Chupa Brasa – O Temível molho de pimenta de Banco da Vitória.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

pimenta 2Como era bem sabido por todos os ribeirinhos e matreiros do sul da Bahia, as crianças de Banco da Vitória aprendiam comer pimentas assim que largavam as mamadeiras de vidro. Era comum naquela época encontrar os barrigudinhos daquelas barrancas lascando nos dentes pedaços de carne de jabá assada na brasa, lambuzada com farinha e pincelada no molho de pimenta doce – para ir treinando os buchos infantis.

Meninos e meninas do antigo Banco da Vitória comiam de tudo que pudesse passar pelas gargantas. Siris, camarões, moreia, caruru, pacas, jacarés, miolo de boi, buchada de bode, carne de pescoço de boi, enfim, comia-se de tudo, desde que fossem acompanhado de duas iguarias culinárias: farinha de mandioca e molho de pimenta.

Nos quintais das casa de Banco da Vitória não podiam faltar pés de pimentas. Eram pimenteiras repletas de Malagueta, Dedo-de-Moça, Cumari, De Cheiro, de Bode, Chapéu-de-Frade, Biquinho e Do Reino.

As pimentas temperavam pratos cozidos, assados, crus e até frutas. Uma coisa era certa: no antigo distrito de Ilhéus não se comia sem pimentas – e farinha – é claro.

Cada casa tinha uma cumbuca para fazer o molho de pimentas frescas. Dentro dos armários ficavam as pimentas em conservas e nos quintais centenas de pimentas penduradas em cheirosas e brilhantes pimenteiras.

Contudo, dos molhos de pimentas de Banco da Vitória, o mais temível era o alquímico cozido feito pela viúva dona Alzira da Beirada. O molho do capeta era chamado de Chupa Brasa e tinha motivos de sobra para ser admirado por uns e malvisto por tantos outros.

Dona Alzira da Beirada era uma pequena agricultora que nos finais de semana vendia temperos na antiga feira de Banco da Vitória e entre seus produtos estavam as famosas garrafas de meio litro com o caldo do vulcão do diabo. Era o famoso molho Chupa Brasa.

O produto era tão cobiçado que precisava ser encomendado e normalmente as 20 garrafas trazidas para a feira dominical eram logo vendidas.

O molho Chupa Brasa era famoso em todo sul da Bahia, e se dizia que mais de uma dúzia de gulosos já tinham morrido tentando provar beber uma colher cheia do tal condimento.

Zé de Lidão morrera no bar de João Ruim, depois de comer um prato de fatada regado com duas colheres do temível Chupa Brasa. Assisinho, filho do fiscal Jonatas Oliveira, foi parar no hospital, com um soluço intermitente depois de comer uma peixada também lambuzada no Chupa Brasa. Quase morreu. Dona Filomena Gouvêa quase perdeu os lábios por causas das queimaduras provocadas pelo tal molho de pimenta.

Histórias de pessoas que sofreram de dores de estômago, fígado e no ânus (provocadas por loucas hemorroidas) após comeram o tal molho de Dona Alzira da Beirada não faltavam na feira de Banco da Vitória.

A dona da receita do molho dizia para seus clientes:

– Pinga uma gota só no prato e dilui na água de limão, para não perder a comida. Esse molho é forte feito o cabrunco. Mata a sogra e sogro. Mata qualquer um que for guloso. Falava sorrindo a vendedora.

Quando perguntada sobre a receita do temível molho Chupa Brasa. Dona Alzira desconversava e dizia:

– O segredo está na quantidade exata das pimentas. São 77 de cada tipo. 7 tipos de pimentas. 539 motivos para arder e queimar as goelas. Matematizava alegremente mas não dava o segredo da tal iguaria para ser ingerido por machos com m maiúsculo.

O famoso molho de dona Alzira da Beirada não podia faltar nas mesas dos fazendeiros de Ilhéus. Muitos usavam o tal condimento para desafiar convidados para os almoços e jantares. Mas poucos comilões se atreviam ir além da dose recomendada pela feirante de Banco da Vitória.

