A História da Antiga Ruinha de Banco da Vitória

A História da Antiga Ruinha de Banco da Vitória
Por Roberto Carlos Rodrigues
A antiga Ruinha de Banco da Vitória têm duas singularidades: É uma das ruas mais antigas da localidade e a mais extensa.
Inicialmente, nos anos oitocentistas, a extensão deste logradouro se iniciava na bifurcação da Estrada da Sesmaria Victória e a subida da Ladeira do Descansa Caixão (a atual Estrada da Bela Vista), onde existia um pequeno curral (atual sitio Ariston Cardoso) e percorria os sopés dos montes Santa Clara e Bela vista, até o atual ginásio de esportes construído no local onde existia o antigo matadouro municipal de Ilhéus.
Da bifurcação da Ladeira do Descansa Caixão até o antigo matadouro municipal essa extensão se chamava Estrada da Boiada e servia de caminho para transporte de gado que era trazido do Norte de Minas Gerais para a cidade de Ilhéus e dali transportados em navios para Salvador (BA).
 
Vale salientar que a antiga da Trilha do Banco, que se iniciava em Banco da Vitória e ia até a Vila de Cachoeira de Itabuna, (beirando o Rio Cachoeira), se bifurcava nas imediações da antiga Fazenda Pereira Ventin, onde o gado trazido de Minas era confinado nos pastos da fazenda Victória.
 
Na metade do século XX a Estrada da Boiada mudou de nome. Passou se chamar Ruinha. Esse nome foi dado por conta da quantidade de casas de prostituição que tinha no seu percurso. Principalmente na parte final da rua (próximo ao atual Posto Médico).
 
Na década de oitenta do século passado a Ruinha recebeu o nome oficial de logradouro. Passou a se chamar Rua Oito de Dezembro, em homenagem a data da comemoração da festa da padroeira de Banco da Vitória, Nossa Senhora da Conceição.
 
No dia 28 de maio de 2006 o clube ilheense Colo Colo de Futebol e Regatas se sagrou campeão do campeonato baiano de futebol. Um dos filhos mais ilustres de Banco da Vitória, Gil de Demy se destacou neste campeonato e foi decisivo para o título do torneiro, onde por sinal, na final da decisão contra o Vitória, em Salvador (BA) marcou dois gols.
 
Em homenagem ao nosso campeão baiano de futebol, no ano de 2006, o então prefeito de Ilhéus Valderico Reis sancionou Lei 3.252 de 25/08/2006 que altera o nome da Rua Oito de Dezembro para Rua Givanildo Amorim da Silva. Este logradouro tem o número do CEP 45661-444. Essa rua inicia-se na bifurcação da Rua São João e se estende até a atual Rua Nafital de Souza (Rua do Posto Médico).
 
Givanildo Amorim da Silva é atleta futebolista, nasceu em Banco da Vitória em 03 de Setembro de 1976 e atuou nos seguintes clubes de futebol: Catuense, Colo Colo, Atlético (BA), Vitória da Conquista, Jequié e Itabuna. Atualmente o atleta mora em Alagoinha (BA).
 
Garças a Deus o bairro de Banco da Vitória têm dois filhos homenageados em vida, com nomes de ruas: Aldair e Gil de Demy.
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As novas Ruas de Banco da Vitória


Foi publicada no dia 03 de Julho de 2019, no diário Oficial de Ilhéus, a Lei 4.024 sancionada pelo prefeito Mário Alexandre que Confirma, altera, denomina e atualiza os topônimos dos logradouros e praças dos bairros da Cidade de Ilhéus, das Sedes Distritais, Área Urbana Isolada dos Distritos e Povoados.
Por conta dessa Lei foi possível ajustar decretos assinados e não publicados, corrigir nomes de ruas e dar novo nomes as ruas sem identificações.

