A Feiticeira de Banco da Vitória.

Pfeitiçoor Roberto Carlos Rodrigues.

O mato cobriu tudo. Onde havia uma casa branca com duas janelas azuis, existe apenas tiriricas, quaranas e calumbis. No antigo terreiro onde se dançava as umbigadas e os forrós juninos, agora passeiam carrapatos, cupins e falsas cobras corais. Quem atualmente olha para o antigo alto da Santa Clara, em Banco da Vitória, e só ver mato entre alguns lances de pastos, não imagina a linda casa que havia ali. Bem no meio do morro, com a vista privilegiada daquela localidade e do rio Cachoeira ao fundo.

Nesta casa morava dona Zumira. A famosa Madame Zu. A temida feiticeira de Banco da Vitória. A Iyalorixá do terreiro da Pomba Branca.

Os feitiços, encantamentos, bruxarias, rituais macabros e simpatias de Madame Zu eram conhecidos (e principalmente temidos) em toda a região cacaueira do Sul da Bahia.

Em Banco da Vitória, todos sabiam, quem levava uma raiva, um rancor ou uma desilusão amorosa para os ouvidos de Madame Zu, não descia o morro sem uma vingança pronta e acertada.

Os rituais de Madame Zu eram irrevogáveis. Portanto, quem procurava a famosa feiticeira de Banco da Vitória sabia que não podia voltar atrás.

Se era para aleijar, os feitiços de madame Zu aleijava e depois matava aos poucos. Se era para matar, matava logo, não apenas o condenado na magia, mais seus principais familiares e suas criações. Se era para reatar amores descaminhados, as mandigas de madame Zu faziam com que homens antes arredios e insensatos se tornarem amorosos e bestas.

Pendengas de cornos, brigas de bêbados, arruaças de vizinhos não eram aceitos como motivos dos serviços de Madame Zu. O seu negócio era dar nó cego ou desatar nós que ninguém conseguia resolver.

Dessa forma, a feiticeira de Banco da Vitória era também conhecida como a última via. Afinal, o que não achava conserto nas mandigas de Madame Zu, não havia reparo na face da terra. Acreditava-se por todos aqueles cantos.

Fazendeiros do cacau, coronéis de títulos e patentes, altos funcionários públicos, intendentes, delegados, renomados advogados e médicos e principalmente as mulheres dos donos do cacau, eram fregueses assíduos de Madame Zu.

Tinha fazendeiros que não semeavam uma única semente de cacau sem antes consultar Madame Zu. Outros, na hora de comprar novas terras, consultava primeiro a feiticeira de Banco da Vitória. Sem seu aval, nada feito.

Uns, apaixonados pelas mulheres alheias, recorriam as mandigas de Madame Zu para favorecer a morte do marido da pretendida, depois apodera-se da linda viúva. Normalmente isso surtia efeitos.

Em Banco da Vitória e nos quinhentos quilômetros de raio se sabia da fama e dos poderes alquímicos de Madame Zu. Feiticeira igual não havia em toda a Bahia, quiçá no Brasil.

Contudo, havia um grande mistério que rondava a casa branca com janelas azuis que ficava no meio do Alto da Santa Clara e principalmente sobre a origem da sua proprietária.

O mistério era: de onde vinha tanto poder em uma única pessoa?

Ninguém jamais soube responder esta pergunta.

Da senhora septuagenária pouco se sabia no distrito de Banco da Vitória. Uns diziam que Zumira era nascida em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo bBaiano. Outros argumentavam que ela era oriunda de Poções, na boca do sudoeste baiano. Outros, ainda mais criativos, diziam que Madame Zu tinha nascido em Ouro Preto, em terras mineiras.

Uma coisa era certa: Zumira dos Santos Santana, a famosa Madame Zu de Banco da Vitória não era deste mundo. Era do mundo dos espíritos e dos encantamentos.

Madame Zu pouco descia o morro do Alto da Santa Clara. Malmente andava nas ruas de Banco da Vitória ou ia ao centro de Ilhéus em raras ocasiões. Isso somente ocorria quando das procissões de São Jorge, dos festejos de São Sebastião ou da festa de Nossa Senhora da Conceição. Contudo, no dia 6 de janeiro, madame Zu ajuntava sua gente e iam no meio da noite se banharem no mar de Ilhéus. Festejava na data dos Reis, seu aniversário.

Na casa branca com janelas azuis, mas de vinte pessoas cuidavam dos seus interesses e necessidades. Eram abiâs, iaôs e ebômis resignados e seguidores da velha feiticeira.

Olhos pretos e miúdos. Rosto rígido e carismático. Sorriso meio escondido, mas fascinante. Corpo franzino e firme. Pele negra feito a noite. Olhar penetrante, voz profunda, calma e séria. Assim era Madame Zu. Sempre vestida de branco com seus dois grossos colares azuis pendurados no pescoço e na mão direita o terço de nossa senhora. Não chegava a ter 50 quilos em seus um metro e sessenta e quatro de altura. Mas tinha autoridade de gigante.

Os feitiços que Madame Zu fazia não podiam ser desfeitos. Os que ela desfazia, matava seus ordenadores.

