Defuntos no Banguê e a Ladeira do Descansa Caixão.

rede 2Por Roberto Carlos Rodrigues.
 
Antigamente os mortos das regiões rurais de Banco da Vitória eram conduzidos das suas casas até o cemitério da localidade em um tipo de transporte chamado Rede de Banguê. Normalmente, nessas ocasiões, se cortava um pau de Biriba com aproximadamente três metros de comprimento e neste era pendurada uma rede, onde era transportado o morto. Dois homens fortes se encarregavam de conduzir a rede com o defunto e o pau apoiado nos ombros. Ao longo do caminho até o cemitério, os carregadores se reversavam no transporte do morto.
 
Quando o defunto era das regiões de Maria Jape, Japu, Beco, Rio do Engenho, Demanda ou Repartimento, este era conduzido no banguê até a beira do rio Cachoeira, onde era colocado em uma canoa e posteriormente, na Pedra de Guerra, transferido para um caixão de defunto.
 
Quando o féretro vinha da região norte da localidade de Banco da Vitória, de Morro do Miliqui, Lava-pés e Lava-pés de Baixo, por exemplos, o morto era conduzindo no banguê até o meio da ladeira da Alto da Santa Clara, onde em uma pedra localizada a esquerda dessa ladeira, era colocado em um caixão de defunto. Daí o nome deste local ser também conhecido em Banco da Vitória como Ladeira do Descansa Caixão.
 
Como descritos nos anais da cidade de Ilhéus, desde o meado do século XVIII só era permitido no município sul baiano o sepultamento por meio de caixão de defuntos. Para as pessoas carentes ao governo municipal oferecia gratuitamente o caixão de defunto. Para os escravos não se aplicavam este critério. Normalmente estes eram sepultados nos confins das fazendas e sesmarias, envoltos apenas de sujos lençóis. Mesmo anos depois da abolição da escravatura no Brasil, muitas cidades proibiam o sepultamento de negros nos cemitérios municipais. Acredita-se que este critério racista só foi mudado a partir da segunda década do sédulo XX.
 
Apesar da rede de carregar defunto ser chamada de banguê na região de Banco da Vitória, na verdade, este termo era conhecido no Brasil afora como identificador de um tipo de transporte feito com madeiras e couros, utilizado para carregar os restos de canas de açúcar, usando para tal tarefa a força de dois escravos. O banguê dos engenhos de açúcar era carregado pelas mãos dos homens. Já a rede de banguê era carregada nos ombros destes.
 
A rede de Banguê era também utilizada nessa região ilheense para transportar doentes, das suas casas até os postos médicos e hospitais. Naquela época, quando uma pessoa chegava viva ao Banco da Vitória, sendo carregada na rede de banguê, logo se sabia que a doença era grave. Por conta disso, o termo Rede de Banguê, era, para aquele povo ribeirinho, quase uma extrema-unção.
 
Antigamente a Ladeira do Descansa Caixão era um local assombrado em Banco da Vitória. Hoje, esta via de acesso ao Alto da Santa Clara é apenas um aplausível mirante. Agora, vivos e mortos são transportados em reluzente e potentes veículos. Banguê? nunca mais.
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A Morta-viva do Rio Cachoeira

enterro-2Por Roberto Carlos Rodrigues

Parece fácil a vida de um cronista que resolve reviver a memória do seu povo e de sua aldeia. Mas não é. Muitas vezes os fatos acontecem e as pessoas simplesmente esquecem ou fingem quem não sabem dos ocorridos. A estória que vou descrever agora aconteceu em Banco da Vitória, no início da década de sessenta do século passado e, graças a Deus, muita gente ainda está vivinha da silva para comprovar que não minto, ou que é fruto da minha imaginação. Naqueles dias, em Banco da Vitória uma mulher dada como morta, reviveu em pleno ato fúnebre.

Foi exatamente em um domingo de Feira em Banco da Vitória que chegou a notícia da morte de Dona Maria D’ajuda, mulher de um trabalhador da fazenda Porto Novo e moradora da localidade chamada O Beco.

O Beco ficava nas margens do rio Cachoeira, em terras da fazenda Porto Novo. Era um arruado com poucas casas que serviam de moradias para as famílias dos trabalhadores dessa fazenda. Não havia mais de duas dezenas de casas na localidade. Havia ali um grande armazém de cacau e diversas barcaças, Além de um campo de futebol, uma bodega e um pequeno porto fluvial.

Dona Maria D’ajuda, a morta, morava ao lada da casa de Dona Maria José, essa, era mãe de Siri, excepcional jogador de futebol de Banco da Vitória e foi quem primeiro socorreu a amiga. Mas não teve jeito, a vizinha veio a óbito.

