24 – Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Contou-me essa história pouco antes de morrer. Fez isso, acredito, como intuito que eu desse letras a sua voz. Acreditou que eu pudesse dar posteridade as suas façanhas amorosas. Relatou tudo, do início ao fim, como quem descreve uma saga pessoal ou outra forma de heroísmo.

Naquela tarde de sábado, ele contou-me a sua maior conquista amorosa e como ele próprio sugeriu, se um dia eu escrevesse este texto, devia chamar-lhe Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Como prometi para o saudoso amigo, transcrevo aqui a história de Aderval Monteiro e sua amante Dona Ana da Conceição.

Segundo o personagem principal dessas linhas, tudo começou com um olhar e um sorriso. Um olhar dele e um sorriso dela. Aderbal era funcionário público e trabalhava na coletoria de impostos do Governo da Bahia, em Banco da Vitória. Ana da Conceição era esposa do Odilon Coutinho, comprador de cacau da firma Lord & Charmann, também instalada neste distrito Ilheense.

Havia pouco tempo da vinda de Odilon e sua família para o Banco da Vitória e em poucos dias eles tornaram-se amigos de bebedeiras e pescarias no Rio Cachoeira. Aderbal era um negro solteiro e já vivido, na casa dos quarenta anos, jamais se casou e tinha fama de namorador e bom de bola. Já Odilon era um homem branco, já beirando as sessenta primaveras, dedicado ao trabalho, mas aos finais de semanas, gostava de beber até cair. Normalmente ele era levado bêbado para sua casa, onde a esposa e a filha única o recebiam em silêncio. Era um bom marido.

Foi numa dessas bebedeira de Odilon que Aderval levou o amigo bêbado para casa. Lá chegando encontrou sua esposa lavando o quintal. A filha estava na casa de uma amiga. Dona Ana da Conceição pediu que Aderval colocasse o marido numa rede estendida no quintal. Aderval arrastou o amigo até o fundo da casa e o acomodou na rede. Dona Ana da Conceição, com as roupas do corpo ainda molhadas ajudou ajeitar o marido. Foi neste instante que Aderval percebeu que os seios da esposa do seu amigo estavam quase a amostra, por trás da roupa fina, que molhada, ficara quase transparente.

Que formosura de seios. Pensou, mas não disse. Se disse, foi só com seus olhar.

Dona Ana da Conceição percebeu o olhar invasivo do homem ao seu lado e respondeu apenas com um sorriso. Quer toca-lo. Ela pensou em pergunta-lo, mas não disse. Se disse, foi só com o sorriso. Ficaram nisso.

Aderval, quase hipnotizado com os volumes e robustez daqueles belos seios e a cor amorenada das auréolas arrebitadas, quase babou pelo canto da boca. Se conteve como quem segura um soluço.

Sem ter o que falar, falou o que primeiro veio a boa úmida e disse:

– Deus sabe o que faz. Divagou.

– Concordo. Respondeu a mulher do bêbado dorminhoco, alisando os cabelos negros e molhados.

– E como sabe. Arrematou a conversa o funcionário público e disse:

O homem está entregue. Deixe-me ir.

– Muito obrigado, seu Aderval. Disse a mulher, inflando o tórax e realçando ainda mais o volume dos seus seios molhados. E concluir: fazer o quê? Ele prefere a cachaça a mim.

– Deve ser louco. Disse Aderval, já na passagem pela sala, rumo a porta de saída para a rua. Deve ser louco mesmo. Concluiu e saiu da casa se olhar para trás. Nos seus pensamentos, martelavam todos os tipos de pecados.

Naquele resto de dia e durante vários dias e várias noites a imagem dos belos seios de dona Ana da Conceição não saíram da cabeça de Aderval. Para ser sincero, ele conseguia relembrar todos os detalhes daqueles seios mais do que do rosto de sua dona. Os seios de Dona Ana da Conceição eram verdadeiramente formosos, majestosos e opíparos. Nunca vira nada igual em toda sua vida.

Assim os descreveu: os seios dela são firmes e duros, como se nunca tivesse dado de mamar para as crianças; são morenos claros feito o bronze africano e as auréolas são escuras, firmes e pontiagudas feito os canos das lanças militares. Precisaria de duas mãos para cobrir cada seio. Mesmo assim, sobrariam ainda músculos próximos aos dedos mindinhos. Se fosse lambê-los, chupá-los e suga-los prazerosamente precisaria de no mínimo vinte e sete minutos de passeios de língua e por certo terminaria com dores no queixo. Acariciá-lo já seria um verdadeira oração a vida. Vê-los nus já seria um espetáculo. Concluiu.

Os dias se passaram e dona Ana Da Conceição, toda vez que encontrava como Aderval, sorria para ele e arrumava o calorento sutiã. Essa era a senha secreta entre eles dois.

Aderval, por respeito ao amigo, tentou tirar aquela tentação da cabeça e até chegou a evitar encontros com o amigo e sua esposa por perto. Agindo assim, acreditava estava se livrando daquele pecado.