Madame Zu chegara ao Banco da Vitória no início dos anos sessenta. Trazia em mãos o comprovante de compra do terreno no meio da ladeira do alto da Santa Clara e uma mala cheia de dinheiro. Em pouco tempo ergueu sua casa branca no meio da mata e começou suas atividades de feitiçaria. Em menos de dois anos já era famosa em toda região cacaueira e tinha súditos em diversas cidades do sul da Bahia.

Madame Zu era festeira. Nos festejos de Cosme e Damião o caruru era servido para mais de duas mil pessoas. Nas festas Juninas o forró durava quase quinze dias e, no dia do seu aniversário, matava-se um boi para o churrasco.

Um dia Madame Zu adoeceu e ficou de cama por longas semanas.

Levadas aos principais médicos da região, nada foi constatado, a não ser um mal-estar que acometia a velha feiticeira. Da cama a velha feiticeira não levantou mais até aquela segunda-feira, quando pediu para ser levada para a frente da sua casa. Queria contemplar a bela paisagem às margens do rio Cachoeira. Foi atendida.

Enfrente a casa branca com duas janelas azuis, madame Zu falou apenas com Cândida Lázaro, sua principal baba kekere. Deu duas ou três ordens a ela, depois pediu um gole de água. Uma das suas iaôs foi até a cozinha para atender seu pedido. Quando a iaô voltou com a caneca de porcelana com a água, madame Zu já não estava mais no mundo destes vivos. Estava de volta ao mundo dos encantamentos. Padecera em paz.

O corpo de Madame Zu foi purificado com água corrente e incensos. A pemba branca cruzou seu corpo, na testa, na garganta e nas costas das mãos. O óleo de oliva consagrado foi derramado sobre seus pés descalços. Borrifaram essências e óleos aromáticos sobre seu corpo e por fim encomendaram seu espírito.

O velório foi restrito aos amigos e as autoridades de todos os portes e quilates da região.

Naquela noite a falecida foi apresentada no meio do terreiro. Cantos de Oxalá e Obaluaiyê, hinos de Umbanda foram ouvidos até o nascer do dia, quando as danças de Iyamoro se findaram.

No final da tarde daquela terça-feira Madame Zu foi sepultada no cemitério de Banco da Vitória. Era agosto de 1989.

Madame Zu não conheceu a outra feiticeira mais poderosa, – mil vezes mais poderosa que ela, que chegara ao sul da Bahia ainda naquele ano. Essa outra feiticeira chamava-se Moniliophtora perniciosa, mas ficou conhecida em toda aquela região como Vassoura de Bruxa.

A bruxa em si, dessa praga que quase dizimou a lavoura cacaueira do sul da Bahia, nunca botou os pés em solos grapiúnas. Por aqui esteve apenas sua vassoura e seus estragos.

Madame Zu foi facilmente destronada do cargo de maior feiticeira do sul da Bahia. Atualmente a vassoura de Bruxa continua fazendo mandigas, feitiços e ebós que ninguém consegue desfazer.

Os poderes de Madame Zu se dizimaram com o tempo e onde havia uma casa branca com duas janelas azuis, o mato cobriu tudo e só ser ver apenas tiriricas, quaranas e calumbis.

Até seus súditos se perderam no tempo.

De Madame Zu só ao mais velhos se lembram e, em Banco da Vitória quem atualmente dar as ordens nos terreiros de umbanda é uma Axopí, muito famosa, chamada Saudade.

Anúncios

A lei de Rita Sassarica.

foda-se-pePor Roberto Carlos Rodrigues.

Naqueles tempos ninguém conhecia Maria da Penha Maia Fernandes e bater em mulher era coisa corriqueira nas bandas do rio Cachoeira. Os falsos machistas diziam que batiam sem saber, mas as mulheres sabiam porque estavam apanhando. Por essa desgraçada ordem, algumas mulheres viviam com as bocas machucadas, costas marcadas de “pano de facão”, dedos quebrados, dentes moles. De vez em quando uma Maria corajosa colocava óleo quente no ouvido do marido agressor, (futuro defunto) e o brabão ia para os quintos dos infernos. Mesmo assim, nesse jogo de violência o placar dos homens estava sempre dez mil a zero. As mulheres sempre perdiam.

Mas como sempre não é eterno, um dia as coisas mudam. E mudaram em Banco da Vitória.

Era onze horas da manhã de uma segunda-feira do outono de 1974 quando se ouviu os pipocos na Rua de Trás. Três tiros de trinta e oito. Sons de balas novas, pólvora virgem, chumbo em alma de fogo.

Correm os vizinhos para a origem dos tiros. Acodem a mulher com o trabuco fumegante nas mãos, o morto, ainda quente caído no corredor. Dois tiros nos peitos e no telhado furado pela terceira bala a luz do sol do quase meio dia entrava e marcava a cozinha com um facho de luz, tão alvo, quase azul celestial.

Uns mexem no morto para ver alguns sinais de vida. Desistem logo. Outras consolam a assassina. Tiram a arma ainda quente das suas mãos. Dão-lhe um copo com água. Acomodam-na numa cadeira. Enxugam o sangue que sai da sua boca roxa, fruto dos murros do marido, agora morto e inerte.

