Zezinho Sem Cotovelos

Por Roberto Carlos Rodrigues.

DOR 56Só Deus sabe o destino que levou Zezinho Sem Cotovelos. Há quem diga que ele mora no bairro de Monte Cristo, na vizinha cidade de Itabuna, onde é pequeno comerciante. Outros dizem que ele voltou para Santa Brígida, sua terra natal, no tórrido sertão baiano, já quase na divisa do estado de Pernambuco, onde continua trabalhando com gado. Uma coisa é certa: de Banco da Vitória Zezinho sumiu para sempre.

Zezinho sem Cotovelos era freguês vezeiros dos bares de Banco da Vitória. Ali tinha diversos amigos, dois ou três admiradores e um renca de desafetos. Zeferino Francisco do Santos era vagueiro de uma fazenda do outro lado do rio, nas bandas da Vila Cachoeira. Ele era um homem pequeno, branquelo, do rosto fino e cabelos escorridos. Os olhos eram miúdos, pareciam com olhos de pássaros. O bigode fino cobria-lhe os lábios avermelhados e ressecados. O sorriso era amarelado, herança dos anos e mais anos do cigarro na boca. Vestia-se sempre com indumentárias de vaqueiro. Na cinta trazia sempre um facão amolado. Na bota de couro, escondia o punhal com cabo de osso. Nas costas, cruzava-se o rifle de repetição e no bornal, escondido debaixo dos panos, o revolver trinta e oito e mais um punhado de balas. Zezinho sempre andava no lombo de uma mula marrom e arruaceira. Gostava de galopar.

Em Banco da Vitória Zezinho sem Cotovelos nunca deu um tiro ou matou alguém. Mas havia quem acreditasse ser ele criminoso lá nas bandas por onde nascera e que encontrara um bom refúgio sendo vaqueiro numa fazenda do sul da Bahia. No povoado, era pacifico e brincalhão.

Era amigo dos cachaceiros do povoado de Banco da Vitória e de vez em quando jogava futebol com seus pares. Conhecia todos os donos de bodegas da localidade e todas as sextas-feiras se refugiava em Banco da Vitória, onde se divertia, bebia como os amigos e dançava nos cabarés da localidade. Ali se sentia em casa.

Dizia ser solteiro. Não tinha esposa nem filhos. Vivia na casa da fazenda e só tinha amigos em Banco da Vitória. Aos domingos, Zezinho sem Cotovelos gostava de passar o dia nas margens do rio Cachoeira, onde fazia assados, cozinhados e pescarias. Todas, obviamente, regadas a garrafas de cachaças. Foi exatamente em um domingo ensolarado de março que Zeferino Francisco do Santos se tornou Zezinho sem Cotovelos.

Acompanhados dos seus amigos de farras e bebedeiras, Zeferino foi para as correntezas do Rio Cachoeira onde pretendia passar todo o dia de domingo. No local onde hoje se ver erguida a ponte para Maria Jape, aos fundos do convento das freiras, havia uma grande corredeira de pedras escorregadias, onde a água do rio Cachoeira descia fazendo barulho nas pedras. A profundidade neste local não passava de meio metro e as barragens de pedras servia para fazer uma grande piscina na parte de cima do rio. Ali, no meio das mornas correntezas, estava Zeferino com seus amigos de bebedeira quando o pior aconteceu.

Zeferino estava se banhando na parte rasa da correnteza, com o corpo submerso e somente a cabeça do lado de fora da água quando sentiu algo se enrolar ao seu corpo. É uma cobra. Pensou rapidamente. Realmente era uma cobra. Uma cobra grande. O amarelinho tentou se levantar das pedras escorregadias e não conseguiu. Quando ficou de joelhos sobre as pedras. Perceber que realmente era uma cobra enrolado no seu corpo. Zeferino dei um grito tão grande que no dia seguinte, o morubixaba Garapa disse ter ouvido lá nas bandas do matadouro. Osório, disse também ter ouvido o mesmo berro lá no meio da ladeira do Alto da Bela Vista.

Quando conseguiu se levantar nas pedras escorregadias, Zeferino viu que a imensa cobra se enrolara nas suas pernas, pelo seu tronco e pescoço e que a cabeça da serpente estava entre suas mãos firmes. Gritando igual um condenado, Zeferino caiu nas pedras escorregadias, enrolado na cobra. O dois desceram as corredeiras do Rio Cachoeira entre mergulhos e gritos. A cobra tentando morder o rosto de Zeferino e este tanto deslaçar a víbora do seu corpo.

– Pega a facão! Gritou Bigode, parceiro de bebedeira de Zeferino.

– Pega um pau da cerca das freiras. Gritou nego Nide. Idem.
Vamos socorre o homem. Gritou Zé Amarelinho. Idem.
Mas a luta era particular entre Zeferino e a cobra molhada e juntos eles desceram se ralando pelas pedras, tomando solavancos e caldos. Fazendo espumas, remexendo o leito do rio. Derramando sangues entre as tocas dos pitus e calambaus.

Cento e oitenta e oito metros abaixo, quase perto da Pedra de Guerra, a cobra por fim largou o assustado Zeferino e desceu o rio Cachoeira. O vagueiro destemido, todo estropiado e azougue, foi socorrido pelos amigos e levado para a areal do porto de Ares. Ali descobriram que Zeferino estava com o rosto todo machucado das dentadas da cobra assassina. Tinha perdido um dente, a bermuda e os couros dos cotovelos.

– Era uma jiboia. Disse alguém. Não é venenosa não. Morde mais não mata. Não tem peçonha. Conclui o alguém.

– Traz a cachaça para queimar os ferimentos. Disse Bigode e foi atendido. Zeferino tomou uma talagada de cana e sentiu o ardor nos cotovelos ensanguentado. Estava em estado de choque.

Foi levado para o hospital em Ilhéus onde foi medicado e no mesmo dia voltou para sua casa na fazenda, onde ficou acamado por três dias. Quando voltou ao Banco da Vitória recebera o apelido de Zezinho Sem Cotovelos. Seus braços em tipoias comprovavam a assertiva.
Havia em Banco da Vitória quem dissesse que Zeferino não gostava da alcunha zombeteira. Mas ele preferia ser chamado de Zezinho Sem Cotovelos do que Zezinho Todo Cagado. Isso, em alusão a situação que o encontraram do dia da luta com aquela maldita cobra no Rio Cachoeira.

