O Pinguelo de Ana Abigail.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

morena 2Antigamente, isso nos anos setenta passados, se um menino visse a cor da calcinha que uma menina usava, o pobre infante ficava vesgo, gago e trazia nos lábios um sorriso que durava dias e mais dias. Ver os seios de uma moça, era o mesmo que ganhar na loteria. Ver uma mulher nua era coisa rara, raríssima. Porém, em Banco da Vitória, a história era outra e b

em mais alegre. Pois ali havia Ana Abigail que adorava banhar-se nua no Rio Cachoeira. E ela fazia isso todos os dias. Graças a Deus.

A família de Ana Abigail era muito religiosa. Porém, tinha a banda podre da laranja exatamente em Ana Abigail. Quando criança, seus pais trouxeram-na sobre suas ordens e costumes. Contudo, quando se tornou moça, a bela morena das margens do rio Cachoeira destrambelhou de vez e tornou-se uma namoradeira de primeira, especializada em tirar virgindade dos meninos daquelas barrancas.

Todos os dias, exceto aos domingos, no final das tardes, Ana Abigail dirigia-se a Pedra de Guerra, com uma bacia cheia de pratos na cabeça. Nas margens do rio Cachoeira ela cantava e lavava seus pratos. Depois mergulhava nas águas mornas, nadava até uma pedra no meio do rio e ali tirava o vestido e a calcinha (na época chamada de calçola). Da meninada só via as cabeças fora da água. Mas pareciam cabeças de cágados em épocas de acasalamentos. Tinha no mínimo uns trinta.

Ana Abigail nadava nua por longas e mais longas braçadas. Depois subia na pedra no meio do rio, vestia a calçola e depois o vestido e por fim voltava sorrindo para a margem do rio. Agora também cheia de meninos escondidos entre os matos. Todos pecadores.

Ver uma morena daquela nua nas águas do rio cachoeira era uma verdadeira benção para rapaziada de Banco da Vitória. Além das aparições nuas nas águas do rio Cachoeira, Ana Abigail, as noites, oferecia os prazeres das carnes para seus tantos namorados e admiradores. Nos escuros da Cerâmica Victória ela “traçava” os donzelos do lugar. Fazia súditos.
Corria a boca miúda em Banco da Vitória, que depois do coito Ana Abigail pegava a mão do jovem namorado e colocava-a sobre seu clitóris e dizia: “Quase do tamanho do seu, olha!”. Normalmente, diante do pinguelo agigantado de Ana Abigail os rapazes se assustavam e ficavam com medo da jovem sedutora.

Um dia, Ana Abigail, se engraçou com um jovem que vivia com um violão preso as costas e resolveu seduzi-lo. Marcou um encontro as nove horas, nas bandas da Ruinha, por trás de um monte de telhas da Cerâmica Vitória. Na hora marcada lá estava o amarelinho (sem seu o violão). Não demorou e chegou sorrindo Ana Abigail. Logo começaram os amassos, a pegação, as taras e as volúpias. O amarelinho tirou o vestido de Ana Abigail. Beijou seu pescoço suado. Mamou nos seus seios fartos e quentes, untou com a língua sua barriga e umbigo escuro, rasgou a calçola florida e sugou a sua vulva como quem desentope uma vagina ainda virgem. Depois deu uma pequena dentada da cabeça do grelo, como quem o acordasse. Chupo-o lentamente, como quem chupa uma cajarana verde.

Ana Abigail viu estrelas, arco-íris e cometas. Ouviu sinos, gongos e rojões. Sentiu uma tremedeira súbita nas pernas e com as duas mãos segurava a cabeça do amarelinho que domava seu pinguelo como quem amansa um potro no meio do pasto. Depois de quase meia hora de lambuzação, esponjação e embebecimento lingual, o amarelinho por fim penetrou-a e juntos gozaram. Dias depois estavam morando juntos e foram felizes. Triste ficou a meninada de Banco da Vitória, sem a sua musa sexual.

Entre os despeitados e órfãos das sutilezas sexuais de Ana Abigail que odiavam o músico amarelinho, estava Nelito Canela Seca que dizia, encostado aos balcões sujos das bodegas de Banco da Vitória:

– Aquele amarelo desgraçado é viado, rapaz! É ela que come ele. Uma mulher com um pinguelo daquele, quase do tamanho de uma garrafa de Coca-Cola deve enfiar no cu daquele tocador de violão sem corda todos os dias. Ela come ele e ele chupa ela. Depois ele come ela e ela chupa ele. Duas cobras transando. Só isso.

No outro extremo do balcão Cabo Jonas arrematou:

– Pinguelo é um termo muito feio. Do mesmo lastro de feiura está o grelo. O nome certo do pequeno órgão eréctil do aparelho genital feminino, situado na junção dos pequenos lábios, na parte superior da vulva, é clitóris. Ana Abigail deve ter apenas um clitóris avantajado. Só isso e nada mais. Se ela tivesse caído no meu bigode eu ia capinar aquela mata escura e deixar a grama baixinha. Ela ia viver cantarolando por ai:

“Mamãe eu quero, mamãe eu quero, 
Mamãe eu quero mamar! 
Dá a chupeta! Dá a chupeta! 
Dá a chupeta pro bebê não chorar!”

Cabo Jonas sorriu conclusivamente, acendeu seu cigarro e foi para casa, ver a amada esposa Deth.

Graças a Deus, em Banco da Vitória, Ana Abigail tinha outro nome. O Amarelinho nunca foi amarelo, nem nunca tocou violão e eu nunca vi o pinguelo, nem o grelo ou o clitóris de Ana Abigail. Apenas imagino. Só isso.

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Série: Os Sete Seres Fantásticos de Banco da Vitória. 1 – O Caipora.

 

caiporaPor Roberto Carlos Rodrigues

O Caipora de Banco da Vitória era um ser que protegia as nossas matas e os ribeirões e ninguém podia entrar na floresta sem pedir sua autorização. Nossa Caipora era um índio anão, com voz de menina, corpo pintado de verde, cabelos vermelhos, orelhas pontiagudas, olhos pretos e miúdos e sempre estava na companhia de um grande porco do mato.

