Zezinho Sem Cotovelos

Por Roberto Carlos Rodrigues.

DOR 56Só Deus sabe o destino que levou Zezinho Sem Cotovelos. Há quem diga que ele mora no bairro de Monte Cristo, na vizinha cidade de Itabuna, onde é pequeno comerciante. Outros dizem que ele voltou para Santa Brígida, sua terra natal, no tórrido sertão baiano, já quase na divisa do estado de Pernambuco, onde continua trabalhando com gado. Uma coisa é certa: de Banco da Vitória Zezinho sumiu para sempre.

Zezinho sem Cotovelos era freguês vezeiros dos bares de Banco da Vitória. Ali tinha diversos amigos, dois ou três admiradores e um renca de desafetos. Zeferino Francisco do Santos era vagueiro de uma fazenda do outro lado do rio, nas bandas da Vila Cachoeira. Ele era um homem pequeno, branquelo, do rosto fino e cabelos escorridos. Os olhos eram miúdos, pareciam com olhos de pássaros. O bigode fino cobria-lhe os lábios avermelhados e ressecados. O sorriso era amarelado, herança dos anos e mais anos do cigarro na boca. Vestia-se sempre com indumentárias de vaqueiro. Na cinta trazia sempre um facão amolado. Na bota de couro, escondia o punhal com cabo de osso. Nas costas, cruzava-se o rifle de repetição e no bornal, escondido debaixo dos panos, o revolver trinta e oito e mais um punhado de balas. Zezinho sempre andava no lombo de uma mula marrom e arruaceira. Gostava de galopar.

Em Banco da Vitória Zezinho sem Cotovelos nunca deu um tiro ou matou alguém. Mas havia quem acreditasse ser ele criminoso lá nas bandas por onde nascera e que encontrara um bom refúgio sendo vaqueiro numa fazenda do sul da Bahia. No povoado, era pacifico e brincalhão.

Era amigo dos cachaceiros do povoado de Banco da Vitória e de vez em quando jogava futebol com seus pares. Conhecia todos os donos de bodegas da localidade e todas as sextas-feiras se refugiava em Banco da Vitória, onde se divertia, bebia como os amigos e dançava nos cabarés da localidade. Ali se sentia em casa.

Dizia ser solteiro. Não tinha esposa nem filhos. Vivia na casa da fazenda e só tinha amigos em Banco da Vitória. Aos domingos, Zezinho sem Cotovelos gostava de passar o dia nas margens do rio Cachoeira, onde fazia assados, cozinhados e pescarias. Todas, obviamente, regadas a garrafas de cachaças. Foi exatamente em um domingo ensolarado de março que Zeferino Francisco do Santos se tornou Zezinho sem Cotovelos.

Acompanhados dos seus amigos de farras e bebedeiras, Zeferino foi para as correntezas do Rio Cachoeira onde pretendia passar todo o dia de domingo. No local onde hoje se ver erguida a ponte para Maria Jape, aos fundos do convento das freiras, havia uma grande corredeira de pedras escorregadias, onde a água do rio Cachoeira descia fazendo barulho nas pedras. A profundidade neste local não passava de meio metro e as barragens de pedras servia para fazer uma grande piscina na parte de cima do rio. Ali, no meio das mornas correntezas, estava Zeferino com seus amigos de bebedeira quando o pior aconteceu.

Zeferino estava se banhando na parte rasa da correnteza, com o corpo submerso e somente a cabeça do lado de fora da água quando sentiu algo se enrolar ao seu corpo. É uma cobra. Pensou rapidamente. Realmente era uma cobra. Uma cobra grande. O amarelinho tentou se levantar das pedras escorregadias e não conseguiu. Quando ficou de joelhos sobre as pedras. Perceber que realmente era uma cobra enrolado no seu corpo. Zeferino dei um grito tão grande que no dia seguinte, o morubixaba Garapa disse ter ouvido lá nas bandas do matadouro. Osório, disse também ter ouvido o mesmo berro lá no meio da ladeira do Alto da Bela Vista.

Quando conseguiu se levantar nas pedras escorregadias, Zeferino viu que a imensa cobra se enrolara nas suas pernas, pelo seu tronco e pescoço e que a cabeça da serpente estava entre suas mãos firmes. Gritando igual um condenado, Zeferino caiu nas pedras escorregadias, enrolado na cobra. O dois desceram as corredeiras do Rio Cachoeira entre mergulhos e gritos. A cobra tentando morder o rosto de Zeferino e este tanto deslaçar a víbora do seu corpo.

– Pega a facão! Gritou Bigode, parceiro de bebedeira de Zeferino.

