32 – Os lobisomens de Banco da Vitória.

Lobisomem-650x336

Em outros lugares do mundo, as estória do lobisomem acabam magistralmente descrevendo a identidade do homem que vira fera nas noites de lua cheia e desvendando este segredo. Em Banco da Vitória, ao contrário disto, muita gente se intitulava como o verdadeiro lobisomem e não tinha medo nem receio de dizer isto para todos mundo. Tinha até alguns lobosomistas que mostravam suas unhas afiadas e barbas grandes como indícios de suas transformações animais.

Pouco se sabiam das origens dos lobisomens de Banco da Vitória. Pois nesta localidade não tinha nem um nem dois lobisomens, mas sim vários. Havia até quem dissera ter visto brigas entre os seres noturnos que uivavam feito lobos a e atacavam feito feras. Outros, como Cabo Jonas, disseram que contaram mais de dez lobisomens na localidade.

Contava a lenda que o lobisomem surgia exatamente quando uma mulher tinha 7 filhas e a sua última cria nascia um menino. Se este rebento fosse pálido, magricela, de orelhas afinadas e dentes grandes, tinha ali todos os indícios de um futuro lobisomem.

Em Banco da Vitória, este preceito não era válido, pois pelos critérios de identificação de lobisomens, bastava ser uma figura irritadiça ou zangada, pra ser caracterizada como um candidato a virar um lobo em uma noite de lua cheia.

Com suas devidas considerações, quando as noites de luas cheia caiam exatamente nas sextas-feiras, as ruas da nossa localidade ficavam vazias e desertas. Os poucos transeuntes noturnos andavam em pares e os trabalhadores do antigo matadouro não arredavam das usa facas e facões milimetricamente amolados.  

Nestas noites assombrosas, nas casas que havia meninos ou meninas pagãs, as portas e janelas dormiam escoradas com fortes madeiras. Cães e gatos dormiam dentro de casa e quem morava em frente as encruzilhadas (locais preferidos dos lobisomens) tapava as frestas das janelas e das portas, para não ver a passagem ou possível transformações dos lobisomens.

Segundo o brincalhão Antônio de Isaías, seu vizinho Zé Lavine era o lobisomem da Rua dos Artistas. Aurindo, antigo motorista e morador da Rua Aldair dizia ser ele o temível lobisomem da redondeza.  Havia quem colocasse o título em Corinho, um negro alto e trabalhador que vivia na Rua do Cemitério. Nesta rua, Seu Cazeca era também suspeito de virar lobisomem. Seu João Batista, o coveiro local não entrava neste rol. Dele, a meninada tinha medo exatamente por ser o homem que enterrava o povo local.

Gaguinho, quando bebia, dizia que Seu Dedé, marido de Preta, morador da rua do Campo, além de virar lobisomem, também envultava. Seu Pedro Preto dizia nos quatro cantos da localidade que Thiago Cardoso, pai de Bibogo virava lobisomem. Já Garapa, dizia como certeza que o Getúlio, um negro alto, de braços e pernas finas e mãos grandes virava lobisomem nas bandas da Rua da Represa. Lindor Nunes gostava de dizer que tinha certeza que Arara também virava lobisomem. Arara gostava da brincadeira e vivia assustando os meninos e meninas desavisadas que passavam pela rua Dois de Julho.

Uma vez, o lobisomem de Banco da Vitória começou a atacar os quintais das casas e em poucos dias mais de 30 galinhas desapareceram na localidade. Nesta investidas a fera noturna também atacava os cachorros, mas este não eram levados. A fera metade homem metade lobo somente levava as galinhas gordas.

Depois de uma semana de horror noturno e sumiços das galináceas provocados pelo tal lobisomem, Cabo Jonas encabeçou uma ronda noturna formada por mais de 10 homens, todos armados de facões, foices e até espingardas e durante as madrugadas esta trupe armada varria o Banco da Vitória de ponta a ponta, em busca do tal lobisomem também ladrão de galinha.

Uma noite de lua cheia a Volante de Cabo Jonas foi chamada a Rua Duque de Caxias, onde o tal lobisomem atacara o galinheiro de dona Romana. Ali, homens armados com facões e pilungas enxotaram o tal homem lobo e correram atrás da fera pela rodagem até depois da União, onde o bicho desapareceu no rio.

No dia seguinte Cabo Jonas desfilou como vencedor pelas ruas de Banco da Vitória e o Nego Nide nunca mais falou com ele. Foram inimigos até morrerem.

Havia quem dissesse que Cabo Jonas foi também requisitado para atuar nessa atividade nas localidades do Rio do Braço, Sambaituba, Couto e na Proa. Em todas investidas o lobisomem local desapareceu e Cabo Jonas engrandeceu-se em fama.

Um dia Pica-pau, filho de Agenor Bolacha, tomou umas canas a mais e bêbado se jogou em pleno meio dia na encruzilhada da praça Guilherme Xavier. Ali, nu e louco, Pica-pau uivava, imitava relinchos de cavalos e se jogava no chão, ralando as costas nos paralelepípedos e gritava:

– Eu sou o lobisomem desta bosta. Vou virar bicho agora. Vem me pegar! Vem.

Em menos de dez minutos dezenas de pessoas assistiam a encenação de Pica-pau e sua auto mutilação.

Não demorou e chegou seu pai, Agenor Bolacha, trazendo nas mãos um chicote feito de vergalho de boi. Agenor deu duas chulapadas nas costas de Pica-pau e este correu feito um doido para a beirada do rio, onde foi curar das dores nas costas, da cachaça desgraçada e da maldita ideia de virar lobisomem em pleno meio-dia.

Virar trabalhador este vagabundo não quer. Agora virar lobisomem em pleno meio dia, ele quer. Fumegava Agenor Bolacha;

Nesta mesma noite, no bar de Xisto Gomes, Cabo Jonas encontrou Agenor Bolacha e tentou acalmá-lo:

– Agenor, não faça isso mais não. Apanhar de vergalho de Boi dói muito. O pobre Pica-pau está todo estropiado. Imagina se eu fosse fazer isso para expulsar o lobisomem das costas de Nego Nide. Dei uma carreira nele e você viu o que aconteceu. Nunca mais lobisomem em Banco da Vitória.

Agenor Bolacha, ainda enfezado olhou assustadoramente para Cabo Jonas e disse:

– Duas chamadas de vergalho de boi nas costas cura lobisomem. Três, cura pai de santo mentiroso e quatro faz até saci-pererê correr com uma perna só.

Cabo Jonas olhou seriamente seu interlocutor e com um relógio quebrado no pulso indagou: Xisto Gomes, ver se já deu nove horas ai? Vou pra casa. Tá na hora do meu engrossante. Afinal hoje é sexta-feira, tem lua cheia no céu e o lobisomem, pelo jeito, não vai mais aparecer por aqui. Já o capeta, pelo visto, parece que que estar rondando estas bandas desde o meio-dia. Credo em cruz! Boa noite e fui!

