Não se faz mais cachaceiros como antigamente – #2

Por Roberto Carlos Rodrigues

Com todo o respeito aos biriteiros, cachaceiros e cervejeiros da atualidade, posso afirmar que muitos desses alisadores de berços de copos americanos, nem se comparam aos bebedores de antigamente.

Em Banco da Vitória, há uns trinta e poucos anos, havia sim um respeitado grupo de comedores de água que passarinho não bebe. Havia uns cabras de coragem do cão. Negos que bebiam de um só gole um litro de destilada e depois nem cuspia no chão. Gente que bebia cachaça com cobras em infusão. Cachaceiros profissionais.

Jaracuçu, cobra-coral verdadeira, jararaca, cascavel, surucucu pico-de-jaca e cobra-cipó eram encontradas em infusões alcoólicas em todas as bodegas da nossa comunidade.

Havia também infusões de escorpiões, aranhas caranguejeiras, lacrais, centopeias e marimbondos.

Os apreciadores dessas infusões venenosas diziam que cachaças com cobras em conservas eram verdadeiros elixires. Curavam de tudo, desde tuberculose a reumatismos. 
Clareavam a vista e combatia a diabete. Restauravas a tesão e debelava o impaludismo.

Havia em Banco da Vitória uns biriteiros que a cada dia, antes de tomar uma cerveja gelada, queimavam as goelas com uma dose de cana com cobra dentro.

Hoje em dia, só temos bebedores de cerveja gelada e raros são os amantes do conhaque Cinco Estrela ou do queima-peito chamado de Rabo de Galo.

Atualmente em Banco da Vitória não se encontram mais nem cachaça com charangueiros dentro. Quiçá, sapos, gias, calangos e lagartixas.

Beber cerveja gelada é fácil. Quero ver mesmo é beber uma cana com uma Pico de Jaca na conserva há mais de três anos.

Tenho vergonhas desses bebedores medrosos de hoje em dia.

Oh! Saudade danada dos cachaceiros de antigamente.

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O Bebê e o Garçom.

LIVRO: NÓDOAS ESCARLATES DO CACAU – ROBERTO CARLOS RODRIGUES
Prólogo escrito por Geraldo Silveira Goulart para o meu livro inédito Nódoas Escarlates  do Cacau.

Por Geraldo Silveira Goulart

No final da década de setenta do século passado fui morar no Rio de Janeiro, na Guanabara. Um choque cultural. Tudo lindo, tudo imponente, tudo diferente, moderno, brilhante. Como bom tabaréu de Ilhéus e me sentia maravilhado. Bairros diferentes e do tamanho de minha cidade, uns mais populares, outros mais chiques. Copacabana, Ipanema, Leblon… Cada um mais chique que outro. Leblon era… digamos… a Monte Carlo brasileira.

Um domingo meu irmão me falou que nós iríamos almoçar na casa de um amigo dele. – Coloque sua melhor roupa, sentenciou. Depois de uma checagem no meu visual e uma série de instruções comportamentais, nos dirigimos ao Leblon. O amigo morava na Delfim Moreira, apartamento de esquina, de cara para a praia. Muito, muito chique.

Chegamos, subimos e entramos em um apartamento imenso, lindo, palaciano. O amigo era amigo antigo, de Ilhéus. O apartamento era fruto da riqueza do cacau. Eu fiquei olhando, meio embasbacado, a sala imensa, piso de tábua corrida, sinteco que parecia um espelho, móveis de grife salpicados aqui e acolá. O lavabo era todo brilhante, espelhado, toalhas felpudas, sabonetes coloridos, papel perfumado. Quase não consegui verter minha urina plebeia naquele nobre vaso. Enquanto estava na sala, olhando a linda vista da praia do Leblon, um bebê engatinhava pela sala. – Quem é, perguntei. Era o filho do amigo de meu irmão, um neto das árvores dos frutos de ouro. Fiquei olhando, e brincando com a sortuda criança eu ia à praia no Leblon, passeava em carro importado e tinha duas babás. Guardaria na memória aquele domingo, aquele apartamento, aquele bebê.

