Gatão – O homem que enganou a pobreza.

gatão

Por Roberto Carlos Rodrigues.

O dia 21 de setembro de 2017 logo será esquecido. No próximo domingo, nem lembraremos o que almoçamos no dia que nosso amigo Gatão morreu e se despediu definitivamente de Banco da Vitoria. Edvilson Cardoso, assim como todos nós, quando da nossa partida definitiva, será lembrado por uns, – isso, por poucos dias, e com o passar dos dias, existirá apenas na lembrança de um punhado de pessoas.

Infelizmente, vivemos em tempos confusos e sem referências de amizades. Não sabemos amar nossas lendas vivas, nem muito menos as mortas. Gatão foi prova disso.

Hoje, ainda falamos da saudade que agora sentimos de Gatão. Amanhã, não saberemos, nem porque sentiremos saudade dele.

Gatão, em vida, viveu como um palhaço que levava apenas alegria sem restrições ou preconceitos. Ele nunca se queixou da sua dor, da sua vida humilde, nem jamais disse temer a morte. Viveu um dia por vez. Seus anos lhes bastaram.

Em sua franqueza existencial, Gatão brincou com suas dificuldades e transformou-as em apenas coisas imaginárias. Foi um verdadeiro mágico.

Gatão nunca quis riquezas, casas imponentes, coisas caras, crias ou qualquer tipo de bens. Apenas quis viver em um perfeito estado de poesia. Foi um poeta de poemas sem títulos. Não deixou nada escrito. Apenas a sua lembrança poderá provar sua existência.

Se amou alguém, Gatão nunca disse. Se se apaixonou, nunca demonstrou. Se tinha raiva de alguém, soube também esconder. Se teve inveja, por certo, foi apenas dos pássaros que sobrevoam os céus da nossa comunidade e por seus próprios motivos e razões, cantarolam enquanto voam.

Edvilson Cardoso viveu como um eremita urbano. Ajudando uns, ajudado por outros. Teve alguns amigos e talvez dois ou três descontentes com o seu jeito de viver. Inimigos não teve. Tenho certeza.

A sua razão de viver era alegrar as pessoas, principalmente as crianças. Destas, ele jamais se distanciou. Em verdade, ele não quis crescer e em sua mente, era apenas mais uma criança também. Foi feliz deste jeito.

Quando a vida lhe maltratou demais, ralou seus joelhos, secou suas lagrimas e feriu a sua alma, Gatão soube vencer as adversidades, criando para si um mundo prospero, porém ilusório e imaginativo. Em vez de choramingar ou reclamar dos viés do seu existir, ele vestiu-se de um personagem rico, bondoso e generoso e, como quem vive mais no palco de que na vida real, ele se vestiu deste seu heterônimo pomposo e sepultou de vez o cidadão chamado Edvilson Cardoso. Gatão ficou rico de sonhos.

Quem o via falar das suas riquezas imaginárias, podia achar que Gatão estava louco, desvariado. Mas louco ele não era nem nunca foi. Na verdade, foi muito sábio, e dentro do seu mundo imaginário, foi mais feliz do que muita gente que se acha lucida e inteligente.

Junto a Jaia, Marcelo, Fabão, Maroto , Dei, Ericarlos, Elidê, Dine, Jaqueline, Luciana, Elí, Jacy, Rita Nunes e Eu, Gatão viveu seus melhores dias. Éramos amigos inseparáveis e amávamos de forma igual e ele sempre estava no meio do nosso amor.
Mas, quem o amou mais foi sua mãe, Rosilda. Era quem o melhor o entendia.

Agora Gatão se torna saudade para algumas pessoas e lembranças eternas para outras.

O Banco da Vitoria, se tornou um lugar mais triste sem a presença da Gatão.

Apenas as crianças d’agora saberão o tamanho dessa perda.
Daqui a alguns dias Gatão será apenas saudade para alguns dos seus poucos amigos.

Talvez a sua grande lição de vida foi nos ensinar a driblar as dificuldades com imaginação e criatividade. Afinal, pelos menos, em seu castelo de sonhos ele era rico e feliz. Assim dizia.
Por certo, ele era muito mais feliz do que muitos de nós, todos escravos das nossas desmedidas ambições e tantos compromissos. Coisas, por sinal, que Gatão nunca quis tê-las.

Por certo, o milionário Gatão foi mais feliz que o cidadão Edvilson Cardoso. Ele foi sábio na louca opção. Soube driblar a vida e fez um gol no time da morte. Venceu-a de um a zero.
Do seu jeito e forma, Gatão alcançou mais facilmente a eternidade e de lá, tenho certeza, zomba de nós, – todos bobos, tolos e verdadeiramente loucos por tantas coisas que nunca nos pertencerão.

Agora a saudade de Gatão tem gosto ar. O mesmo ar que todos nos respiramos e que ninguém é dono.

O belo é saber que a morte iguala a todos seres humanos. Todos.

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Banco da Vitória Abandonado.

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Por Roberto Carlos Rodrigues.

