Livro Banco da Vitória – A história Esquecida das Margens Vitoriosas do Rio Cachoeira. – 2ª. Edição. Nova Tiragem.

Conheça a história do Banco da Vitória, bairro de Ilhéus. Livro descreve a história dessa localidade desde o início da colonização portuguesa no Brasil, desde o meado de século XV até os dias atuais. Conheça as personagens históricas da nossa comunidade, a história da Fazenda Victória, a colonização europeia e africana das margens do Rio Cachoeira e a importância do Banco da Vitória para o fomento e desenvolvimento da Região Cacaueira do Sul da Bahia.

Resultado de mais de 20 anos de pesquisas e estudos, este livro escrito por Roberto Carlos Rodrigues, traça o perfil histórico e social da formação e desenvolvimento dessa comunidade ilheense.

Nesta 2ª. Edição foram incluídos 8 novos capítulos e 32 fotografias e registros visuais da localidade. O livro tem 190 páginas.

O livro custa R$ 30,00 e é comercializado exclusivamente em Banco da Vitória por Jair Rodrigues e professora Cremilda Santana.

No dia 11 de Novembro de 2017, das 15 às 18 horas, o autor estará em Banco da Vitória, na Praça Guilherme Xavier, (em frente à casa de Dona Lia Araújo) para autografar os exemplares.

Lembrete: Este livro não é enviado pelos Correios. Moradores fora de Banco da Vitória terão de pedir a alguém da comunidade que compre o livro e envie-o.

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Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

seiosContou-me essa história pouco antes de morrer. Fez isso, acredito, como intuito que eu desse letras a sua voz. Acreditou que eu pudesse dar posteridade as suas façanhas amorosas. Relatou tudo, do início ao fim, como quem descreve uma saga pessoal ou outra forma de heroísmo.

Naquela tarde de sábado, ele contou-me a sua maior conquista amorosa e como ele próprio sugeriu, se um dia eu escrevesse este texto, devia chamar-lhe Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Como prometi para o saudoso amigo, transcrevo aqui a história de Aderval Monteiro e sua amante Dona Ana da Conceição.

Segundo o personagem principal dessas linhas, tudo começou com um olhar e um sorriso. Um olhar dele e um sorriso dela. Aderbal era funcionário público e trabalhava na coletoria de impostos do Governo da Bahia, em Banco da Vitória. Ana da Conceição era esposa do Odilon Coutinho, comprador de cacau da firma Lord & Charmann, também instalada neste distrito Ilheense.

Havia pouco tempo da vinda de Odilon e sua família para o Banco da Vitória e em poucos dias eles tornaram-se amigos de bebedeiras e pescarias no Rio Cachoeira. Aderbal era um negro solteiro e já vivido, na casa dos quarenta anos, jamais se casou e tinha fama de namorador e bom de bola. Já Odilon era um homem branco, já beirando as sessenta primaveras, dedicado ao trabalho, mas aos finais de semanas, gostava de beber até cair. Normalmente ele era levado bêbado para sua casa, onde a esposa e a filha única o recebiam em silêncio. Era um bom marido.

Foi numa dessas bebedeira de Odilon que Aderval levou o amigo bêbado para casa. Lá chegando encontrou sua esposa lavando o quintal. A filha estava na casa de uma amiga. Dona Ana da Conceição pediu que Aderval colocasse o marido numa rede estendida no quintal. Aderval arrastou o amigo até o fundo da casa e o acomodou na rede. Dona Ana da Conceição, com as roupas do corpo ainda molhadas ajudou ajeitar o marido. Foi neste instante que Aderval percebeu que os seios da esposa do seu amigo estavam quase a amostra, por trás da roupa fina, que molhada, ficara quase transparente.

Que formosura de seios. Pensou, mas não disse. Se disse, foi só com seus olhar.

Dona Ana da Conceição percebeu o olhar invasivo do homem ao seu lado e respondeu apenas com um sorriso. Quer toca-lo. Ela pensou em pergunta-lo, mas não disse. Se disse, foi só com o sorriso. Ficaram nisso.

Aderval, quase hipnotizado com os volumes e robustez daqueles belos seios e a cor amorenada das auréolas arrebitadas, quase babou pelo canto da boca. Se conteve como quem segura um soluço.

Sem ter o que falar, falou o que primeiro veio a boa úmida e disse:

– Deus sabe o que faz. Divagou.

– Concordo. Respondeu a mulher do bêbado dorminhoco, alisando os cabelos negros e molhados.

– E como sabe. Arrematou a conversa o funcionário público e disse:

O homem está entregue. Deixe-me ir.

– Muito obrigado, seu Aderval. Disse a mulher, inflando o tórax e realçando ainda mais o volume dos seus seios molhados. E concluir: fazer o quê? Ele prefere a cachaça a mim.

– Deve ser louco. Disse Aderval, já na passagem pela sala, rumo a porta de saída para a rua. Deve ser louco mesmo. Concluiu e saiu da casa se olhar para trás. Nos seus pensamentos, martelavam todos os tipos de pecados.

Naquele resto de dia e durante vários dias e várias noites a imagem dos belos seios de dona Ana da Conceição não saíram da cabeça de Aderval. Para ser sincero, ele conseguia relembrar todos os detalhes daqueles seios mais do que do rosto de sua dona. Os seios de Dona Ana da Conceição eram verdadeiramente formosos, majestosos e opíparos. Nunca vira nada igual em toda sua vida.

Assim os descreveu: os seios dela são firmes e duros, como se nunca tivesse dado de mamar para as crianças; são morenos claros feito o bronze africano e as auréolas são escuras, firmes e pontiagudas feito os canos das lanças militares. Precisaria de duas mãos para cobrir cada seio. Mesmo assim, sobrariam ainda músculos próximos aos dedos mindinhos. Se fosse lambê-los, chupá-los e suga-los prazerosamente precisaria de no mínimo vinte e sete minutos de passeios de língua e por certo terminaria com dores no queixo. Acariciá-lo já seria um verdadeira oração a vida. Vê-los nus já seria um espetáculo. Concluiu.

Os dias se passaram e dona Ana Da Conceição, toda vez que encontrava como Aderval, sorria para ele e arrumava o calorento sutiã. Essa era a senha secreta entre eles dois.

Aderval, por respeito ao amigo, tentou tirar aquela tentação da cabeça e até chegou a evitar encontros com o amigo e sua esposa por perto. Agindo assim, acreditava estava se livrando daquele pecado.