O tempo passou, estudei, casei, trabalhei, fui morar nos Estados Unidos.

Quase duas décadas depois eu estava de volta ao Brasil, de volta a Ilhéus. Mudando de vida, mudando de ares, o bom filho a casa retornava.

A região estava em pânico e quase falida. A famigerada vassoura-de-bruxa havia chegado á região cacaueira dizimando fazendas e fortunas indiscriminadamente. Cidades definhavam, empregos desapareciam, uma legião de esfomeados se deslocava para Ilhéus e Itabuna. CRISE, na mais vil de suas definições.

Apesar disso o turismo ainda atraia gente, e outra novela da Globo havia novamente posto a cidade em destaque nacional. Abri uma pequena pousada e comecei vida nova.

Um dia meu irmão me chamou para comer uma pizza. Uma pizzaria havia inaugurado e ele havia provado e aprovado. Fomos então comer a pizza e conversar sobre a onipresente crise. Um jovem garçom muito educado nos atendia. Rápido, cortês e prestativo era o oposto dos garçons normalmente encontrados na cidade. Após servir a pizza ele perguntou a meu irmão se queria mais alguma coisa: – Mais alguma coisa, tio? Tio? TIO? Estranhando, perguntei a meu irmão. Ele olhou para mim e perguntou se eu não reconhecia o garçom. Neguei. Então ele explicou quem era.

Era ele, o bebê que eu vira engatinhar, quase duas décadas antes, naquele fantástico apartamento de frente para a praia do Leblon, Monte Carlo brasileira.

Julho 2017

Descanse em paz meu amigo Geraldo.

Triste, recebo a notícia do falecimento do meu amigo Geraldo Silveira Goulart, biomédico do Médico Center. Conheci Geraldo na década de noventa e juntos implantamos um escritório de consultoria em uma sala em cima da Biboka, no centro de Ilhéus. Juntos atuamos por vários anos em dezenas de empresas do sul da Bahia.

Geraldo era um intelectual apurado e de alto senso crítico. Dormia, acordava e vivia sobre livros de diversas áreas do conhecimento humano. Sua inteligência, acima da média, dava-lhe facilidade de discorrer com autoridade sobre diversos assuntos e temas.

Era também um exímio cozinheiro e um defensor ferrenho dos animais. Adorava cães gatos.

Hoje se cumpre uma das suas profecias: Geraldo jamais ia a velórios ou sepultamentos. Costumava dizer que não iria nem para o seu próprio enterro. Tinha razão. Será dignamente sepultado por seus familiares.

De perdas em perdas, a nossa Ilhéus vai perdendo, ao poucos, o brilho da verdadeira intelectualidade.

Geraldo Goulart faleceu no hospital Costa do Cacau, onde tratava de problemas causados pela diabetes.

Descanse em paz meu amigo Geraldo. Siga a luz.

Dicionário de Banco da Vitória – Versão 2018

Conheça as expressões e palavreados que os antigos moradores de Banco da Vitória utilizavam, no século passado. Baixe aqui a versão gratuita deste livreto: http://bit.ly/2D1keWnb