Depois daquela noite nenhum lobisomem foi mais visto em Banco da Vitória. Pica-pau se mudou para Vila Cachoeira e Nego Nide deixou de beber para sempre.

Anúncios

31 – O Fim das Fofoqueiras de Banco da Vitória.

Uma das coisas que o tempo, do seu jeito e modo, se encarregou de quase acabar foram as fofoqueiras. Atualmente, com o advento da Internet e das Rede Sociais as fofoqueiras quase e não tem mais o que fazer, pois quando vão contar um boato, um mexerico novo, todo mundo já sabe. Pode-se acreditar que as fofoqueiras e fofoqueiros estão com os dias contados. Todavia, antigamente, em Banco da Vitória tinha fofoqueiras respeitadas, quase profissionais nas artes das intrigas e dos boatos.

Nas barrancas molhadas pelas marés atlânticas no Rio Cachoeira havia algozes fofoqueira, – mas temidas que as feiticeiras locais. As fofoqueiras eram também classificadas como bisbilhoteiras, mexeriqueiras, intrigantes, leva-e-traz, boateiras, devassas, linguarudas, faladeiras, indiscretas e levianas.

Dizia-se no Nordeste brasileiro que o povo aumenta mas não inventa. Isso, em Banco da Vitória, nunca funcionou. As boateiras inventavam estórias descabidas e mirabolantes, mas com fortes argumentos de veracidade. Aumentavam os tons das desgraças humanas, mudavam os cenários dos fatos, acrescentavam novas personagens e massacravam seus inimigos.

Por conta de boatos e fofocas muitas moças apanhavam dos seus pais, sem merecerem nem mesmo um simples arranhão. Namorados se separavam, casais brigavam, colegas perdiam as velhas amizades, vizinhos deixavam de se falarem. Tudo isso por conta da sanha tenaz das fofoqueiras.

Antigamente, havia até o dia dos surgimentos das fofocas e boatos. Eram as segundas-feiras. Nestes dias, as fofoqueira faziam um apanhado do que tinha ocorrido no final de semana e regado de grandes criatividades, azeitavam suas fofocas e intrigas. O disse-me-disse corria solto neste dia e de vez em quando uma fofoqueira caia no tapa, recebia dois panos de facão nas costas ou até mesmo uma homérica surra. No dia seguinte a delegacia de Ilhéus estava cheia dos envolvidos nas fofocas e intrigas e até advogados eram requisitados nas acusações de falsos testemunhos, difamação e outros flexões do Direito.

Na boca da fofoqueiras locais moças virgens se tornavam mulheres damas. Homens casados e honestos viravam traidores costumazes. Donas de casa trabalhadeiras e direitas viravam preguiçosas e sujas e, de del em del muita gente via a reputação ir de água a baixo. Em Banco da Vitória, a fofoca estragou a vida de muita gente.

Alguns bêbados locais, quando já zimbrados nos efeitos etílicos elegiam as maiores fofoqueiras da localidade. Normalmente eram primeiro escolhida a fofoqueira de cada rua. Depois se classificavam as três principais fofoqueiras do então distrito de Ilhéus. Os cargos eram concorridos, mas merecedores.

Por anos de mais anos, uma senhora local recebeu o título de a maior fofoqueira de Banco da Vitória e redondezas. Mulher de poucas amizades, viveu a vida inteira fazendo intrigas e boatos. Por conta disso, foi a única defunta que foi enterrada no nosso cemitério em dois caixões. Em um caixão pequeno foi seu corpo. No outro, maior, foi sua língua. Que Deus a tenha perdoado de tantas intrigas, mexericos e boatos. Se isso não aconteceu, Satanás tem péssima companhia.

Graças a Deus, não temos em Banco da Vitória mais fofoqueiras como antigamente e as poucas pessoas que atualmente tentam viver no leva-e-traz, não fazem nem cócegas quando comparadas as antigas e temíveis fofoqueiras locais.

Em Banco da Vitória as fofoqueiras se findaram. Há quem acredite o contrário. Mas isso deve ser apenas boatos de quem não tem o que fazer.

30 – Saudades do Matadouro Municipal de Ilhéus, em Banco da Vitória.

matadouro

Segundo os Anais Ilheenses, o antigo prédio do Matadouro Municipal de Ilhéus foi inaugurado no meio dos anos cinquenta do século passado. Naquela época, quem passava pela recém inaugurada rodovia Ilhéus Itabuna (asfaltada em 1958) via naquele prédio imponente e majestoso, um possível modelo de fabriqueta de sonhos e possibilidades. Para os moradores de Banco da Vitória, a construção daquele prédio foi a segunda coisa mais importante da comunidade. Só perdia, por importância e valor social, para construção da Escola Herval Soledade, inaugurado em 1960, que por certo revolucionou toda nossa gente.

A escola Herval Soledade ficava na margem esquerda do Rio Cachoeira e o matadouro ficava na margem direita da Rodovia Ilhéus Itabuna, recuado desta, no mínimo, 15 metros.

O prédio do Matadouro Municipal de Ilhéus devia ter as dimensões de 40 metros de comprimento por 25 metros de fundos. A construção tinha alvenarias altas, (aproximadamente 1,2 metros de altura para poder sobressair as possíveis enchentes do Rio Cachoeira) e o imóvel sempre era pintado de azul e branco.

Na parte da frente do prédio, bem no centro, havia a entrada principal do matadouro. Aos lados, dez salas serviam de depósitos e escritórios das empresas que atuavam nos abates e comercialização de carnes bovinas, suínas, couros, sebos e pedras de rins dos bois. Por trás destas salas havia a área de despostas dos bois. Por trás desta ficava o abatedouro. Por trás deste ficava o curral e a área da caldeiraria, onde os couros e as vísceras dos bois abatidos eram limpos.

Na parte oriental do prédio havia o matadouro de suínos e próximo a este imóvel havia o depósito de couros bovinos e a saboaria.

No matadouro de Banco da Vitória trabalhavam mais de 100 pessoas. Isso, na lida direta dos abates, limpezas e transportes de carnes bovinas e suínas. Nos arredores do matadouro, por certo, mais outras 100 pessoas atuavam como comerciantes diretos e indiretos dessa atividade mercantil. O matadouro municipal de Ilhéus foi o maior empregador da mão de obra da nossa comunidade.

Além de atuar como matadouro bovino e suíno do município de Ilhéus por décadas, o prédio abrigava também alguns órgãos municipais, como a coletadoria de impostos municipais, o posto da vigilância sanitária e a delegacia policial do distrito ilheense. No início da década de oitenta do século passado funcionou ali também, por poucos meses e provisoriamente, uma base da polícia rodoviária estadual.