Agradecemos o empenho e a boa vontade do vice-prefeito de Ilhéus José Nazal Soub que encabeçou esse projeto e com afinco, fez uma verdadeira “varredura” nos topônimos dos logradouros e praças dos bairros da Cidade de Ilhéus, e, como ele próprio diz: “Agora todas as ruas de Ilhéus têm nomes”. Do mesmo valor de agradecimento estão os vereadores de Ilhéus que criaram o projeto e desenvolveram todos os trâmites para torna-lo de efetiva utilidade.

Em Banco da Vitória, algumas ruas sem nomes ou com nomes numéricos foram batizadas com novos nomes. Outras ruas que tiveram seus nomes alteradas em outros mandatos de prefeitos, mas que não foram publicadas suas nomeações no diário Oficial de Ilhéus, tiveram respeitadas suas antigas nomeações e oficializadas. Outras ruas, que não existiam no mapa do Correio, como, por exemplo, Rua São João, Nestor Pereira da Cruz e Xisto José Gomes foram corrigidas.

Para as nomeações das novas ruas foram ouvidas e assistidas sugestões de moradores ilheenses em audiências públicas na Câmara de Vereadores, sugestões dos vereadores, do prefeito e do vice prefeito de Ilhéus, bem como das lideranças locais.
A seguir listo as novas ruas de Banco da Vitória, as que tiveram seus nomes corrigidos e as que foram oficializadas com suas nomeações antigas.

Nova Ruas de Banco da Vitória:

Rua Mário Fernandes Lapa (lote).
Rua Nafital de Souza (Rua do Posto Médico).
Rua Hugo Kaufmann (primeira ladeira do alto da Bela Vista).
Rua José Francisco dos Santos (Professor Chicão) (Lote).
Rua Constância dos Anjos (Lote).
Rua Hilda Alves de Melo (Pixilinga) (Lote).
Rua Márcia Soares Xavier. (Lote).
Caminho da Fazenda Bela Vista (Antiga ladeira do Descansa Caixão).

Ruas que tiveram seus nomes corrigidos devidos erros de nomenclaturas:

Rua Xisto José Gomes (Rua do campo 2).
Rua Nestor Pereira da Cruz (Rua do campo 1).
Rua Epídio Souza Ramos (Segunda ladeira do alto da Bela Vista).

Ruas que tiveram seus nomes alterados antigamente, mas que não tiveram suas leis publicadas no Diário Oficial de Ilhéus:

Rua Jonas Francisco dos Santos (Rua do Colégio do Lote). Teve o nome registrado no segundo mandato de Jabes Ribeiro.
Rua São João (antiga Rua do Cemitério, não tinha CEP e constava no Correio com extensão da Rua São Pedro).
Rua Valdete Neves de Souza (Rua da casa de Bibogo) -Teve seu nome alterado pelo ex-prefeito Valderico Reis,
Rua Givanildo Amorim da Silva (antiga Rua Oito de Dezembro) Teve seu nome alterado pelo ex-prefeito Valderico Reis.

Agora a Lei sancionada pelo prefeito de Ilhéus será encaminha aos Correios, que terão 90 dias para disponibilizar os números dos CEP.

No meio da nossa alegria fica sempre aquela dúvida inquietante: temos tantos moradores para homenagear. Mas, infelizmente a nossa comunidade têm poucas ruas.

Não se faz mais cachaceiros como antigamente – #2

Por Roberto Carlos Rodrigues

Com todo o respeito aos biriteiros, cachaceiros e cervejeiros da atualidade, posso afirmar que muitos desses alisadores de berços de copos americanos, nem se comparam aos bebedores de antigamente.

Em Banco da Vitória, há uns trinta e poucos anos, havia sim um respeitado grupo de comedores de água que passarinho não bebe. Havia uns cabras de coragem do cão. Negos que bebiam de um só gole um litro de destilada e depois nem cuspia no chão. Gente que bebia cachaça com cobras em infusão. Cachaceiros profissionais.

