O feitiço do Rio Cachoeira

Por Roberto Carlos Rodrigues

Quem ver o rio Cachoeira, nas imediações de Banco da Vitória, quando da maré alta, acredita estar diante de um belo espelho d’água encantador e enfeitiçante. As águas marinas oxigenam o velho e sofrido rio, dando-lhe uma matiz mágica, levemente azulado, em nuances de um verdadeiro braço de mar.

Quem ver este rio escorrer esquálido e desanimado entre tantas pedras, lamaçais e tristes sobras e esgotos, desde a sua nascente, na Serra de Itararaca, no sopé do município de Itororó, até pouco acima de Banco da Vitória, ao vê-lo novamente, agora caudaloso, resplandecente e azulado, nas barranca da nossa localidade, por certo, acredita estar diante de outro rio. O Rio da Esperança.

Em Banco da Vitória as marés diárias dá ao velho e poluído Rio Cachoeira uma roupagem nova. Ali ele encontra o sabor do mar de Ilhéus e em suas águas brilhosas e festeiras, celebra sua árdua e sofrida jornada com frondosas mágicas feitas de águas encantadas.

Quem o ver passar por nossa aldeia se encanta. Ali, este rio faz isso com todo mundo. Preto ou branco, rico ou podre, famoso ou desconhecido. O escritor Jorge Amado adorava vê-lo diante da Bica da Água Boa. Recentemente o jornalista Fernando Gabeira esteve neste mesmo local e disse que ficou encantado com a bucólica paisagem. Muita gente se maravilha quando ver o nosso lindo rio resplendente serpentear matas e bambuzais.

Os mais felizes são os moradores que veem essas paisagens todos os dias. Os nativos que banham-se no belo rio cachoeira não sofrem as agruras da poluição que este rio recebe de tantas localidades. Estes, por questões genéticas, são imunes as tantas doenças e males que o nosso Rio Cachoeira trás e que magicamente o mar, em Banco da Vitória, dizima-as.

Vitoriosos e felizes são os que se banham no rio Cachoeira. Isso eu tenho certeza.

Em Banco da Vitória, o rio Cachoeira rega e fomenta todos os tipos de sonhos.

Quanto a sua poluição, eu posso afirmar: este maué um problema de todos nós. Mas, mesmo assim, procure encontrar beleza em todas as coisas. Principalmente em seus atos e seus instantes.

Se todos nós soubéssemos renovar nossas esperanças com o mesmo vigor que faz o rio cachoeira com suas águas tão poluídas, ao encontrar o mar em Banco da Vitória, por certo, teríamos um mundo muito bem melhor. E mais azul. Azul da cor do mar.

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32 – Os lobisomens de Banco da Vitória.

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Em outros lugares do mundo, as estória do lobisomem acabam magistralmente descrevendo a identidade do homem que vira fera nas noites de lua cheia e desvendando este segredo. Em Banco da Vitória, ao contrário disto, muita gente se intitulava como o verdadeiro lobisomem e não tinha medo nem receio de dizer isto para todos mundo. Tinha até alguns lobosomistas que mostravam suas unhas afiadas e barbas grandes como indícios de suas transformações animais.

Pouco se sabiam das origens dos lobisomens de Banco da Vitória. Pois nesta localidade não tinha nem um nem dois lobisomens, mas sim vários. Havia até quem dissera ter visto brigas entre os seres noturnos que uivavam feito lobos a e atacavam feito feras. Outros, como Cabo Jonas, disseram que contaram mais de dez lobisomens na localidade.

Contava a lenda que o lobisomem surgia exatamente quando uma mulher tinha 7 filhas e a sua última cria nascia um menino. Se este rebento fosse pálido, magricela, de orelhas afinadas e dentes grandes, tinha ali todos os indícios de um futuro lobisomem.

Em Banco da Vitória, este preceito não era válido, pois pelos critérios de identificação de lobisomens, bastava ser uma figura irritadiça ou zangada, pra ser caracterizada como um candidato a virar um lobo em uma noite de lua cheia.

Com suas devidas considerações, quando as noites de luas cheia caiam exatamente nas sextas-feiras, as ruas da nossa localidade ficavam vazias e desertas. Os poucos transeuntes noturnos andavam em pares e os trabalhadores do antigo matadouro não arredavam das usa facas e facões milimetricamente amolados.  