Um dia, já tomada pela idade avançada e cansada da lida na roça, Dona Alzira adoeceu e se acamou. Os temperos foram sendo vendidos pelas filhas e netas, mas ninguém conseguia replicar a receita do molho Chupa Brasa. A freguesia domingueira da feira de Banco da Vitória sofreu com a falta que fazia Dona Alzira da Beirada e seu famoso molho, o temível e arredio Chupa Brasa.

Libório Cruz, cachaceiro e conversador dos bares e bodegas de Banco da Vitória, alardeava que sabia qual era o segredo do molho de pimentas de dona Alzira.

– Eu sei. Eu sei. Só não conto porque jurei segredo a minha madrinha. Nem as filhas dela sabem. Só eu sei. E não conto para ninguém, em respeito à minha dinda, que tá tão doente, mas nas mão de Deus. Alardeava o bêbado.

– Se eu quisesse, iria ficar rico com a receita do molho Chupa Brasa. Ia ficar bilionário. Mas, sou homem de palavra. Não conto para ninguém. Eu sei mas não conto. Não adianta perguntar. Falava o bebum escorado no balcão seboso da bodega Alvorada, na esquina da Rua do Campo.

Dona Alzira da Beirada morreu e foi sepultada numa manhã calorenta de janeiro. No mesmo dia, no final da tarde, Libório Cruz entrou na bodega Alvorada, bebeu até quase perder as pernas e por fim disse para os tantos frequentadores do estabelecimento.

– Agora que minha madrinha tá morta e sepultada, eu posso contar o segredo do famoso molho Chupa Brasa. Minha madrinha cozinhava as pimentas malaguetas na urina dela. Ela aparava o mijo da semana inteira no pinico de metal e guardava o azougue num tonel no fundo da casa e na hora de cozinhar o molho de pimentas ela regava o caldeirão com o liquido cáustico do tonel.

Era mijo fermentado o segredo daquele ardor do cão. Mijo. É mijo de velha. Esse era o segredo do Chupa Brasa. Tá revelado.

Em Banco da Vitória. Muita gente não acreditou nas revelações do bêbado Libório Cruz. Mas por via das dúvidas, nos dias seguintes, várias garrafas do temível Chupa Brasa foram jogadas fora.

A verdadeira receita e os segredos do temível molho de pimentas morreram junto a sua criadora. O Chupa Brasa saiu do cardápio daquela gente. As comidas ficaram mais doces em Banco da Vitória.

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A Ilhéus da Minha Época

alcidesPor Alcides Kruschewsky

Eu nasci em 09 de abril de 1960, na rua D. Eduardo, número 25, no centro. Hoje, alguns a chamam de “Beco do Vezúvio”. O parto aconteceu no quarto de meus avós Alcides e Hilda. Enquanto minha avó Elvira, mulher de vovô Zuca Bastos(ambos emprestados de tio Guiga) adentrava o quarto com uma tesoura a querer cortar o meu umbigo, para desespero dos presentes, meu pai, que saiu em tresloucada correria na busca de Doutor Moura Costa, caía da lambreta. Só depois, minha mãe e eu fomos levados à maternidade Santa Isabel para cuidados e observações.
Quando me dei por gente, comecei a entender ao meu derredor e que esse arredor era o que chamamos de Ilhéus. Aqui, sempre perto da praia, esta era a extensão do nosso quintal e, as nossas casas se estendiam às calçadas. Aprendi a ler muito cedo, antes da idade escolar, com Diva Halla , na casa de seus pais, que do quintal até a frente, na rua Coronel Paiva, cercava literalmente, o Bar Maron. Era tudo divertido e ia para às aulas onde veria o relógio “cuco”, anunciando cada hora, inesquecíveis horas, com muita satisfação.

Passava na porta do Bar Maron e sempre cumprimentava Dona Lurdes, sentada à porta numa cadeira de lona diretor, aproveitando a brisa: – “ Boa tarde Dona Lurdes”! – “ Boa tarde , Alcidinho, como vai Silvinha e sua avó? Aproveitava para respirar fundo, sugando o delicioso aroma de quibe frito que exalava da cozinha magistral daquela senhora, esposa de Emílio Maron. Às vezes ela me parava para mandar algum mimo para minha avó e, às vezes, eu ia levar-lhe flores que vinham do Rio do Braço, dos jardins de Vovó. Essa troca de gentilezas era comum, Ilhéus era assim.

