Não se fazem mais cachaceiros como antigamente – #2

Por Roberto Carlos Rodrigues

Com todo o respeito aos biriteiros, cachaceiros e cervejeiros da atualidade, posso afirmar que muitos desses alisadores de berços de copos americanos, nem se comparam aos bebedores de antigamente.

Em Banco da Vitória, há uns trinta e poucos anos, havia sim um respeitado grupo de comedores de água que passarinho não bebe. Havia uns cabras de coragem do cão. Negos que bebiam de um só gole um litro de destilada e depois nem cuspia no chão. Gente que bebia cachaça com cobras em infusão. Cachaceiros profissionais.

Jaracuçu, cobra-coral verdadeira, jararaca, cascavel, surucucu pico-de-jaca e cobra-cipó eram encontradas em infusões alcoólicas em todas as bodegas da nossa comunidade.

Havia também infusões de escorpiões, aranhas caranguejeiras, lacrais, centopeias e marimbondos.

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O Bebê e o Garçom.

LIVRO: NÓDOAS ESCARLATES DO CACAU – ROBERTO CARLOS RODRIGUES
Prólogo escrito por Geraldo Silveira Goulart para o meu livro inédito Nódoas Escarlates  do Cacau.

Por Geraldo Silveira Goulart

No final da década de setenta do século passado fui morar no Rio de Janeiro, na Guanabara. Um choque cultural. Tudo lindo, tudo imponente, tudo diferente, moderno, brilhante. Como bom tabaréu de Ilhéus e me sentia maravilhado. Bairros diferentes e do tamanho de minha cidade, uns mais populares, outros mais chiques. Copacabana, Ipanema, Leblon… Cada um mais chique que outro. Leblon era… digamos… a Monte Carlo brasileira.

Um domingo meu irmão me falou que nós iríamos almoçar na casa de um amigo dele. – Coloque sua melhor roupa, sentenciou. Depois de uma checagem no meu visual e uma série de instruções comportamentais, nos dirigimos ao Leblon. O amigo morava na Delfim Moreira, apartamento de esquina, de cara para a praia. Muito, muito chique.

Chegamos, subimos e entramos em um apartamento imenso, lindo, palaciano. O amigo era amigo antigo, de Ilhéus. O apartamento era fruto da riqueza do cacau. Eu fiquei olhando, meio embasbacado, a sala imensa, piso de tábua corrida, sinteco que parecia um espelho, móveis de grife salpicados aqui e acolá. O lavabo era todo brilhante, espelhado, toalhas felpudas, sabonetes coloridos, papel perfumado. Quase não consegui verter minha urina plebeia naquele nobre vaso. Enquanto estava na sala, olhando a linda vista da praia do Leblon, um bebê engatinhava pela sala. – Quem é, perguntei. Era o filho do amigo de meu irmão, um neto das árvores dos frutos de ouro. Fiquei olhando, e brincando com a sortuda criança eu ia à praia no Leblon, passeava em carro importado e tinha duas babás. Guardaria na memória aquele domingo, aquele apartamento, aquele bebê.

O tempo passou, estudei, casei, trabalhei, fui morar nos Estados Unidos.

Quase duas décadas depois eu estava de volta ao Brasil, de volta a Ilhéus. Mudando de vida, mudando de ares, o bom filho a casa retornava.

A região estava em pânico e quase falida. A famigerada vassoura-de-bruxa havia chegado á região cacaueira dizimando fazendas e fortunas indiscriminadamente. Cidades definhavam, empregos desapareciam, uma legião de esfomeados se deslocava para Ilhéus e Itabuna. CRISE, na mais vil de suas definições.

Apesar disso o turismo ainda atraia gente, e outra novela da Globo havia novamente posto a cidade em destaque nacional. Abri uma pequena pousada e comecei vida nova.