O Caipora tinha muitos poderes. Ele sabia desaparecer em um piscar de olhos. Podia estar em um instantes em cima de uma pedra, depois sumia e aparecia nos galhos das árvores, depois sumia e aparecia montado no seu porco do mato. Por conta desses poderes ninguém nunca pode pegar o Caipora.

Mas o seu maior poder era enganar as pessoas que entravam nas matas para maltratar os animais. Muitas vezes, mesmo os velhos caçadores se perdiam nas matas e ficavam dias e mais dias sem saberem encontrar o caminho de volta. Nessas ocasiões só se ouviam o sorriso do Caipora zombando do homem perdido e alucinado. Quando por fim o caçador malvado conseguia sair da mata, ele ficava impressionado com o poder do Caipora de enganá-lo com tanta facilidade e depois daquele dia o caçador nunca mais maltratava os animais ou tocava fogo na mata.

O Caipora era protetora das matas e dos bichos e ninguém podia fazer maldades com seus amiguinhos, senão ele pegava esses seres cruéis e davam-lhe uma grande lição. Houve casos de caçadores ficarem mais de uma semana presos na mata e, mesmo tendo seus amigos tentando acha-los, nunca conseguiam. Na verdade, era o Caipora que fechava e abria as portas das matas. No seu território era ele que mandava e desmandava.

Quem não podia entrar na mata sozinhas eram as crianças danadas, travessas e maus educadas. Essas, o Caipora castigavam-nas deixando-as perdidas por horas e mais horas no meio da mata. Já as crianças estudiosas, educadas e amantes dos animais jamais se perdiam nas matas e se isso acontecesse, o próprio Caipora e seu porco do mato guiavam a criança até a estrada da sua casa. Nessas ocasiões o Caipora chegava até conversar com as crianças e oferecer-lhes deliciosos frutos e lindas flores.

Quando uma criança encontrava o Caipora e com ela conversava e depois contava isso para seus pais, muitos destes não acreditavam e diziam que a criança estava inventando estórias ou então estava com febre alta e imaginando coisas. Contudo, para aquela criança pouco importava o que os adultos acreditavam ou não. Afinal, o Caipora só conversava com as crianças. Com os adultos ele gostava mesmo era de assustá-los.

Em Banco da Vitória, quando uma criança dizia ser amiga do Caipora logo se sabia que ali tinha mais uma criança estudiosa, bem educada, protetora das matas e amiga do animais.

O Caipora de Banco da Vitória continua morando na Mata da Rinha. Tem dia que ele está em Maria Jape, Japu, outro dia estar na Represa do Iguape ou passeando no Rio do Engenho ou ainda nos arredores da Vila Cachoeira. Mas todas as noites ele volta para sua terra querida. Banco da Vitória do Rio Cachoeira. Ali ele é um dos nossos setes seres fantásticos.

Os sete seres fantásticos de Banco da Vitória eram o Caipora, o Negro D’água, o Caruá, A Mulher de Sete Metros, a Menina Encantada, a Yara e o Lobisomem.

João Delicioso, o Don Juan de Banco da Vitória.

SeduçãoPor Roberto Carlos Rodrigues.

Deus queira que todos os parentes vivos de João Delicioso não lembrem dessas estórias e se lembrarem, duvidem das suas memórias e se ainda restarem dúvidas dessas oralidades, esqueçam-nas. Afinal, como logo veremos, será melhor assim.

João Delicioso de Banco da Vitória, para algumas pessoas da nossa comunidade, era melhor que nunca tivesse existido. Na verdade, sempre foi melhor pensar assim. Agora, porque Deus quis que ele existisse e vivesse exatamente na nossa comunidade, nunca saberemos a resposta certa.

Deixemos, por ora, de subterfúgios e vamos aos relatos dos fatos.

Chamava-se João e não tinha sobrenome (era igual aos antigos escravos africanos que sofreram por mais de 350 anos em solos brasileiros). Se tinha documento de registro, nunca mostrou. Preferia ser chamado apenas de João. Em Banco da Vitória recebeu a alcunha de Delicioso. Mas, este adjetivo nunca foi seu sobrenome. Era apenas um apelido. Um gostoso e problemático apelido.

Poucos se sabia sobre a origem deste João, o tal Delicioso. Uns diziam que ele viera junto aos tantos trabalhadores que aportaram em Banco da Vitória, isso no meado dos anos cinquenta do século passado, quando ali se instalou a empresa que abrira e asfaltara a nova estrada entre Ilhéus e Itabuna. Outros diziam que João, o tal Delicioso, viera numa enchente, rio abaixo e ali ficara. Uma coisa era certa, o João, o tal Delicioso, era o melhor alfaiate de Banco da Vitória. Quiçá de todo o território do município de Ilhéus. Sobre suas medidas e cortes vestiam-se os mais ricos fazendeiros de Ilhéus e Itabuna e era ali, em Banco da Vitória que João sem sobrenome fez fama e fortuna. Muita fama e considerada fortuna.

Quando o povo de Banco da Vitória tomou consciência da presença de João, ele já morava ali por mais de seis meses. Primeiro viveu em um quartinho de um só cômodo na Rua da Cerâmica, perto da Ruinha. Depois se mudou para uma casinha na beira da rodovia Jorge Amado. Ali, ele sua máquina de costura e suas tesouras prosperaram e no ano seguinte eles já tinham um atelier na Rua dos Artistas, (bem em frente a atual casa do nosso lendário conterrâneo Dui). Neste endereço João se tornou o tal Delicioso de Banco da Vitória.

João, naquela época, já beirava os cinquenta anos de idade e era um costureiro famoso em toda a região cacaueira. Se quisera tinha ficado dez vezes mais rico abrindo seu ateliê em Ilhéus ou em Itabuna. Mas, isso ele nunca quis. Seu solo adotivo era Banco da Vitória e foi ali que ele ficou famoso e entrou definitivamente para a nossa história.