– Pega um pau da cerca das freiras. Gritou nego Nide. Idem.
Vamos socorre o homem. Gritou Zé Amarelinho. Idem.
Mas a luta era particular entre Zeferino e a cobra molhada e juntos eles desceram se ralando pelas pedras, tomando solavancos e caldos. Fazendo espumas, remexendo o leito do rio. Derramando sangues entre as tocas dos pitus e calambaus.

Cento e oitenta e oito metros abaixo, quase perto da Pedra de Guerra, a cobra por fim largou o assustado Zeferino e desceu o rio Cachoeira. O vagueiro destemido, todo estropiado e azougue, foi socorrido pelos amigos e levado para a areal do porto de Ares. Ali descobriram que Zeferino estava com o rosto todo machucado das dentadas da cobra assassina. Tinha perdido um dente, a bermuda e os couros dos cotovelos.

– Era uma jiboia. Disse alguém. Não é venenosa não. Morde mais não mata. Não tem peçonha. Conclui o alguém.

– Traz a cachaça para queimar os ferimentos. Disse Bigode e foi atendido. Zeferino tomou uma talagada de cana e sentiu o ardor nos cotovelos ensanguentado. Estava em estado de choque.

Foi levado para o hospital em Ilhéus onde foi medicado e no mesmo dia voltou para sua casa na fazenda, onde ficou acamado por três dias. Quando voltou ao Banco da Vitória recebera o apelido de Zezinho Sem Cotovelos. Seus braços em tipoias comprovavam a assertiva.
Havia em Banco da Vitória quem dissesse que Zeferino não gostava da alcunha zombeteira. Mas ele preferia ser chamado de Zezinho Sem Cotovelos do que Zezinho Todo Cagado. Isso, em alusão a situação que o encontraram do dia da luta com aquela maldita cobra no Rio Cachoeira.

Infelizmente os couros dos cotovelos de Zeferino não se recuperaram. Já o apelido, se tornou eterno.

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O Segredo de Brabão – O cachorro mais feroz de Banco da Vitória.

brabãoPor Roberto Carlos Rodrigues

Esta estória não é minha. Não inventei nada e, se por ventura, os possíveis herdeiros do cachorro Brabão quiserem processar alguém, que processem João Santana, filho dos saudosos Antônio de Isaías e Dona Lindaura, pois foi ele quem propagou a fama de Brabão em toda a região de Banco da Vitória. Na verdade, eu que não conheci Brabão – o cachorro mais feroz de Banco da Vitória, nunca acreditei nesta estória deveras surpreendente. Mas, tratando de relatos de João Cu de Leão, quem sou eu para duvidar.

Segundo João Santana, Brabão era o cachorro de estimação de Odilon, este funcionário da Prefeitura Municipal de Ilhéus e encarregado, junto ao seu amigo Alfredo (pai de Liminha e Jovali) das limpezas das ruas do então distrito de Banco da Vitória.

Brabão era um cão de poucos amigos e seu nome se justificava pela quantidade de pessoas que ele tinha mordido. Cachorro classificado como vira-lata raciado com parentes distantes dos pastores alemães, Brabão, era conhecido na Rua dos Artistas como o cachorro mais valente da localidade. Mordia desde pequeninas moscas até mocotós de cavalos, burros e bois. Para ser sincero, Brabão era um cão assassino. Na sua rua ele era implacável, violento e cruel. Mordia. Mordia e m.o.r.d.i.a.

Criado na coleira e preso como condenado, Brabão quando fugia de casa o povo gritava:

– Fechem as portas, prendam as crianças e socorram os cachorros e gatos pois Brabão fugiu. Era um alvoroço quase regional.

Em Banco da Vitória se sabia: o cachorro mais violento e cruel de todas as beiradas do Rio Cachoeira era Brabão de Odilon.

Mas o tempo foi passando e Brabão foi diminuindo a ferocidade e se tornou um cão de porta de casa, sem coleira, sem amarras, sem arruaças. Ali, no batente da sua casa Brabão continuou sendo o valente cão da localidade. Mais não mordia mais ninguém. A não ser alguns bêbados arrelientos e meninos perturbados.

Porém, Brabão continuou mantendo sua autoridade nas redondezas. Nenhum cachorro ou gato se atrevia passar pela Rua dos Artistas sem antes receber uma carreira quase mortal de Brabão. Pode-se dizer que Brabão era o rei da Rua dos Artista. Isso, até os seus dez anos de idade.

Um dia, na verdade uma manhã de sábado ensolarado, Brabão estava no seu posto, isto no degrau da casa de Odilon, tomando um sol matinal, quando sem mais nem menos, um caminhão de mudança parou pouco em frente da casa vizinha a de Brabão.