Porém, o destino tece o seu próprio bordado e por conta dos pontos sem nós, Odilon Coutinho veio a adoecer, foi acamado e de lá jamais saiu vivo. Acometido por um severo derrame cerebral, o comprador de cacau perdeu o movimento do corpo, deixou de falar e mal-mente gesticulava com uma das mãos. Padeceu tristemente.

A filha e a esposa cuidaram do homem doente. Nos primeiros dias da doença a casa estava cheia de amigos e vizinhos. Contudo, com o passar dos dias, este sumiram e aqueles rarearam. Apenas Aderval continuou visitando o seu amigo todos os dias. Durante a semana, todos os dias, após o expediente na coletoria, ele ia visitar o amigo, contar-lhe alguma novidade do mundo do cacau ou então levar algumas frutas que recebia no seu trabalho. As sábados, Aderval ia as tardes e ficava conversando com o seu amigo doente. Aos domingos, ante de ir a missa, passava na casa do doente e tecia algum comentário incentivador com homem postado na cama.

Naquele tempo, o belo sorriso de dona Ana da Conceição perdeu a luz e olhar de Aderval evitava focar em seus lindos e volumosos seios.

Um dia, o tempo deu um nó final na rede dos dias de Odilon e este faleceu numa friorenta manhã de quarta-feira. Dona Ana da Conceição se tornara viúva. E não tinha ainda trinta e sete anos de idade.

Após o enterro do amigo, Aderval foi até a casa de dona Ana da Conceição, se despediu da viúva e de sua filha e disse que não retornaria mais lá. Não tinha mais o que fazer ali. Argumentou. Ana da Conceição entendeu a situação e vestiu-se de luto por um ano inteiro. No Natal do ano seguinte, ela abandonou as vértices pretas e como que recupera a formosura, voltou a usar seus vestidos floridos e provocantemente decotados. Tornou-se a viúva mais desejada de Banco da Vitória e invejada pelas demais mulheres casadas.

Um dia, domingo de feira, ela encontrou com Aderval e disse que queria vê-lo na sua casa naquela tarde. Ele concordou e disse que não perderia aquele encontro por nada deste mundo

A tarde de domingo ia pela metade, a rua quase deserta, quando Aderval bateu a porta da casa de dona Ana da Conceição. Nas mãos uma sacola cheia de frutas. Ela abriu a porta como quem recebe uma brisa fresca do rosto e sorriu para ele e questionou:

– Quanto tempo, em? Não sentiu saudades minhas?

– Saudade é um prato que se como em silêncio. Respondeu Aderval, sentindo o perfume daquele fêmea magistral.

– Helena, onde está. Perguntou pela filha do amigo?

– Na casa da tia. Está no Pontal, por certo, numa hora dessa passeia na beira da praia de mãos dados com o noivo. Só vem terça-feira. Entre homem. Vamos para o nosso quintal.

Ele atendeu, deu-lhe a sacola com as frutas e ela então disse:

– Toma um cana pura ou uma cerveja?

– Os dois. Disse Aderval, se dirigindo para o fundo da casa. – Vou pegar. Disse a mulher. 

Sentado numa cadeira junto a um pequena mesa, ela o serviu e disse tenho algo para te mostrar. Achou que o senhor vai gostar.

Ele sorriu como resposta de sim.

No quintal tinha um formosa goiabeira. Perto da árvore um tangue cheio de água morna. Dona Ana da Conceição tirou as sandálias, soltou os cabelos e foi até o tanque e começou a se banhar. Então questionou o homem que não acreditava no que via.

– E ái seu Aderval, conte-me as novidades?

– Deus continua justo e cumpridor das suas promessas. E por certo ouve minhas preces. Respondeu.

Ela sorriu fartamente e jogou mais um balde água sobre o corpo.

O vestido fino quase desapareceu e as formas avantajadas do seu corpo moreno resplandeceram como quem recebe um facho de luz. Aderval tocou a dose de cachaça em um gole só e depois bebericou a cerveja. Teve vontade de sorriu, mas não fez isso. Preferiu apenas olhar aquela cena, que por mais sonhada ou imaginada por ele, era muito mais bela e fascinante.

Dona Ana da Conceição continuou conversado enquanto prazerosamente se banhava. Quando por fim, terminou de banhar-se ela disse:

-POr favor, seu Aderval, pega essa toalha aí para mim.

Ele levantou e foi até a rede onde a toalha estava pendura e quando virou, a mulher mais bonita que vira em toda sua vida estava completamente nua a sua frente. Sorrindo ela disse: me enxuga, homem. Não sabe enxugar uma mulher não?

Aderval sorriu e disse:

– Faz tempo que não faço isso, mas sou bom aluno.

– Quero ver se aprendeu bem? Respondeu ela sorrindo e indo até sua direção.

– Enxuga minhas costas. Ordenou. Depois minha bunda e pernas. Deixa meus seios por último.

Não era só os seios de dona Ana da Conceição que eram formosos, majestosos e Opíparos. Ela era totalmente bela e atraente. A cor morena se estendia dos calcanhares atém o crânio. As costas eram largas, a bunda avolumada e firme. As pernas, como se torneadas em madeira de lei, seguravam o corpo de mais de sessenta quilos, os pés eram finos e delicados, a barriga rígida. Os braços eram suaves e calmos e os seios… Ah, os seios. Estes eram fartos, duros e hipnotizantes, fatais para um home de coração fraco.

Só mais belo que aquele seios. Confidenciou-me. Somente o sorriso daquela mulher, naquele rosto moreno, molhado e ávido por beijos e mais beijos.

Após enxugar o corpo daquele fêmea sem igual, Dona Ana da Conceição pegou as duas mãos de Aderval e as colocou sobre seus seios e disse: ver se consegue sentir meu coração.

Ele sorriu. Nada disse. Estava realizado. Já podia morreu. Pensou.

Por certo. Ele sentia o seu próprio coração querer sair pelos punhos.

Dona Ana da Conceição o beijou prazerosamente e ele sentiu o seu cabelo molhado molhar sua camisa domingueira.

Ela puxou ele pelo braço e levou-o para seu quanto.