Dicionário de Banco da Vitória

Pequena Crônica Ilheense

Por Roberto Carlos Rodrigues

CACAUEm Ilhéus, no século passado, abaixo de Deus, o cacau reinava e comandava. Nem Satanás ousava aparecer por aquelas bandas. O chocolate, com seu gosto adocicado era apenas uma mistura de suor com vaidades e mais umas gotinhas de ilusões. Bebida dos deuses, colchões dos coronéis. Incentivador de sonhos de todos os quilates. O povo marrom dos berços carnudos vivia sorrindo, como quem vive em num sonho sem fim que se sonha acordado. Tudo era belo, possível e ao alcance dos dedos. Uns eram ricos de fato. Outros, de conversas. Quem nascia em Ilhéus era, de alguma forma aparentado com os frutos de ouro. Uns eram filhos, outros irmãos, tios, netos, primos, avós. Apenas o trabalhador rural era vizinho distante. Muito distante. Riqueza por todos os cantos. Progresso pelos ares. Mansões, castelos, talheres de prata todos os dias nos almoços e nas jantas. Na cidade, fábricas e grandes lojas por todas as ruas. Empregos e oportunidades por todos os ares. Um dia, uma bruxa apareceu por aquelas plagas. A velha desgraçada, montada na sua vassoura feita de galhos secos de cacaueiros, açoitou os ares daquele lugar por toda a noite e disseminou sua peste pelos quatro cantos do território da antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus. O cacau quase morreu. Definhou nos galhos. Apodreceu no chão. Nem semente teve para manter a linhagem. Quase sumiu. O povo do lugar, sofreu mais que as roças de cacau queimadas pela peste da vassoura de bruxa. Uns morreram de desgostos, outros de raiva. Os mais fracos se mataram, os mais fortes fugiram. Ilhéus, a antiga princesinha do sul da Bahia, se contentou com posto de dona de pousada e agora vive de suas velhas lembranças e dos seus belos horizontes. O cacau que antes era quase um deus para aquele povo, agora é apenas um macumbeiro sonhador que dizem que anda fazendo milagres por aquelas bandas. De ebós e mandingas, de rezas e patuás, há quem diga que em algumas roças, um novo cacau cresce e floresce, viçoso e cheiroso, iguais seus tataravôs no início do século passado. Há quem não acredite nisso e diz que os novos frutos dos cacaueiros são adubados com novos suores, novos rostos. Só isso. Em Ilhéus, no início deste século, abaixo de Deus, o cacau não reina nem comanda. Mas ainda faz muita gente sonhar. Principalmente, os que não são filhos desta terra.

Livro grátis – Cabo Jonas – A lenda Vive.

CABO 2

A lenda de Banco da Vitória e Pontal, Cabo Jonas agora tem suas estórias e causos descritos em forma de livreto. Leia, divulgue e divirta-se. Mais uma produção da Editora Samburá Cultural – Distribuição Gratuita.

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Salve Eliodoro!

paperbackstack_511x457 (1)Por Roberto Carlos Rodrigues

Quem não tem o que fazer, normalmente inventa confusão. Foi exatamente o que aconteceu naquela tarde agostina em Banco da Vitória. Duas horas da tarde, no céu um sol adoentado nem secava nem ardia. Apenas brilhava opaco. Das beiradas do rio Cachoeira vinha um vento frio e preguiçoso. Sem soprar, nada varia. Apenas esfriava as juntas dos velhos adoentados. Debaixo do sol estava gostoso ficar. Algo morno por ali. Nas sombras das árvores, um frio traiçoeiro e rasante. Foi exatamente neste ambiente insosso que a confusão começou.

Em frente a venda A Visqueira apenas três desocupados se fingiam de fregueses. Eram Cabo Jonas, Tonho Silibrina e Gazula. Um ônibus da Sulba parou na beira da rodagem. Dele desceram Seu Onofre, Dona Adélia, (sua esposa) e Zito Costureiro. Vinham de Itabuna. Os três, como se morassem no mesmo teto, cruzaram a Rua dos Artistas ao mesmo tempo. Quando seu Onofre passou bem em frente à Visgueira, Tonho Silibrina saudou o senhor:

– Boa tarde seu Onofre. Como vai Eliodoro? Boa tarde Zito. Tudo bem?

Seu Onofre fez que não ouviu e não respondeu nem a saudação nem a indagação. Dona Adélia, fez cara feia, fungou e disse algo para o marido. Ambos continuaram andando, sem olhar para os clientes da Visgueira. Zito respondeu uma boa tarde em murmúrios.

Ninguém sabe o que aconteceu na casa do casal nem o que eles lá conversaram. Só se sabe que em menos de dez minutos seu Onofre apareceu na frente da Visgueira com um facão nas mãos e tentou golpear Tonho Silibrina. Tonho pulou para o meio da rua com um tamborete nas mãos e se defendia dos golpes do pano de zinco.