Na tarde daquele domingo e na boquinha na noite daquele dia várias canoas cheias de pessoas saíram de Banco da Vitória para o velório da mais que querida Dona Maria D’ajuda. Provavelmente mais de cinquenta pessoas da localidade foram “beber a morta” em sua residência. Entre as pessoas que se dirigiram para o velório estava o aleijadinho Tonho de Zefa Galega, famoso rezador de exéquias. Tonho era figura mais que importante em todos os velórios da região. Quando alguém morria, Tonho se apresentava na casa do defunto. Sentava ao lado do morto e rezava, sem parar a Oração dos Falecidos.

Tonho de Zefa Galega foi um dos primeiros que chegou ao velório de Dona Maria D’ajuda. Antes de iniciar suas orações, abasteceu o bucho, tomou duas xícaras de café com leite, comeu bolo de puba e uns pedaços de cocada. Depois, com suas duas muletas se dirigiu para sala, sentou-se ao lado da morta e começou sua oração, que duraria até a hora do sepultamento, no cemitério de Banco da Vitória.

O velório de Dona Maria D’ajuda seguiu como os outros. O rezador na cabeceira do morto, os bêbados contando casos na frente da casa e meia dúzia de parente choramingando nos becos da casa.

No dia seguinte, as quatro horas da tarde o caixão da defunta foi colocado no batelão, a maior canoa da fazenda, e Tonho com suas muletas foi colocado na mesma embarcação. Nesta canoa grande três homens fortes remavam e além da morta vinham o marido da falecida mais uma vizinha. Ao todo, mais de trinta canoas acompanhavam o cortejo fúnebre que subia o rio Cachoeira.

Tonho de Zefa Galega nascera com os pés atrofiados e só consegui andar amparado por suas muletas. Ele tinha, na época do ocorrido, uns sessenta e poucos anos de idade. Era um homem pequeno e magro, tinha os olhos miúdos e no rosto galego havia um pequeno bigode. Homem de poucas brincadeiras, era raro vê-lo sorrindo.

Mas voltando ao caso da morta, o cortejo fúnebre vinha tentando vencer as águas da maré de março que inundavam o rio Cachoeira dando-lhe beleza excepcional, quando o fato estranho aconteceu. Quando as embarcações cruzaram bem em frente a Bica da água Boa, se ouviu umas pancadas dentro do caixão de defunto. A princípio, acreditou-se ser barulhos dos remos batendo na canoa. Mas não era. Era a dita como morta.

A morta não estava morta e como quem acorda de um pesadelo, ela deu um forte chute na tampa do caixão e como quem procura o ar, Dona Maria D’ajuda se sentou e deu um tremendo grito. Um dos remadores da canoa com o caixão de defunto, ao ver aquela cena se assustou e se jogou na água. O outro o seguiu. O terceiro remador tentou ainda aprumar a canoa, mas de medo, não conseguiu. Pulou também na água e então a canoa virou.

O marido da morta-viva pulou para um lado, o caixão caiu para o outro. As pessoas se assustaram nas canoas que vinham acompanhando o cortejo fúnebre e várias também afundaram. A gritaria foi geral. Muitas mulheres caíram nas águas e se afogavam. Os homens, vendo as cenas horríveis de possíveis mortes coletivas, se jogaram nas águas e foram socorrê-las. O marido de Dona Maria D’ajuda, mergulhou e foi atrás da sua esposa, que não sabia nadar. A encontrou se afogando ainda dentro do caixão emborcado. Salvou-a.

Em poucos minutos água do rio Cachoeira ficou repleto de flores e velas e várias pessoas foram socorridas e levadas para as pedras da beira do rio. Homens, meninos e mulheres que sabiam nadar se jogaram na água e tentaram salvar o máximo de pessoas. Contudo, muita gente, na verdade, se jogou na água e nadou afoitos para as margens do rio com medo da morta-viva. Dois remadores da canoa que trazia a morta nadaram feitos torpedos, alcançaram a margem direita do rio Cachoeira e entraram na mata gritando feitos loucos. Quatrocentos metros de mata a dentro eles pararam debaixo de uma velha jaqueira e tentaram recuperar o fôlego.

– O que foi aquilo? O que foi aquilo meu Deus? Questionou o homem assustado e com os olhos esbugalhados.

– Eu não sei. Eu não sei. Disse o outro. – Só sei que a morta deu um grito da peste e me assustou. Pulei na água, nadei feito um louco e corri a até aqui sem olhar para trás. Nunca sentir tamanho medo na minha vida. Dona Maria D’ajuda deu um grito infernal naquele caixão de defunto. Quase me matou de susto. Tô com o coração na garganta. Disse o outro se escorando na jaqueira.