Infelizmente os couros dos cotovelos de Zeferino não se recuperaram. Já o apelido, se tornou eterno.

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São João em Banco da Vitória – #1

forro-do-pedroPor Roberto Carlos Rodrigues

A casa era pequena. Na frente, uma porta e uma janela pintadas de azul. Ambas abertas. No meio do terreiro, a grande fogueira ardia por toda noite. Bombas explodindo nos cantos do terreiro, pistolões explodindo no céu. Este, todo estrelado. No braseiro, milho assado, costela de porco e pertinho dele, o aromático caldeirão cheio de quentão, tampado para não deixar exalar os cheiros das ervas daquele lugar. Na banqueta encostada ao vão da casa, a mesa sortida de diversos licores. O rei jenipapo adoçando os berços das moças, acompanhado dos sabores das garrafas de carambola, groselha, cacau, cravo, pitanga e lúdico licor de creme de leite. Junto ao pé da mesa, um garrafão verdecido, ainda pelo meio, da legitima aguardente Santa Clara. Bebidas para os cabras da peste que não gostavam de bebidas doces.

Amendoins assados e cozidos, pamonhas, mingaus de milho, bolo de tapioca, bolo de puba, lelê, leitão assado, paca cozida, galinha assada, piru cozido, caldeirão de sarapatel. A mesa estava florida das iguarias do lugar. As bocas, todas satisfeitas.

Bebuns por todos os cantos. Crianças correndo no terreiro e na minúscula sala os casais dançam no chamego do forró intermitente. Sanfoneiro caolho. Ruim das vistas, mas bom das mãos. A sanfona gemendo como se estivesse em um surto de epilepsia controlada. O zabumba batendo feito coração em taquicardia. O triangueiro marcando os passos da dança. O violão coordenando a harmonia da música e o pandeiro repicando feito guizo de cascavel. A música não parava nunca. A dança também não.

Dentro da sala apenas dez casais dançando. Não cabia mais. No lado de fora, uma procissão de gente dançando e esperando a vez de entrar na sala de reboco novo, pintado recentemente de azul. Na cumeeira, o lampião acesso. No ar o cheiro de cacau exalando daquele povo feliz e trabalhador.

De vez em quando um dançarino mais animado gritava no meio da sala: – Viva São João! Todo mundo respondia junto: VIVA! Fogos estouravam novamente no céu. O povo inventava uma quadrilha ao redor da fogueira e dança corria solta. A alegria exalava no ar e a poeira se espalhava entre os passos coordenados. Xote e baião, xaxado e forró eram como irmãos siameses. A festa não tinha fim.

Suor pingando no chão. Junta-se ao orvalho da fria madrugada. O arrasta-pé vai até o nascer do dia. O povo nem olha para os relógios. Espera o sol anunciar o novo dia. Enquanto isso, dançam sorridentes. Povo mais feliz que aqueles ribeirinhos não tem naquelas redondezas.

No início da manhã ainda tem gente ao redor da fogueira e bêbados dormindo nas sombras das árvores. Um bêbado acorda debaixo da grande jaqueira e grita: Viva São João! Os demais parceiros acordam subitamente e respondem em coro: Viva. Depois voltam a dormir, como se estivessem sincronizados. A ressaca dos licores durava dias e mais dias.

Os donos da casa se despedem das visitas. – Até para o ano. Dizem, sorridentes e satisfeitos. Até. Respondem os casais com os pés cobertos de poeiras e as roupas suadas. As cabeças estão repletas de alegrias e os corações ainda dançam no ritmo do forró de Banco da Vitória. O famoso forró Danado de bom.

No rádio de pilha, colocado agora em cima da mesa, onde ainda tem as sobras dos licores e das comidas, ouve-se Luiz Gonzaga cantar: Olha pro céu meu amor, ver como ele está lindo… Não podia haver trilha sonora melhor para aquela bela manhã de junho. Era São João.

Defuntos no Banguê e a Ladeira do Descansa Caixão.

rede 2Por Roberto Carlos Rodrigues.
 
Antigamente os mortos das regiões rurais de Banco da Vitória eram conduzidos das suas casas até o cemitério da localidade em um tipo de transporte chamado Rede de Banguê. Normalmente, nessas ocasiões, se cortava um pau de Biriba com aproximadamente três metros de comprimento e neste era pendurada uma rede, onde era transportado o morto. Dois homens fortes se encarregavam de conduzir a rede com o defunto e o pau apoiado nos ombros. Ao longo do caminho até o cemitério, os carregadores se reversavam no transporte do morto.
 
Quando o defunto era das regiões de Maria Jape, Japu, Beco, Rio do Engenho, Demanda ou Repartimento, este era conduzido no banguê até a beira do rio Cachoeira, onde era colocado em uma canoa e posteriormente, na Pedra de Guerra, transferido para um caixão de defunto.
 
Quando o féretro vinha da região norte da localidade de Banco da Vitória, de Morro do Miliqui, Lava-pés e Lava-pés de Baixo, por exemplos, o morto era conduzindo no banguê até o meio da ladeira da Alto da Santa Clara, onde em uma pedra localizada a esquerda dessa ladeira, era colocado em um caixão de defunto. Daí o nome deste local ser também conhecido em Banco da Vitória como Ladeira do Descansa Caixão.
 
Como descritos nos anais da cidade de Ilhéus, desde o meado do século XVIII só era permitido no município sul baiano o sepultamento por meio de caixão de defuntos. Para as pessoas carentes ao governo municipal oferecia gratuitamente o caixão de defunto. Para os escravos não se aplicavam este critério. Normalmente estes eram sepultados nos confins das fazendas e sesmarias, envoltos apenas de sujos lençóis. Mesmo anos depois da abolição da escravatura no Brasil, muitas cidades proibiam o sepultamento de negros nos cemitérios municipais. Acredita-se que este critério racista só foi mudado a partir da segunda década do sédulo XX.
 
Apesar da rede de carregar defunto ser chamada de banguê na região de Banco da Vitória, na verdade, este termo era conhecido no Brasil afora como identificador de um tipo de transporte feito com madeiras e couros, utilizado para carregar os restos de canas de açúcar, usando para tal tarefa a força de dois escravos. O banguê dos engenhos de açúcar era carregado pelas mãos dos homens. Já a rede de banguê era carregada nos ombros destes.
 