Era um caminhão de mudanças. Um novo inquilino iria morar na vizinhança. Quando abriram o caminhão baú quem saiu de dentro foi um pequeno cachorro piche. De um tiro só o cachorro adentrou a casa nova, em menos de cinco segundos ele percorreu todos os ambientes e como um raio, saiu da casa e começou a correr pela Rua dos Artistas, reconhecendo o território e pingando sua urina nas portas das casas.

Brabão quando viu aquele toloco de bosta preta correndo feito um raio da silibrina, ficou alerta e pensou: – Quem está tripa preta pensa que é? Vou matar numa dentada só. Ele vai ver.

No outro lado da rua o cachorro piche preto correu até a casa de Gerolino, atravessou a rua. Veio mijando de porta em porta e passou bem em frente à casa de Brabão como se este nem estivesse ali. O minúsculo cachorro entrou no bar de Xisto gomes. Saiu e foi até a venda de Seu Joaquim. Atravessou a rua, entrou na padaria de seu Hugo, cruzou as frentes das casas de seu Antônio de Isaías, a Visquera, seu José Lavigne e, dobrando a esquina, desceu mijando nas portas das casas da Rua Aldair.

Neste instante, Brabão que só assistia aquele desaforo minúsculo, já estava embebecido de raiva e mais raiva e com os dentes preparados para destroçar o intruso, quando ouviu a nova vizinha chamá-lo: – Mickey vem cá.

– Ora ora, chama-se Mickey o futuro morto. Pensou Brabão, se preparando para o bote e arrematou. Do jeito que está vai mijar logo logo no meu focinho. – Deixa ele subir a rua que eu vou mostrar quem manda neste pedaço. Conclui seus pensamentos malignos.

A vizinha entrou na casa e em seguida, com a mesma velocidade que desceu a rua o tal Mickey a subiu. Quando ele chegou no cruzamento da Rua Aldair com a Rua dos Artista, Brabão estava a sua espera. Em um só bote Brabão latiu ferozmente e tentou morder mortalmente o pobre piche. O cachorro pequenino se esquivou, escorregou sobre as pedras do calçamento da rua e desceu a rua dos Artista no dobro da velocidade de quando a conheceu. Na sua cola, desceu Brabão latindo e fungando no rastro do podre cachorrinho.

O piche dobrou a esquerda, depois a direita, depois mais uma vez a direita, correu, correu e correu e Brabão no seu encalço, latindo e mostrando seus dentes afiados. No meio da praça Guilherme Xavier, o assustado piche teve um surto de redenção, parou de correr bruscamente e ficou imóvel feito uma estátua.

Brabão que corria na velocidade de um míssil soviético, diante daquela súbita parada do piche quase perdeu as unhas nos cimentos da praça, tentando frear. Desorientado, ele caiu sobre o pescoço, ralou o focinho e machucou as costas. Mesmo assim, Brabão se levantou e partiu para o ataque do piche que se mantinha imóvel no meio da praça.

Chegando perto do piche, Brabão percebeu que o desgraçado se mantinha imóvel feito uma minúscula estátua preta. Fingia ser o que não era. Brabão então se aproximou do desgraçado e desaforado cão e rugiu nas suas orelhas. O piche continuou imóvel e silencioso.

– Corre miserável. Corre agora para eu rasgar você em dois em uma só mordida. Pensou Brabão com a boca cheia de salivas, os dentes brilhando e o gosto de sangue já quase sendo sentido na garganta.

Quanto mais Brabão rugia nos ouvidos do piche mais este ficava imóvel e sério. Virou estátua.

Foi aí que o segredo de Brabão foi revelado.

Depois de mais de dez minutos de ameaças, o medroso piche começou a piscar os olhos, mexer com as orelhas, balançar levemente o rabo e se mover cautelosamente. Primeiro o piche cheirou o focinho de Brabão, depois suas patas e por fim alcançou o rabo. Debaixo deste, bem no furico de Brabão, o piche deu duas cheiradas profundas e depois carinhosamente lambeu o cu de Brabão.

Brabão, agora já relaxado e acalmado, olhou meigamente para o pequeno piche, piscou os olhos e como uma cadela latiu melodicamente:

– Uau! Uau! Uau!

Naquele dia descobriram que Brabão queimava o aro. Era gay.