– Oh! meu Deus! Oh! meu Deus! Disse o outro medroso. A mulher não estava morta! Como pode morto se levantar e gritar, como fez Dona Maria D’ajuda?

– E eu sei lá. Respondeu o outro. – Só sei que quase morri de susto. Lá eu não volto não. A mulher reviveu. Será? Disse se agachando nas raízes da grande jaqueira.

– A canoa virou com o caixão de defunto e tudo. Disse o outro, ainda tremendo de medo. – Não sei como que aconteceu aquilo… – Oh! meu Deus! Quase gritou o homem. – O meu Deus! Disse o homem se levantando e colocando as mãos na cabeça, indagando: – E o rezador? O pobre aleijadinho que estava na canoa da defunta. Será que salvaram ele? Será que aquele condenado sabia nadar?

Do alto da jaqueira, quase do último galho se ouviu uma voz:

– Condenado é a senhora sua mãe. Eu sei nadar e sei correr também muito bem. Disse o aleijadinho, todo molhado e com as duas muletas penduradas nos galhos da jaqueira.

Os dois homens nem procuraram certificar quem falava em cima da árvore. Gritaram de medo e voltaram a correr no meio da mata. Aquele não era um dia bom. Sabiam.

Em Banco da Vitória, a fantástica fuga do rezador, o aleijadinho Tonho de Zefa Galega ficou mais famosa que a revida de Dona Maria d’ajuda. Que muitos anos depois, morreu de verdade.

No dia da revida da morta-viva ninguém morreu afogado no rio cachoeira.

Naquele trágico dia, muita gente em Banco da Vitória chegou em casa cagado e mijado. Mais isso já é uma outra história.

Chupa Brasa – O Temível molho de pimenta de Banco da Vitória.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

pimenta 2Como era bem sabido por todos os ribeirinhos e matreiros do sul da Bahia, as crianças de Banco da Vitória aprendiam comer pimentas assim que largavam as mamadeiras de vidro. Era comum naquela época encontrar os barrigudinhos daquelas barrancas lascando nos dentes pedaços de carne de jabá assada na brasa, lambuzada com farinha e pincelada no molho de pimenta doce – para ir treinando os buchos infantis.

Meninos e meninas do antigo Banco da Vitória comiam de tudo que pudesse passar pelas gargantas. Siris, camarões, moreia, caruru, pacas, jacarés, miolo de boi, buchada de bode, carne de pescoço de boi, enfim, comia-se de tudo, desde que fossem acompanhado de duas iguarias culinárias: farinha de mandioca e molho de pimenta.

Nos quintais das casa de Banco da Vitória não podiam faltar pés de pimentas. Eram pimenteiras repletas de Malagueta, Dedo-de-Moça, Cumari, De Cheiro, de Bode, Chapéu-de-Frade, Biquinho e Do Reino.

As pimentas temperavam pratos cozidos, assados, crus e até frutas. Uma coisa era certa: no antigo distrito de Ilhéus não se comia sem pimentas – e farinha – é claro.

Cada casa tinha uma cumbuca para fazer o molho de pimentas frescas. Dentro dos armários ficavam as pimentas em conservas e nos quintais centenas de pimentas penduradas em cheirosas e brilhantes pimenteiras.

Contudo, dos molhos de pimentas de Banco da Vitória, o mais temível era o alquímico cozido feito pela viúva dona Alzira da Beirada. O molho do capeta era chamado de Chupa Brasa e tinha motivos de sobra para ser admirado por uns e malvisto por tantos outros.

Dona Alzira da Beirada era uma pequena agricultora que nos finais de semana vendia temperos na antiga feira de Banco da Vitória e entre seus produtos estavam as famosas garrafas de meio litro com o caldo do vulcão do diabo. Era o famoso molho Chupa Brasa.

O produto era tão cobiçado que precisava ser encomendado e normalmente as 20 garrafas trazidas para a feira dominical eram logo vendidas.

O molho Chupa Brasa era famoso em todo sul da Bahia, e se dizia que mais de uma dúzia de gulosos já tinham morrido tentando provar beber uma colher cheia do tal condimento.

Zé de Lidão morrera no bar de João Ruim, depois de comer um prato de fatada regado com duas colheres do temível Chupa Brasa. Assisinho, filho do fiscal Jonatas Oliveira, foi parar no hospital, com um soluço intermitente depois de comer uma peixada também lambuzada no Chupa Brasa. Quase morreu. Dona Filomena Gouvêa quase perdeu os lábios por causas das queimaduras provocadas pelo tal molho de pimenta.