O Matadouro Municipal de Ilhéus em Banco da Vitória funcionava também como escola informal de açougueiros e empreendedores. Entre suas paredes dezenas de jovens da comunidade aprenderam a lida com os cortes de carnes, os segredos das preparações de linguiças, das carnes do sol, das dobras de peles e das vísceras e identificações de cálculos biliares.

No período que o matadouro municipal de Ilhéus funcionou em Banco da Vitória, a nossa comunidade viveu um dos seus melhores e prósperos anos.

9 – Um passo atrás da saudade

Quando eu era menino meu sonho era ser escritor. Rabiscava todo papel que via pela frente. Os lápis, em minhas mãos tinham vidas breves. Canetas se esvaziam em poucos dias. Lia jornais velhos utilizados para enrolar mercadoria compradas nas feiras. Lia a Bíblia, o Almanaque do Biotônico, Almanaque Brasil, os livros da casa da Professora Cremilda, as Revistas Manchete da casa de Roquinha e as revistas de cortes e costuras do meu tio Jair. O que tivesse letras eu lia.

Um dia, vi o saudoso Nafital escrevendo numa máquina de escrever, a famosa “datilográfica” e quase fiquei louco com aquela “máquina”. Todos os dias quando voltava da escola eu entrava na sede da administração do distrito de Banco da Vitória só para ver seu Nafital escrevendo com aquela máquina maravilhosa. Os sons das teclas e dos ferros batendo sobre a folha de papel era a melhor melodia do mundo. Drummond sabia disso.

Um dia encontrei uma máquina datilográfica na casa da Professora Cremilda, onde todos seus irmãos e irmãs treinavam para os famosos testes datilográficos exigidos para contratações de empregados e funcionários públicos. Eu auto adotado pelos Martins Santana, entrei no rol dos estudantes de datilografia e chorava quando acabava a minha vez de escrever com aquela preciosidade.

De tecla em tecla a vida realizou o meu sonho. Escrevo todos os dias e vivo basicamente do que escrevo.

Hoje recebi esta preciosidade que aparece na foto abaixo. Máquina antiga, dos anos setenta, coisa de colecionador. Funcionando perfeitamente. Vou mandar fazer a manutenção desta máquina e em breve a sinfonias das teclas ecoará pelo meu humilde lá.

Na minha vida, de tecla em tecla Deus cumpriu sua promessa. O meu sonho é sólido.

29 – A morte e a morte do Rio Cachoeira.

A jornalista Inês Calixto, provavelmente, ainda não conhece o Rio Cachoeira do Sul da Bahia. Mas, pelo que descreveu quando viu o Rio Araçuai no distrito de Turmalina, (MG), por certo, fala também do nosso moribundo rio Cachoeira. Inês descreveu na Folha de São Paulo em 25/10/2010 o seguinte:

“Os rios nascem pequenos, quase um fio de água, depois começam a correr e encontram-se com córregos e ribeirões. Então crescem. Mas, quando um rio morre, no lugar fica só o seu desenho.”

Faço do relato de Inês Calixto o testamento do nosso Rio Cachoeira que agoniza, quase morre, pouco acima de Banco da Vitória até sua nascente no sul da Serra da Itararaca, nas pandas derradeiras do município de Vitória da Conquista (BA).

A foto que ilustra este texto foi publicada no Blog Pimenta e mostra as vísceras de pedras expostas no leito do Rio Cachoeira, pouco acima da cidade de Itabuna, nos alicerces do bairro de Nova Ferradas.

Ver-se facilmente que o Rio Cachoeira apenas lagrimeja. Nem corre mais. Apenas empossa aqui, empossa ali e morre sem alarde.

Quando outubro chegar, o quase morto Rio Cachoeira ressuscitará aos sons dos trovões e inundará suas margens com mais de 300 quilômetros de extensão. Ninguém lembrará da cena da foto anexa.

Mas um rio não pode viver apenas nos períodos de enchentes. Um rio tem de correr sempre, sempre e sempre até desaguar no mar. Se um rio não corre não é rio. É apenas um lago ou lagoa. E o nosso Rio Cachoeira nem lagoa consegue ser.

Se continuar como estar em breve o nosso Rio Cachoeira se chamará Rio das Chuvas ou então Rio da Ingratidão.

– Fomos, somos e seremos ingratos com rio Cachoeira até quando?

Nas margens do Rio Cachoeira tardes mornas e água doce agora são coisas raras. Tão raras quanto a nossa irresponsabilidade no cuidar da natureza.

Pelo visto Pero Vaz de Caminha acertou apenas na sua temporalidade quando escreveu a primeira carta do Brasil. Disse Caminha sobre nossos rios: “ Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa [a terra] que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!”

O Rio Cachoeira tinha água o ano inteiro. Agora tem apenas lembranças líquidas.

Quem tiver dinheiro que compre uma passagem para a lua, pois o projeto Terra faliu. O ser humano não gosta de fazer parte da natureza.

26 – O Touro e o Vaqueiro Fumante.

Tem acontecimentos em nossas vidas, que se não tiverem testemunhas oculares, ninguém acreditaria ou então diriam ser criatividade de mentes férteis e sonhadoras. A breve estória que vou relatar agora, graças a Deus, tem lúcidas testemunhas. Eu mesmo, se tivesse apenas ouvido alguém contar esta estória, por certo, também duvidaria. Mas como disse, os meus amigos Juarez Soares, Fernando Menezes e Bego estão aí para provar que não minto. Também viram tudo que eu vou descrever.

No final do século passado, em um sitio que ficava no final da grande reta da rodovia Ilhéus Itabuna, – nas imediações de Banco da Vitória, (pouco antes de se avistar a União), foi criado um local para realizar vaquejadas e rodeios e ali tinha um aprazível bar. Neste local, nos finais de semanas, se desfilavam lindos cavalos e eram realizadas diversas provas de vaquejadas e rodeios. Nas noites dos sábados faziam também ali dançantes bailes e animadas serestas e aos domingos ocorriam as provas de rodeio.

Em um final de semana daqueles tempos se realizou neste sítio uma envolvente prova de vaquejada. Foi construído um curral com vigorosas estacas e um pequeno estábulo. Na parte de traz via-se um pequeno cercado onde os bois eram agrupados e selecionados para as provas. A maioria dos animais eram apenas garrotes ou bezerros bem criados. Contudo, no meio dos bois havia um zangado touro branco. Um touro completo. Porém, de poucos amigos.

Na noite daquele sábado fomos todos para o sítio da curva da União para assistir as provas de valentia entre os tais vaqueiros e os pequenos touros. No pequeno curral, uns cabras fantasiados de vaqueiros enfezavam os bois, montavam-nos, tentavam derruba-los na força dos braços e davam-no nós nos seus rabos.