Como sabido por algumas pessoas, passei três semanas em Banco da Vitória e uma triste realidade me assustou bastante. A nossa comunidade está se desenvolvendo muito bem quanto aos aspectos das iniciativas privadas, com significativas melhorias nas casas e nos comércios. Porém, quanto a infraestrutura pública, como as ruas, praças e demais logradouros a situação é alarmante, para não dizer cruel e vergonhosa.

Em Banco da Vitória, nos últimos anos, diversas novas casas foram construídas e outras tantas foram reformadas. Ver-se belos pequenos prédios na maioria das ruas da nossa comunidade. Muitas residências avarandadas ostentam construções com dois ou três andares, o que identifica a melhoria da qualidade de vida da nossa gente.

Contudo, o bairro, aos olhos da administração ilheense está totalmente carente. Ruas sem calçamentos, outras esburacadas, muitas intrafegáveis. O mato tenta engolir as toscas vielas. Ver-se esgoto correndo a céu aberto em diversas ruas e principalmente perigosos buracos nas vias públicas.

A Rua do Campo está quase intrafegável. A praça Feliciano de Assis mais parece um pasto entregue as tiriricas. A antiga quadra da Rua Dois de Julho foi destruída. A Ruinha na mesma situação. Nos loteamentos, buracos gigantescos servem de fontes de intransponíveis lamaçais. No Alto da Bela Vista o calçamento está irregular e cheio de buracos. A praça deste logradouro, também jaz abandonada.

Se fosse citar as ruas com calçamentos regulares ou sem buracos em nossa comunidade, apenas duas ou três destas se salvariam. O resto é um buraco só.

Pode-se dizer claramente que não ser ver a presença do poder público em nossa comunidade, quanto aos aspectos estruturais.

Há algumas melhorias percebidas como a estrutura educacional do bairro, a manutenção do Posto de Saúde e do Posto Policial. E só.

A administração do bairro não tem nem local para funcionar e apenas dois servidores públicos varrem as ruas, um dia sim um dia não. Além disso, nada mais.

O Campo de Futebol está quase abandonado. Nas traves nem redes têm. Os muros do campo, cobertos de musgos e limos, denunciam seu distrato. Na rua São Pedro, um buraco assassino atocaia os desavisados. Na Rua da Represa um maldito esgoto corre sobre as pedras e dificulta a passagem das pessoas. No início da antiga Rua do Matadouro, uma cratera gigantesca encontra-se pronta para engolir os desavisados. Na subida do Alto do Iraque, buracos e valas abundam a via. Quando chove, o povo desse local desce segurando nos arames das cercas.
Toda essas irregularidades denunciam o abandono da nossa comunidade e ofuscam as melhorias que muita gente humilde tem feito em suas residências.

Vale frisar que por todas as ruas de Banco da Vitória ver-se novas construções de imóveis ou reformas de casas e implantações de pontos comerciais. Porém, as vias públicas estão deploráveis.

Não convêm nesse momento tentar entender a difícil situação financeira da administração de Ilhéus, nem seus entendidos argumentos e extensas explicações. Porém, quanto aos aspectos do poder público em Banco da Vitória, nada melhorou nos últimos tempos. Nada mesmo.

Posso falar isso porque visitei todas as ruas da nossa comunidade e vi, – como se dizia antigamente -, com meus próprios olhos, o descaso social.

Também não adianta culpar o eleitor de Banco da Vitória pelo descaso que ser ver na localidade, uma vez que essa mesma situação se ver em muitos bairros ilheenses. Alguns, até com dois ou três vereadores eleitos. Ou seja, o abandono público não é demérito apenas da nossa comunidade.

Uma coisa é certa: o povo de Banco da Vitória tem motivos e razões de sobra para não acreditar em nenhuma promessa de políticos. Sejam estes municipais, estaduais ou federais.

Eu endosso essa falta de fé pública e assevero que não estamos enganados com as nossas descrenças. Temos motivos de sobra para não acreditarmos em ninguém.

Banco da Vitória pena, sofre e suplica melhorias públicas e, como um mudo, apenas conversa com as pedras.

A Feiticeira de Banco da Vitória.

Pfeitiçoor Roberto Carlos Rodrigues.

O mato cobriu tudo. Onde havia uma casa branca com duas janelas azuis, existe apenas tiriricas, quaranas e calumbis. No antigo terreiro onde se dançava as umbigadas e os forrós juninos, agora passeiam carrapatos, cupins e falsas cobras corais. Quem atualmente olha para o antigo alto da Santa Clara, em Banco da Vitória, e só ver mato entre alguns lances de pastos, não imagina a linda casa que havia ali. Bem no meio do morro, com a vista privilegiada daquela localidade e do rio Cachoeira ao fundo.

Nesta casa morava dona Zumira. A famosa Madame Zu. A temida feiticeira de Banco da Vitória. A Iyalorixá do terreiro da Pomba Branca.

Os feitiços, encantamentos, bruxarias, rituais macabros e simpatias de Madame Zu eram conhecidos (e principalmente temidos) em toda a região cacaueira do Sul da Bahia.

Em Banco da Vitória, todos sabiam, quem levava uma raiva, um rancor ou uma desilusão amorosa para os ouvidos de Madame Zu, não descia o morro sem uma vingança pronta e acertada.