Histórias de pessoas que sofreram de dores de estômago, fígado e no ânus (provocadas por loucas hemorroidas) após comeram o tal molho de Dona Alzira da Beirada não faltavam na feira de Banco da Vitória.

A dona da receita do molho dizia para seus clientes:

– Pinga uma gota só no prato e dilui na água de limão, para não perder a comida. Esse molho é forte feito o cabrunco. Mata a sogra e sogro. Mata qualquer um que for guloso. Falava sorrindo a vendedora.

Quando perguntada sobre a receita do temível molho Chupa Brasa. Dona Alzira desconversava e dizia:

– O segredo está na quantidade exata das pimentas. São 77 de cada tipo. 7 tipos de pimentas. 539 motivos para arder e queimar as goelas. Matematizava alegremente mas não dava o segredo da tal iguaria para ser ingerido por machos com m maiúsculo.

O famoso molho de dona Alzira da Beirada não podia faltar nas mesas dos fazendeiros de Ilhéus. Muitos usavam o tal condimento para desafiar convidados para os almoços e jantares. Mas poucos comilões se atreviam ir além da dose recomendada pela feirante de Banco da Vitória.

Um dia, já tomada pela idade avançada e cansada da lida na roça, Dona Alzira adoeceu e se acamou. Os temperos foram sendo vendidos pelas filhas e netas, mas ninguém conseguia replicar a receita do molho Chupa Brasa. A freguesia domingueira da feira de Banco da Vitória sofreu com a falta que fazia Dona Alzira da Beirada e seu famoso molho, o temível e arredio Chupa Brasa.

Libório Cruz, cachaceiro e conversador dos bares e bodegas de Banco da Vitória, alardeava que sabia qual era o segredo do molho de pimentas de dona Alzira.

– Eu sei. Eu sei. Só não conto porque jurei segredo a minha madrinha. Nem as filhas dela sabem. Só eu sei. E não conto para ninguém, em respeito à minha dinda, que tá tão doente, mas nas mão de Deus. Alardeava o bêbado.

– Se eu quisesse, iria ficar rico com a receita do molho Chupa Brasa. Ia ficar bilionário. Mas, sou homem de palavra. Não conto para ninguém. Eu sei mas não conto. Não adianta perguntar. Falava o bebum escorado no balcão seboso da bodega Alvorada, na esquina da Rua do Campo.

Dona Alzira da Beirada morreu e foi sepultada numa manhã calorenta de janeiro. No mesmo dia, no final da tarde, Libório Cruz entrou na bodega Alvorada, bebeu até quase perder as pernas e por fim disse para os tantos frequentadores do estabelecimento.

– Agora que minha madrinha tá morta e sepultada, eu posso contar o segredo do famoso molho Chupa Brasa. Minha madrinha cozinhava as pimentas malaguetas na urina dela. Ela aparava o mijo da semana inteira no pinico de metal e guardava o azougue num tonel no fundo da casa e na hora de cozinhar o molho de pimentas ela regava o caldeirão com o liquido cáustico do tonel.

Era mijo fermentado o segredo daquele ardor do cão. Mijo. É mijo de velha. Esse era o segredo do Chupa Brasa. Tá revelado.

Em Banco da Vitória. Muita gente não acreditou nas revelações do bêbado Libório Cruz. Mas por via das dúvidas, nos dias seguintes, várias garrafas do temível Chupa Brasa foram jogadas fora.

A verdadeira receita e os segredos do temível molho de pimentas morreram junto a sua criadora. O Chupa Brasa saiu do cardápio daquela gente. As comidas ficaram mais doces em Banco da Vitória.

A Ilhéus da Minha Época

alcidesPor Alcides Kruschewsky

Eu nasci em 09 de abril de 1960, na rua D. Eduardo, número 25, no centro. Hoje, alguns a chamam de “Beco do Vezúvio”. O parto aconteceu no quarto de meus avós Alcides e Hilda. Enquanto minha avó Elvira, mulher de vovô Zuca Bastos(ambos emprestados de tio Guiga) adentrava o quarto com uma tesoura a querer cortar o meu umbigo, para desespero dos presentes, meu pai, que saiu em tresloucada correria na busca de Doutor Moura Costa, caía da lambreta. Só depois, minha mãe e eu fomos levados à maternidade Santa Isabel para cuidados e observações.
Quando me dei por gente, comecei a entender ao meu derredor e que esse arredor era o que chamamos de Ilhéus. Aqui, sempre perto da praia, esta era a extensão do nosso quintal e, as nossas casas se estendiam às calçadas. Aprendi a ler muito cedo, antes da idade escolar, com Diva Halla , na casa de seus pais, que do quintal até a frente, na rua Coronel Paiva, cercava literalmente, o Bar Maron. Era tudo divertido e ia para às aulas onde veria o relógio “cuco”, anunciando cada hora, inesquecíveis horas, com muita satisfação.