Ao redor do curral ficava a plateia que gritava e incentivava os pegadores de bois precoces. No canto do curral estávamos. Eu, Juarez, Fernadinho e Bego, todos assistindo os tais espetáculo quando se aproximou um senhorzinho branco, magro e baixo, aparentando uns sessenta e poucos anos de idade. Este, todo paramentado como vaqueiro, gritava e uivava como quem toca um boiada. O homem estava vestido com uma calça jeans apertada, camisa quadriculada de mangas compridas, botas de couro, cinto com enorme fivela brilhosa e na cabeça trazia um enorme chapéu. Nas mãos um cigarro pacaia, ainda apagado.

Na arena montada, os dublês de vaqueiros zombavam dos pequenos touros e derrubava-os com facilidade. E a nossa futura personagem gritava: – Solta o touro grande. Solta o touro branco. Quando o homem gritava o aroma de cachaça de terceira qualidade cobria-nos. Depois de insistidos pedidos, o responsável pelo controle do curral soltou o tal touro branco zangado.

– Agora eu quero ver. Agora eu quero ver. Dizia a nossa personagem. Agora já sentado na cerca do curral – agora eu quero ver, se tem macho aqui. Repetia.

Um ou dois dublês de vaqueiros tentaram pegar o boi zangado, mas este nem de longe deixou. O boi botou todos para correr do curral e em contrapartida desfilava assustando as pessoas que assistiam o tal espetáculo. O senhorzinho, sentado no curral acendeu seu cigarro, deu uma boa pitada e sorriu dizendo: – cadê os cabras machos daqui? Aqui só tem pegador de bezerros. Quero ver quem pega um touro deste tamanho. Quero ver.
No centro do curral o touro desafiava quem o olhava.

A nossa personagem colocou o cigarro na boca, deu uma forte tragada e pulou no curral. Com o chapéu na mão ele desafiou o touro. Deu mais uma forte tragada no cigarro e chamou o touro para o embate. O animal fazia jus a sua cara. Não gostava de seres humanos. Acreditou-se.

O touro deu um pulo e acertou o pobre vaqueirinho. O homem caiu e o touro o prendeu entre seus chifres, depois o arrastou como quem lixasse as estacas do vigoroso curral. Depois o jogou no chão e como quem varre um terreiro, o arranhou no chão úmido de fezes e urinas de bois e vacas. Varreu os quatro quanto do curral.

A vaqueirama, vendo o sofrimento do podre senhorzinho massacrado pelo boi zangado, se jogou no curral e um homem mais corajoso pegou no rabo do boi e tentou desvia-lo da agressão. Mas parece que o boi tinha uma raiva pessoal contra o podre homem e quanto mais gente tentava socorrê-lo, mais o boi o ralava nas estacas do curral.

A peleja foi grande, mas diante da quantidade de pessoas que tentava socorrer o pobre vaqueiro idoso, o boi, já saciado da sua ira, soltou pobre homem, agora, enlameado e fedendo a urina e fezes de boi. O boi zangado foi aprisionado e um sem número de pessoas foram socorrer o homem caído.

Em um dos seus pés, a bota tinha saído. Neste pé, os dedos brancos e frios tremiam de medo. Os cotovelos apareciam nos buracos das mangas da camisa rasgada. A fivela do cinto se perdera no meio da lama. Na altura do joelho da perna esquerda via-se o couro por traz do rombo no pano. O chapéu jazia amassado no canto do curral.

Quando tiraram o homem do curral foi que viram a grande surpresa. O pobre vaqueiro idoso, estava todo estropiado, arranhado e rasgado. Mas o cigarro continuava acesso no canto da boca. Quase perdeu os dentes, mais o cigarro, jamais.

Logo se soube naquela vaquejada: o boi zangado não gostava de vaqueiro fumante. Mas fumante igual aquele nunca mais se viu em Banco da Vitória.

O pobre vaqueiro não morreu naquele dia, mas passou longos dias na cama se recuperando da sorva bovina, tendo como companhia apenas o seu amigo cigarro. Seu maldito amigo cigarro.  Que por fim, anos depois, o matou.

28 – Estimulantes Sexuais, Atrativos Eróticos e Simpatias do Amor.

Infertilidade sempre foi coisa rara em Banco da Vitória. Antigamente, quando em uma casa tinha poucas crianças, cinco meninos e meninas dormiam nas tarimbas cobertas de esteira de taboa. A média era nove filho por casa. Os casais mais afoitos tinha quatorze ou dezesseis filhos. Quanto mais filhos e filhas os pais podiam sustentar, mais prestigio tinham na sociedade local. Dessa forma, fazer filhos era sinal de saúde, vitalidade e ascensão econômica e social.

Dos chamegos noturnos eclodiam meninas e meninas de todos os tipos, raças e destinos. Uns homens, as vezes por excesso de tesão, tinha filhos fora do casal ou até em alguns casos, mantinham outras esposas, teúdas e manteúdas ou no último caso, um “negocinho” as escondidas para de vez em quando derramar o gás.

Os homens de Banco da Vitória gostavam de propalar seus libidos e diziam que mesmo velhos tinham tesão para fazer novas crias todos os dias. Os jovens, nem se falavam, tinha tesão para trepar três ou quatro vezes por dia.

Já as belas morenas locais, as assaruabas, galegas, brancas, negras ou então as caboclas se vangloriavam dizendo que faziam homens gemerem sem sentirem dor. Naquelas plagas, quem gostava de sexo tinha palco e plateia.

Quando, por um motivo extraordinário um homem sentia que estava ficando “fraco no amor” ele logo recorria as dietas a base de mel de cacau, amendoim cozido, beber catuaba ou então os infalíveis conhaques. Em alguns casos recorriam também as famosas garrafadas feitas pelo Mestre Garapa. Essas misturas alquímicas eram famosa e recebia, por suas óbvias predileções, o nome de Levanta Defunto. Garapa não ficou rico, mas ganhou muito dinheiro vendendo seus estimulantes sexuais.

As mulheres, quando já depois da flor da idade, recorriam as receitas caseiras para aumentar a tesão ou esquentar os casamentos. Nestes casos usavam-se receitas sexuais africanas ou indígenas. Uma senhora de nome Dona Maria, moradora do Beco era famosa em fazer simpatias amorosas e era muito requisitada para amarrar casais, reatar parceiros ou então, literalmente, apimentar casamentos mornos. A dublê de bruxa da beirada do Rio Cachoeira fazia um ungento com leite de coco e suco puro de pimentas malaguetas. Essa pasta era aplicada sobre os clitóris e seus efeitos eram tidos como mágicos, fantásticos e deslumbrantes. Quando se via uma senhora toda arisca nas festas logo se dizia: “essa aí passou a pimentinha de dona Maria na tabaca”.  O sexo naquela noite seria alquímico.