Porém, o destino tece o seu próprio bordado e por conta dos pontos sem nós, Odilon Coutinho veio a adoecer, foi acamado e de lá jamais saiu vivo. Acometido por um severo derrame cerebral, o comprador de cacau perdeu o movimento do corpo, deixou de falar e mal-mente gesticulava com uma das mãos. Padeceu tristemente.

A filha e a esposa cuidaram do homem doente. Nos primeiros dias da doença a casa estava cheia de amigos e vizinhos. Contudo, com o passar dos dias, este sumiram e aqueles rarearam. Apenas Aderval continuou visitando o seu amigo todos os dias. Durante a semana, todos os dias, após o expediente na coletoria, ele ia visitar o amigo, contar-lhe alguma novidade do mundo do cacau ou então levar algumas frutas que recebia no seu trabalho. As sábados, Aderval ia as tardes e ficava conversando com o seu amigo doente. Aos domingos, ante de ir a missa, passava na casa do doente e tecia algum comentário incentivador com homem postado na cama.

Naquele tempo, o belo sorriso de dona Ana da Conceição perdeu a luz e olhar de Aderval evitava focar em seus lindos e volumosos seios.

Um dia, o tempo deu um nó final na rede dos dias de Odilon e este faleceu numa friorenta manhã de quarta-feira. Dona Ana da Conceição se tornara viúva. E não tinha ainda trinta e sete anos de idade.

Após o enterro do amigo, Aderval foi até a casa de dona Ana da Conceição, se despediu da viúva e de sua filha e disse que não retornaria mais lá. Não tinha mais o que fazer ali. Argumentou. Ana da Conceição entendeu a situação e vestiu-se de luto por um ano inteiro. No Natal do ano seguinte, ela abandonou as vértices pretas e como que recupera a formosura, voltou a usar seus vestidos floridos e provocantemente decotados. Tornou-se a viúva mais desejada de Banco da Vitória e invejada pelas demais mulheres casadas.

Um dia, domingo de feira, ela encontrou com Aderval e disse que queria vê-lo na sua casa naquela tarde. Ele concordou e disse que não perderia aquele encontro por nada deste mundo

A tarde de domingo ia pela metade, a rua quase deserta, quando Aderval bateu a porta da casa de dona Ana da Conceição. Nas mãos uma sacola cheia de frutas. Ela abriu a porta como quem recebe uma brisa fresca do rosto e sorriu para ele e questionou:

– Quanto tempo, em? Não sentiu saudades minhas?

– Saudade é um prato que se como em silêncio. Respondeu Aderval, sentindo o perfume daquele fêmea magistral.

– Helena, onde está. Perguntou pela filha do amigo?

– Na casa da tia. Está no Pontal, por certo, numa hora dessa passeia na beira da praia de mãos dados com o noivo. Só vem terça-feira. Entre homem. Vamos para o nosso quintal.

Ele atendeu, deu-lhe a sacola com as frutas e ela então disse:

– Toma um cana pura ou uma cerveja?

– Os dois. Disse Aderval, se dirigindo para o fundo da casa. – Vou pegar. Disse a mulher. 

Sentado numa cadeira junto a um pequena mesa, ela o serviu e disse tenho algo para te mostrar. Achou que o senhor vai gostar.

Ele sorriu como resposta de sim.

No quintal tinha um formosa goiabeira. Perto da árvore um tangue cheio de água morna. Dona Ana da Conceição tirou as sandálias, soltou os cabelos e foi até o tanque e começou a se banhar. Então questionou o homem que não acreditava no que via.

– E ái seu Aderval, conte-me as novidades?

– Deus continua justo e cumpridor das suas promessas. E por certo ouve minhas preces. Respondeu.

Ela sorriu fartamente e jogou mais um balde água sobre o corpo.

O vestido fino quase desapareceu e as formas avantajadas do seu corpo moreno resplandeceram como quem recebe um facho de luz. Aderval tocou a dose de cachaça em um gole só e depois bebericou a cerveja. Teve vontade de sorriu, mas não fez isso. Preferiu apenas olhar aquela cena, que por mais sonhada ou imaginada por ele, era muito mais bela e fascinante.

Dona Ana da Conceição continuou conversado enquanto prazerosamente se banhava. Quando por fim, terminou de banhar-se ela disse:

-POr favor, seu Aderval, pega essa toalha aí para mim.

Ele levantou e foi até a rede onde a toalha estava pendura e quando virou, a mulher mais bonita que vira em toda sua vida estava completamente nua a sua frente. Sorrindo ela disse: me enxuga, homem. Não sabe enxugar uma mulher não?

Aderval sorriu e disse:

– Faz tempo que não faço isso, mas sou bom aluno.

– Quero ver se aprendeu bem? Respondeu ela sorrindo e indo até sua direção.

– Enxuga minhas costas. Ordenou. Depois minha bunda e pernas. Deixa meus seios por último.