A Morta-viva do Rio Cachoeira

enterro-2Por Roberto Carlos Rodrigues

Parece fácil a vida de um cronista que resolve reviver a memória do seu povo e de sua aldeia. Mas não é. Muitas vezes os fatos acontecem e as pessoas simplesmente esquecem ou fingem quem não sabem dos ocorridos. A estória que vou descrever agora aconteceu em Banco da Vitória, no início da década de sessenta do século passado e, graças a Deus, muita gente ainda está vivinha da silva para comprovar que não minto, ou que é fruto da minha imaginação. Naqueles dias, em Banco da Vitória uma mulher dada como morta, reviveu em pleno ato fúnebre.

Foi exatamente em um domingo de Feira em Banco da Vitória que chegou a notícia da morte de Dona Maria D’ajuda, mulher de um trabalhador da fazenda Porto Novo e moradora da localidade chamada O Beco.

O Beco ficava nas margens do rio Cachoeira, em terras da fazenda Porto Novo. Era um arruado com poucas casas que serviam de moradias para as famílias dos trabalhadores dessa fazenda. Não havia mais de duas dezenas de casas na localidade. Havia ali um grande armazém de cacau e diversas barcaças, Além de um campo de futebol, uma bodega e um pequeno porto fluvial.

Dona Maria D’ajuda, a morta, morava ao lada da casa de Dona Maria José, essa, era mãe de Siri, excepcional jogador de futebol de Banco da Vitória e foi quem primeiro socorreu a amiga. Mas não teve jeito, a vizinha veio a óbito.

Na tarde daquele domingo e na boquinha na noite daquele dia várias canoas cheias de pessoas saíram de Banco da Vitória para o velório da mais que querida Dona Maria D’ajuda. Provavelmente mais de cinquenta pessoas da localidade foram “beber a morta” em sua residência. Entre as pessoas que se dirigiram para o velório estava o aleijadinho Tonho de Zefa Galega, famoso rezador de exéquias. Tonho era figura mais que importante em todos os velórios da região. Quando alguém morria, Tonho se apresentava na casa do defunto. Sentava ao lado do morto e rezava, sem parar a Oração dos Falecidos.

Tonho de Zefa Galega foi um dos primeiros que chegou ao velório de Dona Maria D’ajuda. Antes de iniciar suas orações, abasteceu o bucho, tomou duas xícaras de café com leite, comeu bolo de puba e uns pedaços de cocada. Depois, com suas duas muletas se dirigiu para sala, sentou-se ao lado da morta e começou sua oração, que duraria até a hora do sepultamento, no cemitério de Banco da Vitória.

O velório de Dona Maria D’ajuda seguiu como os outros. O rezador na cabeceira do morto, os bêbados contando casos na frente da casa e meia dúzia de parente choramingando nos becos da casa.

No dia seguinte, as quatro horas da tarde o caixão da defunta foi colocado no batelão, a maior canoa da fazenda, e Tonho com suas muletas foi colocado na mesma embarcação. Nesta canoa grande três homens fortes remavam e além da morta vinham o marido da falecida mais uma vizinha. Ao todo, mais de trinta canoas acompanhavam o cortejo fúnebre que subia o rio Cachoeira.

Tonho de Zefa Galega nascera com os pés atrofiados e só consegui andar amparado por suas muletas. Ele tinha, na época do ocorrido, uns sessenta e poucos anos de idade. Era um homem pequeno e magro, tinha os olhos miúdos e no rosto galego havia um pequeno bigode. Homem de poucas brincadeiras, era raro vê-lo sorrindo.

Mas voltando ao caso da morta, o cortejo fúnebre vinha tentando vencer as águas da maré de março que inundavam o rio Cachoeira dando-lhe beleza excepcional, quando o fato estranho aconteceu. Quando as embarcações cruzaram bem em frente a Bica da água Boa, se ouviu umas pancadas dentro do caixão de defunto. A princípio, acreditou-se ser barulhos dos remos batendo na canoa. Mas não era. Era a dita como morta.

A morta não estava morta e como quem acorda de um pesadelo, ela deu um forte chute na tampa do caixão e como quem procura o ar, Dona Maria D’ajuda se sentou e deu um tremendo grito. Um dos remadores da canoa com o caixão de defunto, ao ver aquela cena se assustou e se jogou na água. O outro o seguiu. O terceiro remador tentou ainda aprumar a canoa, mas de medo, não conseguiu. Pulou também na água e então a canoa virou.

O marido da morta-viva pulou para um lado, o caixão caiu para o outro. As pessoas se assustaram nas canoas que vinham acompanhando o cortejo fúnebre e várias também afundaram. A gritaria foi geral. Muitas mulheres caíram nas águas e se afogavam. Os homens, vendo as cenas horríveis de possíveis mortes coletivas, se jogaram nas águas e foram socorrê-las. O marido de Dona Maria D’ajuda, mergulhou e foi atrás da sua esposa, que não sabia nadar. A encontrou se afogando ainda dentro do caixão emborcado. Salvou-a.