Nestas noites assombrosas, nas casas que havia meninos ou meninas pagãs, as portas e janelas dormiam escoradas com fortes madeiras. Cães e gatos dormiam dentro de casa e quem morava em frente as encruzilhadas (locais preferidos dos lobisomens) tapava as frestas das janelas e das portas, para não ver a passagem ou possível transformações dos lobisomens.

Segundo o brincalhão Antônio de Isaías, seu vizinho Zé Lavine era o lobisomem da Rua dos Artistas. Aurindo, antigo motorista e morador da Rua Aldair dizia ser ele o temível lobisomem da redondeza.  Havia quem colocasse o título em Corinho, um negro alto e trabalhador que vivia na Rua do Cemitério. Nesta rua, Seu Cazeca era também suspeito de virar lobisomem. Seu João Batista, o coveiro local não entrava neste rol. Dele, a meninada tinha medo exatamente por ser o homem que enterrava o povo local.

Gaguinho, quando bebia, dizia que Seu Dedé, marido de Preta, morador da rua do Campo, além de virar lobisomem, também envultava. Seu Pedro Preto dizia nos quatro cantos da localidade que Thiago Cardoso, pai de Bibogo virava lobisomem. Já Garapa, dizia como certeza que o Getúlio, um negro alto, de braços e pernas finas e mãos grandes virava lobisomem nas bandas da Rua da Represa. Lindor Nunes gostava de dizer que tinha certeza que Arara também virava lobisomem. Arara gostava da brincadeira e vivia assustando os meninos e meninas desavisadas que passavam pela rua Dois de Julho.

Uma vez, o lobisomem de Banco da Vitória começou a atacar os quintais das casas e em poucos dias mais de 30 galinhas desapareceram na localidade. Nesta investidas a fera noturna também atacava os cachorros, mas este não eram levados. A fera metade homem metade lobo somente levava as galinhas gordas.

Depois de uma semana de horror noturno e sumiços das galináceas provocados pelo tal lobisomem, Cabo Jonas encabeçou uma ronda noturna formada por mais de 10 homens, todos armados de facões, foices e até espingardas e durante as madrugadas esta trupe armada varria o Banco da Vitória de ponta a ponta, em busca do tal lobisomem também ladrão de galinha.

Uma noite de lua cheia a Volante de Cabo Jonas foi chamada a Rua Duque de Caxias, onde o tal lobisomem atacara o galinheiro de dona Romana. Ali, homens armados com facões e pilungas enxotaram o tal homem lobo e correram atrás da fera pela rodagem até depois da União, onde o bicho desapareceu no rio.

No dia seguinte Cabo Jonas desfilou como vencedor pelas ruas de Banco da Vitória e o Nego Nide nunca mais falou com ele. Foram inimigos até morrerem.

Havia quem dissesse que Cabo Jonas foi também requisitado para atuar nessa atividade nas localidades do Rio do Braço, Sambaituba, Couto e na Proa. Em todas investidas o lobisomem local desapareceu e Cabo Jonas engrandeceu-se em fama.

Um dia Pica-pau, filho de Agenor Bolacha, tomou umas canas a mais e bêbado se jogou em pleno meio dia na encruzilhada da praça Guilherme Xavier. Ali, nu e louco, Pica-pau uivava, imitava relinchos de cavalos e se jogava no chão, ralando as costas nos paralelepípedos e gritava:

– Eu sou o lobisomem desta bosta. Vou virar bicho agora. Vem me pegar! Vem.

Em menos de dez minutos dezenas de pessoas assistiam a encenação de Pica-pau e sua auto mutilação.

Não demorou e chegou seu pai, Agenor Bolacha, trazendo nas mãos um chicote feito de vergalho de boi. Agenor deu duas chulapadas nas costas de Pica-pau e este correu feito um doido para a beirada do rio, onde foi curar das dores nas costas, da cachaça desgraçada e da maldita ideia de virar lobisomem em pleno meio-dia.

Virar trabalhador este vagabundo não quer. Agora virar lobisomem em pleno meio dia, ele quer. Fumegava Agenor Bolacha;

Nesta mesma noite, no bar de Xisto Gomes, Cabo Jonas encontrou Agenor Bolacha e tentou acalmá-lo:

– Agenor, não faça isso mais não. Apanhar de vergalho de Boi dói muito. O pobre Pica-pau está todo estropiado. Imagina se eu fosse fazer isso para expulsar o lobisomem das costas de Nego Nide. Dei uma carreira nele e você viu o que aconteceu. Nunca mais lobisomem em Banco da Vitória.