A “minha rua”, e isto quer dizer mais do que rua, uma turma de amigos, quarteirões de gente que se conhece, posso afirmar, era a maior e melhor do mundo, pois era quase do tamanho da cidade, um território. Marcávamos esses postes, como fazem os cachorros, com xixi. Corríamos essas ruas, ladeiras, morros e praias de pés descalços e passeávamos de trem, barcos, velhos ônibus ou de bicicletas, algumas reformadas, nos trinques. Dominávamos as praias, suas ondas e correntes com a habilidade inata dos praianos.

Então, em minha memória, como na de tantos, estão rostos, nomes, costumes, expressões e lugares. E isso é Ilhéus! Continuar lendo

A Seca enfezada da molesta do cachorro.

rios secoPor Roberto Carlos Rodrigues.

Só quem viveu, viu a seca enfezada da molesta do cachorro em Banco da Vitória. As matas, antes resplandecentes e luminosas, todas mescladas de todos os tons escuros dos verdes e perfumada pelos borrifos diários do calor úmido das terras, empalideceram, amarelaram e secaram igual as folhas de um velho chuchuzeiro cortado na tora e jogado no terreiro, barcaça sob o sol.

Antes chovia todos os dias por essas bandas. De manhãzinha, logo depois dos primeiros lumes do Astro-Rei, vinha uma chuvarada vezeira regar o cacaual, molhar as beiradas dos rios e refrescar os capins nas margens dos brejos. Todos anos, nos meses de agosto a outubro chovia sem dada dó nem piedade. Em setembro a primavera era sempre molhada e até o final do ano as enchentes eram quase semanais. Raros eram os festejos da Padroeira de Nossa Senhora da Conceição em que o rio Cachoeira não estivesse caudaloso e demasiadamente cheio.

Antes dessa seca da enfezada da molesta do cachorro, por todo canto se via o verde da Mata Atlântica e debaixo deste cobertor natural o cacau explodia em frutos e sonhos.

A terra escura, berço dos cacauais, era úmida por mais de cinco palmos de profundidade. Por todo canto havia um roçado, uma burara, um sitiozinho. O aroma do cacau pairava por todos os ventos. Continuar lendo

Lançamento: livro Prosas e Causos de Banco da Vitória. (Versões em PDF e áudio (MP3).

Lançamento: livro Prosas e Causos de Banco da Vitória. (Versões em PDF e áudio (MP3).CAPA 1 N1.jpg

Agora você pode relembrar as divertidas prosas e causos de Banco da Vitória contadas por Roberto Carlos Rodrigues em duas formas: (1) – Arquivo PDF (para ler no seu computador ou tablet (e imprimir, se quiser!) e (2) – em arquivos de áudio (MP3), para você poder ouvir no seu celular, no carro, no som da sua casa ou no PC.

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A Tabaca de Luiza Preta

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Por Roberto Carlos Rodrigues

Chamava-se Maria Luiza dos Santos. Mas era conhecida como Luiza Preta. Mulher pequenina, de pernas e braços finos, pés diminutos, corpo franzino, cabeça pequena e olhos miúdos. O cabelo pixaim estava sempre escondido sob os lenços coloridos. O sorriso era fulminantemente branco e espontâneo. Dizia ser das bandas de Cachoeira de São Felix, nas fraldas do Recôncavo Baiano. Chegou ao Banco da Vitória num domingo de feira na Praça Guilherme Xavier. Passou quase invisível no meio da multidão que comprava e vendia tantas mercadorias. Luiza e seus quatros filhos mendigaram na feira e dormiram de barriga cheia – coisa rara nos últimos dias. Naquele dia ela jurou perante a igreja de Nossa Senhora da Conceição – Deste lugar eu não saio mais nunca. Infelizmente não pode cumpri a promessa.

Na segunda-feira seguinte já estava lavando roupas de ganho no rio Cachoeira. Na quarta-feira já estava dormindo num barraco emprestado e em pouco tempo se transformou em Luiza Preta de Banco da Vitória, a Luiza mais amada do nosso povoado.