– Calma seu Onofre. Dizia Tonho enquanto pulava e se defendia dos golpes da arma branca. O dono do facão não sabia usá-lo como arma. Malmente para descascar coco.

– Eliodoro, né! Quem você quer saber como está? Então eu vou te mostrar. Vou abrir um buceta na sua cara já já, seu filho de uma égua.

O negro Gazula entra no meio da briga. Toma o facão de um. Arranca o tamborete da mão do outro. As mulheres das ruas gritam em coro misericórdia! Alguns maridos vêm socorrer seu Onofre, que agora com um pedaço de bambu tenta golpear o sorridente Tonho Silibrina.

– Você tem de mim respeitar, seu xibungo da peste. Gritava seu Onofre. Tenho idade de ser seu pai. Vagabundo. Agora você fica com essa safadeza de ficar me perguntando como está meu Eliodoro. Você agora é quem manda no meu cu, é? Eu vou te lascar todo. Gritava o sexagenário, pulando com um pedaço de bambu nas mãos.

Tonho, mais sorridente ainda, dizia em tons de zombaria: – segura o homem, pois ele está nervoso. Tá com sangue quente. Segura o sergipano…

A turma-do-deixa-disso ataca novamente pelo meio da briga. As vizinhas de Onofre segurando o brigão. A confusão foi logo desfeita e levaram o pobre seu Onofre para casa, onde deram-lhe água com açúcar para acalmar os nervos. A facão foi devolvido para seu Edílio, vizinho de Onofre que advertiu:

– Isso não é coisa de homem, Tonho. É coisa de moleque safado. E saiu bufando com o facão do vizinho nas mãos.

Cabo Jonas que só assistia a briga. Por fim se levantou do tamborete pintado de azul e disse para Zé Birro, balconista da Visgueira:

– Menino Zé dos Birros, por obséquio, me empresa uma caneta para eu poder fazer uma anotação aqui. O balconista atendeu o pedido de mestre em oliotria e viu quando este se dirigiu para o Tonho Silibrina e o indagou:

– Toinho, por gentileza, como é mesmo esse sinônimo de cu que você falou para seu Onofre?

– Eliodoro. Disse o brigão se ajeitando no tamborete. Eliodoro é como povo lá do meu sertão chama o cu. Isso, cu de rico, pois cu de pobre chamam de Bozó ou Arruela.

– Eliodoro. Eliodoro. Gostei deste sinônimo cusístico. Vou anotar e colocar na minha lista de nomes de cus.

– Ora! ora! Disse quase gritando Gazula: Não me diga que o senhor tem uma lista com os nomes que os cus têm?

– Tenho sim Gazulinha. Respondeu Cabo Jonas e continuou: Tenho uma lista com quase trezentos nomes que dão aos cus por todos os cantos desta terra. Chamam o sofrido por aí de: Anel, Aro, Ânus, Bufador, Caçapa de Rola, Cagador, Fedegoso, Fiofó, Ás de Copa, Franzido, Forever, Mealheiro, Olho Cego, Orifício, Pisca-Pisca, Parreco, Rabeta, Revertério, Rêgo, Roscoif, Sublitório, Tarraqueta, Tuba, Tripa-gaiteira, Tubi, Tubo Bufalínico, Tuzinho, Veia Cagafetânea, Zé de Boga, Zerefino e até Forebis, como diz o nego Muçum. Agora vou incluir na minha lista esse novo nome. Eliodoro. Gostei! Nome de cu de gente rica e requintada. Eliodoro. Conclui.

Depois Cabo Jonas devolveu a caneta para o balconista da venda, se despediu da turma e se dirigiu para sua casa. Bem em frente à Rua da Palha, Cabo Jonas olhou assustadoramente para a rua e gritou:

– Foge Tonho Silibrina. Onofre vem ali correndo por aqui com um trinta e oito na mão. Foge para não morrer agora!

Tonho Silibrina, se levantou com o grito assustador e fugiu para dentro da Visgueira. Nas esquinas das ruas, Cabo Jonas sorria e zombava do cabra froixo. Instante depois Tonho Silibrina saiu da venda e viu que era tudo brincadeira de Cabo Jonas. Antes de sentar-se novamente, Tonho gritou:

– Vai tomar no cu Cabo Jonas!