A rede de Banguê era também utilizada nessa região ilheense para transportar doentes, das suas casas até os postos médicos e hospitais. Naquela época, quando uma pessoa chegava viva ao Banco da Vitória, sendo carregada na rede de banguê, logo se sabia que a doença era grave. Por conta disso, o termo Rede de Banguê, era, para aquele povo ribeirinho, quase uma extrema-unção.
 
Antigamente a Ladeira do Descansa Caixão era um local assombrado em Banco da Vitória. Hoje, esta via de acesso ao Alto da Santa Clara é apenas um aplausível mirante. Agora, vivos e mortos são transportados em reluzente e potentes veículos. Banguê? nunca mais.

A barba de Dona Constância.

barba.jpgPor Roberto Carlos Rodrigues

A venda A Visgueira foi o cenário da prosa. Valter Ramos tomava uma cerveja gelada enquanto conversava com Ailton Gomes. Ambos, sentados nas cadeiras do lado de fora do estabelecimento. No balcão da bodega, Antônio de Isaías tomava uma cana e conversava com Jonas Porco e Touro e Genésio Cambista, quando o padeiro Pedro Preto entrou xingando e logo pediu uma dose de Bituri. Meu pai, Carrinho, o atendeu e colocou uma dose completa da cana que foi bebida em um só gole. Sem lamber os berços seu Pedro quase explodiu:

– Ou lugar da peste este sul! – Oh lugar para as mulheres gostarem de ser putas, prostitutas, melitrinas, quengas. A mulher deste meu funcionário João, – corno tipo maxixe, entrou agora na minha padaria mais fantasiada do que a macaca do circo dos turcos. Batom vermelho cor diabo na boca. Os olhos pintados de roxo. As bochechas chamuscadas de vermelho. As pestanas dos olhos aparecidas com um zói de gambá… Tomei um susto da peste. As mulheres no Norte não têm essa papagaiada não. Lá as mulheres têm até bigode e barba. Só que o marido pega a navalha raspa a cara da mulher. Tira bigode. Tira barba. Tira tudo. Até os pentelhos. Lá homem manda. Manda e manda.

Jonas Porco e Touro argumentou:

– Aqui é diferente, amigo Pedro. Lá em casa, por sinal, com tantas mulheres, eu nem ligo mais. Até uma cobra jaracuçu que apareceu no quintal, Ivonete pegou e está criando a bichinha. Todo dia ela passa batom na cobra, passa perfume. Só não coloca brincos porque a serpente não tem orelhas. Se tivesse, sei não…

Seu Pedro olhou firmemente para o amigo Jonas e depois de refletir o que ia falar, por fim questionou:

– Sua filha passa batom e perfume na cobra? Na jaracuçu? Não tem medo não?

– Sim. Passa batom em Zumira todos os dias. Zumira é o nome da cobra de estimação de Ivonete. Concluiu Jonas.
– Carrinho! Me dar uma outra dose de Bituri. Vou voltar a fazer meus pães que eu ganho mais. Disse seu Pedro.

Enquanto Carrinho servia a nova dose de cana. Antônio de Isaías questionou:

– Mas Pedro, aqui as coisas mudaram. Você se diz muito homem e coisa e tal. Então eu tenho uma proposta para você. Aqui na Rua de Palha mora dona Constância, nossa amiga. Constância não tem bigode não. Mas tem uma barba rala. São uns fiapos brancos no queixo. Vá lá então e arranca a barba dela. Se você quiser eu compro as giletes e te dou. Dou uma caixa com dez lâminas para você. Vai lá e faz a barba de Constância.

Seu Pedro, com o copo de vidro na mão, ficou olhando para seu amigo e vizinho, pensando o que ia falar. Depois, em um só gole, bebeu a cana. Enxugou os lábios com o avental e concluiu seu argumento:

– Raspar a barba de Constância? Tirar aqueles fiapos brancos do queixo dela. Eu? Indagou seu Pedro Preto. – Prefiro passar batom na cobra de Ivonete. Concluiu.

E saiu sem pagar a conta…

Dona Constância faleceu trinta e cinco anos depois. Foi sepultada com seus cabelos brancos. Todos belos e divinos.

O Segredo de Brabão – O cachorro mais feroz de Banco da Vitória.

brabãoPor Roberto Carlos Rodrigues

Esta estória não é minha. Não inventei nada e, se por ventura, os possíveis herdeiros do cachorro Brabão quiserem processar alguém, que processem João Santana, filho dos saudosos Antônio de Isaías e Dona Lindaura, pois foi ele quem propagou a fama de Brabão em toda a região de Banco da Vitória. Na verdade, eu que não conheci Brabão – o cachorro mais feroz de Banco da Vitória, nunca acreditei nesta estória deveras surpreendente. Mas, tratando de relatos de João Cu de Leão, quem sou eu para duvidar.

Segundo João Santana, Brabão era o cachorro de estimação de Odilon, este funcionário da Prefeitura Municipal de Ilhéus e encarregado, junto ao seu amigo Alfredo (pai de Liminha e Jovali) das limpezas das ruas do então distrito de Banco da Vitória.

Brabão era um cão de poucos amigos e seu nome se justificava pela quantidade de pessoas que ele tinha mordido. Cachorro classificado como vira-lata raciado com parentes distantes dos pastores alemães, Brabão, era conhecido na Rua dos Artistas como o cachorro mais valente da localidade. Mordia desde pequeninas moscas até mocotós de cavalos, burros e bois. Para ser sincero, Brabão era um cão assassino. Na sua rua ele era implacável, violento e cruel. Mordia. Mordia e m.o.r.d.i.a.

Criado na coleira e preso como condenado, Brabão quando fugia de casa o povo gritava:

– Fechem as portas, prendam as crianças e socorram os cachorros e gatos pois Brabão fugiu. Era um alvoroço quase regional.

Em Banco da Vitória se sabia: o cachorro mais violento e cruel de todas as beiradas do Rio Cachoeira era Brabão de Odilon.

Mas o tempo foi passando e Brabão foi diminuindo a ferocidade e se tornou um cão de porta de casa, sem coleira, sem amarras, sem arruaças. Ali, no batente da sua casa Brabão continuou sendo o valente cão da localidade. Mais não mordia mais ninguém. A não ser alguns bêbados arrelientos e meninos perturbados.