– Um dia a gente cansa. – Um dia a gente cansa. Repete a assassina.

É Rita de Cássia, filha de Antônio Domingos e Dona Naldinha. Casada com Gregório Militão, capataz da Fazenda Alvorada, chefe de mais de 50 homens e ordens de todos os tipos e calibres.

As crianças estavam na escola na hora dos tiros e não puderam ver o pai caído no corredor, nem a mãe sendo presa pelo cabo Aristides e o soldado Juvenal.

– Eu sabia que isso um dia ia acontecer. Falou a vizinha da esquerda. – Mulher de coragem, cansou de apanhar. Retrucou a outra vizinha.

O enterro foi no dia seguinte. O capataz brabão tomou barro na cara no mesmo horário que Rita de Cássia prestava depoimento na delegacia de Ilhéus.

Delegado zangado, voz rouca, dono de um bigode preto, igual uma lagarta de fogo, e dentes manchados de nicotina, de nome Dr. Aristeu Cardoso. Perguntou o delegado a assassina:

– Matou seu marido porque dona Rita de Cássia?

– Cansei doutor. Cansei de apanhar, um dia sim um dia não caia no pau. Quatro surras por semana não é boa coisa não. Agora ele não bate mais em ninguém.

– A senhora já tinha dado parte dele? Perguntou o delegado Dr. Aristeu Cardoso, olhando para o escrivão que redigia o depoimento. Era o magricelo João de Athayde, veterano dos carteados e amantes dos conhaques importados.

– Dar parte para quê? Para apanhar ainda mais? Para ser zombada pelos senhores da polícia? Não carece de parte não. Disse a mulher olhando as marcas das algemas nos seus pulsos morenos.

– Já que a senhora diz que apanhava há tanto tempo, porque resolveu matar seu marido logo ontem? Perguntou o delegado alisando o bigode.

– Na verdade, seu doutor não era de hoje que eu pensava em matar aquele desgraçado. Já vinha com isso a muito tempo na cachola. Mas sempre tirava isso da cabeça. Mas ontem foi demais. Eu estava sozinha em casa, meninos na escola, o desgraçado no eito do mundo, eu sem ter muito o que fazer. Resolvi esquentar minha perereca, pois o brabão não era bom da cama. Dava uma por semana, olhe lá! Subia em cima de mim feito um animal. Metia com raiva e gozava logo. Depois dormia feito uma cascavel. Eu ficava na vontade. Ontem resolvi bater uma siririca para aliviar as tensões. Quando eu estava no bem bom aparece o homem na porta do quarto. Já gritando, o que é isso? O que é isso? Tá faltando homem aqui em casa?  Não deu nem tempo de eu arrumar a calçola. Ele subiu em cima de mim e começou a me bater, bater e bater. Aí eu corri, fugi dele. Fui até o armário peguei o revolve e sentei o dedo. O resto o senhor já sabe.

Uma hora depois, no restaurante Flor do Cacau, na Praça Cairu, o Delegado Dr. Aristeu almoça junto ao policial José Umberto e o escrivão João de Athayde, quando fala:

– Umbertinho, você precisa ver a qualidade da morena jambo. Trinta e poucos anos, toda torneada. Peitos duros, bunda grande, boca carnuda, olhos miúdos, cabelos pela cintura. O miserável do marido morredor em vez de socorrer a esposa siririqueira com uma foda de dar nó no pau, não, resolve bater na mulher porque ela bateu uma siririca. Veja o que deu. Morreu e a assassina agora está aí deixando a cadeia doida e alvoroçada. A nega é toda boa. Boa não, é ótima. Otimissíma.

O delegado Cardoso pigarreou e diz:

– Não fica muito tempo presa não. Tem muita gente para depor a favor dela. Apanhava demais. Se julgada, vai ser legítima defesa. O marido que se fudeu. Morreu com o pau mole. Concluiu.

Quinze dias depois Rita foi solta. Respondeu o processo em liberdade. Foi depois julgada e absorvida. Não voltou a morar em Banco da Vitória. Foi morar em Inema, era manteúda de Dr. Clóvis Dantas, seu advogado de defesa. Uma vez por semana o advogado ia até Inema, correr suas roças e aproveitava para dar uma trepada bem dada com Rita de Cássia. Nos demais dias quem azeitava a xoxota de Rita Sassarica era o magricela Arisvaldo Costureiro. Arisvaldo dizia que dava três sem tirar de dentro. Verdade ou não, Rita Sassarica vivia sorrindo pelas ruas de Inema. Devia ter seus motivos. Mas isso já uma outra estória.

História do Cacau, por Ronaldo Santana

O canal Ecolink Brasil  (Youtube) publicou depoimento do ex-vice-prefeito de Ilhéus, Ronaldo Santana, sobre fatos importantes da história do município e da antiga capitania. Ronaldo faleceu há uma semana, em Salvador, vítima de parada cardíaca. O vídeo abaixo lembra o respeito que ele nutria pela cultura regional. Assista.