Mulher trabalhadeira sem igual, Luiza Preta lavava roupas, remendava lonas de caminhões, fazia cangalhas, cortava taboas e fazia esteiras. Fazia também redes de pescas e jererés, rendava caçuás, cortava lenha na mata, carregava água em latas na cabeça. Na verdade, “se virava” de todos os jeitos e modos para alimentar seus filhos.

Em pouco tempo fez um barraco de taipa na Rua da Represa e lá foi morar com suas crias. Logo começou a vender doces e quitutes na feira de Banco da Vitória. Eram doces de jenipapo, carambola, groselhas, araçás, goiabas e a famosa cocada preta chamada Tabaca de Luiza Preta. Luíza chamava seu doce de cocada preta, mas meu pai Carrinho, amante primaz da iguaria de Luiza, botou o nome de Tabaca de Luiza Preta. Carrinho argumentava que o doce tinha razões para ser assim chamado: – a iguaria era pequenina, preta feito betume, gostoso e irresistível e era impossível comer uma só. Meu pai comprava uma dúzia dessa cocada e comias ainda pelas manhãs.

Luiza Preta gostou da propaganda que os feirantes faziam da sua cocada. Mas não a chamava de Tabaca de Luiza Preta. Dizia ser apenas “cocada de coco queimado. Durante a feira de Banco da Vitória era comum os feirantes gritarem: Luiza ainda tem Tabaca Preta aí?

Luiza sorria e mandava uns dos seus filhos entregar a iguaria.

O padre não gostava do nome da iguaria de Luiza Preta. As esposas de               Banco da Vitória reclamavam do nome pejorativo do doce (mas as comiam escondidos). Tinha gente que comprava a cocada preta só para poder chegar em casa e perguntar: – quem quer comer a Tabaca de Luiza Preta? A meninada em peso gritava: – EU!!. E o doce era consumido sobre lindos sorrisos e deliciosas brincadeiras.

Em pouco tempo a vida de Luiza Preta mudou por conta do seu quitute famoso. Todo domingo ela vendia centenas de cocadas pretas. Durante a semana seus filhos e filhas vendiam os quitutes nas ruas de Banco da Vitória.

Luiza Preta vivia sorrindo e alegre com o sucesso dos seus doces.

Forrozeira e festeira, no mês de junho de 1974, Luiza Preta foi passar os festejos juninos na sua terra natal. Lá chegou bem melhor do que saiu. Estava bem vestida, usava bolsa tiracolo reluzente, dinheiro no bolso. No seu cantinho de chão, ajudou amigos e parentes, comprou sapatos e roupas para os sobrinhos, fez uma festa na casa do seu irmão e comemorou o melhor São João da sua vida.

Mas isso não agradou todo mundo. Seu ex-marido, vestido de inveja e ciúmes, a assassinou no meio da festa junina. Luiza Preta foi esfaqueada e enterrada em Cachoeira São Felix. Ela jamais voltou ao Banco da Vitória.

A morte cruel de Luiza Preta azedou o Banco da Vitória. A feira local ficou triste e sem gosto e dizia-se por lá: – quem comeu a Tabaca de Luiza Preta, comeu. Quem não comeu, se fodeu.

Nenhum filho ou filha de Luiza Preta conseguiu refazer a receita do doce de nome pejorativo da sua mãe. Dias depois eles foram embora de Banco da Vitória. Ali jamais voltaram.

Quem mais sofreu com a morte trágica de Luiza Preta foi o lendário Courinho. Este de fato e via de provas “comeu” por muitos anos a verdadeira tabaca de Luiza Preta. Foram amantes felizes.

As Cores de Banco da Vitória.

bvPor Roberto Carlos Rodrigues.

A cor predominante em Banco da Vitória é azul. Este azul que cobre toda nossa comunidade, vem do céu de Deus. Temos o céu mais bonito do mundo. Asseguro. O azul do nosso céu côncavo escorre até os tons de verdes nas nossas matas e reflete nas águas do Rio Cachoeira. Aqui, lindo e resplandecente. Rio ressuscitado todos os dias pelas águas das marés atlânticas.