Tinha mulheres da localidade que recorriam aos perfumes como atrativos sexuais. Outras usavam minúsculas calcinhas, aprendiam técnica de pompoarismo (na localidade conhecido como siri na tabaca) ou então tornavam-se maestrinas na utilização da língua, como instrumento sexual. Essas última não denominavam suas técnicas como atrativos sexuais, mas sim, como prazerosas torturas eróticas.

Um dia, um senhor de meia idade, que por motivos óbvios não posso descrever seu nome aqui, então casado com uma fogosa morena de trinta e poucos anos, começou a negar fogo. Na hora de fazer amor ele até se entusiasmava. Beijava a mulher, percorria seus corpo com suas mãos calejadas e fortes, porém, na hora H, o pénis desmaiava fatalmente, o coito era interrompido e a mulher ficava somente na vontade.

A situação foi se agravando e em pouco tempo o pobre cidadão de bem foi dado como impotente. Gastou o preço de um carro novo em garrafadas, remédios importados, simpatias milagrosas e feitiços ditos infalíveis e não obteve nenhum resultado. Perdera a tesão. Tristemente constatou. Estava sexualmente perdido.

Um dia, a esposa sofredora comentou com a velha curandeira Nega Sofia, o martírio que vinha sofrendo com o pobre marido, agora inválido no sexo. A velha manipuladora de fornos de torrar farinhas, mãe de mais de quinze filhos vivos e viúva por três vezes, passou uma receita infalível para curar a impotência do marido.

A velha Nega Sofia disse:

Minha filha, vou passar uma receita secreta e milagrosa. Essa não tem como errar. Se seu marido não ficar com o pau duro por horas e mais horas, não corte o pinto dele não, corte seu pescoço. Essa técnica se chama Mula Manca. Se a Mula Manca não levantar o pau de seu marido, não tem mais o que fazer.

Você sabe como faz a Mula Manca?

A resposta foi não.

Então vou te ensinar. A mula manca faz assim…

Querido(a) leitor(a), você sabe como faz a tal técnica sexual da Mula Manca?

Se sim, por favor, ajude a velha Sofia terminar essa estória.

27 – As Praias de Banco da Vitória

Na década de setenta do século passado, o distrito ilheense de Banco da Vitória era conhecido como aprazível local para passar os finais de semanas. Ali havia uma vigorosa feira comercial instalada na Praça Guilherme Xavier, com dezenas de barracas. No clube social, nas noites dos sábados, tinham festivos bailes conduzidos por conjuntos e bandas regionais e aos domingos podia-se divertir-se nas diversas praias que havia no Rio Cachoeira. Nestes dias as margens do rio ficavam repletas de centenas de pessoas que ocupavam seus areais e barrancas.

Naquela época, quando havia o recuo das maré apareciam no leito do limpo e belo rio Cachoeira diversos areais onde várias pessoas iam se divertir, pescar, fazer cozidos e jogar bolas.

Havia três grandes areais no leito do Rio Cachoeira, nas imediações de Banco da Vitória. O primeiro areal ficava em frente a Bica da Água Boa. O segundo margeava a Rua dois de Julho, da altura da casa do saudoso Nidão (em frente a quadra de esportes) e se estendia até os fundos da atual casa de Miraldo Cardoso, na Praça Guilherme Xavier. O Terceiro areal ficava nos fundo do atual posto de combustível e se estendia até a ponte de Maria Jape.

Nas décadas seguintes estes areais foram reduzindo drasticamente devido a comercialização de areia e então surgiram as praias de Banco da Vitória. Na década de oitenta havia as praias de João de Coló (próxima ao campo do Pacaembu). A praia da Pedra de Guerra (perto do atual propriedade de Zé do Guri), a praia do Porto de Xisto Gomes (nos fundos do convento Nossa Senhora do Carmo (convento das freiras) e a praia de Dona Romana da Beirada (nos fundo da União). Nesta última imediação havia ainda as tapagens de Taurindo e de Cundunga. As tapagens eram um tipo de pequenas barragem feitas com pedras e armadilhas para pegar peixes e crustáceos. Estas toscas pequenas barragens ficavam em duas aprazível ilhas, onde podia-se também desfrutar das beneficies do Rio Cachoeira.

Nos finais de semanas as praias de Banco da Vitória ficavam repletas de centenas de moradores da localidade e de visitantes das roças e fazendas próximas. Nestas ocasiões faziam-se os famosos cozinhados na beira do rio, onde se pescavam também diversos peixes como tainhas, robalos, tucunarés e carapicuns, siris, camarões, pitus, caranguejos e guaiamuns.

Por certo, naqueles dias, boa parte dos moradores do então distrito de Ilhéus se mudavam para as margens do rio Cachoeira e ali se divertiam até a noitinha, quando verdadeiras caravanas de pessoas retornavam exaustas e alegres para seus doces lares.

Na década de oitenta, o Rio Cachoeira foi transformado em esgoto público regional e tornou-se inadequado ao uso recreativo. A retirada de areias no leito do rio e nas suas barrancas, associadas aos desmatamento da floresta atlântica, contribuíram para a extinção dos areais e principalmente das praias de Banco da Vitória.

Quando o século XX se findou já não havia mais praias no Rio Cachoeira, nas imediações de Banco da Vitória. Onde antes centenas de pessoas se divertiam nos finais de semanas agora jazem fatídicos lamaçais e escrupulosos depósitos de lixos.

As praias de Banco da Vitória só existem agora nas memórias de poucos saudosos moradores do morno bairro ilheense. Quem nunca viu as praias de Banco da Vitória, por certo desacredita que um dia elas realmente existiram. Quem teve o prazer de desfrutá-las agora tem apenas grandes saudades.

25 – A Zarolha de Banco da Vitória

Chamava-se Zumira, mas era conhecida como Mira Zarolha. Nascida com estrabismo convergente, a sua esotropia era severa. Por conta disso os dois olhos convergiam para o centro do rosto e as íris se alojavam quase junto ao nariz. Pessoa melhor não tinha em Banco da Vitória. Mira Zarolha era sorridente, brincalhona, trabalhadeira, prestativa, conversadeira e altamente religiosa. Devota de Santa Luzia, não perdia uma missa aos domingos.

Onde Mira Zarolha estava, todo mundo sabia pela sua conversa longa, voz fina e alta e sorrisos nos finais das frases. Mulher pequenina, porém, de requintadas curvas corporais. Pés de criança, pernas torneadas, bunda vantajosa, ancas largas, seios volumosos. Corpo de sereia, em dimensões pequenas. Edra uma morena jambo, cabelos pretos feito a noite, rosto brilhoso, sorriso alvo, boca diminuta, olhos da cor de mel. Estes, porém, vesgos.