Sem falar uma única palavra. Se amaram feitos loucos adolescentes e só não foram felizes para sempre porque na manhã da quarta-feira seguinte um caminhão encostou em frente à casa de Dona Ana da Conceição e levou toda a mudança. Dona Ana da Conceição se mudara definitivamente de Banco da Vitória. Foi mora em Vila Velha, no Espirito Santo, onde tinha parentes e jamais voltara ao Banco da Vitória. Para Aderval, nem deu adeus.

Aderval olhou para mim e disse:

– Às vezes eu acho que nada disso aconteceu de verdade comigo, meu amigo Roberto. Acho que foi apenas um sonho louco. Uma louca ilusão minha. Aí, quando eu lembro da minha boca naqueles belos e divinos seios, das minhas mãos naquele corpo, dos aís dela no meu ouvido. Sorriu de prazer e agradeço a Deus por ter levado meus anos, mas não ter apagado minhas memórias. Graças a Ele, isso me sobrou.

E concluiu:

– Na verdade os seios de dona Ana da Conceição não são tão formosos, ajestosos e opíparos. Eles são divinos, encantadores e magnéticos.  Loucamente Magnéticos! – isso mesmo – são magnéticos atraem olhares e irradiam tentações.

Aderval, então me olhou seriamente. Bebericou mais um gole de cerveja e disse:

– Se os seios de dona Ana da Conceição eram assim tão belos e encantadores, imagine sua vulva. Sorriu prazerosamente e concluiu:

– Aquela vulva, que mais coisa linda, gostosa e embriagante. Dei-lhe tantos beijos que até agora deve estar ainda tonta. Nem nos melhores dicionários do mais requintado idioma Latim existem os melhores adjetivos para descrevê-la.

 – Aquilo não era uma vulva, uma xoxota qualquer, uma boceta carnuda. Era uma taça de vinho morno bebida numa madrugada de inverno.

– Você já bebeu vinho morno, meu filho? Perguntou-me.

Eu respondi que não.

– Só perde em sabor para a xoxota de Dona Ana da Conceição. Tenha certeza e acredite no que digo.

– E se eu te falar que a minha amada é especialista em boquete, você acredita?

Sorri como resposta de sim.

– Ele me pegou de jeito e com sua língua morna banhou-me de beijos e mais beijos. Só não sugou a minha alma pois não chupou meu crânio. O resto, valha-me Deus. Conclui Aderval sorrindo.

Foi a última vez que eu conversei como o meu amigo Aderval. Até hoje tenho saudade dos belos seios de Dona Ana da Conceição. Mesmo, sem jamais tê-los vistos.

Que Deus o tenha, Aderval.

Gatão – O homem que enganou a pobreza.

gatão

Por Roberto Carlos Rodrigues.

O dia 21 de setembro de 2017 logo será esquecido. No próximo domingo, nem lembraremos o que almoçamos no dia que nosso amigo Gatão morreu e se despediu definitivamente de Banco da Vitoria. Edvilson Cardoso, assim como todos nós, quando da nossa partida definitiva, será lembrado por uns, – isso, por poucos dias, e com o passar dos dias, existirá apenas na lembrança de um punhado de pessoas.

Infelizmente, vivemos em tempos confusos e sem referências de amizades. Não sabemos amar nossas lendas vivas, nem muito menos as mortas. Gatão foi prova disso.

Hoje, ainda falamos da saudade que agora sentimos de Gatão. Amanhã, não saberemos, nem porque sentiremos saudade dele.

Gatão, em vida, viveu como um palhaço que levava apenas alegria sem restrições ou preconceitos. Ele nunca se queixou da sua dor, da sua vida humilde, nem jamais disse temer a morte. Viveu um dia por vez. Seus anos lhes bastaram.

Em sua franqueza existencial, Gatão brincou com suas dificuldades e transformou-as em apenas coisas imaginárias. Foi um verdadeiro mágico.

Gatão nunca quis riquezas, casas imponentes, coisas caras, crias ou qualquer tipo de bens. Apenas quis viver em um perfeito estado de poesia. Foi um poeta de poemas sem títulos. Não deixou nada escrito. Apenas a sua lembrança poderá provar sua existência.

Se amou alguém, Gatão nunca disse. Se se apaixonou, nunca demonstrou. Se tinha raiva de alguém, soube também esconder. Se teve inveja, por certo, foi apenas dos pássaros que sobrevoam os céus da nossa comunidade e por seus próprios motivos e razões, cantarolam enquanto voam.

Edvilson Cardoso viveu como um eremita urbano. Ajudando uns, ajudado por outros. Teve alguns amigos e talvez dois ou três descontentes com o seu jeito de viver. Inimigos não teve. Tenho certeza.

A sua razão de viver era alegrar as pessoas, principalmente as crianças. Destas, ele jamais se distanciou. Em verdade, ele não quis crescer e em sua mente, era apenas mais uma criança também. Foi feliz deste jeito.

Quando a vida lhe maltratou demais, ralou seus joelhos, secou suas lagrimas e feriu a sua alma, Gatão soube vencer as adversidades, criando para si um mundo prospero, porém ilusório e imaginativo. Em vez de choramingar ou reclamar dos viés do seu existir, ele vestiu-se de um personagem rico, bondoso e generoso e, como quem vive mais no palco de que na vida real, ele se vestiu deste seu heterônimo pomposo e sepultou de vez o cidadão chamado Edvilson Cardoso. Gatão ficou rico de sonhos.

Quem o via falar das suas riquezas imaginárias, podia achar que Gatão estava louco, desvariado. Mas louco ele não era nem nunca foi. Na verdade, foi muito sábio, e dentro do seu mundo imaginário, foi mais feliz do que muita gente que se acha lucida e inteligente.

Junto a Jaia, Marcelo, Fabão, Maroto , Dei, Ericarlos, Elidê, Dine, Jaqueline, Luciana, Elí, Jacy, Rita Nunes e Eu, Gatão viveu seus melhores dias. Éramos amigos inseparáveis e amávamos de forma igual e ele sempre estava no meio do nosso amor.
Mas, quem o amou mais foi sua mãe, Rosilda. Era quem o melhor o entendia.

Agora Gatão se torna saudade para algumas pessoas e lembranças eternas para outras.

O Banco da Vitoria, se tornou um lugar mais triste sem a presença da Gatão.

Apenas as crianças d’agora saberão o tamanho dessa perda.
Daqui a alguns dias Gatão será apenas saudade para alguns dos seus poucos amigos.