Porém, Brabão continuou mantendo sua autoridade nas redondezas. Nenhum cachorro ou gato se atrevia passar pela Rua dos Artistas sem antes receber uma carreira quase mortal de Brabão. Pode-se dizer que Brabão era o rei da Rua dos Artista. Isso, até os seus dez anos de idade.

Um dia, na verdade uma manhã de sábado ensolarado, Brabão estava no seu posto, isto no degrau da casa de Odilon, tomando um sol matinal, quando sem mais nem menos, um caminhão de mudança parou pouco em frente da casa vizinha a de Brabão.

Era um caminhão de mudanças. Um novo inquilino iria morar na vizinhança. Quando abriram o caminhão baú quem saiu de dentro foi um pequeno cachorro piche. De um tiro só o cachorro adentrou a casa nova, em menos de cinco segundos ele percorreu todos os ambientes e como um raio, saiu da casa e começou a correr pela Rua dos Artistas, reconhecendo o território e pingando sua urina nas portas das casas.

Brabão quando viu aquele toloco de bosta preta correndo feito um raio da silibrina, ficou alerta e pensou: – Quem está tripa preta pensa que é? Vou matar numa dentada só. Ele vai ver.

No outro lado da rua o cachorro piche preto correu até a casa de Gerolino, atravessou a rua. Veio mijando de porta em porta e passou bem em frente à casa de Brabão como se este nem estivesse ali. O minúsculo cachorro entrou no bar de Xisto gomes. Saiu e foi até a venda de Seu Joaquim. Atravessou a rua, entrou na padaria de seu Hugo, cruzou as frentes das casas de seu Antônio de Isaías, a Visquera, seu José Lavigne e, dobrando a esquina, desceu mijando nas portas das casas da Rua Aldair.

Neste instante, Brabão que só assistia aquele desaforo minúsculo, já estava embebecido de raiva e mais raiva e com os dentes preparados para destroçar o intruso, quando ouviu a nova vizinha chamá-lo: – Mickey vem cá.

– Ora ora, chama-se Mickey o futuro morto. Pensou Brabão, se preparando para o bote e arrematou. Do jeito que está vai mijar logo logo no meu focinho. – Deixa ele subir a rua que eu vou mostrar quem manda neste pedaço. Conclui seus pensamentos malignos.

A vizinha entrou na casa e em seguida, com a mesma velocidade que desceu a rua o tal Mickey a subiu. Quando ele chegou no cruzamento da Rua Aldair com a Rua dos Artista, Brabão estava a sua espera. Em um só bote Brabão latiu ferozmente e tentou morder mortalmente o pobre piche. O cachorro pequenino se esquivou, escorregou sobre as pedras do calçamento da rua e desceu a rua dos Artista no dobro da velocidade de quando a conheceu. Na sua cola, desceu Brabão latindo e fungando no rastro do podre cachorrinho.

O piche dobrou a esquerda, depois a direita, depois mais uma vez a direita, correu, correu e correu e Brabão no seu encalço, latindo e mostrando seus dentes afiados. No meio da praça Guilherme Xavier, o assustado piche teve um surto de redenção, parou de correr bruscamente e ficou imóvel feito uma estátua.

Brabão que corria na velocidade de um míssil soviético, diante daquela súbita parada do piche quase perdeu as unhas nos cimentos da praça, tentando frear. Desorientado, ele caiu sobre o pescoço, ralou o focinho e machucou as costas. Mesmo assim, Brabão se levantou e partiu para o ataque do piche que se mantinha imóvel no meio da praça.

Chegando perto do piche, Brabão percebeu que o desgraçado se mantinha imóvel feito uma minúscula estátua preta. Fingia ser o que não era. Brabão então se aproximou do desgraçado e desaforado cão e rugiu nas suas orelhas. O piche continuou imóvel e silencioso.

– Corre miserável. Corre agora para eu rasgar você em dois em uma só mordida. Pensou Brabão com a boca cheia de salivas, os dentes brilhando e o gosto de sangue já quase sendo sentido na garganta.

Quanto mais Brabão rugia nos ouvidos do piche mais este ficava imóvel e sério. Virou estátua.

Foi aí que o segredo de Brabão foi revelado.

Depois de mais de dez minutos de ameaças, o medroso piche começou a piscar os olhos, mexer com as orelhas, balançar levemente o rabo e se mover cautelosamente. Primeiro o piche cheirou o focinho de Brabão, depois suas patas e por fim alcançou o rabo. Debaixo deste, bem no furico de Brabão, o piche deu duas cheiradas profundas e depois carinhosamente lambeu o cu de Brabão.

Brabão, agora já relaxado e acalmado, olhou meigamente para o pequeno piche, piscou os olhos e como uma cadela latiu melodicamente:

– Uau! Uau! Uau!

Naquele dia descobriram que Brabão queimava o aro. Era gay.

A Morta-viva do Rio Cachoeira

enterro-2Por Roberto Carlos Rodrigues

Parece fácil a vida de um cronista que resolve reviver a memória do seu povo e de sua aldeia. Mas não é. Muitas vezes os fatos acontecem e as pessoas simplesmente esquecem ou fingem quem não sabem dos ocorridos. A estória que vou descrever agora aconteceu em Banco da Vitória, no início da década de sessenta do século passado e, graças a Deus, muita gente ainda está vivinha da silva para comprovar que não minto, ou que é fruto da minha imaginação. Naqueles dias, em Banco da Vitória uma mulher dada como morta, reviveu em pleno ato fúnebre.

Foi exatamente em um domingo de Feira em Banco da Vitória que chegou a notícia da morte de Dona Maria D’ajuda, mulher de um trabalhador da fazenda Porto Novo e moradora da localidade chamada O Beco.

O Beco ficava nas margens do rio Cachoeira, em terras da fazenda Porto Novo. Era um arruado com poucas casas que serviam de moradias para as famílias dos trabalhadores dessa fazenda. Não havia mais de duas dezenas de casas na localidade. Havia ali um grande armazém de cacau e diversas barcaças, Além de um campo de futebol, uma bodega e um pequeno porto fluvial.