Passava na porta do Bar Maron e sempre cumprimentava Dona Lurdes, sentada à porta numa cadeira de lona diretor, aproveitando a brisa: – “ Boa tarde Dona Lurdes”! – “ Boa tarde , Alcidinho, como vai Silvinha e sua avó? Aproveitava para respirar fundo, sugando o delicioso aroma de quibe frito que exalava da cozinha magistral daquela senhora, esposa de Emílio Maron. Às vezes ela me parava para mandar algum mimo para minha avó e, às vezes, eu ia levar-lhe flores que vinham do Rio do Braço, dos jardins de Vovó. Essa troca de gentilezas era comum, Ilhéus era assim.

A “minha rua”, e isto quer dizer mais do que rua, uma turma de amigos, quarteirões de gente que se conhece, posso afirmar, era a maior e melhor do mundo, pois era quase do tamanho da cidade, um território. Marcávamos esses postes, como fazem os cachorros, com xixi. Corríamos essas ruas, ladeiras, morros e praias de pés descalços e passeávamos de trem, barcos, velhos ônibus ou de bicicletas, algumas reformadas, nos trinques. Dominávamos as praias, suas ondas e correntes com a habilidade inata dos praianos.

Então, em minha memória, como na de tantos, estão rostos, nomes, costumes, expressões e lugares. E isso é Ilhéus! Continuar lendo

A Seca enfezada da molesta do cachorro.

rios secoPor Roberto Carlos Rodrigues.

Só quem viveu, viu a seca enfezada da molesta do cachorro em Banco da Vitória. As matas, antes resplandecentes e luminosas, todas mescladas de todos os tons escuros dos verdes e perfumada pelos borrifos diários do calor úmido das terras, empalideceram, amarelaram e secaram igual as folhas de um velho chuchuzeiro cortado na tora e jogado no terreiro, barcaça sob o sol.

Antes chovia todos os dias por essas bandas. De manhãzinha, logo depois dos primeiros lumes do Astro-Rei, vinha uma chuvarada vezeira regar o cacaual, molhar as beiradas dos rios e refrescar os capins nas margens dos brejos. Todos anos, nos meses de agosto a outubro chovia sem dada dó nem piedade. Em setembro a primavera era sempre molhada e até o final do ano as enchentes eram quase semanais. Raros eram os festejos da Padroeira de Nossa Senhora da Conceição em que o rio Cachoeira não estivesse caudaloso e demasiadamente cheio.

Antes dessa seca da enfezada da molesta do cachorro, por todo canto se via o verde da Mata Atlântica e debaixo deste cobertor natural o cacau explodia em frutos e sonhos.

A terra escura, berço dos cacauais, era úmida por mais de cinco palmos de profundidade. Por todo canto havia um roçado, uma burara, um sitiozinho. O aroma do cacau pairava por todos os ventos. Continuar lendo

Lançamento: livro Prosas e Causos de Banco da Vitória. (Versões em PDF e áudio (MP3).

Lançamento: livro Prosas e Causos de Banco da Vitória. (Versões em PDF e áudio (MP3).CAPA 1 N1.jpg

Agora você pode relembrar as divertidas prosas e causos de Banco da Vitória contadas por Roberto Carlos Rodrigues em duas formas: (1) – Arquivo PDF (para ler no seu computador ou tablet (e imprimir, se quiser!) e (2) – em arquivos de áudio (MP3), para você poder ouvir no seu celular, no carro, no som da sua casa ou no PC.

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A Tabaca de Luiza Preta

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Por Roberto Carlos Rodrigues

Chamava-se Maria Luiza dos Santos. Mas era conhecida como Luiza Preta. Mulher pequenina, de pernas e braços finos, pés diminutos, corpo franzino, cabeça pequena e olhos miúdos. O cabelo pixaim estava sempre escondido sob os lenços coloridos. O sorriso era fulminantemente branco e espontâneo. Dizia ser das bandas de Cachoeira de São Felix, nas fraldas do Recôncavo Baiano. Chegou ao Banco da Vitória num domingo de feira na Praça Guilherme Xavier. Passou quase invisível no meio da multidão que comprava e vendia tantas mercadorias. Luiza e seus quatros filhos mendigaram na feira e dormiram de barriga cheia – coisa rara nos últimos dias. Naquele dia ela jurou perante a igreja de Nossa Senhora da Conceição – Deste lugar eu não saio mais nunca. Infelizmente não pode cumpri a promessa.