Talvez a sua grande lição de vida foi nos ensinar a driblar as dificuldades com imaginação e criatividade. Afinal, pelos menos, em seu castelo de sonhos ele era rico e feliz. Assim dizia.
Por certo, ele era muito mais feliz do que muitos de nós, todos escravos das nossas desmedidas ambições e tantos compromissos. Coisas, por sinal, que Gatão nunca quis tê-las.

Por certo, o milionário Gatão foi mais feliz que o cidadão Edvilson Cardoso. Ele foi sábio na louca opção. Soube driblar a vida e fez um gol no time da morte. Venceu-a de um a zero.
Do seu jeito e forma, Gatão alcançou mais facilmente a eternidade e de lá, tenho certeza, zomba de nós, – todos bobos, tolos e verdadeiramente loucos por tantas coisas que nunca nos pertencerão.

Agora a saudade de Gatão tem gosto ar. O mesmo ar que todos nos respiramos e que ninguém é dono.

O belo é saber que a morte iguala a todos seres humanos. Todos.

Banco da Vitória Abandonado.

SDC17934 - Copia

Por Roberto Carlos Rodrigues.

Como sabido por algumas pessoas, passei três semanas em Banco da Vitória e uma triste realidade me assustou bastante. A nossa comunidade está se desenvolvendo muito bem quanto aos aspectos das iniciativas privadas, com significativas melhorias nas casas e nos comércios. Porém, quanto a infraestrutura pública, como as ruas, praças e demais logradouros a situação é alarmante, para não dizer cruel e vergonhosa.

Em Banco da Vitória, nos últimos anos, diversas novas casas foram construídas e outras tantas foram reformadas. Ver-se belos pequenos prédios na maioria das ruas da nossa comunidade. Muitas residências avarandadas ostentam construções com dois ou três andares, o que identifica a melhoria da qualidade de vida da nossa gente.

Contudo, o bairro, aos olhos da administração ilheense está totalmente carente. Ruas sem calçamentos, outras esburacadas, muitas intrafegáveis. O mato tenta engolir as toscas vielas. Ver-se esgoto correndo a céu aberto em diversas ruas e principalmente perigosos buracos nas vias públicas.

A Rua do Campo está quase intrafegável. A praça Feliciano de Assis mais parece um pasto entregue as tiriricas. A antiga quadra da Rua Dois de Julho foi destruída. A Ruinha na mesma situação. Nos loteamentos, buracos gigantescos servem de fontes de intransponíveis lamaçais. No Alto da Bela Vista o calçamento está irregular e cheio de buracos. A praça deste logradouro, também jaz abandonada.

Se fosse citar as ruas com calçamentos regulares ou sem buracos em nossa comunidade, apenas duas ou três destas se salvariam. O resto é um buraco só.

Pode-se dizer claramente que não ser ver a presença do poder público em nossa comunidade, quanto aos aspectos estruturais.

Há algumas melhorias percebidas como a estrutura educacional do bairro, a manutenção do Posto de Saúde e do Posto Policial. E só.

A administração do bairro não tem nem local para funcionar e apenas dois servidores públicos varrem as ruas, um dia sim um dia não. Além disso, nada mais.

O Campo de Futebol está quase abandonado. Nas traves nem redes têm. Os muros do campo, cobertos de musgos e limos, denunciam seu distrato. Na rua São Pedro, um buraco assassino atocaia os desavisados. Na Rua da Represa um maldito esgoto corre sobre as pedras e dificulta a passagem das pessoas. No início da antiga Rua do Matadouro, uma cratera gigantesca encontra-se pronta para engolir os desavisados. Na subida do Alto do Iraque, buracos e valas abundam a via. Quando chove, o povo desse local desce segurando nos arames das cercas.
Toda essas irregularidades denunciam o abandono da nossa comunidade e ofuscam as melhorias que muita gente humilde tem feito em suas residências.

Vale frisar que por todas as ruas de Banco da Vitória ver-se novas construções de imóveis ou reformas de casas e implantações de pontos comerciais. Porém, as vias públicas estão deploráveis.

Não convêm nesse momento tentar entender a difícil situação financeira da administração de Ilhéus, nem seus entendidos argumentos e extensas explicações. Porém, quanto aos aspectos do poder público em Banco da Vitória, nada melhorou nos últimos tempos. Nada mesmo.

Posso falar isso porque visitei todas as ruas da nossa comunidade e vi, – como se dizia antigamente -, com meus próprios olhos, o descaso social.

Também não adianta culpar o eleitor de Banco da Vitória pelo descaso que ser ver na localidade, uma vez que essa mesma situação se ver em muitos bairros ilheenses. Alguns, até com dois ou três vereadores eleitos. Ou seja, o abandono público não é demérito apenas da nossa comunidade.

Uma coisa é certa: o povo de Banco da Vitória tem motivos e razões de sobra para não acreditar em nenhuma promessa de políticos. Sejam estes municipais, estaduais ou federais.

Eu endosso essa falta de fé pública e assevero que não estamos enganados com as nossas descrenças. Temos motivos de sobra para não acreditarmos em ninguém.

Banco da Vitória pena, sofre e suplica melhorias públicas e, como um mudo, apenas conversa com as pedras.

Livro: A História de Banco da Vitória. Versão 2017.

Livro: A História de Banco da Vitória. Versão 2017. Agora com 190 páginas.

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Para fazer a reserva do seu exemplar em Banco da Vitória procure a professora Cremilda Santana ou Jair Rodrigues. Os livros serão disponibilizados no dia 01 de setembro de 2017 e atenderão a ordem de reserva.

Observação: Os livros NÃO serão enviados pelo correios nem reservados pelas Redes Sociais. É necessário procurar Cremilda e Jair para receber o livro reservado.

Em Banco da Vitória foram disponibilizados 150 exemplares. Preço do livro: R$ 30,00.

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Chupa Brasa – O Temível molho de pimenta de Banco da Vitória.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

pimenta 2Como era bem sabido por todos os ribeirinhos e matreiros do sul da Bahia, as crianças de Banco da Vitória aprendiam comer pimentas assim que largavam as mamadeiras de vidro. Era comum naquela época encontrar os barrigudinhos daquelas barrancas lascando nos dentes pedaços de carne de jabá assada na brasa, lambuzada com farinha e pincelada no molho de pimenta doce – para ir treinando os buchos infantis.