Não era só os seios de dona Ana da Conceição que eram formosos, majestosos e Opíparos. Ela era totalmente bela e atraente. A cor morena se estendia dos calcanhares atém o crânio. As costas eram largas, a bunda avolumada e firme. As pernas, como se torneadas em madeira de lei, seguravam o corpo de mais de sessenta quilos, os pés eram finos e delicados, a barriga rígida. Os braços eram suaves e calmos e os seios… Ah, os seios. Estes eram fartos, duros e hipnotizantes, fatais para um home de coração fraco.

Só mais belo que aquele seios. Confidenciou-me. Somente o sorriso daquela mulher, naquele rosto moreno, molhado e ávido por beijos e mais beijos.

Após enxugar o corpo daquele fêmea sem igual, Dona Ana da Conceição pegou as duas mãos de Aderval e as colocou sobre seus seios e disse: ver se consegue sentir meu coração.

Ele sorriu. Nada disse. Estava realizado. Já podia morreu. Pensou.

Por certo. Ele sentia o seu próprio coração querer sair pelos punhos.

Dona Ana da Conceição o beijou prazerosamente e ele sentiu o seu cabelo molhado molhar sua camisa domingueira.

Ela puxou ele pelo braço e levou-o para seu quanto.

Sem falar uma única palavra. Se amaram feitos loucos adolescentes e só não foram felizes para sempre porque na manhã da quarta-feira seguinte um caminhão encostou em frente à casa de Dona Ana da Conceição e levou toda a mudança. Dona Ana da Conceição se mudara definitivamente de Banco da Vitória. Foi mora em Vila Velha, no Espirito Santo, onde tinha parentes e jamais voltara ao Banco da Vitória. Para Aderval, nem deu adeus.

Aderval olhou para mim e disse:

– Às vezes eu acho que nada disso aconteceu de verdade comigo, meu amigo Roberto. Acho que foi apenas um sonho louco. Uma louca ilusão minha. Aí, quando eu lembro da minha boca naqueles belos e divinos seios, das minhas mãos naquele corpo, dos aís dela no meu ouvido. Sorriu de prazer e agradeço a Deus por ter levado meus anos, mas não ter apagado minhas memórias. Graças a Ele, isso me sobrou.

E concluiu:

– Na verdade os seios de dona Ana da Conceição não são tão formosos, ajestosos e opíparos. Eles são divinos, encantadores e magnéticos.  Loucamente Magnéticos! – isso mesmo – são magnéticos atraem olhares e irradiam tentações.

Aderval, então me olhou seriamente. Bebericou mais um gole de cerveja e disse:

– Se os seios de dona Ana da Conceição eram assim tão belos e encantadores, imagine sua vulva. Sorriu prazerosamente e concluiu:

– Aquela vulva, que mais coisa linda, gostosa e embriagante. Dei-lhe tantos beijos que até agora deve estar ainda tonta. Nem nos melhores dicionários do mais requintado idioma Latim existem os melhores adjetivos para descrevê-la.

 – Aquilo não era uma vulva, uma xoxota qualquer, uma boceta carnuda. Era uma taça de vinho morno bebida numa madrugada de inverno.

– Você já bebeu vinho morno, meu filho? Perguntou-me.

Eu respondi que não.

– Só perde em sabor para a xoxota de Dona Ana da Conceição. Tenha certeza e acredite no que digo.

– E se eu te falar que a minha amada é especialista em boquete, você acredita?

Sorri como resposta de sim.

– Ele me pegou de jeito e com sua língua morna banhou-me de beijos e mais beijos. Só não sugou a minha alma pois não chupou meu crânio. O resto, valha-me Deus. Conclui Aderval sorrindo.

Foi a última vez que eu conversei como o meu amigo Aderval. Até hoje tenho saudade dos belos seios de Dona Ana da Conceição. Mesmo, sem jamais tê-los vistos.

Que Deus o tenha, Aderval.

Anúncios

23 – Triste Alvorada nas margens do Rio Cachoeira.

O Banco da Vitória amanheceu triste. Hoje nos despedimos do nosso amigo Marlon. Marlon chegou a nossa comunidade ainda menino. Foi morar com sua família, do outro lado do rio Cachoeira, em um sítio que ficava bem em frente a Pedra de Guerra. Sabia remar como poucos. Conhecia profundamente a Bíblia. Era um desportista nato e ativista social. Era também um excelente escritor. Casado com Carmem Calazães, teve filhos, constituiu uma bela família.

Por certo, Marlon foi o maior talento da escrita que viveu em Banco da Vitória. Sua obra não foi publicada em vida e agora adormece nos seus tantos cadernos e anotações.

Há exatos dois anos estive com Marlon diversas vezes. Ele compareceu ao lançamento do meu livro em Banco da Vitória e no dia seguinte passou uma manhã inteira comigo, na casa de Ivone Santos, onde mostrou-me seus novos escritos, falou sobre seus projetos editoriais e seus sonhos.

Conversamos sobre seus tantos projetos, sobre sua obra-prima, o romance inédito Asas Feridas e os tantos contos que tinham como temática a cultura cacaueira.

Marlon faleceu ontem à noite e foi sepultado no final da tarde de hoje, em Banco da Vitória. Morre um homem íntegro, inteligente, ativista social e amigo de grande caráter.