João era um negro solteiro, magro, elegante, cheiroso e de média estatura. Tinha o corpo franzino, os olhos pretos e miúdos. Os lábios finos, dentes alvos, braços finos e compridos e os cabelos curtos, – estes cortados todas as semanas, sempre às sextas-feiras – dizia ser promessa para Santa Bárbara, sua protetora. Ao lado do seu atelier ele adquiriu mais um terreno, onde foi instalado uma pequena loja de tecidos e sortido armarinho. Ali trabalhava a moçoila Alaíde, filha do seu amigo Gonçalo, também negociante do lugar, próspero comprador de cacau e pai de quatro lindas filhas e nenhum filho.

João, morava só. Junto, apenas aos seus passarinhos presos em gaiolas. Ali, na rua dos Artistas João era feliz. Diziam que nunca quis casar ou juntar família. Mas se quisesse não teria dificuldades. Teria sido um marido perfeito para muitas moças do então distrito de Banco da Vitória.

Mas a especialidade de João era seduzir mulheres casadas ou comprometidas. Isso ele sabia fazer com prazer, maestria, ou, quem sabe, por alguma patologia mental. Por conta dessa sua outra habilidade ele era amado por muita gente da comunidade e amaldiçoado por tantas outras. Em Banco da Vitória, João devia ser o sonho de genro de muitas famílias ou então o pesadelo de tantos maridos e noivos.

Sabia-se em Banco da Vitória que mulheres casadas não podiam nem olhar para o tal João alfaiate. O bom mesmo era nem falar com ele. Se isso acontece, a mulher estava seduzida e o marido, obviamente corno confirmado.

Mas João era dissimulado e inteligente. Quem o via com as tesouras e a fita métrica nas mãos achava-o meio afeminado, meio baitola, veado enrustido ou coisa igual. Com os homens ele agia e falava de um jeito delicado e afeminado. Já com as mulheres, era de outras formas. Inúmeras formas sexuais.

Dizia em Banco da Vitória que foi Dorotéia Alvarenga, a mulher do soldado José Agripino que colocou a alcunha de Delicioso em João, o alfaiate disfarçado. Dorotéia, na flor da Idade, ainda antes dos trinta, cheia de fogo e vontades sexuais, caiu nas lábias de João, deitou na cama do Alfaiate e ali foi amada como nunca fora em toda sua vida de tantos desencontros. João, com suas mãos habilidosas e sensíveis percorreu todas as curvas e as carnes daquela morena ávida por prazeres e fez amor com ela como ninguém jamais fizera. Naquela noite João beijou sua boca, seus pés, seus dedos e seus cotovelos. Acariciou seus ombros, suas costas, seus cabelos e suas panturrilhas. Sugou seus seios, mordeu seus lábios e orelhas, arrepiou seus pelos. Mordeu suas aureolas. Lambuzou, besuntou, chupou e inflou a vulva de Dorotéia com sua língua, verdadeira víbora do prazer. Ela gozou diversas vezes, muitas vezes, todas as vezes imaginárias e reais. Dorotéia gozou, gozou e gozou mais uma vez como nunca tinha imaginado gozar. Gozou, chorou e gritou no meio da noite. – Delícia! Disse.

No dia seguinte, Doroteia passeou toda sorridente pela Rua dos Artistas. Entrou no armarinho Estrela Dalva, compro uma miudezas e ao sair do estabelecimento, passou pela frente do atelier de João e, sorrindo, sussurrou carinhosamente: “Delicioso”. João fingiu não ouvi. Mas Alaíde ouviu.

Nos dias seguintes, nos plantões do marido, Dorotéia fugia de casa e pelos fundos do quintal de João vinha oferecer-lhes os prazeres da carne.

Mais Dorotéia era apenas uma das tantas esposas que caíram nas graças de João, o tal delicioso. Mas foi Alaíde, que acabou alardeando o apelido sexual do seu patrão. Disse primeiro para sua amiga Tonha de Bau. Essa contou para Márcia Fluentes, professora de datilografia e em pouco tempo, entre as mulheres de Banco da Vitória, João Alfaiate tinha agora sobrenome. Tornou-se João Delicioso.

Zeca de Zerfino, amigo de João, quando bebia umas cachaças, alardeava que seu amigo era o maior chuparino da região cacaueira. Zeca dizia que o tal Delicioso era capaz de chupar uma tabaca por mais de meia hora, sem parar nem para enxugar os cantos da boca. Por conta dessa sua habilidade linguística ele era um verdadeiro sonho de consumo sexual feminino da comunidade. Segundo Zeca, a mulher que era chupada pelo profissional do sexo, o tal João, no dia seguinte chamava-o apenas de delicioso. Daí, a fama, quase culinária.

– Pau grande não tem! – Dizia Zeca nos cantos dos balcões da vila ilheense. – Já vi ele nu umas trezentas vezes. Pau mixuruca, o meu é maior. Seu segredo deve ser a língua ladina e boca nervosa sobre os pelos pubianos. Deve ser isso. Concluía seu argumento.

Um dia a sorte de João mudou. Maria Antônia, esposa de Evódio Ávila, tomou umas cachaças, dançou a noite inteira e na hora do sexo exigiu que o marido chupasse sua vulva. Evódio se assustou com a proposta. Ávila, chuparino? Jamais. Pensou. Você devia tomar umas aulas com João Alfaiate. Aquele homem bem sabe fazer uma mulher feliz com sua língua profissional. Concluiu Maria. Murros e tapas deram lugar aos beijos e aís. O casamento acabou naquela noite.

No dia seguinte Evódio Ávila comprou um revolver trinta e oito e naquela mesma noite deu três tiros em João Delicioso.

Atirador medroso e amador, acertou um tiro no ombro de João, outro tiro no braço do alfaiate e um na sua própria perna. Nas paredes ele acertou mais três disparos. Não demorou e foi preso pela polícia.