Meninos e meninas do antigo Banco da Vitória comiam de tudo que pudesse passar pelas gargantas. Siris, camarões, moreia, caruru, pacas, jacarés, miolo de boi, buchada de bode, carne de pescoço de boi, enfim, comia-se de tudo, desde que fossem acompanhado de duas iguarias culinárias: farinha de mandioca e molho de pimenta.

Nos quintais das casa de Banco da Vitória não podiam faltar pés de pimentas. Eram pimenteiras repletas de Malagueta, Dedo-de-Moça, Cumari, De Cheiro, de Bode, Chapéu-de-Frade, Biquinho e Do Reino.

As pimentas temperavam pratos cozidos, assados, crus e até frutas. Uma coisa era certa: no antigo distrito de Ilhéus não se comia sem pimentas – e farinha – é claro.

Cada casa tinha uma cumbuca para fazer o molho de pimentas frescas. Dentro dos armários ficavam as pimentas em conservas e nos quintais centenas de pimentas penduradas em cheirosas e brilhantes pimenteiras.

Contudo, dos molhos de pimentas de Banco da Vitória, o mais temível era o alquímico cozido feito pela viúva dona Alzira da Beirada. O molho do capeta era chamado de Chupa Brasa e tinha motivos de sobra para ser admirado por uns e malvisto por tantos outros.

Dona Alzira da Beirada era uma pequena agricultora que nos finais de semana vendia temperos na antiga feira de Banco da Vitória e entre seus produtos estavam as famosas garrafas de meio litro com o caldo do vulcão do diabo. Era o famoso molho Chupa Brasa.

O produto era tão cobiçado que precisava ser encomendado e normalmente as 20 garrafas trazidas para a feira dominical eram logo vendidas.

O molho Chupa Brasa era famoso em todo sul da Bahia, e se dizia que mais de uma dúzia de gulosos já tinham morrido tentando provar beber uma colher cheia do tal condimento.

Zé de Lidão morrera no bar de João Ruim, depois de comer um prato de fatada regado com duas colheres do temível Chupa Brasa. Assisinho, filho do fiscal Jonatas Oliveira, foi parar no hospital, com um soluço intermitente depois de comer uma peixada também lambuzada no Chupa Brasa. Quase morreu. Dona Filomena Gouvêa quase perdeu os lábios por causas das queimaduras provocadas pelo tal molho de pimenta.

Histórias de pessoas que sofreram de dores de estômago, fígado e no ânus (provocadas por loucas hemorroidas) após comeram o tal molho de Dona Alzira da Beirada não faltavam na feira de Banco da Vitória.

A dona da receita do molho dizia para seus clientes:

– Pinga uma gota só no prato e dilui na água de limão, para não perder a comida. Esse molho é forte feito o cabrunco. Mata a sogra e sogro. Mata qualquer um que for guloso. Falava sorrindo a vendedora.

Quando perguntada sobre a receita do temível molho Chupa Brasa. Dona Alzira desconversava e dizia:

– O segredo está na quantidade exata das pimentas. São 77 de cada tipo. 7 tipos de pimentas. 539 motivos para arder e queimar as goelas. Matematizava alegremente mas não dava o segredo da tal iguaria para ser ingerido por machos com m maiúsculo.

O famoso molho de dona Alzira da Beirada não podia faltar nas mesas dos fazendeiros de Ilhéus. Muitos usavam o tal condimento para desafiar convidados para os almoços e jantares. Mas poucos comilões se atreviam ir além da dose recomendada pela feirante de Banco da Vitória.

Um dia, já tomada pela idade avançada e cansada da lida na roça, Dona Alzira adoeceu e se acamou. Os temperos foram sendo vendidos pelas filhas e netas, mas ninguém conseguia replicar a receita do molho Chupa Brasa. A freguesia domingueira da feira de Banco da Vitória sofreu com a falta que fazia Dona Alzira da Beirada e seu famoso molho, o temível e arredio Chupa Brasa.

Libório Cruz, cachaceiro e conversador dos bares e bodegas de Banco da Vitória, alardeava que sabia qual era o segredo do molho de pimentas de dona Alzira.

– Eu sei. Eu sei. Só não conto porque jurei segredo a minha madrinha. Nem as filhas dela sabem. Só eu sei. E não conto para ninguém, em respeito à minha dinda, que tá tão doente, mas nas mão de Deus. Alardeava o bêbado.

– Se eu quisesse, iria ficar rico com a receita do molho Chupa Brasa. Ia ficar bilionário. Mas, sou homem de palavra. Não conto para ninguém. Eu sei mas não conto. Não adianta perguntar. Falava o bebum escorado no balcão seboso da bodega Alvorada, na esquina da Rua do Campo.

Dona Alzira da Beirada morreu e foi sepultada numa manhã calorenta de janeiro. No mesmo dia, no final da tarde, Libório Cruz entrou na bodega Alvorada, bebeu até quase perder as pernas e por fim disse para os tantos frequentadores do estabelecimento.

– Agora que minha madrinha tá morta e sepultada, eu posso contar o segredo do famoso molho Chupa Brasa. Minha madrinha cozinhava as pimentas malaguetas na urina dela. Ela aparava o mijo da semana inteira no pinico de metal e guardava o azougue num tonel no fundo da casa e na hora de cozinhar o molho de pimentas ela regava o caldeirão com o liquido cáustico do tonel.

Era mijo fermentado o segredo daquele ardor do cão. Mijo. É mijo de velha. Esse era o segredo do Chupa Brasa. Tá revelado.

Em Banco da Vitória. Muita gente não acreditou nas revelações do bêbado Libório Cruz. Mas por via das dúvidas, nos dias seguintes, várias garrafas do temível Chupa Brasa foram jogadas fora.

A verdadeira receita e os segredos do temível molho de pimentas morreram junto a sua criadora. O Chupa Brasa saiu do cardápio daquela gente. As comidas ficaram mais doces em Banco da Vitória.

Em Banco da Vitória, não se faz mais bêbados como antigamente.


bêbado-capa

Por Roberto Carlos Rodrigues.

A aguardente é tão velha quanto a humanidade. Sempre, onde há seres humanos, existe álcool em forma de bebidas. Em Banco da Vitória a cachaça tinha diversos nomes e apelidos. Desde Fubuia, Fofa-Toba e Desdobrada, (para as canas de baixa qualidade) e até nomes pomposos como Rainha, Lágrima de Virgem e Urina de Santo para as bebidas mais requintadas, finas e caras.