Dona Maria D’ajuda, a morta, morava ao lada da casa de Dona Maria José, essa, era mãe de Siri, excepcional jogador de futebol de Banco da Vitória e foi quem primeiro socorreu a amiga. Mas não teve jeito, a vizinha veio a óbito.

Na tarde daquele domingo e na boquinha na noite daquele dia várias canoas cheias de pessoas saíram de Banco da Vitória para o velório da mais que querida Dona Maria D’ajuda. Provavelmente mais de cinquenta pessoas da localidade foram “beber a morta” em sua residência. Entre as pessoas que se dirigiram para o velório estava o aleijadinho Tonho de Zefa Galega, famoso rezador de exéquias. Tonho era figura mais que importante em todos os velórios da região. Quando alguém morria, Tonho se apresentava na casa do defunto. Sentava ao lado do morto e rezava, sem parar a Oração dos Falecidos.

Tonho de Zefa Galega foi um dos primeiros que chegou ao velório de Dona Maria D’ajuda. Antes de iniciar suas orações, abasteceu o bucho, tomou duas xícaras de café com leite, comeu bolo de puba e uns pedaços de cocada. Depois, com suas duas muletas se dirigiu para sala, sentou-se ao lado da morta e começou sua oração, que duraria até a hora do sepultamento, no cemitério de Banco da Vitória.

O velório de Dona Maria D’ajuda seguiu como os outros. O rezador na cabeceira do morto, os bêbados contando casos na frente da casa e meia dúzia de parente choramingando nos becos da casa.

No dia seguinte, as quatro horas da tarde o caixão da defunta foi colocado no batelão, a maior canoa da fazenda, e Tonho com suas muletas foi colocado na mesma embarcação. Nesta canoa grande três homens fortes remavam e além da morta vinham o marido da falecida mais uma vizinha. Ao todo, mais de trinta canoas acompanhavam o cortejo fúnebre que subia o rio Cachoeira.

Tonho de Zefa Galega nascera com os pés atrofiados e só consegui andar amparado por suas muletas. Ele tinha, na época do ocorrido, uns sessenta e poucos anos de idade. Era um homem pequeno e magro, tinha os olhos miúdos e no rosto galego havia um pequeno bigode. Homem de poucas brincadeiras, era raro vê-lo sorrindo.

Mas voltando ao caso da morta, o cortejo fúnebre vinha tentando vencer as águas da maré de março que inundavam o rio Cachoeira dando-lhe beleza excepcional, quando o fato estranho aconteceu. Quando as embarcações cruzaram bem em frente a Bica da água Boa, se ouviu umas pancadas dentro do caixão de defunto. A princípio, acreditou-se ser barulhos dos remos batendo na canoa. Mas não era. Era a dita como morta.

A morta não estava morta e como quem acorda de um pesadelo, ela deu um forte chute na tampa do caixão e como quem procura o ar, Dona Maria D’ajuda se sentou e deu um tremendo grito. Um dos remadores da canoa com o caixão de defunto, ao ver aquela cena se assustou e se jogou na água. O outro o seguiu. O terceiro remador tentou ainda aprumar a canoa, mas de medo, não conseguiu. Pulou também na água e então a canoa virou.

O marido da morta-viva pulou para um lado, o caixão caiu para o outro. As pessoas se assustaram nas canoas que vinham acompanhando o cortejo fúnebre e várias também afundaram. A gritaria foi geral. Muitas mulheres caíram nas águas e se afogavam. Os homens, vendo as cenas horríveis de possíveis mortes coletivas, se jogaram nas águas e foram socorrê-las. O marido de Dona Maria D’ajuda, mergulhou e foi atrás da sua esposa, que não sabia nadar. A encontrou se afogando ainda dentro do caixão emborcado. Salvou-a.

Em poucos minutos água do rio Cachoeira ficou repleto de flores e velas e várias pessoas foram socorridas e levadas para as pedras da beira do rio. Homens, meninos e mulheres que sabiam nadar se jogaram na água e tentaram salvar o máximo de pessoas. Contudo, muita gente, na verdade, se jogou na água e nadou afoitos para as margens do rio com medo da morta-viva. Dois remadores da canoa que trazia a morta nadaram feitos torpedos, alcançaram a margem direita do rio Cachoeira e entraram na mata gritando feitos loucos. Quatrocentos metros de mata a dentro eles pararam debaixo de uma velha jaqueira e tentaram recuperar o fôlego.

– O que foi aquilo? O que foi aquilo meu Deus? Questionou o homem assustado e com os olhos esbugalhados.

– Eu não sei. Eu não sei. Disse o outro. – Só sei que a morta deu um grito da peste e me assustou. Pulei na água, nadei feito um louco e corri a até aqui sem olhar para trás. Nunca sentir tamanho medo na minha vida. Dona Maria D’ajuda deu um grito infernal naquele caixão de defunto. Quase me matou de susto. Tô com o coração na garganta. Disse o outro se escorando na jaqueira.

– Oh! meu Deus! Oh! meu Deus! Disse o outro medroso. A mulher não estava morta! Como pode morto se levantar e gritar, como fez Dona Maria D’ajuda?

– E eu sei lá. Respondeu o outro. – Só sei que quase morri de susto. Lá eu não volto não. A mulher reviveu. Será? Disse se agachando nas raízes da grande jaqueira.

– A canoa virou com o caixão de defunto e tudo. Disse o outro, ainda tremendo de medo. – Não sei como que aconteceu aquilo… – Oh! meu Deus! Quase gritou o homem. – O meu Deus! Disse o homem se levantando e colocando as mãos na cabeça, indagando: – E o rezador? O pobre aleijadinho que estava na canoa da defunta. Será que salvaram ele? Será que aquele condenado sabia nadar?

Do alto da jaqueira, quase do último galho se ouviu uma voz:

– Condenado é a senhora sua mãe. Eu sei nadar e sei correr também muito bem. Disse o aleijadinho, todo molhado e com as duas muletas penduradas nos galhos da jaqueira.

Os dois homens nem procuraram certificar quem falava em cima da árvore. Gritaram de medo e voltaram a correr no meio da mata. Aquele não era um dia bom. Sabiam.

Em Banco da Vitória, a fantástica fuga do rezador, o aleijadinho Tonho de Zefa Galega ficou mais famosa que a revida de Dona Maria d’ajuda. Que muitos anos depois, morreu de verdade.