João foi socorrido ao hospital de Ilhéus, sobreviveu sem nenhuma sequela. No dia que teve alta hospitalar desapareceu de Ilhéus. Dias depois um procurador apareceu na Rua dos Artistas para pegar os bens de João. Os produtos do Armarinho Estrela Dalva foram doados a Alaíde e os imóveis vendidos. João Delicioso sumiu definitivamente de Banco da Vitória.

Foi nesta ocasião que surgiu a lista das mulheres que tinham caído nas lábias e encantos sexuais do tal João Delicioso. A lista era longa e secreta. Afinal, João Delicioso tinha feito um verdadeiro harém em Banco da Vitória. Sabia-se.

Em pouco tempo o povo de Banco da Vitória se encarregou de esquecer de João, o tal Delicioso e os matrimônios abalados pelas peripécias sexuais do antigo alfaiate foram reestabelecidos.

Em Banco da Vitória, o único homem que ainda lembrava de João Delicioso era Evódio Ávila, que recebera o apelido de O Maldito. Algumas esposas da comunidade tinha motivos de sobras para chama-lo assim.

 

Saudades do Matadouro Municipal de Ilhéus, em Banco da Vitória.

Foto de Neildes Amorim

Foto de Neildes Amorim

Por Roberto Carlos Rodrigues.
 
Segundo os Anais Ilheenses, o antigo prédio do Matadouro Municipal de Ilhéus foi inaugurado no meio dos anos cinquenta do século passado. Naquela época, quem passava pela recém inaugurada rodovia Ilhéus Itabuna (asfaltada em 1958) via naquele prédio imponente e majestoso, um possível modelo de fabriqueta de sonhos e possibilidades. Para os moradores de Banco da Vitória, a construção daquele prédio foi a segunda coisa mais importante da comunidade. Só perdia, por importância e valor social, para construção da Escola Herval Soledade, inaugurado em 1960, que por certo revolucionou toda nossa gente.
 
A escola Herval Soledade ficava na margem esquerda do Rio Cachoeira e o matadouro ficava na margem direita da Rodovia Ilhéus Itabuna, recuado desta, no mínimo, 15 metros.
 
O prédio do Matadouro Municipal de Ilhéus devia ter as dimensões de 40 metros de comprimento por 25 metros de fundos. A construção tinha alvenarias altas, (aproximadamente 1,2 metros de altura para poder sobressair as possíveis enchentes do Rio Cachoeira) e o imóvel sempre era pintado de azul e branco.
 
Na parte da frente do prédio, bem no centro, havia a entrada principal do matadouro. Aos lados, dez salas serviam de depósitos e escritórios das empresas que atuavam nos abates e comercialização de carnes bovinas, suínas, couros, sebos e pedras de rins dos bois. Por trás destas salas havia a área de despostas dos bois. Por trás desta ficava o abatedouro. Por trás deste ficava o curral e a área da caldeiraria, onde os couros e as vísceras dos bois abatidos eram limpos.
 
Na parte oriental do prédio havia o matadouro de suínos e próximo a este imóvel havia o depósito de couros bovinos e a saboaria.
 
No matadouro de Banco da Vitória trabalhavam mais de 100 pessoas. Isso, na lida direta dos abates, limpezas e transportes de carnes bovinas e suínas. Nos arredores do matadouro, por certo, mais outras 100 pessoas atuavam como comerciantes diretos e indiretos dessa atividade mercantil. O matadouro municipal de Ilhéus foi o maior empregador da mão de obra da nossa comunidade.
 
Além de atuar como matadouro bovino e suíno do município de Ilhéus por décadas, o prédio abrigava também alguns órgãos municipais, como a coletadoria de impostos municipais, o posto da vigilância sanitária e a delegacia policial do distrito ilheense. No início da década de oitenta do século passado funcionou ali também, por poucos meses e provisoriamente, uma base da polícia rodoviária estadual.
 
O Matadouro Municipal de Ilhéus em Banco da Vitória funcionava também como escola informal de açougueiros e empreendedores. Entre suas paredes dezenas de jovens da comunidade aprenderam a lida com os cortes de carnes, os segredos das preparações de linguiças, das carnes do sol, das dobras de peles e das vísceras e identificações de cálculos biliares.
 
No período que o matadouro municipal de Ilhéus funcionou em Banco da Vitória, a nossa comunidade viveu um dos seus melhores e prósperos anos.
 
O matadouro de Banco da Vitória deu para o nosso povo, por décadas, o verdadeiro significado de dignidade, cidadania e prosperidade. Sob sua sobra ninguém passava fome e muitos se tornaram prósperos negociantes exatamente sobre seus conselhos.
 
A escola Herval Soledade e o Matadouro de Banco da Vitória foram elos fundamentais para o desenvolvimento da nossa comunidade. A escola Herval Soledade, graças a Deus, ainda continua funcionando e formando dignos cidadãos da nossa comunidade.
 
O matadouro municipal de Ilhéus em Banco da Vitória foi desativado no início do século vinte e seu prédio foi demolido no início da segunda década deste século. No seu lugar foi erguido um prédio insólito que nem representa a saudade que o povo de Banco da Vitória tem do seu antigo matadouro.
 
Quem atualmente passa pela rodovia Jorge Amado nada sabe sobre o antigo matadouro municipal de Ilhéus em Banco da Vitória e nem sabe que bem antes do Senai e Senac existirem no cenário nacional, em nossa comunidade, a ideia filosofal destes modelos de escolas profissionalizantes de jovens já existiam e funcionavam muito bem. Bem até demais para os níveis dos nossos atuais conhecimentos.
 
Graças a Deus, tivemos em nossos domínios, o antigo e bendito matadouro municipal de Ilhéus. Só Deus sabe quanto sentimos saudades daquele antigo prédio, verdadeiro celeiro de tantos sonhos.
 
Hoje, tudo é apenas saudade.

Livro Banco da Vitória – A história Esquecida das Margens Vitoriosas do Rio Cachoeira. – 2ª. Edição. ESGOTADA.