Ficou sua obra literária inédita. Deus queira que seus familiares e amigos possam realizar o sonho do nosso amigo Marlon, que era ver seus escritos publicados.

O povo das barrancas do Rio Cachoeira dorme hoje triste. Perdemos o nosso amigo Marlon. O grande escritor Marlon. O grande ser humano Marlon. O Marlon de Banco da Vitória. O escritor da saga do cacau.

Foi muito bom ter te conhecido, ser seu amigo e parceiro de tantos sonhos.

Tenha boa jornada meu amigo Marlon. Siga a luz.

22 – O mistério dos afogados do rio de Banco da Vitória.

Quem conhece o Banco da Vitória pela primeira vez, se ver a cheia e a vazante da maré atlântica no mesmo dia, acredita estar em dois lugares distintos. Com a maré cheia o Rio Cachoeira fica volumoso, resplandecente, navegável e belo. Com a maré vazante, o rio mostra suas vísceras de pedras amarronzadas, limos, lamas e musgos. Quem ver o rio seco, de longe, enxerga mais pedras do que água. O velho Cachoeira, em Banco da Vitória, é um rio encantado, mágico e perigoso. Nas suas águas mansas já morrem centenas de pessoas. Muitas outras ainda estão na sua lista macabra.

Afogamentos, até pouco tempo atrás era coisa comum no rio Cachoeira, nas imediações de Banco da Vitória. Muitos banhistas, principalmente gente de outros lugares que visitava esta localidade, se encantava com as águas mornas, belas e mansas do velho Cachoeira e o subestimava. Por conta disso, muitos nadadores foram tragados pelas suas águas traiçoeiras e encontram a morte exatamente num dos lugares mais lindo de todo o curso deste rio.

Quando eu era menino, muita gente se afogou neste rio. Eram homens, mulheres e principalmente crianças, que padeciam nas águas mescladas do salitre dos mares de Ilhéus.

Alguns corpos afogados era logo encontrados. Outros precisavam dos conhecimentos dos pescadores locais que conheciam cada poço, cada curva e cursos submergidos das marés. Nem sempre era fácil encontrar o corpo de uma pessoa que se afogara no rio de Banco da Vitória.

Muitas vezes, principalmente durante as grandes enchentes, era necessário recorrer as rezas e as magias para encontrar o corpo levado pelas fortes correntezas do velho Rio Cachoeira.

Quando o corpo do afogado sumia nas águas turvas trazidas pelas enchentes, os rezadores e benzedeiras de Banco da Vitória rezavam na margem do Rio, acendiam uma vela branca sobre um prato de frandres e o coloca no rio. A correnteza ia levando o prato com a vela acessa e quando este parava, os mergulhadores desciam e resgatavam o corpo do morto.

Vi isso diversas vezes e não estava só nessas ocasiões. Posso afirmar, nunca o povo de Banco da Vitória ficou sem resgatar um corpo afogado no Rio Cachoeira. Nunca.

Seu Tum, Alfredo, Mi de dona Vivinha, Ratinho, Zabelê, José Ivonildo e muitos outros estão aí para comprovar o que falo. Era assim que se achavam os mortos do Rio Cachoeira.

Naquele tempo não havia GPS, nem Sonar, Radar ou tecnologia submarina. Corpo tragado pelo rio Cachoeira era encontrado com um prato de frandres com uma vela branca acessa. Simples assim. Mágico, talvez, mas eficiente.

Há quem não acredite no que digo. Há quem sabe que eu não minto. Uma coisa é certa e ninguém duvida: o Banco da Vitória é uma terra de mistérios e segredos. Muitos mistérios e grandes segredos ainda por serem descobertos.

Que viver, saberá.

21 – Vivendo com as Lendas.

Em poucos lugares do mundo é tão fácil andar com verdadeiras lendas vivas quanto no Banco da Vitória. Ali, caminhando pelas ruas, você encontra vultosas figuras que fazem parte da nossa fantástica história. Em cada rua, em cada passo, em cada janela, estão postadas as figuras importantes da nossa comunidade e fazendo parte da nossa história viva.

Não tem como não encontrar essas personagens vivas da nossa história por todos os cantos da nossa comunidade.