Os rituais de Madame Zu eram irrevogáveis. Portanto, quem procurava a famosa feiticeira de Banco da Vitória sabia que não podia voltar atrás.

Se era para aleijar, os feitiços de madame Zu aleijava e depois matava aos poucos. Se era para matar, matava logo, não apenas o condenado na magia, mais seus principais familiares e suas criações. Se era para reatar amores descaminhados, as mandigas de madame Zu faziam com que homens antes arredios e insensatos se tornarem amorosos e bestas.

Pendengas de cornos, brigas de bêbados, arruaças de vizinhos não eram aceitos como motivos dos serviços de Madame Zu. O seu negócio era dar nó cego ou desatar nós que ninguém conseguia resolver.

Dessa forma, a feiticeira de Banco da Vitória era também conhecida como a última via. Afinal, o que não achava conserto nas mandigas de Madame Zu, não havia reparo na face da terra. Acreditava-se por todos aqueles cantos.

Fazendeiros do cacau, coronéis de títulos e patentes, altos funcionários públicos, intendentes, delegados, renomados advogados e médicos e principalmente as mulheres dos donos do cacau, eram fregueses assíduos de Madame Zu.

Tinha fazendeiros que não semeavam uma única semente de cacau sem antes consultar Madame Zu. Outros, na hora de comprar novas terras, consultava primeiro a feiticeira de Banco da Vitória. Sem seu aval, nada feito.

Uns, apaixonados pelas mulheres alheias, recorriam as mandigas de Madame Zu para favorecer a morte do marido da pretendida, depois apodera-se da linda viúva. Normalmente isso surtia efeitos.

Em Banco da Vitória e nos quinhentos quilômetros de raio se sabia da fama e dos poderes alquímicos de Madame Zu. Feiticeira igual não havia em toda a Bahia, quiçá no Brasil.

Contudo, havia um grande mistério que rondava a casa branca com janelas azuis que ficava no meio do Alto da Santa Clara e principalmente sobre a origem da sua proprietária.

O mistério era: de onde vinha tanto poder em uma única pessoa?

Ninguém jamais soube responder esta pergunta.

Da senhora septuagenária pouco se sabia no distrito de Banco da Vitória. Uns diziam que Zumira era nascida em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo bBaiano. Outros argumentavam que ela era oriunda de Poções, na boca do sudoeste baiano. Outros, ainda mais criativos, diziam que Madame Zu tinha nascido em Ouro Preto, em terras mineiras.

Uma coisa era certa: Zumira dos Santos Santana, a famosa Madame Zu de Banco da Vitória não era deste mundo. Era do mundo dos espíritos e dos encantamentos.

Madame Zu pouco descia o morro do Alto da Santa Clara. Malmente andava nas ruas de Banco da Vitória ou ia ao centro de Ilhéus em raras ocasiões. Isso somente ocorria quando das procissões de São Jorge, dos festejos de São Sebastião ou da festa de Nossa Senhora da Conceição. Contudo, no dia 6 de janeiro, madame Zu ajuntava sua gente e iam no meio da noite se banharem no mar de Ilhéus. Festejava na data dos Reis, seu aniversário.

Na casa branca com janelas azuis, mas de vinte pessoas cuidavam dos seus interesses e necessidades. Eram abiâs, iaôs e ebômis resignados e seguidores da velha feiticeira.

Olhos pretos e miúdos. Rosto rígido e carismático. Sorriso meio escondido, mas fascinante. Corpo franzino e firme. Pele negra feito a noite. Olhar penetrante, voz profunda, calma e séria. Assim era Madame Zu. Sempre vestida de branco com seus dois grossos colares azuis pendurados no pescoço e na mão direita o terço de nossa senhora. Não chegava a ter 50 quilos em seus um metro e sessenta e quatro de altura. Mas tinha autoridade de gigante.

Os feitiços que Madame Zu fazia não podiam ser desfeitos. Os que ela desfazia, matava seus ordenadores.

Madame Zu chegara ao Banco da Vitória no início dos anos sessenta. Trazia em mãos o comprovante de compra do terreno no meio da ladeira do alto da Santa Clara e uma mala cheia de dinheiro. Em pouco tempo ergueu sua casa branca no meio da mata e começou suas atividades de feitiçaria. Em menos de dois anos já era famosa em toda região cacaueira e tinha súditos em diversas cidades do sul da Bahia.

Madame Zu era festeira. Nos festejos de Cosme e Damião o caruru era servido para mais de duas mil pessoas. Nas festas Juninas o forró durava quase quinze dias e, no dia do seu aniversário, matava-se um boi para o churrasco.

Um dia Madame Zu adoeceu e ficou de cama por longas semanas.

Levadas aos principais médicos da região, nada foi constatado, a não ser um mal-estar que acometia a velha feiticeira. Da cama a velha feiticeira não levantou mais até aquela segunda-feira, quando pediu para ser levada para a frente da sua casa. Queria contemplar a bela paisagem às margens do rio Cachoeira. Foi atendida.