Na segunda-feira seguinte já estava lavando roupas de ganho no rio Cachoeira. Na quarta-feira já estava dormindo num barraco emprestado e em pouco tempo se transformou em Luiza Preta de Banco da Vitória, a Luiza mais amada do nosso povoado.

Mulher trabalhadeira sem igual, Luiza Preta lavava roupas, remendava lonas de caminhões, fazia cangalhas, cortava taboas e fazia esteiras. Fazia também redes de pescas e jererés, rendava caçuás, cortava lenha na mata, carregava água em latas na cabeça. Na verdade, “se virava” de todos os jeitos e modos para alimentar seus filhos.

Em pouco tempo fez um barraco de taipa na Rua da Represa e lá foi morar com suas crias. Logo começou a vender doces e quitutes na feira de Banco da Vitória. Eram doces de jenipapo, carambola, groselhas, araçás, goiabas e a famosa cocada preta chamada Tabaca de Luiza Preta. Luíza chamava seu doce de cocada preta, mas meu pai Carrinho, amante primaz da iguaria de Luiza, botou o nome de Tabaca de Luiza Preta. Carrinho argumentava que o doce tinha razões para ser assim chamado: – a iguaria era pequenina, preta feito betume, gostoso e irresistível e era impossível comer uma só. Meu pai comprava uma dúzia dessa cocada e comias ainda pelas manhãs.

Luiza Preta gostou da propaganda que os feirantes faziam da sua cocada. Mas não a chamava de Tabaca de Luiza Preta. Dizia ser apenas “cocada de coco queimado. Durante a feira de Banco da Vitória era comum os feirantes gritarem: Luiza ainda tem Tabaca Preta aí?

Luiza sorria e mandava uns dos seus filhos entregar a iguaria.

O padre não gostava do nome da iguaria de Luiza Preta. As esposas de               Banco da Vitória reclamavam do nome pejorativo do doce (mas as comiam escondidos). Tinha gente que comprava a cocada preta só para poder chegar em casa e perguntar: – quem quer comer a Tabaca de Luiza Preta? A meninada em peso gritava: – EU!!. E o doce era consumido sobre lindos sorrisos e deliciosas brincadeiras.

Em pouco tempo a vida de Luiza Preta mudou por conta do seu quitute famoso. Todo domingo ela vendia centenas de cocadas pretas. Durante a semana seus filhos e filhas vendiam os quitutes nas ruas de Banco da Vitória.

Luiza Preta vivia sorrindo e alegre com o sucesso dos seus doces.

Forrozeira e festeira, no mês de junho de 1974, Luiza Preta foi passar os festejos juninos na sua terra natal. Lá chegou bem melhor do que saiu. Estava bem vestida, usava bolsa tiracolo reluzente, dinheiro no bolso. No seu cantinho de chão, ajudou amigos e parentes, comprou sapatos e roupas para os sobrinhos, fez uma festa na casa do seu irmão e comemorou o melhor São João da sua vida.

Mas isso não agradou todo mundo. Seu ex-marido, vestido de inveja e ciúmes, a assassinou no meio da festa junina. Luiza Preta foi esfaqueada e enterrada em Cachoeira São Felix. Ela jamais voltou ao Banco da Vitória.

A morte cruel de Luiza Preta azedou o Banco da Vitória. A feira local ficou triste e sem gosto e dizia-se por lá: – quem comeu a Tabaca de Luiza Preta, comeu. Quem não comeu, se fodeu.

Nenhum filho ou filha de Luiza Preta conseguiu refazer a receita do doce de nome pejorativo da sua mãe. Dias depois eles foram embora de Banco da Vitória. Ali jamais voltaram.

Quem mais sofreu com a morte trágica de Luiza Preta foi o lendário Courinho. Este de fato e via de provas “comeu” por muitos anos a verdadeira tabaca de Luiza Preta. Foram amantes felizes.

As Cores de Banco da Vitória.

bvPor Roberto Carlos Rodrigues.

A cor predominante em Banco da Vitória é azul. Este azul que cobre toda nossa comunidade, vem do céu de Deus. Temos o céu mais bonito do mundo. Asseguro. O azul do nosso céu côncavo escorre até os tons de verdes nas nossas matas e reflete nas águas do Rio Cachoeira. Aqui, lindo e resplandecente. Rio ressuscitado todos os dias pelas águas das marés atlânticas.

As nossas casas são todas coloridas e multicolores. Quanto mais colorida é a fachada da casa, mais feliz é a família que ali mora.