Jaracuçu, cobra-coral verdadeira, jararaca, cascavel, surucucu pico-de-jaca e cobra-cipó eram encontradas em infusões alcoólicas em todas as bodegas da nossa comunidade.

Havia também infusões de escorpiões, aranhas caranguejeiras, lacrais, centopeias e marimbondos.

Os apreciadores dessas infusões venenosas diziam que cachaças com cobras em conservas eram verdadeiros elixires. Curavam de tudo, desde tuberculose a reumatismos. 
Clareavam a vista e combatia a diabete. Restauravas a tesão e debelava o impaludismo.

Havia em Banco da Vitória uns biriteiros que a cada dia, antes de tomar uma cerveja gelada, queimavam as goelas com uma dose de cana com cobra dentro.

Hoje em dia, só temos bebedores de cerveja gelada e raros são os amantes do conhaque Cinco Estrela ou do queima-peito chamado de Rabo de Galo.

Atualmente em Banco da Vitória não se encontram mais nem cachaça com charangueiros dentro. Quiçá, sapos, gias, calangos e lagartixas.

Beber cerveja gelada é fácil. Quero ver mesmo é beber uma cana com uma Pico de Jaca na conserva há mais de três anos.

Tenho vergonhas desses bebedores medrosos de hoje em dia.

Oh! Saudade danada dos cachaceiros de antigamente.

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Você sabe o significam os termos: Arrelia, Bacural, Beirar o Beco, Banda-voou, Cair no Bolo, Colada, Cubar, Deforete, Eito, Insangado, Rede rasgada, Oliotria, Furada, Correr Sete Frequências e Macacoa, por exemplo? 

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Esse nosso “dicionário” está mais para “O pai dos burros cegos”, como se dizia antigamente, do que para um propriamente léxico. Portanto, a leitura deste livreto se propõe exclusivamente a diversão e não aos ensinamentos.

Por certo, a leitura deste livreto não vai fazer de você um “Ovo de duas gemas”, mas pode ser que você se torne um “Galalau” na curiosidade do saber.

Tenha boa leitura,

Roberto Carlos Rodrigues.

 

 

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Zezinho Sem Cotovelos

Por Roberto Carlos Rodrigues.

DOR 56Só Deus sabe o destino que levou Zezinho Sem Cotovelos. Há quem diga que ele mora no bairro de Monte Cristo, na vizinha cidade de Itabuna, onde é pequeno comerciante. Outros dizem que ele voltou para Santa Brígida, sua terra natal, no tórrido sertão baiano, já quase na divisa do estado de Pernambuco, onde continua trabalhando com gado. Uma coisa é certa: de Banco da Vitória Zezinho sumiu para sempre.

Zezinho sem Cotovelos era freguês vezeiros dos bares de Banco da Vitória. Ali tinha diversos amigos, dois ou três admiradores e um renca de desafetos. Zeferino Francisco do Santos era vagueiro de uma fazenda do outro lado do rio, nas bandas da Vila Cachoeira. Ele era um homem pequeno, branquelo, do rosto fino e cabelos escorridos. Os olhos eram miúdos, pareciam com olhos de pássaros. O bigode fino cobria-lhe os lábios avermelhados e ressecados. O sorriso era amarelado, herança dos anos e mais anos do cigarro na boca. Vestia-se sempre com indumentárias de vaqueiro. Na cinta trazia sempre um facão amolado. Na bota de couro, escondia o punhal com cabo de osso. Nas costas, cruzava-se o rifle de repetição e no bornal, escondido debaixo dos panos, o revolver trinta e oito e mais um punhado de balas. Zezinho sempre andava no lombo de uma mula marrom e arruaceira. Gostava de galopar.

Em Banco da Vitória Zezinho sem Cotovelos nunca deu um tiro ou matou alguém. Mas havia quem acreditasse ser ele criminoso lá nas bandas por onde nascera e que encontrara um bom refúgio sendo vaqueiro numa fazenda do sul da Bahia. No povoado, era pacifico e brincalhão.