As nossas casas são todas coloridas e multicolores. Quanto mais colorida é a fachada da casa, mais feliz é a família que ali mora.

Em Banco da Vitória as cores cinza e marrom não têm vez. Aqui as matizes, tons e intensidades das cores imitam o arco-íris e refletem no sorriso branco, – quase em croma exato -, desse povo alegre.

O povo é amorenado. A cor dessa gente foi cozida no caldeirão das raças. Negros africanos, ameríndios, alemães, suíços, polacos, portugueses, árabes e turcos fizeram parte do tempero dessa gente festiva e trabalhadora.

As casas coloridas da nossa aldeia, em tons quase saturados, mostram a vitalidade dessa gente guerreira.

Quem passa pela Rodovia Jorge Amado e não entra na comunidade de Banco da Vitória não sabe o que está perdendo. Nas nossas ruas as cores das casas encantam e fazem nossos olhos sorriem em brilhos quase lagrimejais.

– Por que essas casas são tão coloridas? Perguntam sempre os visitantes e a resposta é sempre a mesma.

– Nossas casas expressam nossa felicidade. Responde qualquer morador. Alegre, por princípio.

Em Banco da Vitória, todos os dias o arco-íris enche suas latas de tintas e vai salpicar gotas de felicidade em diversos horizontes. Uns distantes, outros próximos, tão próximos, já nas fronteiras dos nossos corações.

Ferdinand Freiherr von Steiger-Mussinger: O Barão de Banco da Vitória

capa-1Por Roberto Carlos Rodrigues Parte do capítulo do livro Banco da Vitória – A História Esquecida.

Uma das personagens mais marcantes da história de Banco da Vitória foi o suíço Ferdinand Freiherr von Steiger-Mussinger ou Fernando de Steiger, como era conhecido entre os moradores do sul da Bahia (1825 – 1887). Steiger viveu a maior parte da sua vida na fazenda Vitória. Ele chegou a propriedade em 1851 para atuar como administrador e neste período teve início o grande ciclo de desenvolvimento econômico da ferdinand von steiger fotfazenda que chegou a ter mais de 120 escravos e grande produção de cana-de-açúcar, aguardente, farinha de mandioca, milho, feijão, café e cacau. Na propriedade também funcionava uma grande serraria. Ferdinand Steiger foi o último administrador da propriedade do seu tio por parte de mãe, Gabriel von May.

Ferdinand Freiherr von Steiger nasceu em Murten na Suíça em 15/07/1825. De acordo com os registros da Biblioteca da Burguesia de Berna, o seu nome de batismo era Ferdinand Karl Rudolf von Steiger, filho de Albert (IV) von Steiger (1788 – 1866) e Maria Frederike Karoline von Steiger (1791 – 1876), nascida May von Rued. O seu pai era um barão oriundo de uma das famílias da nobreza hereditária de Berna do Antigo Regime.

Seu pai era coronel das tropas de Nápoles. Na sua juventude Ferdinand foi cadete da academia militar de Berlin. Em 1843 ele ingressou como alferes (aspirante a oficial no 58º Regimento de Infantaria da Prússia, instalado em Deutz e foi transferido mais tarde como oficial do mesmo regimento para Colônia. Em 1846, em Berna, ele encontrou um parente de sua mãe, o Sr. May von Huniges, que possuía uma grande fazenda no Brasil, porém, por motivos de doenças não podia residir lá. Steiger aceitou a proposta de administrar a propriedade no Brasil, pediu baixa do regimento militar e veio para o sul da Bahia. Ferdinand chegou em Ilhéus em 1846, com apenas 21 anos de idade e cheio de planos para revolucionar a agricultura da região. No ano de 1851 ele já administrava o plantio da fazenda.

Ferdinand von Steiger ao assumir a Fazenda da Vitória como proprietário em 1857 (ele a comprou pela quantia de oitenta e dois contos de reis), fez nessas terras uma verdadeira revolução agrícola, implantando modernas técnicas de uso do solo e recursos naturais, como construção de barragens, sistema de irrigação e manejos de solos. Steiger administrou a fazenda da Vitória até a sua morte, que ocorreu no ano anterior ao da abolição da escravatura.