Enfrente a casa branca com duas janelas azuis, madame Zu falou apenas com Cândida Lázaro, sua principal baba kekere. Deu duas ou três ordens a ela, depois pediu um gole de água. Uma das suas iaôs foi até a cozinha para atender seu pedido. Quando a iaô voltou com a caneca de porcelana com a água, madame Zu já não estava mais no mundo destes vivos. Estava de volta ao mundo dos encantamentos. Padecera em paz.

O corpo de Madame Zu foi purificado com água corrente e incensos. A pemba branca cruzou seu corpo, na testa, na garganta e nas costas das mãos. O óleo de oliva consagrado foi derramado sobre seus pés descalços. Borrifaram essências e óleos aromáticos sobre seu corpo e por fim encomendaram seu espírito.

O velório foi restrito aos amigos e as autoridades de todos os portes e quilates da região.

Naquela noite a falecida foi apresentada no meio do terreiro. Cantos de Oxalá e Obaluaiyê, hinos de Umbanda foram ouvidos até o nascer do dia, quando as danças de Iyamoro se findaram.

No final da tarde daquela terça-feira Madame Zu foi sepultada no cemitério de Banco da Vitória. Era agosto de 1989.

Madame Zu não conheceu a outra feiticeira mais poderosa, – mil vezes mais poderosa que ela, que chegara ao sul da Bahia ainda naquele ano. Essa outra feiticeira chamava-se Moniliophtora perniciosa, mas ficou conhecida em toda aquela região como Vassoura de Bruxa.

A bruxa em si, dessa praga que quase dizimou a lavoura cacaueira do sul da Bahia, nunca botou os pés em solos grapiúnas. Por aqui esteve apenas sua vassoura e seus estragos.

Madame Zu foi facilmente destronada do cargo de maior feiticeira do sul da Bahia. Atualmente a vassoura de Bruxa continua fazendo mandigas, feitiços e ebós que ninguém consegue desfazer.

Os poderes de Madame Zu se dizimaram com o tempo e onde havia uma casa branca com duas janelas azuis, o mato cobriu tudo e só ser ver apenas tiriricas, quaranas e calumbis.

Até seus súditos se perderam no tempo.

De Madame Zu só ao mais velhos se lembram e, em Banco da Vitória quem atualmente dar as ordens nos terreiros de umbanda é uma Axopí, muito famosa, chamada Saudade.

A Carreira de Grazi Fredmann, a modelo de Banco da Vitória.

modelo 3Por Roberto Carlos Rodrigues.

Antigamente, em Banco da Vitória, os meninos sonhavam ser caminhoneiros, policiais ou marinheiros. As meninas sonhavam ser professoras ou secretárias. Depois que Aldair se tornou jogador de futebol famoso do Flamengo do Rio de Janeiro, os sonhos dos nossos meninos mudaram completamente. Todos queriam ser jogadores de futebol. Já as meninas mudaram seus sonhos também. Todas queriam ser agora modelos e desfilar nas passarelas das Fashion Week de São Paulo, Madri, Nova York, Tóquio e até mesmo Milão.

De uma hora para outras as magricelas das beiras mornas do Rio Cachoeira começaram a andar nas pontas dos pés, pés entre pés, ombros retos, tórax esticados, rostos erguidos, queixos alinhados, bochechas e pálpebras maquiadas e lábios coloridos por reluzente e fortes tons de batons.

Xuxa Meneghel, Munique Evans, Luma de Oliveira, Cláudia Raia, Isadora Ribeiro, Luiza Brunet, Valéria Vanenssa e Luiza Thomé eram íntimas das conversas e dos imaginários das moçoilas da nossa comunidade.

Nos quartos das meninas havia pôsteres por todos os cantos. Cadernos com as fotos das musas eram itens obrigatórios nas escolas. Pulseiras, kits de maquiagens e principalmente cortes de cabelos eram imitadas pelas nossas gurias.

Contudo, ninguém em Banco da Vitória “incorporou” tanto o sonho de ser modelo do que Grazi Fredmann. Na verdade, Grazi Fredmann era o nome artístico de Etelvina Alvarenga dos Santos, uma moça magricela, delicada e sonhadora que morava na Rua da Represa, no sopé do Alto da Bela Vista.

Se alguém quisesse arrumar uma briga e ter uma inimiga eterna era só chamar Grazi Fredmann de Etelvina. Nessa ocasião Garzi não respondia nem sobre tortura. Arrebitava o nariz, adiantava os passos no seu andar parecido com os das emas e fugia da ocasião.
Se alguém quisesse ganhar um beijo era só elogiar o “look” do dia que a modelo sonhadora usava.

Na verdade Etelvina, – ou melhor Grazi Fredmann, era uma moça até bonita. Morena dos cabelos escuros. Rosto afinado, olhos morenos, nariz levemente arrebitado, lábios finos, sorriso resplandecente, braços e pernas compridas, seios volumosos, cintura fina, quadris nas medidas das modelos internacionais. Era nossa modelo.

Todas as tardes Grazi Fredmann arrumava um look especial para vestir-se (as vezes com peças emprestadas das amigas também sonhadoras), maquiava-se generosamente e ia desfilar nos acostamentos da Rodovia Ilhéus – Itabuna.