Em Banco da Vitória as cores cinza e marrom não têm vez. Aqui as matizes, tons e intensidades das cores imitam o arco-íris e refletem no sorriso branco, – quase em croma exato -, desse povo alegre.

O povo é amorenado. A cor dessa gente foi cozida no caldeirão das raças. Negros africanos, ameríndios, alemães, suíços, polacos, portugueses, árabes e turcos fizeram parte do tempero dessa gente festiva e trabalhadora.

As casas coloridas da nossa aldeia, em tons quase saturados, mostram a vitalidade dessa gente guerreira.

Quem passa pela Rodovia Jorge Amado e não entra na comunidade de Banco da Vitória não sabe o que está perdendo. Nas nossas ruas as cores das casas encantam e fazem nossos olhos sorriem em brilhos quase lagrimejais.

– Por que essas casas são tão coloridas? Perguntam sempre os visitantes e a resposta é sempre a mesma.

– Nossas casas expressam nossa felicidade. Responde qualquer morador. Alegre, por princípio.

Em Banco da Vitória, todos os dias o arco-íris enche suas latas de tintas e vai salpicar gotas de felicidade em diversos horizontes. Uns distantes, outros próximos, tão próximos, já nas fronteiras dos nossos corações.

Ferdinand Freiherr von Steiger-Mussinger: O Barão de Banco da Vitória

capa-1Por Roberto Carlos Rodrigues Parte do capítulo do livro Banco da Vitória – A História Esquecida.

Uma das personagens mais marcantes da história de Banco da Vitória foi o suíço Ferdinand Freiherr von Steiger-Mussinger ou Fernando de Steiger, como era conhecido entre os moradores do sul da Bahia (1825 – 1887). Steiger viveu a maior parte da sua vida na fazenda Vitória. Ele chegou a propriedade em 1851 para atuar como administrador e neste período teve início o grande ciclo de desenvolvimento econômico da ferdinand von steiger fotfazenda que chegou a ter mais de 120 escravos e grande produção de cana-de-açúcar, aguardente, farinha de mandioca, milho, feijão, café e cacau. Na propriedade também funcionava uma grande serraria. Ferdinand Steiger foi o último administrador da propriedade do seu tio por parte de mãe, Gabriel von May.

Ferdinand Freiherr von Steiger nasceu em Murten na Suíça em 15/07/1825. De acordo com os registros da Biblioteca da Burguesia de Berna, o seu nome de batismo era Ferdinand Karl Rudolf von Steiger, filho de Albert (IV) von Steiger (1788 – 1866) e Maria Frederike Karoline von Steiger (1791 – 1876), nascida May von Rued. O seu pai era um barão oriundo de uma das famílias da nobreza hereditária de Berna do Antigo Regime.

Seu pai era coronel das tropas de Nápoles. Na sua juventude Ferdinand foi cadete da academia militar de Berlin. Em 1843 ele ingressou como alferes (aspirante a oficial no 58º Regimento de Infantaria da Prússia, instalado em Deutz e foi transferido mais tarde como oficial do mesmo regimento para Colônia. Em 1846, em Berna, ele encontrou um parente de sua mãe, o Sr. May von Huniges, que possuía uma grande fazenda no Brasil, porém, por motivos de doenças não podia residir lá. Steiger aceitou a proposta de administrar a propriedade no Brasil, pediu baixa do regimento militar e veio para o sul da Bahia. Ferdinand chegou em Ilhéus em 1846, com apenas 21 anos de idade e cheio de planos para revolucionar a agricultura da região. No ano de 1851 ele já administrava o plantio da fazenda.

Ferdinand von Steiger ao assumir a Fazenda da Vitória como proprietário em 1857 (ele a comprou pela quantia de oitenta e dois contos de reis), fez nessas terras uma verdadeira revolução agrícola, implantando modernas técnicas de uso do solo e recursos naturais, como construção de barragens, sistema de irrigação e manejos de solos. Steiger administrou a fazenda da Vitória até a sua morte, que ocorreu no ano anterior ao da abolição da escravatura.

Em cartas enviadas aos parentes na Europa, Steiger referia-se à localidade de Banco da Vitória como “Vitória”. Contudo, nos documentos de envio e recebimento de produtos para sua propriedade constavam o endereço de Banco da Fazenda Vitória.

O arquiduque Ferdinand Maximiliano von Habsgurg (irmão do imperador da Áustria Franz Joseph I) quando visitou por sete dias a propriedade de Steiger em 17 de janeiro de 1860, disse haver uma placa de madeira em um ancoradouro do Arraial do Banco, com as palavras “Porto da Vitória”.