Na verdade, graça a Deus, encontramos nas ruas de Banco da Vitória lendas vivas como Bibogo, Gogó de Sola, Ivone Santos, Ivony, Iracy, Dona Loura, Jailton Ramos, Dona Helena, Rosival Calazans (Nem), Dona Mira, Nelson Vitório (Orelha de Nico), Osmário (Seu Tum), Valter Ramos, Veinho, Zé Ivonildo, Coió, Railda Ribeiro, Maria das Graças Menezes, Zé Orlando, Pedro Filho, Jerusa Cardoso, Juracy Martins, Cremilda Santana, Crew, Creuza Santana, Dona Lia Araújo, Jair Rodrigues, Bigu, Ana Palmira, Gerolino, Mário Lapa, Kika Melo, Onésio, Jarinho, Dico, Beré, Dinne Meneses, Dona Geovânia, Carlos Oliveira, Rodrigo Matarazzo, Marilda, Nerilda Pereira, Enéas, Tonho de Miguel Farias, Ratinho, Célia, Formiga, Edna Cabeleireira, Carlos Oliveira, Marinalva Soares, Manuala Oliveira, Catarí Borges, Loulinha, Biinha, Seu Roque, Tânia Araújo, Teca, Nete Cardoso, José Reis, Luis Delegado, Bujão, Veio, Renato da Peixaria, Luciana Alves, Bego, Patrícia Regina, César, Álvaro Pereira, Marilene e Pedro, Chico, Dupó, Tonho, Paulo, Carmé, Julinho, Lito, João Marreco, Cabeludo, Lourival Pitu, Carlos Cambal, Dona Nilza, Cassé, Clodualdo, Meire, Zé Sucena, professora Apolônia, Jonga, Zé Trator, Marlito, Zabelê, Carlinhos de Nilza, Nado de Gaguinho, Roberto de Dolores, Liminha, Jovaly, Rael, Dui, Índio Pato Mole, Galo, Antônio Francisco e tantos outros.

Talvez você não perceba, mas por certo, está cercado de verdadeiras lendas vivas da nossa comunidade. Por conta disso, a nossa estória acontece sob sua retina.

Ao encontrar um desses personagens por nossas ruas, abrace-o, beije-o, valorize-o. Afinal, você também faz parte desta vitoriosa história.

Em Banco da Vitória vivemos e convivemos com nossas lendas vivas. No mundo inteiro, isso é privilégio de poucos lugares.

 

20 – Dona Maroca – A Fada de Banco da Vitória.

Nos livros de estórias fantásticas, as fadas são representadas por moças lindas, reluzentes e mágicas. As fadas realizam sonhos, protegem as crianças de todos os tipos de males ou ainda fazem todos os tipos de encantamentos e surpreendentes magias. Em Banco da Vitória, a nossa fada não era jovem, tinha mais de sessenta anos de idade e se chamava Dona Maroca. Dona Maroca do Lelê.

Dona Maroca era uma viúva que vivia sozinha num terreno grande, numa casa com um quintal enorme que ficava nas imediações do atual restaurante Camarão na Moranga, de Marta Duarte. A casa de Dona Maroca ficava onde hoje está o quintal da casa dos pais de Cachaça e André. Em torno da casa da nossa fada havia um grande jardim repleto de flores e um pomar repleto de frutos.

Dona Maroca era famosa como quituteira e fazia um doce de milho cozido chamado de Lelê. Este doce era um tipo de canjica de grãos de milhos e temperado com coco ralado, leite de vaca, açúcar, e aromáticos cravos e canelas.

O Lelê de dona Maroca era vendido em um tabuleiro de madeira pintado de azul. Aos sábados e domingos Dona Maroca instalava seu tabuleiro encostado ao muro do antigo barracão da feira de Banco da Vitória, (bem em frente à casa de Dona Lia), na Praça Guilherme Xavier. Ali ela vendia, além do famoso Lelê, mingau de milho e de tapioca, canjica e pamonhas. Aromáticas e deliciosas guloseimas.

Dona Maroca era um ser angelical, amável, cheirosa e principalmente generosa. Na sua casa as crianças eram sempre bem vindas. No pomar e no jardim da sua casa todo mundo podia brincar, se lambuzar de diversas frutas e colher radiantes flores. Além, é claro, comer suas deliciosas guloseimas.

Dona Maroca parecia uma avó que todo mundo queria ter e todos a admirava por sua alegria.

Maroca era uma senhora branca, pequenina, gorda e alegremente sorridente. Adorava cuidar das suas plantas cantando. No seu quintal tinha também uma fabulosa fonte de água. Muitas pessoas da nossa comunidade pegava água de beber neste poço.

Dona Maroca vendia doces também no campo de futebol, aos domingos à tarde. As noites destes dias, ela se dirigia a igreja católica onde, além de fazer os seus louvores, cantava magnificamente bem.

Todas as crianças de Banco da Vitória adoravam Dona Maroca e nenhum “serzinho” passava pela avó comunitária sem pedir-lhes a benção. Junto com a benção afável e carinhosa vinha sempre um sorriso alegre e um pedido:

– Passa lá em casa para comer um docinho e brincar no meu jardim.

Por conta deste seu amor pelas crianças Dona Maroca se transformou numa verdadeira fada da nossa comunidade. Sua casa era encantada. Seu jardim era maravilhoso e magistralmente cheiroso. Seus doces eram irresistíveis. Seu sorriso era hipnótico e seu abraço simplesmente analgésico.

Nos livros de Banco da Vitória, a fada tem nome e se chamava Dona Maroca. Maria da Conceição dos Santos foi apenas uma personagem que a nossa verdadeira fada usou para poder conviver com a nossa gente e alegrar nossas crianças.

Agora Dona Maroca mora no céu e de lá continua amando todo nosso povo. Principalmente as crianças, de Banco da Vitória e do mundo inteiro.