Segundo relatos históricos se fabricou cachaça na Fazenda Victória por séculos e a aguardente deste local era apreciada pela burguesia do cacau.

No meio do século passado, a Cana de Ilhéus, nome da cachaça produzida na Fazenda Victória era até exportada para a Europa e Estados Unidos e somente os ricaços de Ilhéus podiam comprar e saborear essa fina iguaria etílica.

Além de fabricar uma das melhores cachaças da Bahia, o Banco da Vitória também sabia produzir bêbados famosos, problemáticos, brincalhões e alegres. Eram verdadeiras lendas movidas a álcool.

Os bebuns de Banco da Vitória tinham uma característica peculiar que era beber até cair. Beber para não embebedar não valia. O negócio era beber até cair, ralar os cotovelos e cortar os queixos. Quando isso acontecia, tinha valido cada centavo gasto na bebedeira.

Não vou citar aqui os nomes dos bêbados famosos de Banco da Vitória para não arrumar novos inimigos ou longas desavenças. Mas, em matéria de bêbados, posso afirmar que pouco lugar do mundo teve tantas celebridades etílicas, quanto a nossa comunidade.

Em Banco da Vitória, a cachaça recebia também diversos nomes, como Quebra-goela, Iaiá-me-sacode, Bagaceira, Danada, Lagrima de virgem, Remédio, Ximbica, Tira-juízo, Saideira, Lamparina entre tantos outros nomes.

Segundo Antônio de Isaías, profundo conhecedor de água azeda de cana-de-açúcar, beber cachaça é bom. Agora tem as condições de saber beber. Pois a cachaça, segundo Isaías, tem de ir direto para a cabeça e não para o estômago. Pois cana na barriga maltrata o fígado e irrita as tripas. Dizia. Já a cana na caixola deixa o cidadão tonto e principalmente alegre.

Segundo a autoridade etílica anteriormente descrita, o ruim da cachaça é quando ela vai para as pernas. Aí é queda na certa. Fica o bebedor no prejuízo.

Quando o assunto era música e cachaça, a toada Eu Bebo Sim, cantada originalmente por Elza Soares, sempre foi a trilha sonora dos bebuns locais. Por conta da exaltação do refrão desta música, muita gente partiu, em nossa comunidade, antes do combinado.

Não sei o que aconteceu com a qualidade das atuais cachaças vendidas em Banco da Vitória, pois elas não produzem mais os bêbados alegres, mentirosos e conversadores como os de antigamente.

Hoje os bebuns de Banco da Vitória são todos morfinos, preguiçosos e sem alegrias. Nem parecem que bebem para se alegrar, contar causos, mentir por não ter nada melhor para fazer.

Banco da Vitória já não produz mais cachaça, nem bêbados alegres, nem fedorentas bodegas. O negócio agora é beber a tal da breja gelada. Mas essa bebida, nem de perto, lembra um grande porre provocado por uma legítima Canjimbrina.

Afinal, todo bom porre tem sua história. E um porre azeitado na cachaça, principalmente na barata, tem uma enciclopédia inteira para relatar.

Tim-tim!

A Feiticeira de Banco da Vitória.

Pfeitiçoor Roberto Carlos Rodrigues.

O mato cobriu tudo. Onde havia uma casa branca com duas janelas azuis, existe apenas tiriricas, quaranas e calumbis. No antigo terreiro onde se dançava as umbigadas e os forrós juninos, agora passeiam carrapatos, cupins e falsas cobras corais. Quem atualmente olha para o antigo alto da Santa Clara, em Banco da Vitória, e só ver mato entre alguns lances de pastos, não imagina a linda casa que havia ali. Bem no meio do morro, com a vista privilegiada daquela localidade e do rio Cachoeira ao fundo.

Nesta casa morava dona Zumira. A famosa Madame Zu. A temida feiticeira de Banco da Vitória. A Iyalorixá do terreiro da Pomba Branca.

Os feitiços, encantamentos, bruxarias, rituais macabros e simpatias de Madame Zu eram conhecidos (e principalmente temidos) em toda a região cacaueira do Sul da Bahia.

Em Banco da Vitória, todos sabiam, quem levava uma raiva, um rancor ou uma desilusão amorosa para os ouvidos de Madame Zu, não descia o morro sem uma vingança pronta e acertada.

Os rituais de Madame Zu eram irrevogáveis. Portanto, quem procurava a famosa feiticeira de Banco da Vitória sabia que não podia voltar atrás.

Se era para aleijar, os feitiços de madame Zu aleijava e depois matava aos poucos. Se era para matar, matava logo, não apenas o condenado na magia, mais seus principais familiares e suas criações. Se era para reatar amores descaminhados, as mandigas de madame Zu faziam com que homens antes arredios e insensatos se tornarem amorosos e bestas.

Pendengas de cornos, brigas de bêbados, arruaças de vizinhos não eram aceitos como motivos dos serviços de Madame Zu. O seu negócio era dar nó cego ou desatar nós que ninguém conseguia resolver.

Dessa forma, a feiticeira de Banco da Vitória era também conhecida como a última via. Afinal, o que não achava conserto nas mandigas de Madame Zu, não havia reparo na face da terra. Acreditava-se por todos aqueles cantos.

Fazendeiros do cacau, coronéis de títulos e patentes, altos funcionários públicos, intendentes, delegados, renomados advogados e médicos e principalmente as mulheres dos donos do cacau, eram fregueses assíduos de Madame Zu.

Tinha fazendeiros que não semeavam uma única semente de cacau sem antes consultar Madame Zu. Outros, na hora de comprar novas terras, consultava primeiro a feiticeira de Banco da Vitória. Sem seu aval, nada feito.

Uns, apaixonados pelas mulheres alheias, recorriam as mandigas de Madame Zu para favorecer a morte do marido da pretendida, depois apodera-se da linda viúva. Normalmente isso surtia efeitos.

Em Banco da Vitória e nos quinhentos quilômetros de raio se sabia da fama e dos poderes alquímicos de Madame Zu. Feiticeira igual não havia em toda a Bahia, quiçá no Brasil.

Contudo, havia um grande mistério que rondava a casa branca com janelas azuis que ficava no meio do Alto da Santa Clara e principalmente sobre a origem da sua proprietária.

O mistério era: de onde vinha tanto poder em uma única pessoa?

Ninguém jamais soube responder esta pergunta.