O percurso vespertino de Grazi Fredmann ia das imediações do antigo matadouro municipal de Ilhéus até o convento das freiras.
Grazi ia e voltava andando como se estivesse numa passarela. Acreditava que ali podia ser vista por algum caça-talento e então realizar seus sonhos tão bens sonhados de ser modelo profissional.

Numa tarde de fevereiro, dessas que o sol resolve amolecer o asfalto, ia a sonhadora Grazi Fredmann desfilando no acostamento da pista, em cima das suas sandálias de saltos bem altos e com o seu andar de pés entre pés, quando a pobre moça se deparou com um boi que fugira do pasto da fazenda Victória e corria em sua direção.

Em fração de segundos a nossa modelo de beira de pista, tentou retirar as sandália de saltos altos dos pés e só conseguir retirar de um, e pôs-se a correr feito uma louca, enquanto gritava desesperadamente.
– Socorro!!!!

A magricela corria descalça de um pé só e gritava feito uma louca. O boi enfezado aumentou a correria. Os vaqueiros gritavam e sorriam. Os moradores da beira da pista saíam as portas para ver a cena e a pobre Grazi Fredmann corria e gritava, gritava e corria.
Trezentos metros depois Grazi viu uma porta aberta e invadiu a casa de quem não conhecia. O boi passou rangendo os chifres na sua bunda. Os maloqueiros e biribanos passaram segundos depois sorrindo e zombando da pobre Etelvina, agora caída e desmaiada na sala de dona Iracy Ribeiro.

O boi foi laçado nas imediações do campo do Pacaembu. A pobre Etelvina foi tratada com água com açúcar e depois foi levada cambaleando nos braços dos seus primos para sua moradia. Em uma das suas mãos, o resto da sandália quebrada.

No dia seguinte, Grazi Fredmann não desfilou nos acostamentos da rodovia, em Banco da Vitória. A mesma coisa não aconteceu nos dias seguintes, nas semanas seguintes, nos meses seguintes. A comunidade de Banco da Vitória perdeu a sua modelo vespertina.

Etelvina Alvarenga dos Santos se mudara definitivamente para São Paulo onde tentou ser dançarina de Axé, professora de dança baiana e por fim, arrumou um emprego como secretária em um consultório dentário no bairro de Pinheiros. Quem a encontrava trabalhando neste emprego em São Paulo e com o crachá escrito o nome Telvy Alves nem imaginava está a frente de nossa famosa Grazi Fredmann.

Até hoje o prato preferido de Telvy Alves ou Grazi Fredmann ou ainda Etelvina Alvarenga dos Santos é carne assada. Grazi deve ter suas razões por este peculiar paladar.

– Maldito boi, maldito boi. Sussurra Grazi enquanto mastiga carne assada.

Banco da Vitória em 1955.

BOB38.jpgFoto da abertura da estrada Ilhéus Itabuna, ano 1955. Essa foto foi feita pelo geógrafo Milton Santos e encontra-se no seu livro Zona do Cacau, de 1957. A fotografia foi tirada no sentido Ilhéus para Itabuna, na altura da atual proximidade do ponto de ônibus, (em frente à casa de Bibogo e o restaurante de Pitu). A margem esquerda da pista era totalmente desabitada.

Maionese com Farinha, era assim que se comia em Banco da Vitória.

maionese_de_batataPor Roberto Carlos Rodrigues.

O molho à base de azeite, ovos e sal, inventado pelo cozinheiro francês do Duque de Richelieu em 1756, demorou 218 anos para aparecer nas bandas do Rio Cachoeira. Na França setecentista o nome do molho era Mahonaise. Em Nova Yorque, em 1905, o alemão Richard Hellman, industrializou a receita e ficou milionário. Em Banco da Vitória a tal maionese, nos anos setenta do século passado, foi introduzida no cardápio do nosso povo pardo, por dona Lia Araújo, em um dos seus cursos de culinária. Em nossa comunidade a preferência era comer maionese com farinha.

Pedaços de cenoura, batata e chuchu picados e cozidos recebiam depois aquele creme alvo como cobertura e virava comida de gente metida a besta. Maionese combinava com frango assado ou cozido e macarronada. Diziam os tais. Ambos, comidas de dias de domingo ou quando tinha visitas em casa.

No começo, criou-se uma regra culinária que devia ser seguida à risca e por conta disso muitas esposas brigavam com os maridos e com as crias dizendo: “maionese não se come com farinha. Isso é coisa de gente sem instruções”.

Por este motivo quase teve uma guerra de sexo em Banco da Vitória. Afinal, querer tirar a farinha de mandioca – que combinava com tudo que se põe à mesa -, do prato da nossa gente foi quase uma heresia.

Por este motivo, menino que almoçava na casa alheia e colocava farinha na maionese, apanhava quando voltava para casa.
– Quer me envergonhar, seu pestinha. Dizia a mãe com a bainha de facão na mão – você não sabe que maionese não se come com farinha? Ameaçava a genitora.

Por este motivo, o povo de Banco da Vitória fez uma escolha culinária: entre a maionese e a farinha. O molho francês perdeu feio.

Já que não podia colocar farinha na maionese. Ninguém gostava de maionese. Já a farinha, se comia até com lágrimas.