Em cartas enviadas aos parentes na Europa, Steiger referia-se à localidade de Banco da Vitória como “Vitória”. Contudo, nos documentos de envio e recebimento de produtos para sua propriedade constavam o endereço de Banco da Fazenda Vitória.

O arquiduque Ferdinand Maximiliano von Habsgurg (irmão do imperador da Áustria Franz Joseph I) quando visitou por sete dias a propriedade de Steiger em 17 de janeiro de 1860, disse haver uma placa de madeira em um ancoradouro do Arraial do Banco, com as palavras “Porto da Vitória”.

BV6O arquiduque Ferdinand Maxilimilian von Habsburg, que fez diversas andanças pelas terras da fazenda de Steiger, publicou depois, no ano de 1864 o livro Mato Virgem. Este livro, por sinal, é uma grande fonte de informações sobre os hábitos dos moradores de Banco da Vitória e os escravos da fazenda Victória, bem como excelentes relatos da fauna e flora local.

Na lida da fazenda Victória Steiger liderava um grupo de mais de 120 escravos e pouco mais de uma dezena de empregados.  Em cartas enviadas aos seus familiares na Suíça, Steiger descreve do seu relacionamento amigável com os escravos e a sua atuação como médico para a população de toda a região do arraial de Banco da Vitória. Relatava também o escriba da atuação da sua esposa na administração da fazenda e no trato com os escravos e empregados. Um bom exemplo de boa relação com os escravos da fazenda Victória, ver-se nas cartas do seu proprietário que dizia andar sempre desarmado entre os escravos e que jamais fora atacado por um deles, que ao contrário, tinha-lhe grande gratidão e apreço.

A fazenda Victória foi um dos primeiros laboratórios agrícolas da Bahia, onde Steiger realizava diversos estudos sobre as lavouras da fazenda (principalmente café, cacau e cana de açúcar), a fauna e a flora da região.

Todos esses estudos foram detalhadamente descritos em cartas enviadas aos seus parentes na Suíça e podem ser acessados no blog http://ferdinandvsteiger.blogspot.com.br/ (setembro de 2016).

Outras fontes biográficas de Ferdinand von Steiger encontram-se no artigo “Barão von Steiger”, publicado em 1939 por Ramiro Berbert de Castro, no Jornal Dom Casmurro e, no estudo “Introdução à biografia do barão Fernando de Steiger e fatos sobre sua família”, de André Paiva de Figueiredo (2016).

Ferdinand Von Steiger foi sepultado no “Bahia  A imagem abaixo mostra a entrada do Cemitério dos Estrangeiros localizado no  Largo do Campo Santo, no bairro da Federação, em Salvador -BA.

Sepultura de Ferdinand Von Steiger no “Bahia Fremdenfriedhof” - Cemitério dos Estrangeiro (ou Cemitério dos Alemães) em Salvador, BA. Foto de Dona Hortência Paiva. (Colaboração de André Paiva de Figueiredo).

Sepultura de Ferdinand Von Steiger no “Bahia Fremdenfriedhof” – Cemitério dos Estrangeiro (ou Cemitério dos Alemães) em Salvador, BA. Foto de Dona Hortência Magalhães Oliveira. (Colaboração de André Paiva de Figueiredo).

cmitério dos estrnageiros

Cemitério dos Estrangeiros (Salvador -A)

A Fazenda da Vitória foi vendida pelo alemão Hermann Lüssenhop a Hugo Kaufmann em 1926.

Atual planta da Fazenda Victória, pertencente aos Kaufmann. (imagem publicada o no blog “Correia Neles”, de Adelino França) e Portaria à margem da Rodovia Jorge Amado.

Localização atual da antiga sede da Fazenda Vitória:

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Encontradas cartas de Ferdinand von Steiger descrevendo o cotidiano da Fazenda Victória (entre os anos de 1866 a 1882).

Por Roberto Carlos Rodrigues.

cartas

Saiba mais sobre Ferdinand Von Steiger aqui!