Era amigo dos cachaceiros do povoado de Banco da Vitória e de vez em quando jogava futebol com seus pares. Conhecia todos os donos de bodegas da localidade e todas as sextas-feiras se refugiava em Banco da Vitória, onde se divertia, bebia como os amigos e dançava nos cabarés da localidade. Ali se sentia em casa.

Dizia ser solteiro. Não tinha esposa nem filhos. Vivia na casa da fazenda e só tinha amigos em Banco da Vitória. Aos domingos, Zezinho sem Cotovelos gostava de passar o dia nas margens do rio Cachoeira, onde fazia assados, cozinhados e pescarias. Todas, obviamente, regadas a garrafas de cachaças. Foi exatamente em um domingo ensolarado de março que Zeferino Francisco do Santos se tornou Zezinho sem Cotovelos.

Acompanhados dos seus amigos de farras e bebedeiras, Zeferino foi para as correntezas do Rio Cachoeira onde pretendia passar todo o dia de domingo. No local onde hoje se ver erguida a ponte para Maria Jape, aos fundos do convento das freiras, havia uma grande corredeira de pedras escorregadias, onde a água do rio Cachoeira descia fazendo barulho nas pedras. A profundidade neste local não passava de meio metro e as barragens de pedras servia para fazer uma grande piscina na parte de cima do rio. Ali, no meio das mornas correntezas, estava Zeferino com seus amigos de bebedeira quando o pior aconteceu.

Zeferino estava se banhando na parte rasa da correnteza, com o corpo submerso e somente a cabeça do lado de fora da água quando sentiu algo se enrolar ao seu corpo. É uma cobra. Pensou rapidamente. Realmente era uma cobra. Uma cobra grande. O amarelinho tentou se levantar das pedras escorregadias e não conseguiu. Quando ficou de joelhos sobre as pedras. Perceber que realmente era uma cobra enrolado no seu corpo. Zeferino dei um grito tão grande que no dia seguinte, o morubixaba Garapa disse ter ouvido lá nas bandas do matadouro. Osório, disse também ter ouvido o mesmo berro lá no meio da ladeira do Alto da Bela Vista.

Quando conseguiu se levantar nas pedras escorregadias, Zeferino viu que a imensa cobra se enrolara nas suas pernas, pelo seu tronco e pescoço e que a cabeça da serpente estava entre suas mãos firmes. Gritando igual um condenado, Zeferino caiu nas pedras escorregadias, enrolado na cobra. O dois desceram as corredeiras do Rio Cachoeira entre mergulhos e gritos. A cobra tentando morder o rosto de Zeferino e este tanto deslaçar a víbora do seu corpo.

– Pega a facão! Gritou Bigode, parceiro de bebedeira de Zeferino.

– Pega um pau da cerca das freiras. Gritou nego Nide. Idem.
Vamos socorre o homem. Gritou Zé Amarelinho. Idem.
Mas a luta era particular entre Zeferino e a cobra molhada e juntos eles desceram se ralando pelas pedras, tomando solavancos e caldos. Fazendo espumas, remexendo o leito do rio. Derramando sangues entre as tocas dos pitus e calambaus.

Cento e oitenta e oito metros abaixo, quase perto da Pedra de Guerra, a cobra por fim largou o assustado Zeferino e desceu o rio Cachoeira. O vagueiro destemido, todo estropiado e azougue, foi socorrido pelos amigos e levado para a areal do porto de Ares. Ali descobriram que Zeferino estava com o rosto todo machucado das dentadas da cobra assassina. Tinha perdido um dente, a bermuda e os couros dos cotovelos.

– Era uma jiboia. Disse alguém. Não é venenosa não. Morde mais não mata. Não tem peçonha. Conclui o alguém.