No dia da revida da morta-viva ninguém morreu afogado no rio cachoeira.

Naquele trágico dia, muita gente em Banco da Vitória chegou em casa cagado e mijado. Mais isso já é uma outra história.

A Faculdade de Medicina de Banco da Vitória.

Por Roberto Carlos Rodrigues

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Muitas pessoas que circulam pela Rodovia Jorge Amado, nas imediações da localidade de Banco da Vitória, não sabem que ali, em tempos áureos já funcionou uma faculdade de Medicina. Na verdade, não era uma faculdade com uso das cátedras e ensino de nível superior, Era, por assim dizer, uma faculdade livre da medicina popular e alternativa.

Naquele então distrito de Ilhéus, só se morria mesmo de morte morrida e ou morte matada. De doença, por mais assustadora que essa fosse, tinha-se sempre um remédio certeiro e eficaz. Ali, os remédios e as curas estavam por todos os cantos e formas, nas rezas, nas plantas, nos frutos, nas águas, na terra e até nas fezes de alguns animais.

Entre aquele povo sempre havia um vizinho curandeiro, uma velha preta, um candomblezeiro, uma velha parteira ou então, meros palpiteiros de curas e remédios salvadores. Estes, vezeiros dos balcões das bodegas.

Se uma pessoa estava com a espinhela caída, um defluxo, catarro nos peitos, com o estômago virado, uma dor de facão ou na titela, câimbras nas batatas das pernas, dor nas cadeiras ou no vazio, ali tinha cura imediata.

Nos quintais das casas sempre havia uma farta e diversificada horta medicinal. Boldo para as doenças do estômago, Capim-Santo para as dores de cabeça. Erva cidreira para acalmar os nervos. Transagens para regular as regras femininas. Mastruz para as contusões e machucados. Goiabeira para as diarreias. Alecrim para o intestino. Babosa para as cicatrizes. Carqueja para o fígado. Confrei para as úlceras. Hortelã para os pulmões. Entre tantas.

Além das ervas, utilizavam-se também cascas de paus, pedaços de raízes, raspas de ossos, cinzas de chifres de bois, olhos de peixes secos, terras e algumas vezes, xarope de fezes de gatos para combater o peito chiado das crianças.

Chás, ungentos, garrafadas, infusões, pastas e cremes curativos eram feitos por todos os cantos e distribuídos entre os vizinhos. Em algumas bodegas tinha até uma farmácia de ervas medicinais em infusões em cachaças de todas as qualidades. Ali, os beberrões tinham motivos de sobra para procurar as curas para os seus tantos males e doenças.

Em Banco da Vitória, se uma pessoa estivesse com uma dor ou uma doença ia encontrar no mínimo dez “doutores” em curas alternativas para palpitarem sobre os possíveis remédios e, na maioria dos casos, com testemunhos de usuários que diziam que tinham sido curados por aqueles.

Um dia, no balcão da Visgueira, famosa venda que meu pai tinha na localidade, situada no início da Rua dos Artistas, estavam seus fregueses vezeiros. João de Coló. Cabo Jonas, Pedro Melo e Antônio de Isaías, quando chegou Ailton Gomes anunciando a morte de Fulô de Nezinha. Ailton nem terminou de dar a triste notícia e foi quase interrompido por João de Coló que disse:

– Morreu de derrame. Tenho certeza.

– Oxi! Como você sabe se Fulô acabou de morrer agora mesmo e você estava aqui? Virou adivinho foi? Questionou Cabo Jonas.

– Acertou! Foi derrame. Arrematou Ailton Gomes.

João de Coló terminou de beber seu Rabo de Galo e concluiu sua fala:

– Todo viado morre de derrame ou do coração. Parece, pelo jeito que, dar o cu aumenta a pressão e estoura os vasos da cabeça. Fulô de Nezinha dava um cu amuado. Morreu de acidente de trabalho.

Cabo Jonas arregalou os olhos e questionou seu amigo de prosas:

– João de Coló onde foi que você estudou esse diagnóstico dos infernos? Desde quando dar o cu aumenta a pressão cardíaca?

– Tá duvidando? Argumentou Coló – Dá seu cu para ver se eu não estou certo ou não. Aumentar a pressão. E tem mais: Deixa eu ir para casa pois está na hora da minha punhetinha diária. Punheta faz bem danado para as vistas. É por isso que eu não uso óculos.

– Ah! Não vai dar não! Arguiu, no canto do balcão Antônio de Isaías e indagou:

– Cabo Jonas você sabia que o melhor remédio para impotência é dormir com uma vela acessa enfiada no rabo?

João de Coló se calou abruptamente e esperou o revide do parceiro de oliotrias.

Cabo Jonas coçou a barba quase branca, tirou o cigarro da boca e disse:

– Fui! Hoje a prosa aqui está ao gosto de Satanás. Vou me preparar para o velório do xibungo da Ruinha. Assim é bem melhor.

Por uma porta saiu Cabo Jonas e pela outra saiu João de Coló.

Dentro da bodega Antônio de Isaías sorria e zombava dos dois médicos de araque. Pedro melo apenas observava e sorria. Era melhor assim. Sabia.

A Faculdade de Medicina de Banco da Vitória nunca formou ninguém. Graças a Deus.

O feitiço do Rio Cachoeira

Por Roberto Carlos Rodrigues

Quem ver o rio Cachoeira, nas imediações de Banco da Vitória, quando da maré alta, acredita estar diante de um belo espelho d’água encantador e enfeitiçante. As águas marinas oxigenam o velho e sofrido rio, dando-lhe uma matiz mágica, levemente azulado, em nuances de um verdadeiro braço de mar.

Quem ver este rio escorrer esquálido e desanimado entre tantas pedras, lamaçais e tristes sobras e esgotos, desde a sua nascente, na Serra de Itararaca, no sopé do município de Itororó, até pouco acima de Banco da Vitória, ao vê-lo novamente, agora caudaloso, resplandecente e azulado, nas barranca da nossa localidade, por certo, acredita estar diante de outro rio. O Rio da Esperança.

Em Banco da Vitória as marés diárias dá ao velho e poluído Rio Cachoeira uma roupagem nova. Ali ele encontra o sabor do mar de Ilhéus e em suas águas brilhosas e festeiras, celebra sua árdua e sofrida jornada com frondosas mágicas feitas de águas encantadas.