Conheça a história do Banco da Vitória, bairro de Ilhéus. Livro descreve a história dessa localidade desde o início da colonização portuguesa no Brasil, desde o meado de século XVi até os dias atuais. Conheça as personagens históricas da nossa comunidade, a história da Fazenda Victória, a colonização europeia e africana das margens do Rio Cachoeira e a importância do Banco da Vitória para o fomento e desenvolvimento da Região Cacaueira do Sul da Bahia.

Resultado de mais de 20 anos de pesquisas e estudos, este livro escrito por Roberto Carlos Rodrigues, traça o perfil histórico e social da formação e desenvolvimento dessa comunidade ilheense.

Nesta 2ª. Edição foram incluídos 8 novos capítulos e 32 fotografias e registros visuais da localidade. O livro tem 190 páginas.

No dia 11 de Novembro de 2017, das 15 às 18 horas, o autor estará em Banco da Vitória, na Praça Guilherme Xavier, (em frente à casa de Dona Lia Araújo) para autografar os exemplares.

Lembrete: Este livro não é enviado pelos Correios. Moradores fora de Banco da Vitória terão de pedir a alguém da comunidade que compre o livro e envie-o.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

seiosContou-me essa história pouco antes de morrer. Fez isso, acredito, como intuito que eu desse letras a sua voz. Acreditou que eu pudesse dar posteridade as suas façanhas amorosas. Relatou tudo, do início ao fim, como quem descreve uma saga pessoal ou outra forma de heroísmo.

Naquela tarde de sábado, ele contou-me a sua maior conquista amorosa e como ele próprio sugeriu, se um dia eu escrevesse este texto, devia chamar-lhe Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Como prometi para o saudoso amigo, transcrevo aqui a história de Aderval Monteiro e sua amante Dona Ana da Conceição.

Segundo o personagem principal dessas linhas, tudo começou com um olhar e um sorriso. Um olhar dele e um sorriso dela. Aderbal era funcionário público e trabalhava na coletoria de impostos do Governo da Bahia, em Banco da Vitória. Ana da Conceição era esposa do Odilon Coutinho, comprador de cacau da firma Lord & Charmann, também instalada neste distrito Ilheense.

Havia pouco tempo da vinda de Odilon e sua família para o Banco da Vitória e em poucos dias eles tornaram-se amigos de bebedeiras e pescarias no Rio Cachoeira. Aderbal era um negro solteiro e já vivido, na casa dos quarenta anos, jamais se casou e tinha fama de namorador e bom de bola. Já Odilon era um homem branco, já beirando as sessenta primaveras, dedicado ao trabalho, mas aos finais de semanas, gostava de beber até cair. Normalmente ele era levado bêbado para sua casa, onde a esposa e a filha única o recebiam em silêncio. Era um bom marido.

Foi numa dessas bebedeira de Odilon que Aderval levou o amigo bêbado para casa. Lá chegando encontrou sua esposa lavando o quintal. A filha estava na casa de uma amiga. Dona Ana da Conceição pediu que Aderval colocasse o marido numa rede estendida no quintal. Aderval arrastou o amigo até o fundo da casa e o acomodou na rede. Dona Ana da Conceição, com as roupas do corpo ainda molhadas ajudou ajeitar o marido. Foi neste instante que Aderval percebeu que os seios da esposa do seu amigo estavam quase a amostra, por trás da roupa fina, que molhada, ficara quase transparente.

Que formosura de seios. Pensou, mas não disse. Se disse, foi só com seus olhar.

Dona Ana da Conceição percebeu o olhar invasivo do homem ao seu lado e respondeu apenas com um sorriso. Quer toca-lo. Ela pensou em pergunta-lo, mas não disse. Se disse, foi só com o sorriso. Ficaram nisso.

Aderval, quase hipnotizado com os volumes e robustez daqueles belos seios e a cor amorenada das auréolas arrebitadas, quase babou pelo canto da boca. Se conteve como quem segura um soluço.

Sem ter o que falar, falou o que primeiro veio a boa úmida e disse:

– Deus sabe o que faz. Divagou.

– Concordo. Respondeu a mulher do bêbado dorminhoco, alisando os cabelos negros e molhados.

– E como sabe. Arrematou a conversa o funcionário público e disse:

O homem está entregue. Deixe-me ir.

– Muito obrigado, seu Aderval. Disse a mulher, inflando o tórax e realçando ainda mais o volume dos seus seios molhados. E concluir: fazer o quê? Ele prefere a cachaça a mim.

– Deve ser louco. Disse Aderval, já na passagem pela sala, rumo a porta de saída para a rua. Deve ser louco mesmo. Concluiu e saiu da casa se olhar para trás. Nos seus pensamentos, martelavam todos os tipos de pecados.

Naquele resto de dia e durante vários dias e várias noites a imagem dos belos seios de dona Ana da Conceição não saíram da cabeça de Aderval. Para ser sincero, ele conseguia relembrar todos os detalhes daqueles seios mais do que do rosto de sua dona. Os seios de Dona Ana da Conceição eram verdadeiramente formosos, majestosos e opíparos. Nunca vira nada igual em toda sua vida.

Assim os descreveu: os seios dela são firmes e duros, como se nunca tivesse dado de mamar para as crianças; são morenos claros feito o bronze africano e as auréolas são escuras, firmes e pontiagudas feito os canos das lanças militares. Precisaria de duas mãos para cobrir cada seio. Mesmo assim, sobrariam ainda músculos próximos aos dedos mindinhos. Se fosse lambê-los, chupá-los e suga-los prazerosamente precisaria de no mínimo vinte e sete minutos de passeios de língua e por certo terminaria com dores no queixo. Acariciá-lo já seria um verdadeira oração a vida. Vê-los nus já seria um espetáculo. Concluiu.

Os dias se passaram e dona Ana Da Conceição, toda vez que encontrava como Aderval, sorria para ele e arrumava o calorento sutiã. Essa era a senha secreta entre eles dois.

Aderval, por respeito ao amigo, tentou tirar aquela tentação da cabeça e até chegou a evitar encontros com o amigo e sua esposa por perto. Agindo assim, acreditava estava se livrando daquele pecado.