Cabo Jonas, já do outro lado da pista respondeu sorrindo e gritando:

– No cu não! E arremeteu: O meu ânus agora se chama Eliodoro. E me respeite, seu sodomita impolido.

Sodomita Impolido é a sua mãe! Respondeu Tonho Silibrina. 
Nem ele nem Gazula nunca souberam o que significava aquela frase.

Melhor assim.

Zezinho Sem Cotovelos

Por Roberto Carlos Rodrigues.

DOR 56Só Deus sabe o destino que levou Zezinho Sem Cotovelos. Há quem diga que ele mora no bairro de Monte Cristo, na vizinha cidade de Itabuna, onde é pequeno comerciante. Outros dizem que ele voltou para Santa Brígida, sua terra natal, no tórrido sertão baiano, já quase na divisa do estado de Pernambuco, onde continua trabalhando com gado. Uma coisa é certa: de Banco da Vitória Zezinho sumiu para sempre.

Zezinho sem Cotovelos era freguês vezeiros dos bares de Banco da Vitória. Ali tinha diversos amigos, dois ou três admiradores e um renca de desafetos. Zeferino Francisco do Santos era vagueiro de uma fazenda do outro lado do rio, nas bandas da Vila Cachoeira. Ele era um homem pequeno, branquelo, do rosto fino e cabelos escorridos. Os olhos eram miúdos, pareciam com olhos de pássaros. O bigode fino cobria-lhe os lábios avermelhados e ressecados. O sorriso era amarelado, herança dos anos e mais anos do cigarro na boca. Vestia-se sempre com indumentárias de vaqueiro. Na cinta trazia sempre um facão amolado. Na bota de couro, escondia o punhal com cabo de osso. Nas costas, cruzava-se o rifle de repetição e no bornal, escondido debaixo dos panos, o revolver trinta e oito e mais um punhado de balas. Zezinho sempre andava no lombo de uma mula marrom e arruaceira. Gostava de galopar.

Em Banco da Vitória Zezinho sem Cotovelos nunca deu um tiro ou matou alguém. Mas havia quem acreditasse ser ele criminoso lá nas bandas por onde nascera e que encontrara um bom refúgio sendo vaqueiro numa fazenda do sul da Bahia. No povoado, era pacifico e brincalhão.

Era amigo dos cachaceiros do povoado de Banco da Vitória e de vez em quando jogava futebol com seus pares. Conhecia todos os donos de bodegas da localidade e todas as sextas-feiras se refugiava em Banco da Vitória, onde se divertia, bebia como os amigos e dançava nos cabarés da localidade. Ali se sentia em casa.

Dizia ser solteiro. Não tinha esposa nem filhos. Vivia na casa da fazenda e só tinha amigos em Banco da Vitória. Aos domingos, Zezinho sem Cotovelos gostava de passar o dia nas margens do rio Cachoeira, onde fazia assados, cozinhados e pescarias. Todas, obviamente, regadas a garrafas de cachaças. Foi exatamente em um domingo ensolarado de março que Zeferino Francisco do Santos se tornou Zezinho sem Cotovelos.

Acompanhados dos seus amigos de farras e bebedeiras, Zeferino foi para as correntezas do Rio Cachoeira onde pretendia passar todo o dia de domingo. No local onde hoje se ver erguida a ponte para Maria Jape, aos fundos do convento das freiras, havia uma grande corredeira de pedras escorregadias, onde a água do rio Cachoeira descia fazendo barulho nas pedras. A profundidade neste local não passava de meio metro e as barragens de pedras servia para fazer uma grande piscina na parte de cima do rio. Ali, no meio das mornas correntezas, estava Zeferino com seus amigos de bebedeira quando o pior aconteceu.

