Outros Tipos de Saudades de Banco da Vitória.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

Os cheiros das flores das laranjeiras eclodiam em todos os quintais daquele lugarejo ribeirinho. Perto dali, nos brejais de baixo, cultivavam flores e ervas medicinais. Eram margaridas, rosas, cravos, alamandas, alfazemas, calêndulas e girassóis. As do primeiro grupo. Cidreira, erva-doce, boldo, alecrim, camomila, capim-santo, confrei e unha-de-gato. As do segundo grupo.

Os moradores daquelas redondezas viviam com os lábios aromatizados e doces. As bocas eram betumadas com gostos de cajás, goiabas, mamões, laranjas, pitangas, groselhas, abacaxis, abacates, carambolas e anis.

Em todas as casas, panelas sobre os fogões. Batata-doce e banana-da-terra no café da manhã. Feijão com jabá, arroz e farinha torrada no almoço. E um cheiro de café por toda a tarde.

A noite, sopa com osso de patinho e fruta-pão com coco ralado. Café forte e adocicado para apurar o paladar. Depois, um dedo de prosas antes de dormir. Um beijo para sonhar, uma cama para descansar. O amor serenava pelas madrugadas.

Da arraiada, salivas escorrendo das bocas semiabertas e molhando os travesseiros. Vários sonhos ocupavam todas as casas.

Perto dali, o rio sussurrava suavemente sobre as pedras. Descia calmamente para o mar. Na verdade, um oceano de tantos sonhos e oportunidades. Todas bem perto dali.

As manhãs tinham cheiros de matos molhados e flores açoitadas durante as madrugadas. As roupas secando penduradas nos varais embriagavam os ares com seus perfumes de sabão de coco e suor das mulheres lavadeiras.
A meninada correndo nos terreiros, os dias passando sem compromissos. O sol no pino do céu. O povo na labuta. A vida fluía festeira.

Em pastagens próximas, canaviais dançavam sob os ventos dos finais das tardes. Coqueiros rangiam feitos bambuzais e as imponentes jaqueiras preparavam seus frutos para eclodirem depois da primavera, nos verões radiantes daquele lugar. Ali, os natais eram sempre todos adocicados e festivos.

Dos riachos viam as piabas, moreias, camarões e pitus. Do rio imponente e caridoso, um cardápio inteiro de diversos peixes para alimentar toda aquela gente. Dos manguezais viam os siris, ostras, caranguejos e acaris. Quem ia pescar, voltava sempre com os samburás cheios e os sorrisos nos rostos.

A lenha vinha das matas. Das caçadas viam os tatus, pacas, teiús, capivaras, antas e veados. De lá também viam as jacas, abius, goiabas, araçás, tamarindos, cajás, jamelões e jenipapos. Bem como, o respeito por Iara, a rainha dos vegetais, também a mãe do aipim.

Em cada casa um fogão sempre ardendo, uma panela fervendo, algo certo para comer.

Em todo canto um tipo novo de esperança, uma oração para agradecer a Deus, uma reza para curar. Um sorriso para alegrar.

Sem muitas delongas ou adjetivos, posso afirmar uma coisa: aquele era o povo mais feliz do mundo. Ninguém ali era rico. Mas todos eram felizes. Cada um com o seu tipo de felicidade.

Não era atoa que esse lugar se chamava Banco da Vitória.

Quem nascia ali, dizia ser vitorioso e pronto para as batalhas da vida.

Muitos daqueles gentios provaram com seus suores mais quentes dos seus rostos que a vida não era fácil. Mas era realmente bela. Muito mais bela do que suas melhores saudades.

Muitos que nasceram naquele lugarejo foram felizes. Muitos. Ou melhor: quase todos.

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