– Traz a cachaça para queimar os ferimentos. Disse Bigode e foi atendido. Zeferino tomou uma talagada de cana e sentiu o ardor nos cotovelos ensanguentado. Estava em estado de choque.

Foi levado para o hospital em Ilhéus onde foi medicado e no mesmo dia voltou para sua casa na fazenda, onde ficou acamado por três dias. Quando voltou ao Banco da Vitória recebera o apelido de Zezinho Sem Cotovelos. Seus braços em tipoias comprovavam a assertiva.
Havia em Banco da Vitória quem dissesse que Zeferino não gostava da alcunha zombeteira. Mas ele preferia ser chamado de Zezinho Sem Cotovelos do que Zezinho Todo Cagado. Isso, em alusão a situação que o encontraram do dia da luta com aquela maldita cobra no Rio Cachoeira.

Infelizmente os couros dos cotovelos de Zeferino não se recuperaram. Já o apelido, se tornou eterno.

São João em Banco da Vitória – #1

forro-do-pedroPor Roberto Carlos Rodrigues

A casa era pequena. Na frente, uma porta e uma janela pintadas de azul. Ambas abertas. No meio do terreiro, a grande fogueira ardia por toda noite. Bombas explodindo nos cantos do terreiro, pistolões explodindo no céu. Este, todo estrelado. No braseiro, milho assado, costela de porco e pertinho dele, o aromático caldeirão cheio de quentão, tampado para não deixar exalar os cheiros das ervas daquele lugar. Na banqueta encostada ao vão da casa, a mesa sortida de diversos licores. O rei jenipapo adoçando os berços das moças, acompanhado dos sabores das garrafas de carambola, groselha, cacau, cravo, pitanga e lúdico licor de creme de leite. Junto ao pé da mesa, um garrafão verdecido, ainda pelo meio, da legitima aguardente Santa Clara. Bebidas para os cabras da peste que não gostavam de bebidas doces.

Amendoins assados e cozidos, pamonhas, mingaus de milho, bolo de tapioca, bolo de puba, lelê, leitão assado, paca cozida, galinha assada, piru cozido, caldeirão de sarapatel. A mesa estava florida das iguarias do lugar. As bocas, todas satisfeitas.

Bebuns por todos os cantos. Crianças correndo no terreiro e na minúscula sala os casais dançam no chamego do forró intermitente. Sanfoneiro caolho. Ruim das vistas, mas bom das mãos. A sanfona gemendo como se estivesse em um surto de epilepsia controlada. O zabumba batendo feito coração em taquicardia. O triangueiro marcando os passos da dança. O violão coordenando a harmonia da música e o pandeiro repicando feito guizo de cascavel. A música não parava nunca. A dança também não.

Dentro da sala apenas dez casais dançando. Não cabia mais. No lado de fora, uma procissão de gente dançando e esperando a vez de entrar na sala de reboco novo, pintado recentemente de azul. Na cumeeira, o lampião acesso. No ar o cheiro de cacau exalando daquele povo feliz e trabalhador.

De vez em quando um dançarino mais animado gritava no meio da sala: – Viva São João! Todo mundo respondia junto: VIVA! Fogos estouravam novamente no céu. O povo inventava uma quadrilha ao redor da fogueira e dança corria solta. A alegria exalava no ar e a poeira se espalhava entre os passos coordenados. Xote e baião, xaxado e forró eram como irmãos siameses. A festa não tinha fim.

Suor pingando no chão. Junta-se ao orvalho da fria madrugada. O arrasta-pé vai até o nascer do dia. O povo nem olha para os relógios. Espera o sol anunciar o novo dia. Enquanto isso, dançam sorridentes. Povo mais feliz que aqueles ribeirinhos não tem naquelas redondezas.

No início da manhã ainda tem gente ao redor da fogueira e bêbados dormindo nas sombras das árvores. Um bêbado acorda debaixo da grande jaqueira e grita: Viva São João! Os demais parceiros acordam subitamente e respondem em coro: Viva. Depois voltam a dormir, como se estivessem sincronizados. A ressaca dos licores durava dias e mais dias.