Zeferino estava se banhando na parte rasa da correnteza, com o corpo submerso e somente a cabeça do lado de fora da água quando sentiu algo se enrolar ao seu corpo. É uma cobra. Pensou rapidamente. Realmente era uma cobra. Uma cobra grande. O amarelinho tentou se levantar das pedras escorregadias e não conseguiu. Quando ficou de joelhos sobre as pedras. Perceber que realmente era uma cobra enrolado no seu corpo. Zeferino dei um grito tão grande que no dia seguinte, o morubixaba Garapa disse ter ouvido lá nas bandas do matadouro. Osório, disse também ter ouvido o mesmo berro lá no meio da ladeira do Alto da Bela Vista.

Quando conseguiu se levantar nas pedras escorregadias, Zeferino viu que a imensa cobra se enrolara nas suas pernas, pelo seu tronco e pescoço e que a cabeça da serpente estava entre suas mãos firmes. Gritando igual um condenado, Zeferino caiu nas pedras escorregadias, enrolado na cobra. O dois desceram as corredeiras do Rio Cachoeira entre mergulhos e gritos. A cobra tentando morder o rosto de Zeferino e este tanto deslaçar a víbora do seu corpo.

– Pega a facão! Gritou Bigode, parceiro de bebedeira de Zeferino.

– Pega um pau da cerca das freiras. Gritou nego Nide. Idem.
Vamos socorre o homem. Gritou Zé Amarelinho. Idem.
Mas a luta era particular entre Zeferino e a cobra molhada e juntos eles desceram se ralando pelas pedras, tomando solavancos e caldos. Fazendo espumas, remexendo o leito do rio. Derramando sangues entre as tocas dos pitus e calambaus.

Cento e oitenta e oito metros abaixo, quase perto da Pedra de Guerra, a cobra por fim largou o assustado Zeferino e desceu o rio Cachoeira. O vagueiro destemido, todo estropiado e azougue, foi socorrido pelos amigos e levado para a areal do porto de Ares. Ali descobriram que Zeferino estava com o rosto todo machucado das dentadas da cobra assassina. Tinha perdido um dente, a bermuda e os couros dos cotovelos.

– Era uma jiboia. Disse alguém. Não é venenosa não. Morde mais não mata. Não tem peçonha. Conclui o alguém.

– Traz a cachaça para queimar os ferimentos. Disse Bigode e foi atendido. Zeferino tomou uma talagada de cana e sentiu o ardor nos cotovelos ensanguentado. Estava em estado de choque.

Foi levado para o hospital em Ilhéus onde foi medicado e no mesmo dia voltou para sua casa na fazenda, onde ficou acamado por três dias. Quando voltou ao Banco da Vitória recebera o apelido de Zezinho Sem Cotovelos. Seus braços em tipoias comprovavam a assertiva.
Havia em Banco da Vitória quem dissesse que Zeferino não gostava da alcunha zombeteira. Mas ele preferia ser chamado de Zezinho Sem Cotovelos do que Zezinho Todo Cagado. Isso, em alusão a situação que o encontraram do dia da luta com aquela maldita cobra no Rio Cachoeira.

Infelizmente os couros dos cotovelos de Zeferino não se recuperaram. Já o apelido, se tornou eterno.

Macarrão ao Molho de Azeite de Dendê

Por Roberto Carlos Rodrigues

6-molhoQuando você ouvir alguém falar que já viu de tudo neste mundo, pergunte se ela já viu (e comeu) macarrão ao molho de azeite de dendê. Provavelmente, se essa pessoa não for de Banco da Vitória, ele nunca viu essa nobre iguaria e não sabe o que está perdendo.

Comenta-se pelas cozinhas do mundo a fora que a origem do macarrão é disputada por chineses, italianos e árabes. Segundo alguns queimadores de panelas, foi Marco Pólo, aventureiro italiano do século 13, que teria trazido o macarrão da China para a Itália. No Brasil, o macarrão foi trazido pelos imigrantes italianos no final do século dezenove só e se popularizou entre nossa gente nos anos setenta do século passado. Quando então “ a pasta’ deixou de ser comida de italianos e se tornou coadjuvante da boia de muitos brasileiros.