Hoje maionese é molho comum e se encontra em qualquer prateleira de qualquer quitanda. Entre comer farinha e maionese, muita gente prefere essa última. Eu fico com a primeira.

Agora naqueles tempos, ser rebelde na casa dos outros não era apenas comer maionese com farinha. Para ser promovido na escala da rebeldia, o adolescente esfomeado tinha de colocar azeite de dendê na macarronada. Nesse caso a surra era dobrada. Mais valia a pena. Afinal maionese e macarrão não combinavam com farinha nem com dendê. Vixe! Por isto, nunca prestaram. Isso, para muita gente acostumada com o feijão adubado de Banco da Vitória e com a fatada cozida nas beiradas do rio Cachoeira.

Na verdade, maionese era e é um molho muito metido a besta. Combina com muitos pratos, mas não combina com farinha de mandioca. Por isso não combina com a nossa gente.

Em Ilhéus, as localidades de Pontal, Rio do Braço, Banco da Vitória e Salobrinho tem histórias para contar.

DSC_0017.JPGSegundo o IBGE, 72 bairros, distritos e localidades compõem o município de Ilhéus (BA). No ano de 2016, segundo essa mesma fonte, a população da cidade era de 178.210 habitantes.

Quando o assunto é história a cidade de Ilhéus tem vastos e precisos documentos e livros que relatam sua trajetória desde o ano de 1535, quando se iniciou a ocupação da capitania de São Jorge dos Ilhéus, até os dias atuais.

Contudo, as histórias dos bairros ilheenses são poucas conhecidas ou raramente relatadas. Isso quando, oficialmente.

Além da sede do munícipio, temos relatos históricos genéricos descritos por João da Silva Campos no livro Crônicas da Capitania de São Jorge dos Ilhéus (1936), das ocupações das localidades de Olivença, Outeiro de São Sebastião, São João da Barra do Pontal, Rio do Engenho, margens do Rio Cachoeira, Lagoa Encantada e região das antigas sesmarias da Esperança, Victória e do Iguape.

José Nazal Soub faz no livro, Minha Ilhéus (2005), um excelente resgate histórico da cidade. Principalmente pelos registros fotográficos e documentais.

Maria Luiza Heine, em Ilhéus, uma cidade 50 anos depois, faz uma excelente descrição prosaica do município.

Afora isso, das 72 localidades, distritos e bairros de Ilhéus apenas três tem livros descrevendo suas trajetórias e histórias. O primeiro bairro ilheense que teve sua história contada foi o Pontal, no primoroso livro Pontal Ontem e Hoje, de José Rezende Mendonça. Temos também o livro Rio do Braço, de Osman Matos, o livro Salobrinho: Encanto e Desencanto de um Povoado de Sherney Pereira. e, ultimamente, o bairro de Banco da Vitória teve sua história descrita no livro Banco da Vitória – A História Esquecida, de Roberto Carlos Rodrigues (2015).

Vemos então pelo exposto, que a cidade de Ilhéus está em grande débito para com as histórias dos seus bairros, distritos e localidades.

Localidades seculares de Ilhéus como Olivença, Iguape, Lagoa Encantada, Maria Jape, Inema, Cururupe não tem descritivos históricos. A mesma situação se ver com as localidades mais novas como os bairros do Malhado, Teotônio Vilela, Nossa Senhora da Vitória, Salobrinho etc.

Se a prefeitura de Ilhéus quisesse, bem que poderia publicar um livro com o título História dos Bairros de Ilhéus. Por certo, o departamento de História da UESC e diversos renomados historiadores ilheenses poderiam contribuir e coordenar os trabalhos, bem como a publicação de uma excelente obra.

Mas como preservação histórica parece não ser hábito governamental de Ilhéus, não podemos esperançar nessa proposta. A outra opção é a busca da iniciativa privada para alimentar o sonho dessa obra.

Por enquanto, em Ilhéus, apenas os nativos do Pontal, Rio do Braço e Banco da Vitória podem apresentar suas histórias descritas em livros.

Os demais bairros de Ilhéus orbitam apenas no imaginário da história dessa cidade sul baiana.

A cidade de Ilhéus precisa rever essa situação e colocar as histórias dos seus bairros, distritos e localidades no bojo da sua bela e deslumbrante história.

Como Chegar em Banco da Vitória

banco logoComo Chegar em Banco da Vitória – Ilhéus – Bahia.

No município de Ilhéus, o bairro de Banco da Vitória se situa entre o rio Cachoeira e os três montes ao noroeste (Alto Santa Clara, Alto da Bela Vista e Alto da Mata da Rinha, (onde se encontra a Invasão do Iraque). Todos esses montes têm coberturas remanescentes da Mata Atlântica e fazem divisa com a Reserva Florestal da Mata da Esperança.

O acesso convencional ao Banco da Vitória ocorre pela Rodovia Jorge Amado (BA 415) que interliga as cidades de Ilhéus e Itabuna e corta esse bairro de Ilhéus. A localidade de Banco da Vitória dista 6 quilômetros de Ilhéus e 19 quilômetros de Itabuna.