Quem o ver passar por nossa aldeia se encanta. Ali, este rio faz isso com todo mundo. Preto ou branco, rico ou podre, famoso ou desconhecido. O escritor Jorge Amado adorava vê-lo diante da Bica da Água Boa. Recentemente o jornalista Fernando Gabeira esteve neste mesmo local e disse que ficou encantado com a bucólica paisagem. Muita gente se maravilha quando ver o nosso lindo rio resplendente serpentear matas e bambuzais.

Os mais felizes são os moradores que veem essas paisagens todos os dias. Os nativos que banham-se no belo rio cachoeira não sofrem as agruras da poluição que este rio recebe de tantas localidades. Estes, por questões genéticas, são imunes as tantas doenças e males que o nosso Rio Cachoeira trás e que magicamente o mar, em Banco da Vitória, dizima-as.

Vitoriosos e felizes são os que se banham no rio Cachoeira. Isso eu tenho certeza.

Em Banco da Vitória, o rio Cachoeira rega e fomenta todos os tipos de sonhos.

Quanto a sua poluição, eu posso afirmar: este maué um problema de todos nós. Mas, mesmo assim, procure encontrar beleza em todas as coisas. Principalmente em seus atos e seus instantes.

Se todos nós soubéssemos renovar nossas esperanças com o mesmo vigor que faz o rio cachoeira com suas águas tão poluídas, ao encontrar o mar em Banco da Vitória, por certo, teríamos um mundo muito bem melhor. E mais azul. Azul da cor do mar.

32 – Os lobisomens de Banco da Vitória.

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Em outros lugares do mundo, as estória do lobisomem acabam magistralmente descrevendo a identidade do homem que vira fera nas noites de lua cheia e desvendando este segredo. Em Banco da Vitória, ao contrário disto, muita gente se intitulava como o verdadeiro lobisomem e não tinha medo nem receio de dizer isto para todos mundo. Tinha até alguns lobosomistas que mostravam suas unhas afiadas e barbas grandes como indícios de suas transformações animais.

Pouco se sabiam das origens dos lobisomens de Banco da Vitória. Pois nesta localidade não tinha nem um nem dois lobisomens, mas sim vários. Havia até quem dissera ter visto brigas entre os seres noturnos que uivavam feito lobos a e atacavam feito feras. Outros, como Cabo Jonas, disseram que contaram mais de dez lobisomens na localidade.

Contava a lenda que o lobisomem surgia exatamente quando uma mulher tinha 7 filhas e a sua última cria nascia um menino. Se este rebento fosse pálido, magricela, de orelhas afinadas e dentes grandes, tinha ali todos os indícios de um futuro lobisomem.

Em Banco da Vitória, este preceito não era válido, pois pelos critérios de identificação de lobisomens, bastava ser uma figura irritadiça ou zangada, pra ser caracterizada como um candidato a virar um lobo em uma noite de lua cheia.

Com suas devidas considerações, quando as noites de luas cheia caiam exatamente nas sextas-feiras, as ruas da nossa localidade ficavam vazias e desertas. Os poucos transeuntes noturnos andavam em pares e os trabalhadores do antigo matadouro não arredavam das usa facas e facões milimetricamente amolados.  

Nestas noites assombrosas, nas casas que havia meninos ou meninas pagãs, as portas e janelas dormiam escoradas com fortes madeiras. Cães e gatos dormiam dentro de casa e quem morava em frente as encruzilhadas (locais preferidos dos lobisomens) tapava as frestas das janelas e das portas, para não ver a passagem ou possível transformações dos lobisomens.

Segundo o brincalhão Antônio de Isaías, seu vizinho Zé Lavine era o lobisomem da Rua dos Artistas. Aurindo, antigo motorista e morador da Rua Aldair dizia ser ele o temível lobisomem da redondeza.  Havia quem colocasse o título em Corinho, um negro alto e trabalhador que vivia na Rua do Cemitério. Nesta rua, Seu Cazeca era também suspeito de virar lobisomem. Seu João Batista, o coveiro local não entrava neste rol. Dele, a meninada tinha medo exatamente por ser o homem que enterrava o povo local.

Gaguinho, quando bebia, dizia que Seu Dedé, marido de Preta, morador da rua do Campo, além de virar lobisomem, também envultava. Seu Pedro Preto dizia nos quatro cantos da localidade que Thiago Cardoso, pai de Bibogo virava lobisomem. Já Garapa, dizia como certeza que o Getúlio, um negro alto, de braços e pernas finas e mãos grandes virava lobisomem nas bandas da Rua da Represa. Lindor Nunes gostava de dizer que tinha certeza que Arara também virava lobisomem. Arara gostava da brincadeira e vivia assustando os meninos e meninas desavisadas que passavam pela rua Dois de Julho.

Uma vez, o lobisomem de Banco da Vitória começou a atacar os quintais das casas e em poucos dias mais de 30 galinhas desapareceram na localidade. Nesta investidas a fera noturna também atacava os cachorros, mas este não eram levados. A fera metade homem metade lobo somente levava as galinhas gordas.

Depois de uma semana de horror noturno e sumiços das galináceas provocados pelo tal lobisomem, Cabo Jonas encabeçou uma ronda noturna formada por mais de 10 homens, todos armados de facões, foices e até espingardas e durante as madrugadas esta trupe armada varria o Banco da Vitória de ponta a ponta, em busca do tal lobisomem também ladrão de galinha.

Uma noite de lua cheia a Volante de Cabo Jonas foi chamada a Rua Duque de Caxias, onde o tal lobisomem atacara o galinheiro de dona Romana. Ali, homens armados com facões e pilungas enxotaram o tal homem lobo e correram atrás da fera pela rodagem até depois da União, onde o bicho desapareceu no rio.

No dia seguinte Cabo Jonas desfilou como vencedor pelas ruas de Banco da Vitória e o Nego Nide nunca mais falou com ele. Foram inimigos até morrerem.

Havia quem dissesse que Cabo Jonas foi também requisitado para atuar nessa atividade nas localidades do Rio do Braço, Sambaituba, Couto e na Proa. Em todas investidas o lobisomem local desapareceu e Cabo Jonas engrandeceu-se em fama.

