Toinha das Flores – A Drag Queen de Banco da Vitória

drag queenPor Roberto Carlos Rodrigues.

Até 28 de março de 1987, Antônio Espíndola dos Santos era conhecido em Banco da Vitória como Toinho de Dona Filomena. Naquele ensolarado e úmido sábado, exatamente as 15 horas Toinho morreu para sempre, como ele mesmo dizia. Neste mesmo dia e horário nasceu Toinha das Flores, a primeira Drag Queen de Banco da Vitória. Tinha 19 anos de idade.

Toinho era um rapaz na flor da idade. De cútis clara, se diferenciava facilmente entre os moradores de Banco da Vitória. Era alto, de pernas e braços compridos, cabelos louros e finos, olhos azuis e nariz e lábios finos. Tinha traço dos povos nórdicos. O pai era um marinheiro norueguês, que aparecia de vez em quando no porto de Ilhéus, engravidava uma nativa e depois sumia. Sua mãe, Filomena, era morena alta a formosa, de traços caboclos e cabelos negros. Dessa junção de sangues nasceu Toinho, mais lindo que uma menina, por certo, uma menina num corpo de menino.

Toinho, ou melhor, Toinha das Flores resolveu naquele dia liberar geral, externar seu lado feminino, mostrar-se poderosa e alegre. Assumir sua sexualidade e dar um foda-se para quem tinha preconceitos e ares de homofobia.

Vestida em longo vestido florido e dançante, atada a cintura com uma fita vermelha de cetim, nos peitos (ou melhor nos seios) um sutiã amarelado à amostra, nos pés uma sandália dourada de salto alto, na cabeça um lindo chapéu primavera e nos braços um lindo buquê de flores. Eram lindos e alvos lírios do campos – dignos das divas do cinema. Rosto maquiado, nos lábios batons do vermelho mais carnal, nos olhos sombras azuladas e na boca, sorrisos e mais sorrisos.

Como um furacão que chega sem avisar Toinha das Flores, vestida de mulher estonteante, saiu da sua casa que ficava na Rua Duque de Caxias e desfilou pelas ruas de Banco da Vitória distribuindo beijos e flores para ao atônitos moradores das barrancas do Rio Cachoeira. Vestiu-se assim até morrer.

– Gente, cheguei! – Gritava no meio das ruas. Depois gargalhava gostosamente e adentrava as casas das conterrâneas e amigas, onde distribuía flores e beijos. Logo atrás de Toinha das Flores vinha o bêbado Epifânio Calunga empurrando um carro de mão cheio de flores, que abasteciam os braços da nossa personagem.

– Só estou empurrando o carro – Advertia Epifânio – Tô sendo pago pelo serviço. O xibungo é ele. Falava o bêbado eximindo de possível associação com a nossa Toinha das Flores.

– Vala-me Deus! – Disse dona Isaura, na janela da sua casa. O que aconteceu com esse menino. Será que perdeu o juízo? Argumentava perante o marido Juvenal que assistia aquela cena inusitada.

– Nossa senhora da Conceição que tenha compaixão desse ser. Disse a beata Lurdinha, filha de seu Ademar do armarinho Estrela Dalva, enquanto se benzia e beijava seu velho crucifixo.

– Eita! Tem carne nova para os papacus de Banco da Vitória. Disse sorrindo Elzo de Santinha, encostado no balcão do Bar de Xisto Gomes.

– Amores, meus amores, eu estou aqui! Cantarolava Toinha das Flores enquanto literalmente desfilava pelas ruas de Banco da Vitória.

– Novidade! Disse dona Terta, sentada na sua cadeira de balanço, na varanda da casa azulada. – Eu sempre soube que esse menino era invertido. Esse queima rosca, baitola do cão sempre foi afeminado. Os parentes que não queriam ver. Agora ele vai envergonhar a família inteira.

Indiferentes das críticas, Toinha das Flores continuou sua caminhada pelas ruas de Banco da Vitória e quando voltou a sua casa encontrou sua mãe nas mãos das amigas. Dona Filomena tomava água com açúcar para acalmar o coração.
– Mãe, disse Toinha, – aquieta seu coração, pois o meu está radiante, feliz e vibrante. Hoje eu sou o que sempre fui. Morre Toinho, nasce Toinha das Flores. Uma coisa é certa: aquele menino ali da foto na parede estava aprisionando esta moça linda aqui. Hoje eu sou o assunto mais falado neste povoado. E daí? Quem vai pagar nossas contas? Que dane-se todos! falou enquanto entrava na cozinha da casa.
Não demorou e se sentiu o cheiro de pano queimado no fundo do quintal.

– Enlouqueceu de vez. Disse a mãe choramingando. – Oh meu Deus, vão lá no quintal ver em que este menino está tocando fogo. Pediu Filomena para uma vizinha.