Um dia meu irmão me chamou para comer uma pizza. Uma pizzaria havia inaugurado e ele havia provado e aprovado. Fomos então comer a pizza e conversar sobre a onipresente crise. Um jovem garçom muito educado nos atendia. Rápido, cortês e prestativo era o oposto dos garçons normalmente encontrados na cidade. Após servir a pizza ele perguntou a meu irmão se queria mais alguma coisa: – Mais alguma coisa, tio? Tio? TIO? Estranhando, perguntei a meu irmão. Ele olhou para mim e perguntou se eu não reconhecia o garçom. Neguei. Então ele explicou quem era.

Era ele, o bebê que eu vira engatinhar, quase duas décadas antes, naquele fantástico apartamento de frente para a praia do Leblon, Monte Carlo brasileira.

Julho 2017

Descanse em paz meu amigo Geraldo.

GERALDODDDD.jpgTriste, recebo a notícia do falecimento do meu amigo Geraldo Silveira Goulart, biomédico do Médico Center. Conheci Geraldo na década de noventa e juntos implantamos um escritório de consultoria em uma sala em cima da Biboka, no centro de Ilhéus. Juntos atuamos por vários anos em dezenas de empresas do sul da Bahia.

Geraldo era um intelectual apurado e de alto senso crítico. Dormia, acordava e vivia sobre livros de diversas áreas do conhecimento humano. Sua inteligência, acima da média, dava-lhe facilidade de discorrer com autoridade sobre diversos assuntos e temas.

Era também um exímio cozinheiro e um defensor ferrenho dos animais. Adorava cães gatos.

Hoje se cumpre uma das suas profecias: Geraldo jamais ia a velórios ou sepultamentos. Costumava dizer que não iria nem para o seu próprio enterro. Tinha razão. Será dignamente sepultado por seus familiares.

De perdas em perdas, a nossa Ilhéus vai perdendo, ao poucos, o brilho da verdadeira intelectualidade.

Geraldo Goulart faleceu no hospital Costa do Cacau, onde tratava de problemas causados pela diabetes.

Descanse em paz meu amigo Geraldo. Siga a luz.

Por Roberto Carlos Rodrigues

Livro escrito por Geraldo Silveira Goulart

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CAPA DICIONÁRIO BAVIConheça as expressões e palavreados dos antigos moradores do bairro ilheense de Banco da Vitória. Saiba como esse povo plantador de cacau no Sul da Bahia usava um linguajar próprio para se comunicar e principalmente se divertir. Conheça o Antigo Dicionário de Banco da Vitória e descubra que atualmente muita gente não sabe quase nada desse “idioma” perdido no tempo. 

Você sabe o significam os termos: Arrelia, Bacural, Beirar o Beco, Banda-voou, Cair no Bolo, Colada, Cubar, Deforete, Eito, Insangado, Rede rasgada, Oliotria, Furada, Correr Sete Frequências e Macacoa, por exemplo? 

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Esse nosso “dicionário” está mais para “O pai dos burros cegos”, como se dizia antigamente, do que para um propriamente léxico. Portanto, a leitura deste livreto se propõe exclusivamente a diversão e não aos ensinamentos.

Por certo, a leitura deste livreto não vai fazer de você um “Ovo de duas gemas”, mas pode ser que você se torne um “Galalau” na curiosidade do saber.

Tenha boa leitura,

Roberto Carlos Rodrigues.

 

 