Um dia Pica-pau, filho de Agenor Bolacha, tomou umas canas a mais e bêbado se jogou em pleno meio dia na encruzilhada da praça Guilherme Xavier. Ali, nu e louco, Pica-pau uivava, imitava relinchos de cavalos e se jogava no chão, ralando as costas nos paralelepípedos e gritava:

– Eu sou o lobisomem desta bosta. Vou virar bicho agora. Vem me pegar! Vem.

Em menos de dez minutos dezenas de pessoas assistiam a encenação de Pica-pau e sua auto mutilação.

Não demorou e chegou seu pai, Agenor Bolacha, trazendo nas mãos um chicote feito de vergalho de boi. Agenor deu duas chulapadas nas costas de Pica-pau e este correu feito um doido para a beirada do rio, onde foi curar das dores nas costas, da cachaça desgraçada e da maldita ideia de virar lobisomem em pleno meio-dia.

Virar trabalhador este vagabundo não quer. Agora virar lobisomem em pleno meio dia, ele quer. Fumegava Agenor Bolacha;

Nesta mesma noite, no bar de Xisto Gomes, Cabo Jonas encontrou Agenor Bolacha e tentou acalmá-lo:

– Agenor, não faça isso mais não. Apanhar de vergalho de Boi dói muito. O pobre Pica-pau está todo estropiado. Imagina se eu fosse fazer isso para expulsar o lobisomem das costas de Nego Nide. Dei uma carreira nele e você viu o que aconteceu. Nunca mais lobisomem em Banco da Vitória.

Agenor Bolacha, ainda enfezado olhou assustadoramente para Cabo Jonas e disse:

– Duas chamadas de vergalho de boi nas costas cura lobisomem. Três, cura pai de santo mentiroso e quatro faz até saci-pererê correr com uma perna só.

Cabo Jonas olhou seriamente seu interlocutor e com um relógio quebrado no pulso indagou: Xisto Gomes, ver se já deu nove horas ai? Vou pra casa. Tá na hora do meu engrossante. Afinal hoje é sexta-feira, tem lua cheia no céu e o lobisomem, pelo jeito, não vai mais aparecer por aqui. Já o capeta, pelo visto, parece que que estar rondando estas bandas desde o meio-dia. Credo em cruz! Boa noite e fui!

Depois daquela noite nenhum lobisomem foi mais visto em Banco da Vitória. Pica-pau se mudou para Vila Cachoeira e Nego Nide deixou de beber para sempre.

31 – O Fim das Fofoqueiras de Banco da Vitória.

Uma das coisas que o tempo, do seu jeito e modo, se encarregou de quase acabar foram as fofoqueiras. Atualmente, com o advento da Internet e das Rede Sociais as fofoqueiras quase e não tem mais o que fazer, pois quando vão contar um boato, um mexerico novo, todo mundo já sabe. Pode-se acreditar que as fofoqueiras e fofoqueiros estão com os dias contados. Todavia, antigamente, em Banco da Vitória tinha fofoqueiras respeitadas, quase profissionais nas artes das intrigas e dos boatos.

Nas barrancas molhadas pelas marés atlânticas no Rio Cachoeira havia algozes fofoqueira, – mas temidas que as feiticeiras locais. As fofoqueiras eram também classificadas como bisbilhoteiras, mexeriqueiras, intrigantes, leva-e-traz, boateiras, devassas, linguarudas, faladeiras, indiscretas e levianas.

Dizia-se no Nordeste brasileiro que o povo aumenta mas não inventa. Isso, em Banco da Vitória, nunca funcionou. As boateiras inventavam estórias descabidas e mirabolantes, mas com fortes argumentos de veracidade. Aumentavam os tons das desgraças humanas, mudavam os cenários dos fatos, acrescentavam novas personagens e massacravam seus inimigos.

Por conta de boatos e fofocas muitas moças apanhavam dos seus pais, sem merecerem nem mesmo um simples arranhão. Namorados se separavam, casais brigavam, colegas perdiam as velhas amizades, vizinhos deixavam de se falarem. Tudo isso por conta da sanha tenaz das fofoqueiras.

Antigamente, havia até o dia dos surgimentos das fofocas e boatos. Eram as segundas-feiras. Nestes dias, as fofoqueira faziam um apanhado do que tinha ocorrido no final de semana e regado de grandes criatividades, azeitavam suas fofocas e intrigas. O disse-me-disse corria solto neste dia e de vez em quando uma fofoqueira caia no tapa, recebia dois panos de facão nas costas ou até mesmo uma homérica surra. No dia seguinte a delegacia de Ilhéus estava cheia dos envolvidos nas fofocas e intrigas e até advogados eram requisitados nas acusações de falsos testemunhos, difamação e outros flexões do Direito.

Na boca da fofoqueiras locais moças virgens se tornavam mulheres damas. Homens casados e honestos viravam traidores costumazes. Donas de casa trabalhadeiras e direitas viravam preguiçosas e sujas e, de del em del muita gente via a reputação ir de água a baixo. Em Banco da Vitória, a fofoca estragou a vida de muita gente.

Alguns bêbados locais, quando já zimbrados nos efeitos etílicos elegiam as maiores fofoqueiras da localidade. Normalmente eram primeiro escolhida a fofoqueira de cada rua. Depois se classificavam as três principais fofoqueiras do então distrito de Ilhéus. Os cargos eram concorridos, mas merecedores.

Por anos de mais anos, uma senhora local recebeu o título de a maior fofoqueira de Banco da Vitória e redondezas. Mulher de poucas amizades, viveu a vida inteira fazendo intrigas e boatos. Por conta disso, foi a única defunta que foi enterrada no nosso cemitério em dois caixões. Em um caixão pequeno foi seu corpo. No outro, maior, foi sua língua. Que Deus a tenha perdoado de tantas intrigas, mexericos e boatos. Se isso não aconteceu, Satanás tem péssima companhia.

Graças a Deus, não temos em Banco da Vitória mais fofoqueiras como antigamente e as poucas pessoas que atualmente tentam viver no leva-e-traz, não fazem nem cócegas quando comparadas as antigas e temíveis fofoqueiras locais.

Em Banco da Vitória as fofoqueiras se findaram. Há quem acredite o contrário. Mas isso deve ser apenas boatos de quem não tem o que fazer.