De veículo, saindo do centro de Ilhéus, gasta-se em média 15 minutos para chegar ao Banco da Vitória. Diversas linhas de ônibus passam pelo Banco da Vitória, inclusive o ônibus municipal de Ilhéus que tem como ponto final o bairro de Salobrinho.

O Banco da Vitória fica localizado a 8 quilômetros do bairro de Salobrinho, onde está instalada a UESC (Universidade Estadual de  Santa Cruz) e a 16 quilômetros da sede nacional da CEPLAC –  (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira).

Ao Leste a localidade faz divisa com o bairro Teotônio Villela e ao oeste com o distrito de Vila Cachoeira. Ao Norte a divisa é com o bairro do Iguape e ao Sul, com o rio Cachoeira.

Pode-se também chegar ao Banco da Vitória navegando pelo Rio Cachoeira. O percurso é o seguinte: adentrando a foz da baía do Pontal (Coroa Grande, formada pelos encontros dos rios Itacanoeira, Cachoeira e Santana) em Ilhéus, as embarcações pequenas podem seguir a ‘entrada do meio’ e chegar ao Rio Cachoeira. Navegando o rio a cima, passa-se pela antiga localidade chamada Golmeira (atual bairro Teotônio Villela). Um pouco acima atravessa a Fazenda Porto Novo e por fim se chega ao Banco da Vitória. A partir deste ponto o Rio Cachoeira não é mais navegável.

Saindo de Banco da Vitória tem ainda diversas estradas rurais. Uma inicia na ponte sobre o Rio Cachoeira (atrás do Convento das Freiras) e passa pelo povoado de Maria Jape, onde se tem uma derivação para o Rio do Engenho e a Alta Demanda (fazendas da região do distrito de Cachoeira).

Outra estrada se inicia no final da Rua São Pedro e ruma para a Fazenda Victória. Antes desta propriedade, logo após o cemitério da comunidade, tem um desvio a direita, rumando para o alto da Santa Clara. Aí, essa derivação encontra com outra estrada que se inicia no alto da Bela Vista. A partir desse ponto, uma estrada alcança a Represa do Iguape e depois a Rodovia Ilhéus Uruçuca.

Por último, outra estrada se inicia na Rua da Represa, no meio sopé do Alto da Bela Vista, circunda parte do Alto do Iraque e alcança a Mata da Rinha e depois a Mata da Esperança.

Saindo de Banco da Vitória em direção a Ilhéus se encontra a famosa Bica da Água Boa, local preferido pelo escritor Jorge Amado para apreciar o Rio Cachoeira. Mas a frente é possível conhecer a centenária Fazenda Porto Novo, onde se faz turismo ecológico e se conhece plantações de cacau orgânico.

Em Banco da Vitória é possível saborear diversas iguarias da culinária regional como as saborosas moquecas de peixes e camarões e pitus aferventados. Há também na localidade diversas churrascarias e vários bares. Além disto, vendem-se ao longo da rodovia frutas regionais e principalmente os famosos cocos gelados. Encontram-se também nessa localidade diversas casas de artesanatos e produtos naturais.

Em Banco da Vitória, comi pontos de visitações recomenda-se a visitação a Bica da Água Boa, o antigo porto do Jenipapo, a Pedra de Guerra, o cruzeiro da Rua Dois de Julho, a ponte sobre o Rio Cachoeira, A ladeira do Alto da Santa Clara (Descansa Caixão), a histórica Fazenda Victória, o Convento das Freiras, a Creche, os seminários católicos, a escola Daniel Rebouças, a Fazenda Pirataquisé e a Fazenda Aliança.

Pode-se também entrar na localidade e conhecer a Rua Aldair, bem como conhecer a casa onde o jogador da Seleção Brasileira de Futebol nasceu. Na Praça Guilherme Xavier tem a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e o famoso Clube Social. Pode também conhecer o campo de futebol da localidade, A Rua dos Artistas, Rua Dois de Julho e o Grupo Escolar Herval Soledade. Atrás deste, se localiza o Campo do Pacaembu.

A lei de Rita Sassarica.

foda-se-pePor Roberto Carlos Rodrigues.

Naqueles tempos ninguém conhecia Maria da Penha Maia Fernandes e bater em mulher era coisa corriqueira nas bandas do rio Cachoeira. Os falsos machistas diziam que batiam sem saber, mas as mulheres sabiam porque estavam apanhando. Por essa desgraçada ordem, algumas mulheres viviam com as bocas machucadas, costas marcadas de “pano de facão”, dedos quebrados, dentes moles. De vez em quando uma Maria corajosa colocava óleo quente no ouvido do marido agressor, (futuro defunto) e o brabão ia para os quintos dos infernos. Mesmo assim, nesse jogo de violência o placar dos homens estava sempre dez mil a zero. As mulheres sempre perdiam.

Mas como sempre não é eterno, um dia as coisas mudam. E mudaram em Banco da Vitória.

Era onze horas da manhã de uma segunda-feira do outono de 1974 quando se ouviu os pipocos na Rua de Trás. Três tiros de trinta e oito. Sons de balas novas, pólvora virgem, chumbo em alma de fogo.