Pequena Crônica Ilheense

Por Roberto Carlos Rodrigues

CACAUEm Ilhéus, no século passado, abaixo de Deus, o cacau reinava e comandava. Nem Satanás ousava aparecer por aquelas bandas. O chocolate, com seu gosto adocicado era apenas uma mistura de suor com vaidades e mais umas gotinhas de ilusões. Bebida dos deuses, colchões dos coronéis. Incentivador de sonhos de todos os quilates. O povo marrom dos berços carnudos vivia sorrindo, como quem vive em num sonho sem fim que se sonha acordado. Tudo era belo, possível e ao alcance dos dedos. Uns eram ricos de fato. Outros, de conversas. Quem nascia em Ilhéus era, de alguma forma aparentado com os frutos de ouro. Uns eram filhos, outros irmãos, tios, netos, primos, avós. Apenas o trabalhador rural era vizinho distante. Muito distante. Riqueza por todos os cantos. Progresso pelos ares. Mansões, castelos, talheres de prata todos os dias nos almoços e nas jantas. Na cidade, fábricas e grandes lojas por todas as ruas. Empregos e oportunidades por todos os ares. Um dia, uma bruxa apareceu por aquelas plagas. A velha desgraçada, montada na sua vassoura feita de galhos secos de cacaueiros, açoitou os ares daquele lugar por toda a noite e disseminou sua peste pelos quatro cantos do território da antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus. O cacau quase morreu. Definhou nos galhos. Apodreceu no chão. Nem semente teve para manter a linhagem. Quase sumiu. O povo do lugar, sofreu mais que as roças de cacau queimadas pela peste da vassoura de bruxa. Uns morreram de desgostos, outros de raiva. Os mais fracos se mataram, os mais fortes fugiram. Ilhéus, a antiga princesinha do sul da Bahia, se contentou com posto de dona de pousada e agora vive de suas velhas lembranças e dos seus belos horizontes. O cacau que antes era quase um deus para aquele povo, agora é apenas um macumbeiro sonhador que dizem que anda fazendo milagres por aquelas bandas. De ebós e mandingas, de rezas e patuás, há quem diga que em algumas roças, um novo cacau cresce e floresce, viçoso e cheiroso, iguais seus tataravôs no início do século passado. Há quem não acredite nisso e diz que os novos frutos dos cacaueiros são adubados com novos suores, novos rostos. Só isso. Em Ilhéus, no início deste século, abaixo de Deus, o cacau não reina nem comanda. Mas ainda faz muita gente sonhar. Principalmente, os que não são filhos desta terra.

Livro grátis – Cabo Jonas – A lenda Vive.

CABO 2

A lenda de Banco da Vitória e Pontal, Cabo Jonas agora tem suas estórias e causos descritos em forma de livreto. Leia, divulgue e divirta-se. Mais uma produção da Editora Samburá Cultural –

Salve Eliodoro!

paperbackstack_511x457 (1)Por Roberto Carlos Rodrigues

Quem não tem o que fazer, normalmente inventa confusão. Foi exatamente o que aconteceu naquela tarde agostina em Banco da Vitória. Duas horas da tarde, no céu um sol adoentado nem secava nem ardia. Apenas brilhava opaco. Das beiradas do rio Cachoeira vinha um vento frio e preguiçoso. Sem soprar, nada varia. Apenas esfriava as juntas dos velhos adoentados. Debaixo do sol estava gostoso ficar. Algo morno por ali. Nas sombras das árvores, um frio traiçoeiro e rasante. Foi exatamente neste ambiente insosso que a confusão começou.

Em frente a venda A Visqueira apenas três desocupados se fingiam de fregueses. Eram Cabo Jonas, Tonho Silibrina e Gazula. Um ônibus da Sulba parou na beira da rodagem. Dele desceram Seu Onofre, Dona Adélia, (sua esposa) e Zito Costureiro. Vinham de Itabuna. Os três, como se morassem no mesmo teto, cruzaram a Rua dos Artistas ao mesmo tempo. Quando seu Onofre passou bem em frente à Visgueira, Tonho Silibrina saudou o senhor:

– Boa tarde seu Onofre. Como vai Eliodoro? Boa tarde Zito. Tudo bem?

Seu Onofre fez que não ouviu e não respondeu nem a saudação nem a indagação. Dona Adélia, fez cara feia, fungou e disse algo para o marido. Ambos continuaram andando, sem olhar para os clientes da Visgueira. Zito respondeu uma boa tarde em murmúrios.

 

Zezinho Sem Cotovelos

Por Roberto Carlos Rodrigues.