No fundo do quintal, perto do pé de mamão, Toinha tocava fogo nas roupas de Toinho. – Adeus cuecas, venham coloridas calcinhas. Adeus bermudas, venham saias rodadas. Adeus calças, que venham vestidos. Cantarolava Toinha enquanto nutria o fogo com as peças de roupa.

Mas nem tudo foi festa e flores nos dias seguintes de Toinha em Banco da Vitória. Primeiros se ouviram os escárnios escondidos, depois os palavrões e xingamentos públicos. Alguns moleques jogavam pedras em Toinha. Teve até quem jogasse bosta na nossa personagem. Há quem diga que Toinha foi até ameaçada de morte. Tudo isso foi pouco até o susto que ela tomara numa noite de agosto.

Numa noite, atraída pelo suposto amante, Toinha se dirigiu até o local do encontro marcado. Era noite velha, já no segundo sereno da madrugada. O local distante e silencioso. Perto da antiga pedreira da Cerâmica Vitória. Ali, local de amores escondidos e traições de casais.

Como quem andava sobre flores umedecidas, Toinha se dirigiu até o homem que a esperava envolto da nebrina. – Tira a roupa. Disse o homem no meio da escuridão. Toinha sorriu e atendeu a ordem. Tentou acariciá-lo. Mais não pode. Sentiu uma fisgada na costela esquerda. Um frio repentino por todo o corpo. A escuridão nos olhos, o silêncio eternos nos ouvidos. Já não estava mais entre nós.

Acharam o corpo de Toinha das Flores no dia seguinte. Logo cedo, uma lavadeira de nome Luiza Morão foi pegar água na bica da cerâmica Vitória e deparou com a cena macabra. Toinha das Flores morta no meio de um tapete de flores de malmequer. Uma flor pálida entre as flores amarelas.

Um grito no meio do mato. O balde d’água caído ao chão. Uma carreira trilhada pelo choro.

O povo logo acordou e foi ver Toinha morta. O Banco da Vitória entristeceu de vez. O nome Antônio Espíndola dos Santos foi descrito no atestado de óbito. O enterro comoveu todo o povo do lugar e naquele final de tarde Toinha das Flores foi sepultada sobre aplausos, choros e tristezas.

O assassino de Toinha das Flores jamais foi descoberto. Pode ser que ele ainda esteja anônimo entre nós. Somente Toinha das Flores soube quem a matou. Somente ela e as flores dos malmequer que ainda adornam as pedras da Cerâmica Vitória.

Mas Deus sabe quem fez esse terrível ato contra a alegre e estonteante Toinha das Flores e, somente Ele poderá julgar e perdoar. Como sempre, Deus agirá no seu tempo.

Toinha das Flores foi a primeira Drag Queen de Banco da Vitória. A primeira e única.

 

 

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Crônicas de Banco da Vitória

Por Roberto Carlos Rodrigues. Do livro Prosas e Causos de Banco da Vitória.

Roberto Carlos RodriguescaricaturaSou suspeito para falar do amor que tenho por minha aldeia, – o meu querido Banco da Vitória do Rio Cachoeira -, um taco de terra espremido entre este rio e as franjas da Mata Atlântica que antes cobriam os Altos da Santa Clara, Bela Vista e da Mata da Rinha. Sei, – graças a Deus -, que essa sintomatologia não é só minha, é de muita gente, muita gente mesmo! Em Banco da Vitória mora uma gente amada que sabe muito bem amar sua terra.

Vou descrever como era o “meu” Banco da Vitória.

Quando eu nasci, o Banco da Vitória fervilhava de gente, comércios e desenvolvimento. Era o fim da década de sessenta e, o cacau continuava em voga e propiciava todos os tipos de sonhos e oportunidades para quem gostava de trabalhar. Meu pai (Carlos Cardoso, filho de Dona Maria e seu Antônio Cardoso) era de família de comerciantes de produtos da lavoura regional, como: farinha, milho, feijão, arroz, açúcar etc., a maioria oriundo das terras do Morro do Miliqui (fundos da Fazenda Vitória e perto da atual estrada de Uruçuca).

A minha mãe, Ilza Rodrigues (Bebé) era filha de um neto de escravo de origem Banto, oriundo do Recôncavo baiano, chamava-se Feliciano de Assis. Minha vó era neta de índios Tupi, era conhecida como Dona Cabocla.

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Quem Bateu em Tum?

Por Roberto Carlos Rodrigues

Por Roberto Carlos Rodrigues

Naqueles tempos, Osmário, – hoje nosso reconhecido pastor evangélico -, era chamado em Banco da Vitória pelo apelido de ‘Seu Tum’. ‘Seu Tum’ era um pescador fantástico e um fabuloso jogador de futebol. Ele jogava de ponta direito arisco – como dizia Zé da Alinhagem.