Os donos da casa se despedem das visitas. – Até para o ano. Dizem, sorridentes e satisfeitos. Até. Respondem os casais com os pés cobertos de poeiras e as roupas suadas. As cabeças estão repletas de alegrias e os corações ainda dançam no ritmo do forró de Banco da Vitória. O famoso forró Danado de bom.

No rádio de pilha, colocado agora em cima da mesa, onde ainda tem as sobras dos licores e das comidas, ouve-se Luiz Gonzaga cantar: Olha pro céu meu amor, ver como ele está lindo… Não podia haver trilha sonora melhor para aquela bela manhã de junho. Era São João.

Defuntos no Banguê e a Ladeira do Descansa Caixão.

rede 2Por Roberto Carlos Rodrigues.
 
Antigamente os mortos das regiões rurais de Banco da Vitória eram conduzidos das suas casas até o cemitério da localidade em um tipo de transporte chamado Rede de Banguê. Normalmente, nessas ocasiões, se cortava um pau de Biriba com aproximadamente três metros de comprimento e neste era pendurada uma rede, onde era transportado o morto. Dois homens fortes se encarregavam de conduzir a rede com o defunto e o pau apoiado nos ombros. Ao longo do caminho até o cemitério, os carregadores se reversavam no transporte do morto.
 
Quando o defunto era das regiões de Maria Jape, Japu, Beco, Rio do Engenho, Demanda ou Repartimento, este era conduzido no banguê até a beira do rio Cachoeira, onde era colocado em uma canoa e posteriormente, na Pedra de Guerra, transferido para um caixão de defunto.
 
Quando o féretro vinha da região norte da localidade de Banco da Vitória, de Morro do Miliqui, Lava-pés e Lava-pés de Baixo, por exemplos, o morto era conduzindo no banguê até o meio da ladeira da Alto da Santa Clara, onde em uma pedra localizada a esquerda dessa ladeira, era colocado em um caixão de defunto. Daí o nome deste local ser também conhecido em Banco da Vitória como Ladeira do Descansa Caixão.
 
Como descritos nos anais da cidade de Ilhéus, desde o meado do século XVIII só era permitido no município sul baiano o sepultamento por meio de caixão de defuntos. Para as pessoas carentes ao governo municipal oferecia gratuitamente o caixão de defunto. Para os escravos não se aplicavam este critério. Normalmente estes eram sepultados nos confins das fazendas e sesmarias, envoltos apenas de sujos lençóis. Mesmo anos depois da abolição da escravatura no Brasil, muitas cidades proibiam o sepultamento de negros nos cemitérios municipais. Acredita-se que este critério racista só foi mudado a partir da segunda década do sédulo XX.
 
Apesar da rede de carregar defunto ser chamada de banguê na região de Banco da Vitória, na verdade, este termo era conhecido no Brasil afora como identificador de um tipo de transporte feito com madeiras e couros, utilizado para carregar os restos de canas de açúcar, usando para tal tarefa a força de dois escravos. O banguê dos engenhos de açúcar era carregado pelas mãos dos homens. Já a rede de banguê era carregada nos ombros destes.
 
A rede de Banguê era também utilizada nessa região ilheense para transportar doentes, das suas casas até os postos médicos e hospitais. Naquela época, quando uma pessoa chegava viva ao Banco da Vitória, sendo carregada na rede de banguê, logo se sabia que a doença era grave. Por conta disso, o termo Rede de Banguê, era, para aquele povo ribeirinho, quase uma extrema-unção.
 
Antigamente a Ladeira do Descansa Caixão era um local assombrado em Banco da Vitória. Hoje, esta via de acesso ao Alto da Santa Clara é apenas um aplausível mirante. Agora, vivos e mortos são transportados em reluzente e potentes veículos. Banguê? nunca mais.