 

 

19 – Zezeu, quase 50, relembra nossa bela infância.

No dia 12 de outubro de 1978, Maria Amélia Rhem da Silva, esposa do então prefeito de Ilhéus Antônio Olímpio distribuiu brinquedos e doces para as crianças de Banco da Vitória. Meninos receberam bolas ou carros de plástico e as meninas receberam bonecas. Os carrinhos coloridos foram entregues as criancinhas e as bolas para os pré adolescentes. Em apenas meia hora o Banco da Vitória estava repletos de novos craques de futebol e as centenas de bonecas recebiam nomes das personagens da novela O Astro, de Janete Clair, que fazia um estupendo sucesso na televisão.

Naquele dia ocorreram babas em todas as ruas do então distrito de Ilhéus, e, pelo menos por um único dia, cada menino da nossa localidades pôde realizar seu sonho de ter uma bola de futebol.

Na tarde daquele dia, muitas das bolas presenteadas já estavam furadas, estouradas ou rasgadas. Muitas pelotas não resistiram as unhas amoladas da meninada nem os assassinos grampos dos arames farpados que se viam por todas as cercas e até mesmo nos varais.

As bonecas, como já esperado, duraram bem mais que as bolas de plástico. Nas semanas seguintes teve até batizados de bonecas e há quem diga que algumas dessas duraram até o natal daquele ano. Outras, infelizmente, foram rasgadas por cachorros danados ou carregadas pelas enxurradas daquela primavera.

No dia seguinte, era um sábado, conta-me Zezeu (José Carlos Ramos), meu amigo desde a infância, que eu o presenteei com a bola que tinha recebido da mulher do então prefeito de Ilhéus. A bola de Zezeu tinha estourado na tarde do dia anterior e eu vendo a tristeza do meu amigo, dei-lhe a minha bola.

Até hoje Zezeu lembra dessa história e todas as vezes que conversamos ele a cita como um fato especial e relevante. Afinal, naquela época nós Compartilhávamos tudo que tínhamos. Os brinquedos eram coletivos, a comida dividida e as alegrias somadas.

Eu não lembrava desse ocorrido relembrado por Zezeu, mas fico muito feliz por ter tido este gesto colaborativo que marcou tanto o meu amigo a vida inteira. Afinal Zezeu tem orgulho do meu gesto juvenil.

Para minha família e meus amigos, gestos como este não são novidades na minha vida. Sempre acreditei que ajudando seria ajudado e sendo ajudado devia sempre compartilhar, desde bênçãos até coisas materiais.

A vida me ensinou que perder é ganhar e tudo que ganhamos devemos compartilhar. Sempre.

Hoje eu sei, que devo ter influenciado meu amigo Zezeu em alguma coisa. Afinal, ele, mais que eu, adora ajudar, contribuir, compartilhar e principalmente alegrar as pessoas.

A lição que fica dessa bela história é que gestos pequenos ou até mesmo simples, podem nortear as convicções das pessoas.

Zezeu, que fará 50 anos de idade no próximo dia 13 de novembro fará uma festa digna da sua brilhante vida. Seus tantos amigos estão todos convidados. A festança acontece em Içara, na beira mar de Santa Catarina, onde o nosso amigo mora e felicita.

Zezeu mora lá, em ares sulistas, mas seu coração continua batendo em Banco da Vitória e exalando os aromas do dendê e do cacau secando em barcaça…

18 – Paulo Coragem – A voz de Banco da Vitória.

Paulo Sérgio Pereira de Souza é conhecido em Banco da Vitória como Paulo Coragem. Mas poderia muito bem se chamar Paulo Violão ou, mais ao seu agrado, Paulinho do Rio Cachoeira. Paulo Coragem parece que nasceu tocando violão e cantando as belezas da nossas matas e principalmente do nosso rio. Só consigo lembrar do meu grande amigo Paulo da seguinte forma: ele com seu violão e o seu violão com ele.

Paulo é filho de ícones e verdadeiras lendas de Banco da Vitória. Seu pai era Nafital Souza e sua mãe, a bem-amada, professora Gláucia Pereira. Dessa alquimia cultural, ele nasceu (ou melhor estreou) em 3 de dezembro de 1962. A quem diga que Paulinho puxou aos Souza na arte de tocar violão e aos Pereiras na arte de cantar.

Paulo Souza é um espetacular músico, brilhante compositor e magistral cantor. Com sua voz aveludada, calma e melodiosamente envolvente, ele canta como quem conversa com as matas, resenha com a flora e murmura com as águas.

Sua poesia é provinciana, terral, intimista e contemplativa. É o poeta de Banco da Vitória.
Como quem faz um louvor à vida, as músicas de Paulo Coragem não só cantam as belezas da nossa aldeia e do nosso rio Cachoeira como também servem de alerta ecológico, um grito de socorro em prol do nosso planeta. Dessa forma, Paulinho não apenas canta, mas também encanta e nos conscientiza da importância da preservação da natureza e do planeta Terra.

Os Souza e Pereira tem orgulho do seu irmão artista, querido, altamente bondoso e do ser humano mais que especial.