Durante as partidas de futebol, ‘Seu Tum’ fazia gols de todos os tipos e modos. Ele era a alegria das tardes de domingo em nossa comunidade. Os laterais e zagueiros sofriam com os dribles curtos e ligeiros do baixote jogador de futebol. Os goleiros temiam a presença de Seu Tum nos time adversários. Já a torcida adorava ver esse excelente jogador abrilhantar o futebol de Banco da Vitória.

Além de excelente jogador de futebol, Seu Tum já foi lutador de box e teve como treinador o exímio boxer da fama internacional, Cabo Jonas. Apesar de baixa estrutura física, Seu Tum era um boxeador ligeiro e arisco e não tinha medo de lutar com ninguém, – indiferente do peso ou altura do adversário.

Um dia houve uma luta de box memorável no clube social de Banco da Vitória. Seu Tum desafiou um outro lutador de box e outras artes marciais, conhecido como Florêncio, o então marido de Dona Eunice do carramachão.

Florêncio era um homem tarugado e forte, negro de quase dois metros de altura e beirava os cem quilos de peso. Quando a luta começou todo mundo já sabia do resultado. Ia haver o massacre de seu Tum. Florêncio, auto intitulado ‘O Matador’ ia acabar aquela luta logo no primeiro round.

tum234Isso de fato ocorreu, em parte. Seu Tum apanhou igual uma mala velha para largar a poeira antiga, mas não desistiu do desafio. Florêncio bateu em Seu Tum por mais de 10 minutos e a torcida pedia o fim da luta.

Mas ai apareceu o elemento surpresa. Cabo Jonas piscou o olho para seu boxer, indicando o golpe secreto e Seu Tum ganhou a luta.

O fato aconteceu assim: no meio da pancadaria, ‘Seu Tum’ deu um  chute nos culhões (testículos) de Florêncio. O negão desabou no chão feito um saco cheio de cacau e de lá não se levantou. Florêncio gemia feito um bezerro capado enquanto Seu Tum pulava e mostrava os bíceps.

Seu Tum foi então logo dado como vencedor da luta, pelo árbitro, que por ocasião oportuna, era o próprio Cabo Jonas. O clube social só faltou vir abaixo diante dos gritos dos espectadores! As mais de 400 pessoas presentes desta luta memorável saíram com o vitorioso Seu Tum nos ombros, gritando e festejando pelas ruas de Banco da Vitória. Florêncio foi carregado para casa, onde ficou muitos dias sem sair da cama.

‘Seu Tum’ passou uns dias ‘entocado’, sem sair de casa, como medo do revide jurado por Florêncio, diante da imagem de São Jorge, seu santo protetor. Depois, os dois boxeres se encontraram na Taiobinha de Seu Júlio e tudo se acertou entre amizades, risadas e doses de pinga.

Uma noite, havia festa no clube social, onde o Good Som de Jorjão animava o baile de Banco da Vitória. O porteiro era Jorjão e os seus mais de dois metros de altura, cento e cinqüenta quilos de raiva e pouca paciência. Foi então que chegou Seu Tum já afogado na cangibrina e os outros sinônimos da aguardente de Banco da Vitória – e subiu os degraus de acesso ao clube. Na portaria, ele tentou entrar na festa sem pagar o ingresso.

Jorjão repudiou a sua investida e num só golpe, tirou o pequenino Tum da porta do clube social. Seu Tum se sentiu ofendido pela aversão de Jorjão e por mais de meia hora tentou furar o bloqueio do já irritado porteiro. Por último, o Jorjão deu um violento cascudo em seu Tum e o empurrou de escada a baixo. O pobre Seu Tum caiu quase no meio da Praça Guilherme Xavier e saiu de lá chorando pelas ruas. As pessoas da praça zombaram do choro infantil do nosso fantástico jogador de futebol.

‘Seu Tum’ foi se consolar no bar de Zé da Linhagem, na rua do campo. Lá ele se queixou do acontecido e sensibilizou Cabo Jonas, que resolveu tirar satisfação do ocorrido.

Cabo Jonas saiu de venta aberta pela Rua do Campo rumando para aportaria do clube social. Foi seguido por Seu Tum que ainda choramingava e se queixava. Cabo Jonas chegou à porta do clube bradando e enfurecido. De lá gritou forte:

– Quem bateu em Tum? Quem bateu em Tum? Quem bateu em Tum? Eu quero saber agora! Me digam que fez essa maldade!