Agenor Bolacha, ainda enfezado olhou assustadoramente para Cabo Jonas e disse:

– Duas chamadas de vergalho de boi nas costas cura lobisomem. Três, cura pai de santo mentiroso e quatro faz até saci-pererê correr com uma perna só.

Cabo Jonas olhou seriamente seu interlocutor e com um relógio quebrado no pulso indagou: Xisto Gomes, ver se já deu nove horas ai? Vou pra casa. Tá na hora do meu engrossante. Afinal hoje é sexta-feira, tem lua cheia no céu e o lobisomem, pelo jeito, não vai mais aparecer por aqui. Já o capeta, pelo visto, parece que que estar rondando estas bandas desde o meio-dia. Credo em cruz! Boa noite e fui!

Depois daquela noite nenhum lobisomem foi mais visto em Banco da Vitória. Pica-pau se mudou para Vila Cachoeira e Nego Nide deixou de beber para sempre.

27 – As Praias de Banco da Vitória

Na década de setenta do século passado, o distrito ilheense de Banco da Vitória era conhecido como aprazível local para passar os finais de semanas. Ali havia uma vigorosa feira comercial instalada na Praça Guilherme Xavier, com dezenas de barracas. No clube social, nas noites dos sábados, tinham festivos bailes conduzidos por conjuntos e bandas regionais e aos domingos podia-se divertir-se nas diversas praias que havia no Rio Cachoeira. Nestes dias as margens do rio ficavam repletas de centenas de pessoas que ocupavam seus areais e barrancas.

Naquela época, quando havia o recuo das maré apareciam no leito do limpo e belo rio Cachoeira diversos areais onde várias pessoas iam se divertir, pescar, fazer cozidos e jogar bolas.

Havia três grandes areais no leito do Rio Cachoeira, nas imediações de Banco da Vitória. O primeiro areal ficava em frente a Bica da Água Boa. O segundo margeava a Rua dois de Julho, da altura da casa do saudoso Nidão (em frente a quadra de esportes) e se estendia até os fundos da atual casa de Miraldo Cardoso, na Praça Guilherme Xavier. O Terceiro areal ficava nos fundo do atual posto de combustível e se estendia até a ponte de Maria Jape.

Nas décadas seguintes estes areais foram reduzindo drasticamente devido a comercialização de areia e então surgiram as praias de Banco da Vitória. Na década de oitenta havia as praias de João de Coló (próxima ao campo do Pacaembu). A praia da Pedra de Guerra (perto do atual propriedade de Zé do Guri), a praia do Porto de Xisto Gomes (nos fundos do convento Nossa Senhora do Carmo (convento das freiras) e a praia de Dona Romana da Beirada (nos fundo da União). Nesta última imediação havia ainda as tapagens de Taurindo e de Cundunga. As tapagens eram um tipo de pequenas barragem feitas com pedras e armadilhas para pegar peixes e crustáceos. Estas toscas pequenas barragens ficavam em duas aprazível ilhas, onde podia-se também desfrutar das beneficies do Rio Cachoeira.

Nos finais de semanas as praias de Banco da Vitória ficavam repletas de centenas de moradores da localidade e de visitantes das roças e fazendas próximas. Nestas ocasiões faziam-se os famosos cozinhados na beira do rio, onde se pescavam também diversos peixes como tainhas, robalos, tucunarés e carapicuns, siris, camarões, pitus, caranguejos e guaiamuns.

Por certo, naqueles dias, boa parte dos moradores do então distrito de Ilhéus se mudavam para as margens do rio Cachoeira e ali se divertiam até a noitinha, quando verdadeiras caravanas de pessoas retornavam exaustas e alegres para seus doces lares.

Na década de oitenta, o Rio Cachoeira foi transformado em esgoto público regional e tornou-se inadequado ao uso recreativo. A retirada de areias no leito do rio e nas suas barrancas, associadas aos desmatamento da floresta atlântica, contribuíram para a extinção dos areais e principalmente das praias de Banco da Vitória.

Quando o século XX se findou já não havia mais praias no Rio Cachoeira, nas imediações de Banco da Vitória. Onde antes centenas de pessoas se divertiam nos finais de semanas agora jazem fatídicos lamaçais e escrupulosos depósitos de lixos.

As praias de Banco da Vitória só existem agora nas memórias de poucos saudosos moradores do morno bairro ilheense. Quem nunca viu as praias de Banco da Vitória, por certo desacredita que um dia elas realmente existiram. Quem teve o prazer de desfrutá-las agora tem apenas grandes saudades.