Quando criança Mira Zarolha sofrera muito com os apelidos maldosos e as brincadeiras preconceituosas. Depois que se tornou mulher e viu seu corpo florescer de uma beleza sem igual, não ligava muito para as alcunhas. Viveu sua vida como pôde. Foi feliz do seu modo.

Mira desde cedo soube lidar com o sexo e o amor. Sexo só fazia no escuro, bem escuro. Ali, era dominadora.

A vida de Mira Zarolha mudou completamente no dia que Zé Lista Preta, um roceiro das bandas da Mata da Rinha, que vendia frutas na feira da Avenida Dois de Julho, em Ilhéus, tomou umas cachaças a mais nos bares do cais ilheense e comentou que em Banco da Vitória tinha uma caolha completa, mulher totalmente vesga, oblíqua. Tirando os desvios dos olhos, era uma mulher lindíssima. Comentou.

O trapicheiro Augusto Camarão, ao ouvir a tal fala, pagou muitas cachaças para o roceiro e no dia seguinte ele estava no antigo povoado Ilheense. Augusto era apaixonado por mulheres vesgas. Todos sabiam.

Dizem as más línguas locais que o galego avermelhado, sapecado pelo sol de Ilhéus e curtido pela maresia atlântica, com quase seus 110 quilos de peso, ao ver Mira Zarolha se apaixonou loucamente. Ela solteira e rejeitada. Ele louco por mulheres estrábicas, formaram a soma completa e exata daquela matemática amorosa. Em poucos dias estavam namorando. Ela mais ainda sorridente e faladeira, ele se entrosando na sociedade local. Eram felizes.

Augusto Camarão era homem de longos mares, frequentador de portos distantes e falava alguns idiomas. Na verdade falava algumas frases estrangeiras, mas isso já o capacitava como intérprete para os marinheiros e comerciantes do porto de Ilhéus. Na verdade, Augusto era um dos maiores contrabandista daquele porto. Vivia muito bem por conta dessa suas contravenções.

Terreno comprado em Banco da Vitória, – como a noiva queria. Construção concluída em poucos meses, o casamento ocorreu antes das festas de Ano Novo. O festejo durou três dias e quem nunca tinha bebido whiskys importados e vodcas russas pôde embebedar e vomitar e depois embebedar de novo. A festa foi longa e famosa.

Se o namoro já era uma festa, o casamento tornou-se uma celebração diária. Nunca, em Banco da Vitória se viu um casal tão feliz.

Um dia Lindor Nunes, perguntou ao seu freguês Zé Lista Preta o que aquele casal tinha de especial para ser tão feliz. Zé Lista Preta pediu mais uma dose da cana Bituri e confessor para o velho amigo:

– Augusto Camarão, meu amigo, disse-me que Mira Zarolha quando está dando uma e vai gozar os olhos dela se endireitam e ficam alinhados. Certinhos, certinhos, como se não tivesse problema nenhum. Ela esbugalha os olhos, olha para ele, sorri e depois desmaia. Deve ser isso. O galego é tarado por mulher zarolha que alinha os olhos quando goza. Concluiu.

Mas a felicidade do casal não vinha só dessa distração sexual. Havia outras coisas e coisinhas mais. Mira Zarolha, que vivia cheia de coisas importadas e caras, um dia recebeu de presente do marido estivador uma revista holandesa que demonstrava mais de 100 posições sexuais. Depois de repetidas leituras da revista ela começou a praticar as formas descritas no folhetim importado.

Um dia fazia com o marido o Zignow Truss jamaicano. Outro dia era a posição Soft Loaf inglês. No outro dia era thread verrouillé francês. O fa schifo fa schifo italiano e até o Stabbrecher alemão eram usados nos finais de semanas. Dessa forma, não havia rotina sexual naquela casa. A revista holandesa vivia postada sobre a cama do casal.

Uma madrugada de outono, ouviu-se um grande grito na casa de Mira Zarolha e Augusto Camarão. Logo se ouviram loucos gemidos. Dona Ataíde, foi socorrer a vizinha e ficou chocada com o que viu. Augusto Camarão, vermelho, nervoso e suado, tentava puxar as pernas da mulher que gemia de dor. Mira Zarolha estava deitada e choramingava. Suas pernas estavam cobrindo as suas orelhas, quase dando um laço por trás da cabeça. A vulva pequenina estava inchada e roxa. As coxas coladas ao corpo, na altura da barriga, fazia dela um pedaço de carne soada entre os braços e as pernas, agora paralisadas sobre os auspícios das dores. Ao seu lado, a revista holandesa mostrava a posição 36. A página era a 17.

Após tentar desmontar a estripulia sexual do corpo de Mira, Dona Ataíde desistiu e diagnosticou: – Travou o espinhaço e o nervo ciático. Aí só com o médico em Ilhéus, para destravar. Isso, depois das injeções para conter a dor.

Seu Zé Lavine foi acordado no meio da noite para prestar o socorro e Augusto Camarão, trouxe sua mulher enrolada em um lençol branco, como uma sardinha envolta num guardanapo. Levaram-na para o hospital onde ela ficou por cinco dias internada. Com vergonha do acontecido o casal se mudou definitivamente para o bairro do Malhado.

Em Banco da Vitória a história das estripulias sexuais do casal caiu na boca do povo. A posição sexual que Mira Zarolha travou a coluna e o nervo ciático receberá o nome de Nó Estrábico.

– Nó Estrábico realmente é muito perigoso, para quem não sabe fazer o bem-bolado do amor. – Disse Cabo Jonas. E alongou a fala: – uma vez fiz um True Gecko com uma preta lá no Pontal que a mulher passou dezenove dia mijando sem parar. Era beber água e a preta corria para o sanitário.  A perseguida estava com saudade de Joninhas. Ai preta ia derramava o líquido xoxotal. O True Cecko, que quer dizer Mata Lagartixa, em francês, é muito mais perigoso do que o nó estrábico de Augusto Camarão. Eu que sou especialista no assunto não gosto do nó estrábico. Prefiro a Espingarda Velha. Que é dar um vigoroso peido depois da trepada. Nisso é que sou bom. Faço todos os dias. Concluiu sorridente.

Dizem as más línguas que Mira Zarolha queimou a maldita revista quando se mudou do Banco da Vitória. No novo endereço, ela deu preferência a posição sexual papai e mamãe. Assim ela hipnotizava seu amado Augusto Camarão com seus olhos zarolhos e ele a fazia feliz.

Nó Estrábico, – pensava Mira Zarolha – nunca mais. Nem em Banco da Vitória, nem no Malhado, nem nos quintos infernos. Eu não sou louva-deus para dar nó nas pernas enquanto fode. Meditava em silêncio.

