Defuntos no Banguê e a Ladeira do Descansa Caixão.

rede 2Por Roberto Carlos Rodrigues.
 
Antigamente os mortos das regiões rurais de Banco da Vitória eram conduzidos das suas casas até o cemitério da localidade em um tipo de transporte chamado Rede de Banguê. Normalmente, nessas ocasiões, se cortava um pau de Biriba com aproximadamente três metros de comprimento e neste era pendurada uma rede, onde era transportado o morto. Dois homens fortes se encarregavam de conduzir a rede com o defunto e o pau apoiado nos ombros. Ao longo do caminho até o cemitério, os carregadores se reversavam no transporte do morto.
 
Quando o defunto era das regiões de Maria Jape, Japu, Beco, Rio do Engenho, Demanda ou Repartimento, este era conduzido no banguê até a beira do rio Cachoeira, onde era colocado em uma canoa e posteriormente, na Pedra de Guerra, transferido para um caixão de defunto.
 
Quando o féretro vinha da região norte da localidade de Banco da Vitória, de Morro do Miliqui, Lava-pés e Lava-pés de Baixo, por exemplos, o morto era conduzindo no banguê até o meio da ladeira da Alto da Santa Clara, onde em uma pedra localizada a esquerda dessa ladeira, era colocado em um caixão de defunto. Daí o nome deste local ser também conhecido em Banco da Vitória como Ladeira do Descansa Caixão.
 
Como descritos nos anais da cidade de Ilhéus, desde o meado do século XVIII só era permitido no município sul baiano o sepultamento por meio de caixão de defuntos. Para as pessoas carentes ao governo municipal oferecia gratuitamente o caixão de defunto. Para os escravos não se aplicavam este critério. Normalmente estes eram sepultados nos confins das fazendas e sesmarias, envoltos apenas de sujos lençóis. Mesmo anos depois da abolição da escravatura no Brasil, muitas cidades proibiam o sepultamento de negros nos cemitérios municipais. Acredita-se que este critério racista só foi mudado a partir da segunda década do sédulo XX.
 
Apesar da rede de carregar defunto ser chamada de banguê na região de Banco da Vitória, na verdade, este termo era conhecido no Brasil afora como identificador de um tipo de transporte feito com madeiras e couros, utilizado para carregar os restos de canas de açúcar, usando para tal tarefa a força de dois escravos. O banguê dos engenhos de açúcar era carregado pelas mãos dos homens. Já a rede de banguê era carregada nos ombros destes.
 
A rede de Banguê era também utilizada nessa região ilheense para transportar doentes, das suas casas até os postos médicos e hospitais. Naquela época, quando uma pessoa chegava viva ao Banco da Vitória, sendo carregada na rede de banguê, logo se sabia que a doença era grave. Por conta disso, o termo Rede de Banguê, era, para aquele povo ribeirinho, quase uma extrema-unção.
 
Antigamente a Ladeira do Descansa Caixão era um local assombrado em Banco da Vitória. Hoje, esta via de acesso ao Alto da Santa Clara é apenas um aplausível mirante. Agora, vivos e mortos são transportados em reluzente e potentes veículos. Banguê? nunca mais.
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