Salve Eliodoro!

paperbackstack_511x457 (1)Por Roberto Carlos Rodrigues

Quem não tem o que fazer, normalmente inventa confusão. Foi exatamente o que aconteceu naquela tarde agostina em Banco da Vitória. Duas horas da tarde, no céu um sol adoentado nem secava nem ardia. Apenas brilhava opaco. Das beiradas do rio Cachoeira vinha um vento frio e preguiçoso. Sem soprar, nada varia. Apenas esfriava as juntas dos velhos adoentados. Debaixo do sol estava gostoso ficar. Algo morno por ali. Nas sombras das árvores, um frio traiçoeiro e rasante. Foi exatamente neste ambiente insosso que a confusão começou.

Em frente a venda A Visqueira apenas três desocupados se fingiam de fregueses. Eram Cabo Jonas, Tonho Silibrina e Gazula. Um ônibus da Sulba parou na beira da rodagem. Dele desceram Seu Onofre, Dona Adélia, (sua esposa) e Zito Costureiro. Vinham de Itabuna. Os três, como se morassem no mesmo teto, cruzaram a Rua dos Artistas ao mesmo tempo. Quando seu Onofre passou bem em frente à Visgueira, Tonho Silibrina saudou o senhor:

– Boa tarde seu Onofre. Como vai Eliodoro? Boa tarde Zito. Tudo bem?

Seu Onofre fez que não ouviu e não respondeu nem a saudação nem a indagação. Dona Adélia, fez cara feia, fungou e disse algo para o marido. Ambos continuaram andando, sem olhar para os clientes da Visgueira. Zito respondeu uma boa tarde em murmúrios.

Ninguém sabe o que aconteceu na casa do casal nem o que eles lá conversaram. Só se sabe que em menos de dez minutos seu Onofre apareceu na frente da Visgueira com um facão nas mãos e tentou golpear Tonho Silibrina. Tonho pulou para o meio da rua com um tamborete nas mãos e se defendia dos golpes do pano de zinco.

– Calma seu Onofre. Dizia Tonho enquanto pulava e se defendia dos golpes da arma branca. O dono do facão não sabia usá-lo como arma. Malmente para descascar coco.

– Eliodoro, né! Quem você quer saber como está? Então eu vou te mostrar. Vou abrir um buceta na sua cara já já, seu filho de uma égua.

O negro Gazula entra no meio da briga. Toma o facão de um. Arranca o tamborete da mão do outro. As mulheres das ruas gritam em coro misericórdia! Alguns maridos vêm socorrer seu Onofre, que agora com um pedaço de bambu tenta golpear o sorridente Tonho Silibrina.

– Você tem de mim respeitar, seu xibungo da peste. Gritava seu Onofre. Tenho idade de ser seu pai. Vagabundo. Agora você fica com essa safadeza de ficar me perguntando como está meu Eliodoro. Você agora é quem manda no meu cu, é? Eu vou te lascar todo. Gritava o sexagenário, pulando com um pedaço de bambu nas mãos.

Tonho, mais sorridente ainda, dizia em tons de zombaria: – segura o homem, pois ele está nervoso. Tá com sangue quente. Segura o sergipano…

A turma-do-deixa-disso ataca novamente pelo meio da briga. As vizinhas de Onofre segurando o brigão. A confusão foi logo desfeita e levaram o pobre seu Onofre para casa, onde deram-lhe água com açúcar para acalmar os nervos. A facão foi devolvido para seu Edílio, vizinho de Onofre que advertiu:

– Isso não é coisa de homem, Tonho. É coisa de moleque safado. E saiu bufando com o facão do vizinho nas mãos.

Cabo Jonas que só assistia a briga. Por fim se levantou do tamborete pintado de azul e disse para Zé Birro, balconista da Visgueira:

– Menino Zé dos Birros, por obséquio, me empresa uma caneta para eu poder fazer uma anotação aqui. O balconista atendeu o pedido de mestre em oliotria e viu quando este se dirigiu para o Tonho Silibrina e o indagou:

– Toinho, por gentileza, como é mesmo esse sinônimo de cu que você falou para seu Onofre?

– Eliodoro. Disse o brigão se ajeitando no tamborete. Eliodoro é como povo lá do meu sertão chama o cu. Isso, cu de rico, pois cu de pobre chamam de Bozó ou Arruela.

– Eliodoro. Eliodoro. Gostei deste sinônimo cusístico. Vou anotar e colocar na minha lista de nomes de cus.

– Ora! ora! Disse quase gritando Gazula: Não me diga que o senhor tem uma lista com os nomes que os cus têm?

– Tenho sim Gazulinha. Respondeu Cabo Jonas e continuou: Tenho uma lista com quase trezentos nomes que dão aos cus por todos os cantos desta terra. Chamam o sofrido por aí de: Anel, Aro, Ânus, Bufador, Caçapa de Rola, Cagador, Fedegoso, Fiofó, Ás de Copa, Franzido, Forever, Mealheiro, Olho Cego, Orifício, Pisca-Pisca, Parreco, Rabeta, Revertério, Rêgo, Roscoif, Sublitório, Tarraqueta, Tuba, Tripa-gaiteira, Tubi, Tubo Bufalínico, Tuzinho, Veia Cagafetânea, Zé de Boga, Zerefino e até Forebis, como diz o nego Muçum. Agora vou incluir na minha lista esse novo nome. Eliodoro. Gostei! Nome de cu de gente rica e requintada. Eliodoro. Conclui.

Depois Cabo Jonas devolveu a caneta para o balconista da venda, se despediu da turma e se dirigiu para sua casa. Bem em frente à Rua da Palha, Cabo Jonas olhou assustadoramente para a rua e gritou:

– Foge Tonho Silibrina. Onofre vem ali correndo por aqui com um trinta e oito na mão. Foge para não morrer agora!

Tonho Silibrina, se levantou com o grito assustador e fugiu para dentro da Visgueira. Nas esquinas das ruas, Cabo Jonas sorria e zombava do cabra froixo. Instante depois Tonho Silibrina saiu da venda e viu que era tudo brincadeira de Cabo Jonas. Antes de sentar-se novamente, Tonho gritou:

– Vai tomar no cu Cabo Jonas!

Cabo Jonas, já do outro lado da pista respondeu sorrindo e gritando:

– No cu não! E arremeteu: O meu ânus agora se chama Eliodoro. E me respeite, seu sodomita impolido.

Sodomita Impolido é a sua mãe! Respondeu Tonho Silibrina. 
Nem ele nem Gazula nunca souberam o que significava aquela frase.

Melhor assim.

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