BV6O arquiduque Ferdinand Maxilimilian von Habsburg, que fez diversas andanças pelas terras da fazenda de Steiger, publicou depois, no ano de 1864 o livro Mato Virgem. Este livro, por sinal, é uma grande fonte de informações sobre os hábitos dos moradores de Banco da Vitória e os escravos da fazenda Victória, bem como excelentes relatos da fauna e flora local.

Na lida da fazenda Victória Steiger liderava um grupo de mais de 120 escravos e pouco mais de uma dezena de empregados.  Em cartas enviadas aos seus familiares na Suíça, Steiger descreve do seu relacionamento amigável com os escravos e a sua atuação como médico para a população de toda a região do arraial de Banco da Vitória. Relatava também o escriba da atuação da sua esposa na administração da fazenda e no trato com os escravos e empregados. Um bom exemplo de boa relação com os escravos da fazenda Victória, ver-se nas cartas do seu proprietário que dizia andar sempre desarmado entre os escravos e que jamais fora atacado por um deles, que ao contrário, tinha-lhe grande gratidão e apreço.

A fazenda Victória foi um dos primeiros laboratórios agrícolas da Bahia, onde Steiger realizava diversos estudos sobre as lavouras da fazenda (principalmente café, cacau e cana de açúcar), a fauna e a flora da região.

Todos esses estudos foram detalhadamente descritos em cartas enviadas aos seus parentes na Suíça e podem ser acessados no blog http://ferdinandvsteiger.blogspot.com.br/ (setembro de 2016).

Outras fontes biográficas de Ferdinand von Steiger encontram-se no artigo “Barão von Steiger”, publicado em 1939 por Ramiro Berbert de Castro, no Jornal Dom Casmurro e, no estudo “Introdução à biografia do barão Fernando de Steiger e fatos sobre sua família”, de André Paiva de Figueiredo (2016).

Ferdinand Von Steiger foi sepultado no “Bahia  A imagem abaixo mostra a entrada do Cemitério dos Estrangeiros localizado no  Largo do Campo Santo, no bairro da Federação, em Salvador -BA.

Sepultura de Ferdinand Von Steiger no “Bahia Fremdenfriedhof” - Cemitério dos Estrangeiro (ou Cemitério dos Alemães) em Salvador, BA. Foto de Dona Hortência Paiva. (Colaboração de André Paiva de Figueiredo).

Sepultura de Ferdinand Von Steiger no “Bahia Fremdenfriedhof” – Cemitério dos Estrangeiro (ou Cemitério dos Alemães) em Salvador, BA. Foto de Dona Hortência Magalhães Oliveira. (Colaboração de André Paiva de Figueiredo).

cmitério dos estrnageiros

Cemitério dos Estrangeiros (Salvador -A)

A Fazenda da Vitória foi vendida pelo alemão Hermann Lüssenhop a Hugo Kaufmann em 1926.

Atual planta da Fazenda Victória, pertencente aos Kaufmann. (imagem publicada o no blog “Correia Neles”, de Adelino França) e Portaria à margem da Rodovia Jorge Amado.

Localização atual da antiga sede da Fazenda Vitória:

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Encontradas cartas de Ferdinand von Steiger descrevendo o cotidiano da Fazenda Victória (entre os anos de 1866 a 1882).

Por Roberto Carlos Rodrigues.

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Saiba mais sobre Ferdinand Von Steiger aqui!

As pesquisas históricas sobre a comunidade de Banco da Vitória têm me levado as situações magníficas e surpreendentes. Nos últimos dias tenho empenhado bastante na correção e revisão do livro Banco da Vitória – A história Esquecida. Nesta labuta, durante minhas pesquisas na Internet encontrei relevantes informações num site que publicou diversas cartas de Ferdinand Von Steiger (proprietário da Fazenda Victória), escritas entre os anos de 1866 a 1882, e endereçadas aos seus familiares suíços.

O site traz as transcrições das cartas e as fotografias das mesmas.

Na leitura dessas cartas Steiger descreve detalhadamente diversos aspectos do cotidiano das fazendas Victória e Salgado (essa, nas margens do Rio Pardo).

As transcrições dessas cartas estão no idioma alemão. Mas, provavelmente o texto original foi escrito no idioma alemão falado em alguns cantões suíços como Schwyz, Obwald e Nidward.

Nessas missivas Ferdinand Steiger mostra-se um excelente detalhista de diversos aspectos como técnicas de plantios de café e cacau, análise de clima, fauna, flora, sistemas de desmatamentos, condições de combate as pragas, lida com os escravos e índios etc. Continuar lendo