Disse seu Pedro saindo da bodega.

Tonho Martins olhou para Zito e perguntou: – Dona Zefinha, sua vó e minha madrinha toma café com dendê mesmo ou você está inventando essa estória?

Zito respondeu na bucha: – é melhor tomar café com azeite de dendê do que com formicida tatu ou cianeto. Você não acha?

Vixe! Arguiu Tonho Martins. Já vamos agora para a química? Primeiro vou beber mais um rabo de galo antes de enveredar nessas prosas venenosas.

Zito Costureiro olhou para o amigo, alisou o fino bigode e disse:

– Painho só gostava de comer banana cozida cobertas de cinzas. Cinzas quentes e com brasinhas fumegantes…

E ainda era o meio da tarde. A prosa foi longa.

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