Correm os vizinhos para a origem dos tiros. Acodem a mulher com o trabuco fumegante nas mãos, o morto, ainda quente caído no corredor. Dois tiros nos peitos e no telhado furado pela terceira bala a luz do sol do quase meio dia entrava e marcava a cozinha com um facho de luz, tão alvo, quase azul celestial.

Uns mexem no morto para ver alguns sinais de vida. Desistem logo. Outras consolam a assassina. Tiram a arma ainda quente das suas mãos. Dão-lhe um copo com água. Acomodam-na numa cadeira. Enxugam o sangue que sai da sua boca roxa, fruto dos murros do marido, agora morto e inerte.

– Um dia a gente cansa. – Um dia a gente cansa. Repete a assassina.

É Rita de Cássia, filha de Antônio Domingos e Dona Naldinha. Casada com Gregório Militão, capataz da Fazenda Alvorada, chefe de mais de 50 homens e ordens de todos os tipos e calibres.

As crianças estavam na escola na hora dos tiros e não puderam ver o pai caído no corredor, nem a mãe sendo presa pelo cabo Aristides e o soldado Juvenal.

– Eu sabia que isso um dia ia acontecer. Falou a vizinha da esquerda. – Mulher de coragem, cansou de apanhar. Retrucou a outra vizinha.

O enterro foi no dia seguinte. O capataz brabão tomou barro na cara no mesmo horário que Rita de Cássia prestava depoimento na delegacia de Ilhéus.

Delegado zangado, voz rouca, dono de um bigode preto, igual uma lagarta de fogo, e dentes manchados de nicotina, de nome Dr. Aristeu Cardoso. Perguntou o delegado a assassina:

– Matou seu marido porque dona Rita de Cássia?

– Cansei doutor. Cansei de apanhar, um dia sim um dia não caia no pau. Quatro surras por semana não é boa coisa não. Agora ele não bate mais em ninguém.

– A senhora já tinha dado parte dele? Perguntou o delegado Dr. Aristeu Cardoso, olhando para o escrivão que redigia o depoimento. Era o magricelo João de Athayde, veterano dos carteados e amantes dos conhaques importados.

– Dar parte para quê? Para apanhar ainda mais? Para ser zombada pelos senhores da polícia? Não carece de parte não. Disse a mulher olhando as marcas das algemas nos seus pulsos morenos.

– Já que a senhora diz que apanhava há tanto tempo, porque resolveu matar seu marido logo ontem? Perguntou o delegado alisando o bigode.

– Na verdade, seu doutor não era de hoje que eu pensava em matar aquele desgraçado. Já vinha com isso a muito tempo na cachola. Mas sempre tirava isso da cabeça. Mas ontem foi demais. Eu estava sozinha em casa, meninos na escola, o desgraçado no eito do mundo, eu sem ter muito o que fazer. Resolvi esquentar minha perereca, pois o brabão não era bom da cama. Dava uma por semana, olhe lá! Subia em cima de mim feito um animal. Metia com raiva e gozava logo. Depois dormia feito uma cascavel. Eu ficava na vontade. Ontem resolvi bater uma siririca para aliviar as tensões. Quando eu estava no bem bom aparece o homem na porta do quarto. Já gritando, o que é isso? O que é isso? Tá faltando homem aqui em casa?  Não deu nem tempo de eu arrumar a calçola. Ele subiu em cima de mim e começou a me bater, bater e bater. Aí eu corri, fugi dele. Fui até o armário peguei o revolve e sentei o dedo. O resto o senhor já sabe.

Uma hora depois, no restaurante Flor do Cacau, na Praça Cairu, o Delegado Dr. Aristeu almoça junto ao policial José Umberto e o escrivão João de Athayde, quando fala:

– Umbertinho, você precisa ver a qualidade da morena jambo. Trinta e poucos anos, toda torneada. Peitos duros, bunda grande, boca carnuda, olhos miúdos, cabelos pela cintura. O miserável do marido morredor em vez de socorrer a esposa siririqueira com uma foda de dar nó no pau, não, resolve bater na mulher porque ela bateu uma siririca. Veja o que deu. Morreu e a assassina agora está aí deixando a cadeia doida e alvoroçada. A nega é toda boa. Boa não, é ótima. Otimissíma.

O delegado Cardoso pigarreou e diz:

– Não fica muito tempo presa não. Tem muita gente para depor a favor dela. Apanhava demais. Se julgada, vai ser legítima defesa. O marido que se fudeu. Morreu com o pau mole. Concluiu.

Quinze dias depois Rita foi solta. Respondeu o processo em liberdade. Foi depois julgada e absorvida. Não voltou a morar em Banco da Vitória. Foi morar em Inema, era manteúda de Dr. Clóvis Dantas, seu advogado de defesa. Uma vez por semana o advogado ia até Inema, correr suas roças e aproveitava para dar uma trepada bem dada com Rita de Cássia. Nos demais dias quem azeitava a xoxota de Rita Sassarica era o magricela Arisvaldo Costureiro. Arisvaldo dizia que dava três sem tirar de dentro. Verdade ou não, Rita Sassarica vivia sorrindo pelas ruas de Inema. Devia ter seus motivos. Mas isso já uma outra estória.