Em poucos minutos água do rio Cachoeira ficou repleto de flores e velas e várias pessoas foram socorridas e levadas para as pedras da beira do rio. Homens, meninos e mulheres que sabiam nadar se jogaram na água e tentaram salvar o máximo de pessoas. Contudo, muita gente, na verdade, se jogou na água e nadou afoitos para as margens do rio com medo da morta-viva. Dois remadores da canoa que trazia a morta nadaram feitos torpedos, alcançaram a margem direita do rio Cachoeira e entraram na mata gritando feitos loucos. Quatrocentos metros de mata a dentro eles pararam debaixo de uma velha jaqueira e tentaram recuperar o fôlego.

– O que foi aquilo? O que foi aquilo meu Deus? Questionou o homem assustado e com os olhos esbugalhados.

– Eu não sei. Eu não sei. Disse o outro. – Só sei que a morta deu um grito da peste e me assustou. Pulei na água, nadei feito um louco e corri a até aqui sem olhar para trás. Nunca sentir tamanho medo na minha vida. Dona Maria D’ajuda deu um grito infernal naquele caixão de defunto. Quase me matou de susto. Tô com o coração na garganta. Disse o outro se escorando na jaqueira.

– Oh! meu Deus! Oh! meu Deus! Disse o outro medroso. A mulher não estava morta! Como pode morto se levantar e gritar, como fez Dona Maria D’ajuda?

– E eu sei lá. Respondeu o outro. – Só sei que quase morri de susto. Lá eu não volto não. A mulher reviveu. Será? Disse se agachando nas raízes da grande jaqueira.

– A canoa virou com o caixão de defunto e tudo. Disse o outro, ainda tremendo de medo. – Não sei como que aconteceu aquilo… – Oh! meu Deus! Quase gritou o homem. – O meu Deus! Disse o homem se levantando e colocando as mãos na cabeça, indagando: – E o rezador? O pobre aleijadinho que estava na canoa da defunta. Será que salvaram ele? Será que aquele condenado sabia nadar?

Do alto da jaqueira, quase do último galho se ouviu uma voz:

– Condenado é a senhora sua mãe. Eu sei nadar e sei correr também muito bem. Disse o aleijadinho, todo molhado e com as duas muletas penduradas nos galhos da jaqueira.

Os dois homens nem procuraram certificar quem falava em cima da árvore. Gritaram de medo e voltaram a correr no meio da mata. Aquele não era um dia bom. Sabiam.

Em Banco da Vitória, a fantástica fuga do rezador, o aleijadinho Tonho de Zefa Galega ficou mais famosa que a revida de Dona Maria d’ajuda. Que muitos anos depois, morreu de verdade.

No dia da revida da morta-viva ninguém morreu afogado no rio cachoeira.

Naquele trágico dia, muita gente em Banco da Vitória chegou em casa cagado e mijado. Mais isso já é uma outra história.

A Faculdade de Medicina de Banco da Vitória.

Por Roberto Carlos Rodrigues

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Muitas pessoas que circulam pela Rodovia Jorge Amado, nas imediações da localidade de Banco da Vitória, não sabem que ali, em tempos áureos já funcionou uma faculdade de Medicina. Na verdade, não era uma faculdade com uso das cátedras e ensino de nível superior, Era, por assim dizer, uma faculdade livre da medicina popular e alternativa.

Naquele então distrito de Ilhéus, só se morria mesmo de morte morrida e ou morte matada. De doença, por mais assustadora que essa fosse, tinha-se sempre um remédio certeiro e eficaz. Ali, os remédios e as curas estavam por todos os cantos e formas, nas rezas, nas plantas, nos frutos, nas águas, na terra e até nas fezes de alguns animais.

Entre aquele povo sempre havia um vizinho curandeiro, uma velha preta, um candomblezeiro, uma velha parteira ou então, meros palpiteiros de curas e remédios salvadores. Estes, vezeiros dos balcões das bodegas.

Se uma pessoa estava com a espinhela caída, um defluxo, catarro nos peitos, com o estômago virado, uma dor de facão ou na titela, câimbras nas batatas das pernas, dor nas cadeiras ou no vazio, ali tinha cura imediata.

Nos quintais das casas sempre havia uma farta e diversificada horta medicinal. Boldo para as doenças do estômago, Capim-Santo para as dores de cabeça. Erva cidreira para acalmar os nervos. Transagens para regular as regras femininas. Mastruz para as contusões e machucados. Goiabeira para as diarreias. Alecrim para o intestino. Babosa para as cicatrizes. Carqueja para o fígado. Confrei para as úlceras. Hortelã para os pulmões. Entre tantas.