Porém, o destino tece o seu próprio bordado e por conta dos pontos sem nós, Odilon Coutinho veio a adoecer, foi acamado e de lá jamais saiu vivo. Acometido por um severo derrame cerebral, o comprador de cacau perdeu o movimento do corpo, deixou de falar e mal-mente gesticulava com uma das mãos. Padeceu tristemente.

A filha e a esposa cuidaram do homem doente. Nos primeiros dias da doença a casa estava cheia de amigos e vizinhos. Contudo, com o passar dos dias, este sumiram e aqueles rarearam. Apenas Aderval continuou visitando o seu amigo todos os dias. Durante a semana, todos os dias, após o expediente na coletoria, ele ia visitar o amigo, contar-lhe alguma novidade do mundo do cacau ou então levar algumas frutas que recebia no seu trabalho. As sábados, Aderval ia as tardes e ficava conversando com o seu amigo doente. Aos domingos, ante de ir a missa, passava na casa do doente e tecia algum comentário incentivador com homem postado na cama.

Naquele tempo, o belo sorriso de dona Ana da Conceição perdeu a luz e olhar de Aderval evitava focar em seus lindos e volumosos seios.

Um dia, o tempo deu um nó final na rede dos dias de Odilon e este faleceu numa friorenta manhã de quarta-feira. Dona Ana da Conceição se tornara viúva. E não tinha ainda trinta e sete anos de idade.

Após o enterro do amigo, Aderval foi até a casa de dona Ana da Conceição, se despediu da viúva e de sua filha e disse que não retornaria mais lá. Não tinha mais o que fazer ali. Argumentou. Ana da Conceição entendeu a situação e vestiu-se de luto por um ano inteiro. No Natal do ano seguinte, ela abandonou as vértices pretas e como que recupera a formosura, voltou a usar seus vestidos floridos e provocantemente decotados. Tornou-se a viúva mais desejada de Banco da Vitória e invejada pelas demais mulheres casadas.

Um dia, domingo de feira, ela encontrou com Aderval e disse que queria vê-lo na sua casa naquela tarde. Ele concordou e disse que não perderia aquele encontro por nada deste mundo

A tarde de domingo ia pela metade, a rua quase deserta, quando Aderval bateu a porta da casa de dona Ana da Conceição. Nas mãos uma sacola cheia de frutas. Ela abriu a porta como quem recebe uma brisa fresca do rosto e sorriu para ele e questionou:

– Quanto tempo, em? Não sentiu saudades minhas?

– Saudade é um prato que se como em silêncio. Respondeu Aderval, sentindo o perfume daquele fêmea magistral.

– Helena, onde está. Perguntou pela filha do amigo?

– Na casa da tia. Está no Pontal, por certo, numa hora dessa passeia na beira da praia de mãos dados com o noivo. Só vem terça-feira. Entre homem. Vamos para o nosso quintal.

Ele atendeu, deu-lhe a sacola com as frutas e ela então disse:

– Toma um cana pura ou uma cerveja?

– Os dois. Disse Aderval, se dirigindo para o fundo da casa. – Vou pegar. Disse a mulher. 

Sentado numa cadeira junto a um pequena mesa, ela o serviu e disse tenho algo para te mostrar. Achou que o senhor vai gostar.

Ele sorriu como resposta de sim.

No quintal tinha um formosa goiabeira. Perto da árvore um tangue cheio de água morna. Dona Ana da Conceição tirou as sandálias, soltou os cabelos e foi até o tanque e começou a se banhar. Então questionou o homem que não acreditava no que via.

– E ái seu Aderval, conte-me as novidades?

– Deus continua justo e cumpridor das suas promessas. E por certo ouve minhas preces. Respondeu.

Ela sorriu fartamente e jogou mais um balde água sobre o corpo.

O vestido fino quase desapareceu e as formas avantajadas do seu corpo moreno resplandeceram como quem recebe um facho de luz. Aderval tocou a dose de cachaça em um gole só e depois bebericou a cerveja. Teve vontade de sorriu, mas não fez isso. Preferiu apenas olhar aquela cena, que por mais sonhada ou imaginada por ele, era muito mais bela e fascinante.

Dona Ana da Conceição continuou conversado enquanto prazerosamente se banhava. Quando por fim, terminou de banhar-se ela disse:

-POr favor, seu Aderval, pega essa toalha aí para mim.

Ele levantou e foi até a rede onde a toalha estava pendura e quando virou, a mulher mais bonita que vira em toda sua vida estava completamente nua a sua frente. Sorrindo ela disse: me enxuga, homem. Não sabe enxugar uma mulher não?

Aderval sorriu e disse:

– Faz tempo que não faço isso, mas sou bom aluno.

– Quero ver se aprendeu bem? Respondeu ela sorrindo e indo até sua direção.

– Enxuga minhas costas. Ordenou. Depois minha bunda e pernas. Deixa meus seios por último.

Não era só os seios de dona Ana da Conceição que eram formosos, majestosos e Opíparos. Ela era totalmente bela e atraente. A cor morena se estendia dos calcanhares atém o crânio. As costas eram largas, a bunda avolumada e firme. As pernas, como se torneadas em madeira de lei, seguravam o corpo de mais de sessenta quilos, os pés eram finos e delicados, a barriga rígida. Os braços eram suaves e calmos e os seios… Ah, os seios. Estes eram fartos, duros e hipnotizantes, fatais para um home de coração fraco.

Só mais belo que aquele seios. Confidenciou-me. Somente o sorriso daquela mulher, naquele rosto moreno, molhado e ávido por beijos e mais beijos.

Após enxugar o corpo daquele fêmea sem igual, Dona Ana da Conceição pegou as duas mãos de Aderval e as colocou sobre seus seios e disse: ver se consegue sentir meu coração.

Ele sorriu. Nada disse. Estava realizado. Já podia morreu. Pensou.

Por certo. Ele sentia o seu próprio coração querer sair pelos punhos.

Dona Ana da Conceição o beijou prazerosamente e ele sentiu o seu cabelo molhado molhar sua camisa domingueira.