24 – Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Contou-me essa história pouco antes de morrer. Fez isso, acredito, como intuito que eu desse letras a sua voz. Acreditou que eu pudesse dar posteridade as suas façanhas amorosas. Relatou tudo, do início ao fim, como quem descreve uma saga pessoal ou outra forma de heroísmo.

Naquela tarde de sábado, ele contou-me a sua maior conquista amorosa e como ele próprio sugeriu, se um dia eu escrevesse este texto, devia chamar-lhe Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Como prometi para o saudoso amigo, transcrevo aqui a história de Aderval Monteiro e sua amante Dona Ana da Conceição.

Segundo o personagem principal dessas linhas, tudo começou com um olhar e um sorriso. Um olhar dele e um sorriso dela. Aderbal era funcionário público e trabalhava na coletoria de impostos do Governo da Bahia, em Banco da Vitória. Ana da Conceição era esposa do Odilon Coutinho, comprador de cacau da firma Lord & Charmann, também instalada neste distrito Ilheense.

Havia pouco tempo da vinda de Odilon e sua família para o Banco da Vitória e em poucos dias eles tornaram-se amigos de bebedeiras e pescarias no Rio Cachoeira. Aderbal era um negro solteiro e já vivido, na casa dos quarenta anos, jamais se casou e tinha fama de namorador e bom de bola. Já Odilon era um homem branco, já beirando as sessenta primaveras, dedicado ao trabalho, mas aos finais de semanas, gostava de beber até cair. Normalmente ele era levado bêbado para sua casa, onde a esposa e a filha única o recebiam em silêncio. Era um bom marido.

Foi numa dessas bebedeira de Odilon que Aderval levou o amigo bêbado para casa. Lá chegando encontrou sua esposa lavando o quintal. A filha estava na casa de uma amiga. Dona Ana da Conceição pediu que Aderval colocasse o marido numa rede estendida no quintal. Aderval arrastou o amigo até o fundo da casa e o acomodou na rede. Dona Ana da Conceição, com as roupas do corpo ainda molhadas ajudou ajeitar o marido. Foi neste instante que Aderval percebeu que os seios da esposa do seu amigo estavam quase a amostra, por trás da roupa fina, que molhada, ficara quase transparente.

Que formosura de seios. Pensou, mas não disse. Se disse, foi só com seus olhar.

Dona Ana da Conceição percebeu o olhar invasivo do homem ao seu lado e respondeu apenas com um sorriso. Quer toca-lo. Ela pensou em pergunta-lo, mas não disse. Se disse, foi só com o sorriso. Ficaram nisso.

Aderval, quase hipnotizado com os volumes e robustez daqueles belos seios e a cor amorenada das auréolas arrebitadas, quase babou pelo canto da boca. Se conteve como quem segura um soluço.

Sem ter o que falar, falou o que primeiro veio a boa úmida e disse:

– Deus sabe o que faz. Divagou.

– Concordo. Respondeu a mulher do bêbado dorminhoco, alisando os cabelos negros e molhados.

– E como sabe. Arrematou a conversa o funcionário público e disse:

O homem está entregue. Deixe-me ir.

– Muito obrigado, seu Aderval. Disse a mulher, inflando o tórax e realçando ainda mais o volume dos seus seios molhados. E concluir: fazer o quê? Ele prefere a cachaça a mim.

– Deve ser louco. Disse Aderval, já na passagem pela sala, rumo a porta de saída para a rua. Deve ser louco mesmo. Concluiu e saiu da casa se olhar para trás. Nos seus pensamentos, martelavam todos os tipos de pecados.

Naquele resto de dia e durante vários dias e várias noites a imagem dos belos seios de dona Ana da Conceição não saíram da cabeça de Aderval. Para ser sincero, ele conseguia relembrar todos os detalhes daqueles seios mais do que do rosto de sua dona. Os seios de Dona Ana da Conceição eram verdadeiramente formosos, majestosos e opíparos. Nunca vira nada igual em toda sua vida.

Assim os descreveu: os seios dela são firmes e duros, como se nunca tivesse dado de mamar para as crianças; são morenos claros feito o bronze africano e as auréolas são escuras, firmes e pontiagudas feito os canos das lanças militares. Precisaria de duas mãos para cobrir cada seio. Mesmo assim, sobrariam ainda músculos próximos aos dedos mindinhos. Se fosse lambê-los, chupá-los e suga-los prazerosamente precisaria de no mínimo vinte e sete minutos de passeios de língua e por certo terminaria com dores no queixo. Acariciá-lo já seria um verdadeira oração a vida. Vê-los nus já seria um espetáculo. Concluiu.

Os dias se passaram e dona Ana Da Conceição, toda vez que encontrava como Aderval, sorria para ele e arrumava o calorento sutiã. Essa era a senha secreta entre eles dois.

Aderval, por respeito ao amigo, tentou tirar aquela tentação da cabeça e até chegou a evitar encontros com o amigo e sua esposa por perto. Agindo assim, acreditava estava se livrando daquele pecado.

Porém, o destino tece o seu próprio bordado e por conta dos pontos sem nós, Odilon Coutinho veio a adoecer, foi acamado e de lá jamais saiu vivo. Acometido por um severo derrame cerebral, o comprador de cacau perdeu o movimento do corpo, deixou de falar e mal-mente gesticulava com uma das mãos. Padeceu tristemente.

A filha e a esposa cuidaram do homem doente. Nos primeiros dias da doença a casa estava cheia de amigos e vizinhos. Contudo, com o passar dos dias, este sumiram e aqueles rarearam. Apenas Aderval continuou visitando o seu amigo todos os dias. Durante a semana, todos os dias, após o expediente na coletoria, ele ia visitar o amigo, contar-lhe alguma novidade do mundo do cacau ou então levar algumas frutas que recebia no seu trabalho. As sábados, Aderval ia as tardes e ficava conversando com o seu amigo doente. Aos domingos, ante de ir a missa, passava na casa do doente e tecia algum comentário incentivador com homem postado na cama.

Naquele tempo, o belo sorriso de dona Ana da Conceição perdeu a luz e olhar de Aderval evitava focar em seus lindos e volumosos seios.

Um dia, o tempo deu um nó final na rede dos dias de Odilon e este faleceu numa friorenta manhã de quarta-feira. Dona Ana da Conceição se tornara viúva. E não tinha ainda trinta e sete anos de idade.

Após o enterro do amigo, Aderval foi até a casa de dona Ana da Conceição, se despediu da viúva e de sua filha e disse que não retornaria mais lá. Não tinha mais o que fazer ali. Argumentou. Ana da Conceição entendeu a situação e vestiu-se de luto por um ano inteiro. No Natal do ano seguinte, ela abandonou as vértices pretas e como que recupera a formosura, voltou a usar seus vestidos floridos e provocantemente decotados. Tornou-se a viúva mais desejada de Banco da Vitória e invejada pelas demais mulheres casadas.