Além das ervas, utilizavam-se também cascas de paus, pedaços de raízes, raspas de ossos, cinzas de chifres de bois, olhos de peixes secos, terras e algumas vezes, xarope de fezes de gatos para combater o peito chiado das crianças.

Chás, ungentos, garrafadas, infusões, pastas e cremes curativos eram feitos por todos os cantos e distribuídos entre os vizinhos. Em algumas bodegas tinha até uma farmácia de ervas medicinais em infusões em cachaças de todas as qualidades. Ali, os beberrões tinham motivos de sobra para procurar as curas para os seus tantos males e doenças.

Em Banco da Vitória, se uma pessoa estivesse com uma dor ou uma doença ia encontrar no mínimo dez “doutores” em curas alternativas para palpitarem sobre os possíveis remédios e, na maioria dos casos, com testemunhos de usuários que diziam que tinham sido curados por aqueles.

Um dia, no balcão da Visgueira, famosa venda que meu pai tinha na localidade, situada no início da Rua dos Artistas, estavam seus fregueses vezeiros. João de Coló. Cabo Jonas, Pedro Melo e Antônio de Isaías, quando chegou Ailton Gomes anunciando a morte de Fulô de Nezinha. Ailton nem terminou de dar a triste notícia e foi quase interrompido por João de Coló que disse:

– Morreu de derrame. Tenho certeza.

– Oxi! Como você sabe se Fulô acabou de morrer agora mesmo e você estava aqui? Virou adivinho foi? Questionou Cabo Jonas.

– Acertou! Foi derrame. Arrematou Ailton Gomes.

João de Coló terminou de beber seu Rabo de Galo e concluiu sua fala:

– Todo viado morre de derrame ou do coração. Parece, pelo jeito que, dar o cu aumenta a pressão e estoura os vasos da cabeça. Fulô de Nezinha dava um cu amuado. Morreu de acidente de trabalho.

Cabo Jonas arregalou os olhos e questionou seu amigo de prosas:

– João de Coló onde foi que você estudou esse diagnóstico dos infernos? Desde quando dar o cu aumenta a pressão cardíaca?

– Tá duvidando? Argumentou Coló – Dá seu cu para ver se eu não estou certo ou não. Aumentar a pressão. E tem mais: Deixa eu ir para casa pois está na hora da minha punhetinha diária. Punheta faz bem danado para as vistas. É por isso que eu não uso óculos.

– Ah! Não vai dar não! Arguiu, no canto do balcão Antônio de Isaías e indagou:

– Cabo Jonas você sabia que o melhor remédio para impotência é dormir com uma vela acessa enfiada no rabo?

João de Coló se calou abruptamente e esperou o revide do parceiro de oliotrias.

Cabo Jonas coçou a barba quase branca, tirou o cigarro da boca e disse:

– Fui! Hoje a prosa aqui está ao gosto de Satanás. Vou me preparar para o velório do xibungo da Ruinha. Assim é bem melhor.

Por uma porta saiu Cabo Jonas e pela outra saiu João de Coló.

Dentro da bodega Antônio de Isaías sorria e zombava dos dois médicos de araque. Pedro melo apenas observava e sorria. Era melhor assim. Sabia.

A Faculdade de Medicina de Banco da Vitória nunca formou ninguém. Graças a Deus.

Toinha das Flores – A Drag Queen de Banco da Vitória

drag queenPor Roberto Carlos Rodrigues.

Até 28 de março de 1987, Antônio Espíndola dos Santos era conhecido em Banco da Vitória como Toinho de Dona Filomena. Naquele ensolarado e úmido sábado, exatamente as 15 horas Toinho morreu para sempre, como ele mesmo dizia. Neste mesmo dia e horário nasceu Toinha das Flores, a primeira Drag Queen de Banco da Vitória. Tinha 19 anos de idade.

Toinho era um rapaz na flor da idade. De cútis clara, se diferenciava facilmente entre os moradores de Banco da Vitória. Era alto, de pernas e braços compridos, cabelos louros e finos, olhos azuis e nariz e lábios finos. Tinha traço dos povos nórdicos. O pai era um marinheiro norueguês, que aparecia de vez em quando no porto de Ilhéus, engravidava uma nativa e depois sumia. Sua mãe, Filomena, era morena alta a formosa, de traços caboclos e cabelos negros. Dessa junção de sangues nasceu Toinho, mais lindo que uma menina, por certo, uma menina num corpo de menino.