O Banco da Vitória tem prazer de dizer que Paulo Coragem nasceu e vive no seu coração. Ele é a verdadeira voz da nossa comunidade e as suas melodias são nossas canções de ninar gente grande.

Se eu fosse você, ao encontrar Paulo Coragem por aí, daria-lhe um forte abraço. Afinal, não é todo lugar que tem uma “voz” que anda, canta e encanta. Paulo Coragem faz isso com tanta naturalidade que a sua voz, muitas vezes, se confundem com os sussurros dos ventos que abanam o nosso povo e embalam os nossos sonhos.

Paulo Coragem tem nome de cantor. Faz jus a sua estirpe. O Banco da Vitória orgulha-se deste artista completo e sereno.

 

17 – Zé Lavigne e Dona Alice – Edificadores de Banco da Vitória.

As minhas lembranças iniciais do casal Zé Lavigne(Lavino) e Dona Alice são do meado da década de setenta. Naquela época eu tinha pouco mais de dez anos de idade e o casal em voga já eram senhores de idades avançadas.

Lembro-me muito bem do velho seu Zé Lavigne, homem pequenino, enorme barba grisalha, sempre usando um facão embainado, preso à cintura, botas Sete Léguas nos pés, vestido de calça e camisa comprida, uma espingarda pendurada nas costas e, principalmente, do seu cheiro de cacau. Sempre, sempre mesmo, ele pitava um cigarro pacaya e adorava dar borrifadas de fumaça nos rostos das pessoas.

Zé Lavigne era o único morador de Banco da Vitória que tinha um sítio dentro da localidade. Esse sítio compreendia uma parte da rua dos Artistas, fundos da atual Rua Aldair, até a beira do rio Cachoeira e, no outro extremo um pedaço delimitava com a atual Rodovia Jorge Amado e o posto de combustíveis.

A entrada principal do sítio ficava ao lado da casa do casal que se localizava na esquina da Rua dos Artistas com a Rua Aldair (atual casa da professora Cremilda). Neste imóvel, além da casa de moradia, havia uma garagem (onde ficava o famoso automóvel conhecido como Jipe Rompedor), um depósito de cacau e uma grande barcaça para secar os frutos de ouro.

Nessa casa, seu Zé Lavigne e dona Alice moravam com os seus quatro filhos (Aparecida, Georgina, Zé Buscapé e Tonho). O sítio que se estendia até a beira do rio era repleto de cacauais e dezenas de pés de frutas. Ali a criançada de Banco da Vitória podia comer jacas, abius, carambolas, cerejas, jenipapos, goiabas, araçás, jabuticabas, groselhas, jamelões, jambos e principalmente as açucaradas canas.

Na parte mais extrema do sítio corria um riacho que desaguava no rio cachoeira bem em frente ao atual final da Rua Aldair. Perto deste riacho havia uma excelente fonte de água doce que abastecia dezenas de famílias de Banco da Vitória.

Lembro-me do ser rústico, homem sério, trabalhador e principalmente prestativo que era seu Zé Lavigne e, da candura, amabilidade e paciência de dona Alice, principalmente com as crianças.

Dona Alice, uma mãe de todo mundo. Mulher amante de flores e plantas. Costureira de mão cheia e católica fervorosa. Voz mansa, gestos comedidos, um ser exemplar.

Naquela época, quem queria conhecer uma mini fazenda de cacau só precisava entrar no sítio de seu Zé Lavigne. Ali tinha tudo que uma grande fazenda de cacau possuía. Das árvores aos cochos, da barcaça ao armazém.

Um dos dias mais alegres da comunidade na época era quando seu zé Lavigne ia vender o cacau seco em Ilhéus. Ele colocava quase vinte sacas de cacau no seu jipe, amarrava tudo e ia para a Princesinha do Sul. Quem via o carro com aquela quantidade de sacas de cacau amarradas a lataria acreditava que o veículo tombaria na primeira curva. Mas isso jamais aconteceu. Seu Zé Lavigne dirigia sempre devagar e com muita cautela.

Por sinal, seu jipe era um tipo de ambulância comunitária de Banco da Vitória e socorreu centenas de pessoas da localidade. Nessas ocasiões, a única coisa que não podia exigir do motorista era pressa. Coisa que ele jamais teve ao volante.

Seu Zé Lavigne e dona Alice foram moradores respeitados em Banco da Vitória e muito contribuíram para o desenvolvimento da nossa comunidade. O seu melhor amigo era Joaquim Araújo, pai de Tânia, mas ele era amigo de todo mundo.

Zé Lavigne e dona Alice repousam no solo de Banco da Vitória. Ali são eternamente amados.

 

 

16 – Zé Jatobá de Banco da Vitória.

José Ivonildo dos Santos, em Banco da Vitória, tem, no mínimo quatro apelidos. Quando menino era conhecido como Zé Jatobá. Depois, adulto, virou Zé Tceka, (Tcekinha, para suas tantas admiradoras). Depois virou Zé da Telebahia. Atualmente ele é conhecido como o Rei do Robalo, mas prefere mesmo ser chamado de Zepapacu. Diz ele que este nome grego é muito apraz. Zomba alegremente.