Ela puxou ele pelo braço e levou-o para seu quanto.

Sem falar uma única palavra. Se amaram feitos loucos adolescentes e só não foram felizes para sempre porque na manhã da quarta-feira seguinte um caminhão encostou em frente à casa de Dona Ana da Conceição e levou toda a mudança. Dona Ana da Conceição se mudara definitivamente de Banco da Vitória. Foi mora em Vila Velha, no Espirito Santo, onde tinha parentes e jamais voltara ao Banco da Vitória. Para Aderval, nem deu adeus.

Aderval olhou para mim e disse:

– Às vezes eu acho que nada disso aconteceu de verdade comigo, meu amigo Roberto. Acho que foi apenas um sonho louco. Uma louca ilusão minha. Aí, quando eu lembro da minha boca naqueles belos e divinos seios, das minhas mãos naquele corpo, dos aís dela no meu ouvido. Sorriu de prazer e agradeço a Deus por ter levado meus anos, mas não ter apagado minhas memórias. Graças a Ele, isso me sobrou.

E concluiu:

– Na verdade os seios de dona Ana da Conceição não são tão formosos, ajestosos e opíparos. Eles são divinos, encantadores e magnéticos.  Loucamente Magnéticos! – isso mesmo – são magnéticos atraem olhares e irradiam tentações.

Aderval, então me olhou seriamente. Bebericou mais um gole de cerveja e disse:

– Se os seios de dona Ana da Conceição eram assim tão belos e encantadores, imagine sua vulva. Sorriu prazerosamente e concluiu:

– Aquela vulva, que mais coisa linda, gostosa e embriagante. Dei-lhe tantos beijos que até agora deve estar ainda tonta. Nem nos melhores dicionários do mais requintado idioma Latim existem os melhores adjetivos para descrevê-la.

 – Aquilo não era uma vulva, uma xoxota qualquer, uma boceta carnuda. Era uma taça de vinho morno bebida numa madrugada de inverno.

– Você já bebeu vinho morno, meu filho? Perguntou-me.

Eu respondi que não.

– Só perde em sabor para a xoxota de Dona Ana da Conceição. Tenha certeza e acredite no que digo.

– E se eu te falar que a minha amada é especialista em boquete, você acredita?

Sorri como resposta de sim.

– Ele me pegou de jeito e com sua língua morna banhou-me de beijos e mais beijos. Só não sugou a minha alma pois não chupou meu crânio. O resto, valha-me Deus. Conclui Aderval sorrindo.

Foi a última vez que eu conversei como o meu amigo Aderval. Até hoje tenho saudade dos belos seios de Dona Ana da Conceição. Mesmo, sem jamais tê-los vistos.

Que Deus o tenha, Aderval.

Gatão – O homem que enganou a pobreza.

gatão

Por Roberto Carlos Rodrigues.

O dia 21 de setembro de 2017 logo será esquecido. No próximo domingo, nem lembraremos o que almoçamos no dia que nosso amigo Gatão morreu e se despediu definitivamente de Banco da Vitoria. Edvilson Cardoso, assim como todos nós, quando da nossa partida definitiva, será lembrado por uns, – isso, por poucos dias, e com o passar dos dias, existirá apenas na lembrança de um punhado de pessoas.

Infelizmente, vivemos em tempos confusos e sem referências de amizades. Não sabemos amar nossas lendas vivas, nem muito menos as mortas. Gatão foi prova disso.

Hoje, ainda falamos da saudade que agora sentimos de Gatão. Amanhã, não saberemos, nem porque sentiremos saudade dele.

Gatão, em vida, viveu como um palhaço que levava apenas alegria sem restrições ou preconceitos. Ele nunca se queixou da sua dor, da sua vida humilde, nem jamais disse temer a morte. Viveu um dia por vez. Seus anos lhes bastaram.

Em sua franqueza existencial, Gatão brincou com suas dificuldades e transformou-as em apenas coisas imaginárias. Foi um verdadeiro mágico.

Gatão nunca quis riquezas, casas imponentes, coisas caras, crias ou qualquer tipo de bens. Apenas quis viver em um perfeito estado de poesia. Foi um poeta de poemas sem títulos. Não deixou nada escrito. Apenas a sua lembrança poderá provar sua existência.

Se amou alguém, Gatão nunca disse. Se se apaixonou, nunca demonstrou. Se tinha raiva de alguém, soube também esconder. Se teve inveja, por certo, foi apenas dos pássaros que sobrevoam os céus da nossa comunidade e por seus próprios motivos e razões, cantarolam enquanto voam.

Edvilson Cardoso viveu como um eremita urbano. Ajudando uns, ajudado por outros. Teve alguns amigos e talvez dois ou três descontentes com o seu jeito de viver. Inimigos não teve. Tenho certeza.

A sua razão de viver era alegrar as pessoas, principalmente as crianças. Destas, ele jamais se distanciou. Em verdade, ele não quis crescer e em sua mente, era apenas mais uma criança também. Foi feliz deste jeito.

Quando a vida lhe maltratou demais, ralou seus joelhos, secou suas lagrimas e feriu a sua alma, Gatão soube vencer as adversidades, criando para si um mundo prospero, porém ilusório e imaginativo. Em vez de choramingar ou reclamar dos viés do seu existir, ele vestiu-se de um personagem rico, bondoso e generoso e, como quem vive mais no palco de que na vida real, ele se vestiu deste seu heterônimo pomposo e sepultou de vez o cidadão chamado Edvilson Cardoso. Gatão ficou rico de sonhos.

Quem o via falar das suas riquezas imaginárias, podia achar que Gatão estava louco, desvariado. Mas louco ele não era nem nunca foi. Na verdade, foi muito sábio, e dentro do seu mundo imaginário, foi mais feliz do que muita gente que se acha lucida e inteligente.

Junto a Jaia, Marcelo, Fabão, Maroto , Dei, Ericarlos, Elidê, Dine, Jaqueline, Luciana, Elí, Jacy, Rita Nunes e Eu, Gatão viveu seus melhores dias. Éramos amigos inseparáveis e amávamos de forma igual e ele sempre estava no meio do nosso amor.
Mas, quem o amou mais foi sua mãe, Rosilda. Era quem o melhor o entendia.