As pesquisas históricas sobre a comunidade de Banco da Vitória têm me levado as situações magníficas e surpreendentes. Nos últimos dias tenho empenhado bastante na correção e revisão do livro Banco da Vitória – A história Esquecida. Nesta labuta, durante minhas pesquisas na Internet encontrei relevantes informações num site que publicou diversas cartas de Ferdinand Von Steiger (proprietário da Fazenda Victória), escritas entre os anos de 1866 a 1882, e endereçadas aos seus familiares suíços.

O site traz as transcrições das cartas e as fotografias das mesmas.

Na leitura dessas cartas Steiger descreve detalhadamente diversos aspectos do cotidiano das fazendas Victória e Salgado (essa, nas margens do Rio Pardo).

As transcrições dessas cartas estão no idioma alemão. Mas, provavelmente o texto original foi escrito no idioma alemão falado em alguns cantões suíços como Schwyz, Obwald e Nidward.

Nessas missivas Ferdinand Steiger mostra-se um excelente detalhista de diversos aspectos como técnicas de plantios de café e cacau, análise de clima, fauna, flora, sistemas de desmatamentos, condições de combate as pragas, lida com os escravos e índios etc. Continuar lendo

Quando Fui Fazendeiro de Cacau.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

No ano que a Seleção Brasileira de Futebol consagrou-se tricampeão do mundo, eu tive cacau e sobrevivi.

Naquela época o cacau cheirava 24 horas por dia, todos os dias, sobre os ares de Banco da Vitória. Vivíamos cercados de roças e fazendas de cacau e, para aromatizar ainda mais as nossas plagas, diariamente passavam pela Rodovia Ilhéus Itabuna centenas de caminhões carregados de amêndoas secas de cacau, indo para o Porto do Malhado, em Ilhéus e dali para os paladares da América, da Europa e do Japão.

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O Melhor Nego Bom do Mundo.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

Na minha meninice não havia distribuição gratuita de merendas nas escolas de Banco da Vitória. A meninada trazia de casa suas merendas, que na maioria das vezes eram frutas como banana, mamão, abacate, laranja, goiaba, araçá e até roletes de cana.

Tinha criança que trazia beiju de tapioca com coco ralado, outras traziam arroz doce, canjica, pamonha, aipim cozido, pedaços de rapaduras e os famosos cavacos, – um tipo de doce feito com massa de pastel frita e polvilhada com açúcar e canela em pó.

Quem tinha dinheiro (uns cinco ou seis pais de alunos da escola), logo se conhecia pelas merendeiras de plástico recheadas de biscoitos, pães amanteigados, doces diversos e as garrafeiras cheias (até a boca!) com o famoso Ki-suco de morango ou de uva.

Para nós, – os pobres alunos do Grupo Escolar Herval Soledade, a merendeira era um pedaço de pano amarrado com um nó frouxo. Dentro do pano uma fruta ou um vegetal cozido e só. E era para muitos, muito mesmo.

A minha merenda favorita era o lelê de milho que minha avó, Dona Cabocla fazia. Porém, – pois sempre há um porém -, quem fazia o maior sucesso na minha sala de aula era o opíparo doce chamado de Nego Bom.

O doce feito com bananas-prata amassadas e cozidas com raspas de rapadura e suco de limão fazia o maior sucesso e por conta disso, no dia que eu levava o Nego Bom como a merenda, o Nego Gostoso era eu.

Todo mundo queria provar o Nego Bom de Dona Cabocla. De professores a colegas, de porteiros da escola a diretores.

Até hoje não provei nada mais gostoso do que o doce Nego Bom.
Sabe o por que?

– A simplicidade da receita, – apenas três ingredientes e uma pitadinha de amor. Só isso.

Acho que a vida seria bem melhor se seguíssemos a receita do doce Nego bom.

Atualmente vivemos os tempos do café travoso e amargo, que não tem açúcar que o adoce.

Quanta falta faz um Nego Bom nessas horas.

Quanta falta faz a minha infância distante.

Acho que devido aos milhares Negos Bons que comi, aprendi adoçar a minha vida com o sal das minhas lágrimas.

Sigamos a lida.