DOR 56Só Deus sabe o destino que levou Zezinho Sem Cotovelos. Há quem diga que ele mora no bairro de Monte Cristo, na vizinha cidade de Itabuna, onde é pequeno comerciante. Outros dizem que ele voltou para Santa Brígida, sua terra natal, no tórrido sertão baiano, já quase na divisa do estado de Pernambuco, onde continua trabalhando com gado. Uma coisa é certa: de Banco da Vitória Zezinho sumiu para sempre.

Zezinho sem Cotovelos era freguês vezeiros dos bares de Banco da Vitória. Ali tinha diversos amigos, dois ou três admiradores e um renca de desafetos. Zeferino Francisco do Santos era vagueiro de uma fazenda do outro lado do rio, nas bandas da Vila Cachoeira. Ele era um homem pequeno, branquelo, do rosto fino e cabelos escorridos. Os olhos eram miúdos, pareciam com olhos de pássaros. O bigode fino cobria-lhe os lábios avermelhados e ressecados. O sorriso era amarelado, herança dos anos e mais anos do cigarro na boca. Vestia-se sempre com indumentárias de vaqueiro. Na cinta trazia sempre um facão amolado. Na bota de couro, escondia o punhal com cabo de osso. Nas costas, cruzava-se o rifle de repetição e no bornal, escondido debaixo dos panos, o revolver trinta e oito e mais um punhado de balas. Zezinho sempre andava no lombo de uma mula marrom e arruaceira. Gostava de galopar.

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Macarrão ao Molho de Azeite de Dendê

Por Roberto Carlos Rodrigues

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Quando você ouvir alguém falar que já viu de tudo neste mundo, pergunte se ela já viu (e comeu) macarrão ao molho de azeite de dendê. Provavelmente, se essa pessoa não for de Banco da Vitória, ele nunca viu essa nobre iguaria e não sabe o que está perdendo.

Comenta-se pelas cozinhas do mundo a fora que a origem do macarrão é disputada por chineses, italianos e árabes. Segundo alguns queimadores de panelas, foi Marco Pólo, aventureiro italiano do século 13, que teria trazido o macarrão da China para a Itália. No Brasil, o macarrão foi trazido pelos imigrantes italianos no final do século dezenove só e se popularizou entre nossa gente nos anos setenta do século passado. Quando então “ a pasta’ deixou de ser comida de italianos e se tornou coadjuvante da boia de muitos brasileiros.

Já o azeite de dendê, outro ingrediente do nosso prato peculiar, tem origem no oeste da África e foi introduzido no período do Brasil Colônia pelos escravistas portugueses e até hoje faz parte da comida do nordestino, principalmente dos baianos.

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São João em Banco da Vitória – #1

forro-do-pedroPor Roberto Carlos Rodrigues

A casa era pequena. Na frente, uma porta e uma janela pintadas de azul. Ambas abertas. No meio do terreiro, a grande fogueira ardia por toda noite. Bombas explodindo nos cantos do terreiro, pistolões explodindo no céu. Este, todo estrelado. No braseiro, milho assado, costela de porco e pertinho dele, o aromático caldeirão cheio de quentão, tampado para não deixar exalar os cheiros das ervas daquele lugar. Na banqueta encostada ao vão da casa, a mesa sortida de diversos licores. O rei jenipapo adoçando os berços das moças, acompanhado dos sabores das garrafas de carambola, groselha, cacau, cravo, pitanga e lúdico licor de creme de leite. Junto ao pé da mesa, um garrafão verdecido, ainda pelo meio, da legitima aguardente Santa Clara. Bebidas para os cabras da peste que não gostavam de bebidas doces.

Amendoins assados e cozidos, pamonhas, mingaus de milho, bolo de tapioca, bolo de puba, lelê, leitão assado, paca cozida, galinha assada, piru cozido, caldeirão de sarapatel. A mesa estava florida das iguarias do lugar. As bocas, todas satisfeitas.

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