Da senhora septuagenária pouco se sabia no distrito de Banco da Vitória. Uns diziam que Zumira era nascida em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo bBaiano. Outros argumentavam que ela era oriunda de Poções, na boca do sudoeste baiano. Outros, ainda mais criativos, diziam que Madame Zu tinha nascido em Ouro Preto, em terras mineiras.

Uma coisa era certa: Zumira dos Santos Santana, a famosa Madame Zu de Banco da Vitória não era deste mundo. Era do mundo dos espíritos e dos encantamentos.

Madame Zu pouco descia o morro do Alto da Santa Clara. Malmente andava nas ruas de Banco da Vitória ou ia ao centro de Ilhéus em raras ocasiões. Isso somente ocorria quando das procissões de São Jorge, dos festejos de São Sebastião ou da festa de Nossa Senhora da Conceição. Contudo, no dia 6 de janeiro, madame Zu ajuntava sua gente e iam no meio da noite se banharem no mar de Ilhéus. Festejava na data dos Reis, seu aniversário.

Na casa branca com janelas azuis, mas de vinte pessoas cuidavam dos seus interesses e necessidades. Eram abiâs, iaôs e ebômis resignados e seguidores da velha feiticeira.

Olhos pretos e miúdos. Rosto rígido e carismático. Sorriso meio escondido, mas fascinante. Corpo franzino e firme. Pele negra feito a noite. Olhar penetrante, voz profunda, calma e séria. Assim era Madame Zu. Sempre vestida de branco com seus dois grossos colares azuis pendurados no pescoço e na mão direita o terço de nossa senhora. Não chegava a ter 50 quilos em seus um metro e sessenta e quatro de altura. Mas tinha autoridade de gigante.

Os feitiços que Madame Zu fazia não podiam ser desfeitos. Os que ela desfazia, matava seus ordenadores.

Madame Zu chegara ao Banco da Vitória no início dos anos sessenta. Trazia em mãos o comprovante de compra do terreno no meio da ladeira do alto da Santa Clara e uma mala cheia de dinheiro. Em pouco tempo ergueu sua casa branca no meio da mata e começou suas atividades de feitiçaria. Em menos de dois anos já era famosa em toda região cacaueira e tinha súditos em diversas cidades do sul da Bahia.

Madame Zu era festeira. Nos festejos de Cosme e Damião o caruru era servido para mais de duas mil pessoas. Nas festas Juninas o forró durava quase quinze dias e, no dia do seu aniversário, matava-se um boi para o churrasco.

Um dia Madame Zu adoeceu e ficou de cama por longas semanas.

Levadas aos principais médicos da região, nada foi constatado, a não ser um mal-estar que acometia a velha feiticeira. Da cama a velha feiticeira não levantou mais até aquela segunda-feira, quando pediu para ser levada para a frente da sua casa. Queria contemplar a bela paisagem às margens do rio Cachoeira. Foi atendida.

Enfrente a casa branca com duas janelas azuis, madame Zu falou apenas com Cândida Lázaro, sua principal baba kekere. Deu duas ou três ordens a ela, depois pediu um gole de água. Uma das suas iaôs foi até a cozinha para atender seu pedido. Quando a iaô voltou com a caneca de porcelana com a água, madame Zu já não estava mais no mundo destes vivos. Estava de volta ao mundo dos encantamentos. Padecera em paz.

O corpo de Madame Zu foi purificado com água corrente e incensos. A pemba branca cruzou seu corpo, na testa, na garganta e nas costas das mãos. O óleo de oliva consagrado foi derramado sobre seus pés descalços. Borrifaram essências e óleos aromáticos sobre seu corpo e por fim encomendaram seu espírito.

O velório foi restrito aos amigos e as autoridades de todos os portes e quilates da região.

Naquela noite a falecida foi apresentada no meio do terreiro. Cantos de Oxalá e Obaluaiyê, hinos de Umbanda foram ouvidos até o nascer do dia, quando as danças de Iyamoro se findaram.

No final da tarde daquela terça-feira Madame Zu foi sepultada no cemitério de Banco da Vitória. Era agosto de 1989.

Madame Zu não conheceu a outra feiticeira mais poderosa, – mil vezes mais poderosa que ela, que chegara ao sul da Bahia ainda naquele ano. Essa outra feiticeira chamava-se Moniliophtora perniciosa, mas ficou conhecida em toda aquela região como Vassoura de Bruxa.

A bruxa em si, dessa praga que quase dizimou a lavoura cacaueira do sul da Bahia, nunca botou os pés em solos grapiúnas. Por aqui esteve apenas sua vassoura e seus estragos.

Madame Zu foi facilmente destronada do cargo de maior feiticeira do sul da Bahia. Atualmente a vassoura de Bruxa continua fazendo mandigas, feitiços e ebós que ninguém consegue desfazer.

Os poderes de Madame Zu se dizimaram com o tempo e onde havia uma casa branca com duas janelas azuis, o mato cobriu tudo e só ser ver apenas tiriricas, quaranas e calumbis.

Até seus súditos se perderam no tempo.

De Madame Zu só ao mais velhos se lembram e, em Banco da Vitória quem atualmente dar as ordens nos terreiros de umbanda é uma Axopí, muito famosa, chamada Saudade.

Toinha das Flores – A Drag Queen de Banco da Vitória

drag queenPor Roberto Carlos Rodrigues.

Até 28 de março de 1987, Antônio Espíndola dos Santos era conhecido em Banco da Vitória como Toinho de Dona Filomena. Naquele ensolarado e úmido sábado, exatamente as 15 horas Toinho morreu para sempre, como ele mesmo dizia. Neste mesmo dia e horário nasceu Toinha das Flores, a primeira Drag Queen de Banco da Vitória. Tinha 19 anos de idade.

Toinho era um rapaz na flor da idade. De cútis clara, se diferenciava facilmente entre os moradores de Banco da Vitória. Era alto, de pernas e braços compridos, cabelos louros e finos, olhos azuis e nariz e lábios finos. Tinha traço dos povos nórdicos. O pai era um marinheiro norueguês, que aparecia de vez em quando no porto de Ilhéus, engravidava uma nativa e depois sumia. Sua mãe, Filomena, era morena alta a formosa, de traços caboclos e cabelos negros. Dessa junção de sangues nasceu Toinho, mais lindo que uma menina, por certo, uma menina num corpo de menino.