Jorjão, vendo a assombração sonora que Cabo Jonas fazia na portaria do clube social, se aproximou do nosso ilustre amigo e também gritando disse, nos bigodes de Cabo Jonas:

– Fui eu!! e daí?

Cabo Jonas olhou o porte físico de Jorjão, tosou o cidadão de cima a baixo, mediu com os olhos a largura dos seus ombros e retrucou na hora:

– Bem feito! Bem feito! Tum tá muito ousado quando bebe. Bem feito. Bem feito mesmo. Se fosse eu dava uns dez cascudos nesse menino ousado e teimoso…

Cabo Jonas foi logo embora pela mesma rua por aonde veio.

Na verdade, Cabo Jonas foi para casa tomar um engrossante feito por Dona Deth, sua querida e dedicada esposa. Seu Tum foi para a Pedra de Guerra, tomar banho e curar a ressaca.

Por Roberto Carlos Rodrigues

Cabo Jonas Banco da Vitória Ilhéus

Antigamente em Banco da Vitória comia-se ate concreto.

gulaAntigamente, quem nascia em Banco da Vitória era conhecido como os ‘comem concreto’. Isso porque a nossa gente era boa de boca, comia de tudo e não fazia cerimônia na hora da mastigação. O nosso povo jamais soube o que era fome, pois tinha os frutos das matas, a abundância de caças e um rio farto de peixes e mariscos.

Gente magra em Banco da Vitória não existia. Todo mundo era buchudo e pançudo. Desde criancinha todo mundo aprendia a gostar de pirão de siris, de visgo de jaca e do travor do biri-biri. Comer siris e caranguejos se aprendia aos três anos de idade. Aos cinco anos já se sabia pescar carapicuns, robalos e moréias. Aos oito anos, os meninos mergulhavam no fundo do rio e de lá trazia siris, pitus e aratanhas. As meninas já sabiam pescar de redes e jererés.

Comer bem sempre foi uma das nossas qualidades maiores. Em Banco da Vitória todo mundo era bom de boca e comia de tudo. Na verdade a gente comia mesmo era de mão, desprezando talheres de todas as naturezas e fins. As frutas abundavam em todos os quintais. Eram bananas, mamões, jacas, abius, jenipapos, laranjas, carambolas, mangas, cocos e siriquelas. Nas beiras do rio Cachoeira havia as goiabas, araçás, canas, taramarindo, carambolas, groselhas, amêndoas etc. Junto aos pássaros, todos nós comíamos as frutas e éramos duros de sermos vencidos por doenças bobas.

Do rio cachoeira viam os peixes e mariscos. Eram as tainhas gordas, robalos ovados, carapebas, moréias, carapicuns, traíras entre tantos outros peixes. Os mariscos fervilhavam sobre as pedras. Eram siris, caranguejos, guaimúns cevados, moapéns, ostras, pititingas, camarões e os famosos pitus.

Das matas vinham as caça como as pacas, tatus,  teiús, veados, capivaras, sarués, jacaré e até jibóias que eram comidas pelos ‘bebúns’.

Naquela época frango se chamava galo e era comida de dia de domingo. Marcarão era comida de rico e leite em pó era capricho de poucos. O povo simples comia mesmo era feijão com arroz e farinha torrada e uma lasca de carne assada na brasa.

Moquecas e pirão faziam parte da nossa janta e sopa era comida de doente. As meninas quando estavam apaixonadas chupam limões com sal e pirão de mulher parida se fazia com caldo de galinha cozida no fogão a lenha.

No dia de Cosme e Damião se servia um farto caruru e tinha menino que corria as sete-freguesias e cominam mais de dez pratos da iguaria rara e deliciosa.

Agente não adoecia facilmente, pois éramos todos bem alimentados pelos ares de Banco da Vitória. Nos ‘babas’ de futebol, as canelas dos meninos se chocavam e só faltava sair labaredas das jogadas pouco amistosas. Raramente se via um menino ou menina com o braço ou pé quebrado. Tudo isso só era possível devido a nossa alimentação farta e principalmente natural.

 

As canas eram rasgadas nos dentes. O coco seco era  comido como pudim de menino pobre e o mocotó moqueado se comia desde pequenininho. Como não havia miojos e iogurtes, a gente se lambuzada de frutos e o próprio banho de rio já servia para trazer uns camarões para se comer aferventados.

Normalmente se tomava café com banana da terra, batata-doce, aimpim ou então fruta-pão.

Concreto mesmo a gente não comia, como se dizia. Mas barro era comida de muitas crianças da barriga verde. Tinha gente que não aquetava ver um buraco no reboca da casa de taipas. Ali se ajeitava e fazia uma boquinha naturalista.

Mas isso já é uma outra velha e longa estória do nosso Banco da Vitória do Rio Cachoeira.

Roberto Carlos Rodrigues