Já o azeite de dendê, outro ingrediente do nosso prato peculiar, tem origem no oeste da África e foi introduzido no período do Brasil Colônia pelos escravistas portugueses e até hoje faz parte da comida do nordestino, principalmente dos baianos.

Segundo os italianos, o macarrão deve ser temperado com azeite extra virgem de olivas, alhos, manteigas, molhos de tomates e finas especiarias. Segundo essa mesma fonte, deve degustá-lo “ al dente”, ainda morno, salpicado com queijo parmesão e preferencialmente um ramo do aromático manjericão para harmonizar os ares e paladares. E bom vinho tinto. É claro!

Contudo, em Banco da Vitória, tudo isso era teoria gastronômica. O povo das barrancas do Rio Cachoeira, acostumado a colocar azeite de dendê em todos os pratos, logo achou que podia temperar macarrão com o óleo do dendezeiro.

– Isso não combina não! Arguia Tonho Martins, então funcionário as Sucam. Dendê é para moqueca, vatapá e quiabada. Macarrão é para comer com galinha cozida. Isso, aos domingos. Concluía elegantemente.

– Não gosto de macarrão não. Falava repugnando o padeiro Pedro Preto. Parece lombrigas. Como não. Prefiro meu jabá assado, com feijão e farinha torrada. Falava salivando.

– Pois bem, eu gosto é de macarrão ao molho de azeite de dendê. Dizia Zito Costureiro. Deixo primeiro a mulher servi a meninada depois esquento a panela do macarrão, coloco meia xícara de dendê, jogo onze pimentas malaguetas verde e mexo tudo. Desligo o fogo coloco o macarrão africanizado no prato fundo, cubro com farinha grossa, quase crueira. Mexo tudo novamente e como de mão. Pois não gosto de garfo. Como, como e como o macarrão ao molho de azeite de dendê quem nem lembro do bife ou do peixe frito. É uma delícia. Depois chupo os dedos para tirar o azeite dos cantos das unhas, espalito os dentes e vou deitar na minha rede, onde dou dois ou três peidos bem dados e depois durmo. Concluiu.

– Mas macarrão não combina com azeite de dendê não! Zito… Argumentou Tonho Martins.

Zito Costureiro olhou atentamente para o amigo e disse: Tonho o que tem de combinar é roupa. Entende? Tom sobre tom, essas coisas. Agora macarrão com dendê deve encher o bucho. Esse negócio de combinar não vale neste casdo. Por sinal, vozinha só toma café com dendê. Ela bota uma colher de dendê dentro da xícara com café e bebe lentamente o chá preto engordurado. Ela gosta. Fazer o quê? Eu nunca tomei não, mais qualquer dia desse eu também vou colocar dendê o café e experimentar. Não mata não. Vozinha tá com 98 anos nas costas e ainda dança forró. Então…

– Gostoso não deve ser essa mistura. Disse seu Pedro Padeiro. Nem cheiroso. Pois misturar café com azeite de dendê deve criar um cheiro de suor de cu do jegue. Tem de beber com o nariz tampado. Conclui.

– Pronto! Disse Zito Costureiro e argumentou: Começamos a prosa na culinária e já estamos desbeiçando para perfumaria. Pois bem, agora eu vou comer macarrão com azeite de dendê e depois vou beber essa nova bebida que Pedro Preto acabou de inventar. O suor do cu do jegue. Ou melhor: café pingado com azeite de dendê.

Seu Pedro Preto então, quase se despedindo disse: – gosto é igual a cu. Cada um tem o seu.

– Mas tem quem goste do cu dos outros. Retrucou Zito Costureiro.

– Vou trabalhar, viu? Que é melhor. Disse seu Pedro saindo da bodega.

Tonho Martins olhou para Zito e perguntou: – Dona Zefinha, sua vó e minha madrinha toma café com dendê mesmo ou você está inventando essa estória?

Zito respondeu na bucha: – é melhor tomar café com azeite de dendê do que com formicida tatu ou cianeto. Você não acha?

Vixe! Arguiu Tonho Martins. Já vamos agora para a química? Primeiro vou beber mais um rabo de galo antes de enveredar nessas prosas venenosas.