Toinho, ou melhor, Toinha das Flores resolveu naquele dia liberar geral, externar seu lado feminino, mostrar-se poderosa e alegre. Assumir sua sexualidade e dar um foda-se para quem tinha preconceitos e ares de homofobia.

Vestida em longo vestido florido e dançante, atada a cintura com uma fita vermelha de cetim, nos peitos (ou melhor nos seios) um sutiã amarelado à amostra, nos pés uma sandália dourada de salto alto, na cabeça um lindo chapéu primavera e nos braços um lindo buquê de flores. Eram lindos e alvos lírios do campos – dignos das divas do cinema. Rosto maquiado, nos lábios batons do vermelho mais carnal, nos olhos sombras azuladas e na boca, sorrisos e mais sorrisos.

Como um furacão que chega sem avisar Toinha das Flores, vestida de mulher estonteante, saiu da sua casa que ficava na Rua Duque de Caxias e desfilou pelas ruas de Banco da Vitória distribuindo beijos e flores para ao atônitos moradores das barrancas do Rio Cachoeira. Vestiu-se assim até morrer.

– Gente, cheguei! – Gritava no meio das ruas. Depois gargalhava gostosamente e adentrava as casas das conterrâneas e amigas, onde distribuía flores e beijos. Logo atrás de Toinha das Flores vinha o bêbado Epifânio Calunga empurrando um carro de mão cheio de flores, que abasteciam os braços da nossa personagem.

– Só estou empurrando o carro – Advertia Epifânio – Tô sendo pago pelo serviço. O xibungo é ele. Falava o bêbado eximindo de possível associação com a nossa Toinha das Flores.

– Vala-me Deus! – Disse dona Isaura, na janela da sua casa. O que aconteceu com esse menino. Será que perdeu o juízo? Argumentava perante o marido Juvenal que assistia aquela cena inusitada.

– Nossa senhora da Conceição que tenha compaixão desse ser. Disse a beata Lurdinha, filha de seu Ademar do armarinho Estrela Dalva, enquanto se benzia e beijava seu velho crucifixo.

– Eita! Tem carne nova para os papacus de Banco da Vitória. Disse sorrindo Elzo de Santinha, encostado no balcão do Bar de Xisto Gomes.

– Amores, meus amores, eu estou aqui! Cantarolava Toinha das Flores enquanto literalmente desfilava pelas ruas de Banco da Vitória.

– Novidade! Disse dona Terta, sentada na sua cadeira de balanço, na varanda da casa azulada. – Eu sempre soube que esse menino era invertido. Esse queima rosca, baitola do cão sempre foi afeminado. Os parentes que não queriam ver. Agora ele vai envergonhar a família inteira.

Indiferentes das críticas, Toinha das Flores continuou sua caminhada pelas ruas de Banco da Vitória e quando voltou a sua casa encontrou sua mãe nas mãos das amigas. Dona Filomena tomava água com açúcar para acalmar o coração.
– Mãe, disse Toinha, – aquieta seu coração, pois o meu está radiante, feliz e vibrante. Hoje eu sou o que sempre fui. Morre Toinho, nasce Toinha das Flores. Uma coisa é certa: aquele menino ali da foto na parede estava aprisionando esta moça linda aqui. Hoje eu sou o assunto mais falado neste povoado. E daí? Quem vai pagar nossas contas? Que dane-se todos! falou enquanto entrava na cozinha da casa.
Não demorou e se sentiu o cheiro de pano queimado no fundo do quintal.

– Enlouqueceu de vez. Disse a mãe choramingando. – Oh meu Deus, vão lá no quintal ver em que este menino está tocando fogo. Pediu Filomena para uma vizinha.

No fundo do quintal, perto do pé de mamão, Toinha tocava fogo nas roupas de Toinho. – Adeus cuecas, venham coloridas calcinhas. Adeus bermudas, venham saias rodadas. Adeus calças, que venham vestidos. Cantarolava Toinha enquanto nutria o fogo com as peças de roupa.

Mas nem tudo foi festa e flores nos dias seguintes de Toinha em Banco da Vitória. Primeiros se ouviram os escárnios escondidos, depois os palavrões e xingamentos públicos. Alguns moleques jogavam pedras em Toinha. Teve até quem jogasse bosta na nossa personagem. Há quem diga que Toinha foi até ameaçada de morte. Tudo isso foi pouco até o susto que ela tomara numa noite de agosto.

Numa noite, atraída pelo suposto amante, Toinha se dirigiu até o local do encontro marcado. Era noite velha, já no segundo sereno da madrugada. O local distante e silencioso. Perto da antiga pedreira da Cerâmica Vitória. Ali, local de amores escondidos e traições de casais.

Como quem andava sobre flores umedecidas, Toinha se dirigiu até o homem que a esperava envolto da nebrina. – Tira a roupa. Disse o homem no meio da escuridão. Toinha sorriu e atendeu a ordem. Tentou acariciá-lo. Mais não pode. Sentiu uma fisgada na costela esquerda. Um frio repentino por todo o corpo. A escuridão nos olhos, o silêncio eternos nos ouvidos. Já não estava mais entre nós.

Acharam o corpo de Toinha das Flores no dia seguinte. Logo cedo, uma lavadeira de nome Luiza Morão foi pegar água na bica da cerâmica Vitória e deparou com a cena macabra. Toinha das Flores morta no meio de um tapete de flores de malmequer. Uma flor pálida entre as flores amarelas.

Um grito no meio do mato. O balde d’água caído ao chão. Uma carreira trilhada pelo choro.

O povo logo acordou e foi ver Toinha morta. O Banco da Vitória entristeceu de vez. O nome Antônio Espíndola dos Santos foi descrito no atestado de óbito. O enterro comoveu todo o povo do lugar e naquele final de tarde Toinha das Flores foi sepultada sobre aplausos, choros e tristezas.

O assassino de Toinha das Flores jamais foi descoberto. Pode ser que ele ainda esteja anônimo entre nós. Somente Toinha das Flores soube quem a matou. Somente ela e as flores dos malmequer que ainda adornam as pedras da Cerâmica Vitória.

Mas Deus sabe quem fez esse terrível ato contra a alegre e estonteante Toinha das Flores e, somente Ele poderá julgar e perdoar. Como sempre, Deus agirá no seu tempo.

Toinha das Flores foi a primeira Drag Queen de Banco da Vitória. A primeira e única.