Agora Gatão se torna saudade para algumas pessoas e lembranças eternas para outras.

O Banco da Vitoria, se tornou um lugar mais triste sem a presença da Gatão.

Apenas as crianças d’agora saberão o tamanho dessa perda.
Daqui a alguns dias Gatão será apenas saudade para alguns dos seus poucos amigos.

Talvez a sua grande lição de vida foi nos ensinar a driblar as dificuldades com imaginação e criatividade. Afinal, pelos menos, em seu castelo de sonhos ele era rico e feliz. Assim dizia.
Por certo, ele era muito mais feliz do que muitos de nós, todos escravos das nossas desmedidas ambições e tantos compromissos. Coisas, por sinal, que Gatão nunca quis tê-las.

Por certo, o milionário Gatão foi mais feliz que o cidadão Edvilson Cardoso. Ele foi sábio na louca opção. Soube driblar a vida e fez um gol no time da morte. Venceu-a de um a zero.
Do seu jeito e forma, Gatão alcançou mais facilmente a eternidade e de lá, tenho certeza, zomba de nós, – todos bobos, tolos e verdadeiramente loucos por tantas coisas que nunca nos pertencerão.

Agora a saudade de Gatão tem gosto ar. O mesmo ar que todos nos respiramos e que ninguém é dono.

O belo é saber que a morte iguala a todos seres humanos. Todos.

Banco da Vitória Abandonado.

SDC17934 - Copia

Por Roberto Carlos Rodrigues.

Como sabido por algumas pessoas, passei três semanas em Banco da Vitória e uma triste realidade me assustou bastante. A nossa comunidade está se desenvolvendo muito bem quanto aos aspectos das iniciativas privadas, com significativas melhorias nas casas e nos comércios. Porém, quanto a infraestrutura pública, como as ruas, praças e demais logradouros a situação é alarmante, para não dizer cruel e vergonhosa.

Em Banco da Vitória, nos últimos anos, diversas novas casas foram construídas e outras tantas foram reformadas. Ver-se belos pequenos prédios na maioria das ruas da nossa comunidade. Muitas residências avarandadas ostentam construções com dois ou três andares, o que identifica a melhoria da qualidade de vida da nossa gente.

Contudo, o bairro, aos olhos da administração ilheense está totalmente carente. Ruas sem calçamentos, outras esburacadas, muitas intrafegáveis. O mato tenta engolir as toscas vielas. Ver-se esgoto correndo a céu aberto em diversas ruas e principalmente perigosos buracos nas vias públicas.

A Rua do Campo está quase intrafegável. A praça Feliciano de Assis mais parece um pasto entregue as tiriricas. A antiga quadra da Rua Dois de Julho foi destruída. A Ruinha na mesma situação. Nos loteamentos, buracos gigantescos servem de fontes de intransponíveis lamaçais. No Alto da Bela Vista o calçamento está irregular e cheio de buracos. A praça deste logradouro, também jaz abandonada.

Se fosse citar as ruas com calçamentos regulares ou sem buracos em nossa comunidade, apenas duas ou três destas se salvariam. O resto é um buraco só.

Pode-se dizer claramente que não ser ver a presença do poder público em nossa comunidade, quanto aos aspectos estruturais.

Há algumas melhorias percebidas como a estrutura educacional do bairro, a manutenção do Posto de Saúde e do Posto Policial. E só.

A administração do bairro não tem nem local para funcionar e apenas dois servidores públicos varrem as ruas, um dia sim um dia não. Além disso, nada mais.

O Campo de Futebol está quase abandonado. Nas traves nem redes têm. Os muros do campo, cobertos de musgos e limos, denunciam seu distrato. Na rua São Pedro, um buraco assassino atocaia os desavisados. Na Rua da Represa um maldito esgoto corre sobre as pedras e dificulta a passagem das pessoas. No início da antiga Rua do Matadouro, uma cratera gigantesca encontra-se pronta para engolir os desavisados. Na subida do Alto do Iraque, buracos e valas abundam a via. Quando chove, o povo desse local desce segurando nos arames das cercas.
Toda essas irregularidades denunciam o abandono da nossa comunidade e ofuscam as melhorias que muita gente humilde tem feito em suas residências.

Vale frisar que por todas as ruas de Banco da Vitória ver-se novas construções de imóveis ou reformas de casas e implantações de pontos comerciais. Porém, as vias públicas estão deploráveis.

Não convêm nesse momento tentar entender a difícil situação financeira da administração de Ilhéus, nem seus entendidos argumentos e extensas explicações. Porém, quanto aos aspectos do poder público em Banco da Vitória, nada melhorou nos últimos tempos. Nada mesmo.

Posso falar isso porque visitei todas as ruas da nossa comunidade e vi, – como se dizia antigamente -, com meus próprios olhos, o descaso social.

Também não adianta culpar o eleitor de Banco da Vitória pelo descaso que ser ver na localidade, uma vez que essa mesma situação se ver em muitos bairros ilheenses. Alguns, até com dois ou três vereadores eleitos. Ou seja, o abandono público não é demérito apenas da nossa comunidade.

Uma coisa é certa: o povo de Banco da Vitória tem motivos e razões de sobra para não acreditar em nenhuma promessa de políticos. Sejam estes municipais, estaduais ou federais.

Eu endosso essa falta de fé pública e assevero que não estamos enganados com as nossas descrenças. Temos motivos de sobra para não acreditarmos em ninguém.

Banco da Vitória pena, sofre e suplica melhorias públicas e, como um mudo, apenas conversa com as pedras.

Livro: A História de Banco da Vitória. Versão 2017. ESGOTADA.

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Observação: Os livros NÃO serão enviados pelo correios nem reservados pelas Redes Sociais. É necessário procurar Cremilda e Jair para receber o livro reservado.

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Livro Grátis: Banco da Vitória – A Minha Aldeia.

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