Zito Costureiro olhou para o amigo, alisou o fino bigode e disse:

– Painho só gostava de comer banana cozida cobertas de cinzas. Cinzas quentes e com brasinhas fumegantes…

E ainda era o meio da tarde. A prosa foi longa.

São João em Banco da Vitória – #1

forro-do-pedroPor Roberto Carlos Rodrigues

A casa era pequena. Na frente, uma porta e uma janela pintadas de azul. Ambas abertas. No meio do terreiro, a grande fogueira ardia por toda noite. Bombas explodindo nos cantos do terreiro, pistolões explodindo no céu. Este, todo estrelado. No braseiro, milho assado, costela de porco e pertinho dele, o aromático caldeirão cheio de quentão, tampado para não deixar exalar os cheiros das ervas daquele lugar. Na banqueta encostada ao vão da casa, a mesa sortida de diversos licores. O rei jenipapo adoçando os berços das moças, acompanhado dos sabores das garrafas de carambola, groselha, cacau, cravo, pitanga e lúdico licor de creme de leite. Junto ao pé da mesa, um garrafão verdecido, ainda pelo meio, da legitima aguardente Santa Clara. Bebidas para os cabras da peste que não gostavam de bebidas doces.

Amendoins assados e cozidos, pamonhas, mingaus de milho, bolo de tapioca, bolo de puba, lelê, leitão assado, paca cozida, galinha assada, piru cozido, caldeirão de sarapatel. A mesa estava florida das iguarias do lugar. As bocas, todas satisfeitas.

Bebuns por todos os cantos. Crianças correndo no terreiro e na minúscula sala os casais dançam no chamego do forró intermitente. Sanfoneiro caolho. Ruim das vistas, mas bom das mãos. A sanfona gemendo como se estivesse em um surto de epilepsia controlada. O zabumba batendo feito coração em taquicardia. O triangueiro marcando os passos da dança. O violão coordenando a harmonia da música e o pandeiro repicando feito guizo de cascavel. A música não parava nunca. A dança também não.

Dentro da sala apenas dez casais dançando. Não cabia mais. No lado de fora, uma procissão de gente dançando e esperando a vez de entrar na sala de reboco novo, pintado recentemente de azul. Na cumeeira, o lampião acesso. No ar o cheiro de cacau exalando daquele povo feliz e trabalhador.

De vez em quando um dançarino mais animado gritava no meio da sala: – Viva São João! Todo mundo respondia junto: VIVA! Fogos estouravam novamente no céu. O povo inventava uma quadrilha ao redor da fogueira e dança corria solta. A alegria exalava no ar e a poeira se espalhava entre os passos coordenados. Xote e baião, xaxado e forró eram como irmãos siameses. A festa não tinha fim.

Suor pingando no chão. Junta-se ao orvalho da fria madrugada. O arrasta-pé vai até o nascer do dia. O povo nem olha para os relógios. Espera o sol anunciar o novo dia. Enquanto isso, dançam sorridentes. Povo mais feliz que aqueles ribeirinhos não tem naquelas redondezas.

No início da manhã ainda tem gente ao redor da fogueira e bêbados dormindo nas sombras das árvores. Um bêbado acorda debaixo da grande jaqueira e grita: Viva São João! Os demais parceiros acordam subitamente e respondem em coro: Viva. Depois voltam a dormir, como se estivessem sincronizados. A ressaca dos licores durava dias e mais dias.

Os donos da casa se despedem das visitas. – Até para o ano. Dizem, sorridentes e satisfeitos. Até. Respondem os casais com os pés cobertos de poeiras e as roupas suadas. As cabeças estão repletas de alegrias e os corações ainda dançam no ritmo do forró de Banco da Vitória. O famoso forró Danado de bom.

No rádio de pilha, colocado agora em cima da mesa, onde ainda tem as sobras dos licores e das comidas, ouve-se Luiz Gonzaga cantar: Olha pro céu meu amor, ver como ele está lindo… Não podia haver trilha sonora melhor para aquela bela manhã de junho. Era São João.