Toinho, ou melhor, Toinha das Flores resolveu naquele dia liberar geral, externar seu lado feminino, mostrar-se poderosa e alegre. Assumir sua sexualidade e dar um foda-se para quem tinha preconceitos e ares de homofobia.

Vestida em longo vestido florido e dançante, atada a cintura com uma fita vermelha de cetim, nos peitos (ou melhor nos seios) um sutiã amarelado à amostra, nos pés uma sandália dourada de salto alto, na cabeça um lindo chapéu primavera e nos braços um lindo buquê de flores. Eram lindos e alvos lírios do campos – dignos das divas do cinema. Rosto maquiado, nos lábios batons do vermelho mais carnal, nos olhos sombras azuladas e na boca, sorrisos e mais sorrisos.

Como um furacão que chega sem avisar Toinha das Flores, vestida de mulher estonteante, saiu da sua casa que ficava na Rua Duque de Caxias e desfilou pelas ruas de Banco da Vitória distribuindo beijos e flores para ao atônitos moradores das barrancas do Rio Cachoeira. Vestiu-se assim até morrer.

– Gente, cheguei! – Gritava no meio das ruas. Depois gargalhava gostosamente e adentrava as casas das conterrâneas e amigas, onde distribuía flores e beijos. Logo atrás de Toinha das Flores vinha o bêbado Epifânio Calunga empurrando um carro de mão cheio de flores, que abasteciam os braços da nossa personagem.

– Só estou empurrando o carro – Advertia Epifânio – Tô sendo pago pelo serviço. O xibungo é ele. Falava o bêbado eximindo de possível associação com a nossa Toinha das Flores.

– Vala-me Deus! – Disse dona Isaura, na janela da sua casa. O que aconteceu com esse menino. Será que perdeu o juízo? Argumentava perante o marido Juvenal que assistia aquela cena inusitada.

– Nossa senhora da Conceição que tenha compaixão desse ser. Disse a beata Lurdinha, filha de seu Ademar do armarinho Estrela Dalva, enquanto se benzia e beijava seu velho crucifixo.

– Eita! Tem carne nova para os papacus de Banco da Vitória. Disse sorrindo Elzo de Santinha, encostado no balcão do Bar de Xisto Gomes.

– Amores, meus amores, eu estou aqui! Cantarolava Toinha das Flores enquanto literalmente desfilava pelas ruas de Banco da Vitória.

– Novidade! Disse dona Terta, sentada na sua cadeira de balanço, na varanda da casa azulada. – Eu sempre soube que esse menino era invertido. Esse queima rosca, baitola do cão sempre foi afeminado. Os parentes que não queriam ver. Agora ele vai envergonhar a família inteira.

Indiferentes das críticas, Toinha das Flores continuou sua caminhada pelas ruas de Banco da Vitória e quando voltou a sua casa encontrou sua mãe nas mãos das amigas. Dona Filomena tomava água com açúcar para acalmar o coração.
– Mãe, disse Toinha, – aquieta seu coração, pois o meu está radiante, feliz e vibrante. Hoje eu sou o que sempre fui. Morre Toinho, nasce Toinha das Flores. Uma coisa é certa: aquele menino ali da foto na parede estava aprisionando esta moça linda aqui. Hoje eu sou o assunto mais falado neste povoado. E daí? Quem vai pagar nossas contas? Que dane-se todos! falou enquanto entrava na cozinha da casa.
Não demorou e se sentiu o cheiro de pano queimado no fundo do quintal.

– Enlouqueceu de vez. Disse a mãe choramingando. – Oh meu Deus, vão lá no quintal ver em que este menino está tocando fogo. Pediu Filomena para uma vizinha.

No fundo do quintal, perto do pé de mamão, Toinha tocava fogo nas roupas de Toinho. – Adeus cuecas, venham coloridas calcinhas. Adeus bermudas, venham saias rodadas. Adeus calças, que venham vestidos. Cantarolava Toinha enquanto nutria o fogo com as peças de roupa.

Mas nem tudo foi festa e flores nos dias seguintes de Toinha em Banco da Vitória. Primeiros se ouviram os escárnios escondidos, depois os palavrões e xingamentos públicos. Alguns moleques jogavam pedras em Toinha. Teve até quem jogasse bosta na nossa personagem. Há quem diga que Toinha foi até ameaçada de morte. Tudo isso foi pouco até o susto que ela tomara numa noite de agosto.

Numa noite, atraída pelo suposto amante, Toinha se dirigiu até o local do encontro marcado. Era noite velha, já no segundo sereno da madrugada. O local distante e silencioso. Perto da antiga pedreira da Cerâmica Vitória. Ali, local de amores escondidos e traições de casais.