José Ivonildo é cria de uma família de lendas da nossa comunidade. É filho de Jonas Porco e Touro e dona Chica Santos. Irmão de Ivonete, Íris e Professor Chicão (já falecidos) e de Ivone Santos e Ivony.

Zé Jatobá, em sua juventude, era um dos melhores jogadores de futebol que atuou em Banco da Vitória. Tinha talento para jogar em qualquer time profissional ou seleção de futebol. Era elogiado por verdadeiros conhecedores de futebol como Oliveira Nunes, Carmerindo, Gaguinho, Zé da Alinhagem e Xisto Gomes. Quem o viu jogar bola sabe o que falo. Os mais velhos diziam que ele tinha puxado ao pai, Jonas, também magistral jogador de futebol.

Mas a sua especialidade maior sempre foi pescar. Em Banco da Vitória, José Ivonildo é conhecedor de cada pedra, remanso e poço do Rio Cachoeira. Ali ele sempre reinou absoluto.

Atualmente José Ivonildo é conhecido em Ilhéus como o Rei do Robalo, devido suas especialidades na pesca deste tipo de peixe.

José Ivonildo e seu irmão Chicão era como gêmeos. Estavam sempre juntos, pescavam juntos, divertiam-se dessa forma e um cuidava do outro como se o outro fosse o um. Professor Chicão quando partiu deixou seu irmão enfraquecido. Até hoje José Ivonildo não se recuperou dessa perda. Mas o tempo remenda tudo.

José Ivonildo é também profundo conhecedor das estórias de Banco da Vitória, e com seu conhecimento contribuiu para diversos estudos realizados pelas universidades UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz), UFBA (Universidade Federal da Bahia) e UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Junto a Osmário (Seu Tum), ele foi personagem da tese sobre os seres imaginários do Rio Cachoeira, elaborado por alunos da UESC.

José Ivonildo foi um dos primeiros moradores do Loteamento Santa Clara. Atualmente é aposentado pela Telebahia e faz da pescaria especializada seu passa tempo.

Casado com a paulistana Márcia, José Ivoinildo é pai de Pablo e Tainá. É uma verdadeira lenda viva de Banco da Vitória. Zé Jatobá é o maior pescador de amizades da nossa comunidade.

15 – Os Decanos do Alto da Bela Vista.

Antigamente o Alto da Bela Vista era conhecido como Panavueiro. Na década de setenta do século passado, os padres das Caritas construíram e distribuíram casas no Alto de um dos morros da Santa Clara e trocaram o nome da localidade. O nome atual faz jus a visão que temos do lugar.

Foi nesta época que abriram a segunda ladeira e o alto da Bela Vista ficou com duas ruas. Antigamente só havia uma ladeira que seguia o rumo das casas dos padres. Onde temos a segunda ladeira, antes era apenas um caminho escorregadio entre várias casas.

No Alto da Bela Vista já moraram vários e vários ilustres conterrâneos. Contudo, por ora, vou tecer alguns comentários apenas sobre dois: Deraldo e Careca (Valdirene de Osório). Em breve farei um artigo exclusivo sobre os moradores do Alto da Bela Vista.

Deraldo era uma espécie de decano da comunidade. Altamente inteligente e instruído, Deraldo tomava a frente das discussões sociais e saia sempre em defesa da sua comunidade. Como babalorixá ele era respeitado nos cultos do candomblés.

Careca era um tipo de delegada da alegria. Onde ela chegava tudo se transformava. Ela brincava com todo mundo, dançava com todos, contagiava todos com a sua alegria e vitalidade. Para Careca não havia tempo ruim nem falta de ânimo. Sempre ela estava disposta a ajudar, contribuir, colaborar. Era uma guerreira nata.

Nas festas do antigo salão do Alto da Bela Vista a alegria só começava quando Pai Deraldo chegava, vestido com seus trajes coloridos, seus chales brilhantes e seu sorriso cativante. Deraldo gostava também de, nas tardes dos domingos, assistir as partidas de futebol no campo de Banco da Vitória. Ali ele era o torcedor mais animado do Bahia do Alto da Bela Vista (time de Zé Pote de João Ruim).

Careca era também torcedora do Bahia e assim como Deraldo era loucamente apaixonada pelo clube. Careca foi um das melhores dançarinas que já existiu em Banco da Vitória. Dançava todos os ritmos, com todos os dançarinos e até com quem não sabia dançar. Assim como na vida, ela sabia bailar.

De todos os belos e justos filhos e filhas de Osório e dona Nieta, Careca era mais especial, iluminada, alegre e envolvente. Era a filha que todos os casais queriam ter. era uma das minhas melhores amigas.

Deraldo e Careca não estão mais entre nós e repousam no nosso solo sagrado. Desde as suas partidas o Alto da Bela Vista jamais foi o mesmo. A vista continua bela e exuberante. Porém, sem Deraldo e Careca a paisagem ficou entristecida, pálida e distante.