Um dia, domingo de feira, ela encontrou com Aderval e disse que queria vê-lo na sua casa naquela tarde. Ele concordou e disse que não perderia aquele encontro por nada deste mundo

A tarde de domingo ia pela metade, a rua quase deserta, quando Aderval bateu a porta da casa de dona Ana da Conceição. Nas mãos uma sacola cheia de frutas. Ela abriu a porta como quem recebe uma brisa fresca do rosto e sorriu para ele e questionou:

– Quanto tempo, em? Não sentiu saudades minhas?

– Saudade é um prato que se como em silêncio. Respondeu Aderval, sentindo o perfume daquele fêmea magistral.

– Helena, onde está. Perguntou pela filha do amigo?

– Na casa da tia. Está no Pontal, por certo, numa hora dessa passeia na beira da praia de mãos dados com o noivo. Só vem terça-feira. Entre homem. Vamos para o nosso quintal.

Ele atendeu, deu-lhe a sacola com as frutas e ela então disse:

– Toma um cana pura ou uma cerveja?

– Os dois. Disse Aderval, se dirigindo para o fundo da casa. – Vou pegar. Disse a mulher. 

Sentado numa cadeira junto a um pequena mesa, ela o serviu e disse tenho algo para te mostrar. Achou que o senhor vai gostar.

Ele sorriu como resposta de sim.

No quintal tinha um formosa goiabeira. Perto da árvore um tangue cheio de água morna. Dona Ana da Conceição tirou as sandálias, soltou os cabelos e foi até o tanque e começou a se banhar. Então questionou o homem que não acreditava no que via.

– E ái seu Aderval, conte-me as novidades?

– Deus continua justo e cumpridor das suas promessas. E por certo ouve minhas preces. Respondeu.

Ela sorriu fartamente e jogou mais um balde água sobre o corpo.

O vestido fino quase desapareceu e as formas avantajadas do seu corpo moreno resplandeceram como quem recebe um facho de luz. Aderval tocou a dose de cachaça em um gole só e depois bebericou a cerveja. Teve vontade de sorriu, mas não fez isso. Preferiu apenas olhar aquela cena, que por mais sonhada ou imaginada por ele, era muito mais bela e fascinante.

Dona Ana da Conceição continuou conversado enquanto prazerosamente se banhava. Quando por fim, terminou de banhar-se ela disse:

-POr favor, seu Aderval, pega essa toalha aí para mim.

Ele levantou e foi até a rede onde a toalha estava pendura e quando virou, a mulher mais bonita que vira em toda sua vida estava completamente nua a sua frente. Sorrindo ela disse: me enxuga, homem. Não sabe enxugar uma mulher não?

Aderval sorriu e disse:

– Faz tempo que não faço isso, mas sou bom aluno.

– Quero ver se aprendeu bem? Respondeu ela sorrindo e indo até sua direção.

– Enxuga minhas costas. Ordenou. Depois minha bunda e pernas. Deixa meus seios por último.

Não era só os seios de dona Ana da Conceição que eram formosos, majestosos e Opíparos. Ela era totalmente bela e atraente. A cor morena se estendia dos calcanhares atém o crânio. As costas eram largas, a bunda avolumada e firme. As pernas, como se torneadas em madeira de lei, seguravam o corpo de mais de sessenta quilos, os pés eram finos e delicados, a barriga rígida. Os braços eram suaves e calmos e os seios… Ah, os seios. Estes eram fartos, duros e hipnotizantes, fatais para um home de coração fraco.

Só mais belo que aquele seios. Confidenciou-me. Somente o sorriso daquela mulher, naquele rosto moreno, molhado e ávido por beijos e mais beijos.

Após enxugar o corpo daquele fêmea sem igual, Dona Ana da Conceição pegou as duas mãos de Aderval e as colocou sobre seus seios e disse: ver se consegue sentir meu coração.

Ele sorriu. Nada disse. Estava realizado. Já podia morreu. Pensou.

Por certo. Ele sentia o seu próprio coração querer sair pelos punhos.

Dona Ana da Conceição o beijou prazerosamente e ele sentiu o seu cabelo molhado molhar sua camisa domingueira.

Ela puxou ele pelo braço e levou-o para seu quanto.

Sem falar uma única palavra. Se amaram feitos loucos adolescentes e só não foram felizes para sempre porque na manhã da quarta-feira seguinte um caminhão encostou em frente à casa de Dona Ana da Conceição e levou toda a mudança. Dona Ana da Conceição se mudara definitivamente de Banco da Vitória. Foi mora em Vila Velha, no Espirito Santo, onde tinha parentes e jamais voltara ao Banco da Vitória. Para Aderval, nem deu adeus.

Aderval olhou para mim e disse:

– Às vezes eu acho que nada disso aconteceu de verdade comigo, meu amigo Roberto. Acho que foi apenas um sonho louco. Uma louca ilusão minha. Aí, quando eu lembro da minha boca naqueles belos e divinos seios, das minhas mãos naquele corpo, dos aís dela no meu ouvido. Sorriu de prazer e agradeço a Deus por ter levado meus anos, mas não ter apagado minhas memórias. Graças a Ele, isso me sobrou.

E concluiu:

– Na verdade os seios de dona Ana da Conceição não são tão formosos, ajestosos e opíparos. Eles são divinos, encantadores e magnéticos.  Loucamente Magnéticos! – isso mesmo – são magnéticos atraem olhares e irradiam tentações.

Aderval, então me olhou seriamente. Bebericou mais um gole de cerveja e disse:

– Se os seios de dona Ana da Conceição eram assim tão belos e encantadores, imagine sua vulva. Sorriu prazerosamente e concluiu:

– Aquela vulva, que mais coisa linda, gostosa e embriagante. Dei-lhe tantos beijos que até agora deve estar ainda tonta. Nem nos melhores dicionários do mais requintado idioma Latim existem os melhores adjetivos para descrevê-la.

 – Aquilo não era uma vulva, uma xoxota qualquer, uma boceta carnuda. Era uma taça de vinho morno bebida numa madrugada de inverno.

– Você já bebeu vinho morno, meu filho? Perguntou-me.

Eu respondi que não.

– Só perde em sabor para a xoxota de Dona Ana da Conceição. Tenha certeza e acredite no que digo.

– E se eu te falar que a minha amada é especialista em boquete, você acredita?

Sorri como resposta de sim.

– Ele me pegou de jeito e com sua língua morna banhou-me de beijos e mais beijos. Só não sugou a minha alma pois não chupou meu crânio. O resto, valha-me Deus. Conclui Aderval sorrindo.

Foi a última vez que eu conversei como o meu amigo Aderval. Até hoje tenho saudade dos belos seios de Dona Ana da Conceição. Mesmo, sem jamais tê-los vistos.

Que Deus o tenha, Aderval.