Como quem andava sobre flores umedecidas, Toinha se dirigiu até o homem que a esperava envolto da nebrina. – Tira a roupa. Disse o homem no meio da escuridão. Toinha sorriu e atendeu a ordem. Tentou acariciá-lo. Mais não pode. Sentiu uma fisgada na costela esquerda. Um frio repentino por todo o corpo. A escuridão nos olhos, o silêncio eternos nos ouvidos. Já não estava mais entre nós.

Acharam o corpo de Toinha das Flores no dia seguinte. Logo cedo, uma lavadeira de nome Luiza Morão foi pegar água na bica da cerâmica Vitória e deparou com a cena macabra. Toinha das Flores morta no meio de um tapete de flores de malmequer. Uma flor pálida entre as flores amarelas.

Um grito no meio do mato. O balde d’água caído ao chão. Uma carreira trilhada pelo choro.

O povo logo acordou e foi ver Toinha morta. O Banco da Vitória entristeceu de vez. O nome Antônio Espíndola dos Santos foi descrito no atestado de óbito. O enterro comoveu todo o povo do lugar e naquele final de tarde Toinha das Flores foi sepultada sobre aplausos, choros e tristezas.

O assassino de Toinha das Flores jamais foi descoberto. Pode ser que ele ainda esteja anônimo entre nós. Somente Toinha das Flores soube quem a matou. Somente ela e as flores dos malmequer que ainda adornam as pedras da Cerâmica Vitória.

Mas Deus sabe quem fez esse terrível ato contra a alegre e estonteante Toinha das Flores e, somente Ele poderá julgar e perdoar. Como sempre, Deus agirá no seu tempo.

Toinha das Flores foi a primeira Drag Queen de Banco da Vitória. A primeira e única.

 

 

Crônicas de Banco da Vitória

Por Roberto Carlos Rodrigues. Do livro Prosas e Causos de Banco da Vitória.

Roberto Carlos RodriguescaricaturaSou suspeito para falar do amor que tenho por minha aldeia, – o meu querido Banco da Vitória do Rio Cachoeira -, um taco de terra espremido entre este rio e as franjas da Mata Atlântica que antes cobriam os Altos da Santa Clara, Bela Vista e da Mata da Rinha. Sei, – graças a Deus -, que essa sintomatologia não é só minha, é de muita gente, muita gente mesmo! Em Banco da Vitória mora uma gente amada que sabe muito bem amar sua terra.

Vou descrever como era o “meu” Banco da Vitória.

Quando eu nasci, o Banco da Vitória fervilhava de gente, comércios e desenvolvimento. Era o fim da década de sessenta e, o cacau continuava em voga e propiciava todos os tipos de sonhos e oportunidades para quem gostava de trabalhar. Meu pai (Carlos Cardoso, filho de Dona Maria e seu Antônio Cardoso) era de família de comerciantes de produtos da lavoura regional, como: farinha, milho, feijão, arroz, açúcar etc., a maioria oriundo das terras do Morro do Miliqui (fundos da Fazenda Vitória e perto da atual estrada de Uruçuca).

A minha mãe, Ilza Rodrigues (Bebé) era filha de um neto de escravo de origem Banto, oriundo do Recôncavo baiano, chamava-se Feliciano de Assis. Minha vó era neta de índios Tupi, era conhecida como Dona Cabocla.

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Quem Bateu em Tum?

Por Roberto Carlos Rodrigues

Por Roberto Carlos Rodrigues

Naqueles tempos, Osmário, – hoje nosso reconhecido pastor evangélico -, era chamado em Banco da Vitória pelo apelido de ‘Seu Tum’. ‘Seu Tum’ era um pescador fantástico e um fabuloso jogador de futebol. Ele jogava de ponta direito arisco – como dizia Zé da Alinhagem.

Durante as partidas de futebol, ‘Seu Tum’ fazia gols de todos os tipos e modos. Ele era a alegria das tardes de domingo em nossa comunidade. Os laterais e zagueiros sofriam com os dribles curtos e ligeiros do baixote jogador de futebol. Os goleiros temiam a presença de Seu Tum nos time adversários. Já a torcida adorava ver esse excelente jogador abrilhantar o futebol de Banco da Vitória.

Além de excelente jogador de futebol, Seu Tum já foi lutador de box e teve como treinador o exímio boxer da fama internacional, Cabo Jonas. Apesar de baixa estrutura física, Seu Tum era um boxeador ligeiro e arisco e não tinha medo de lutar com ninguém, – indiferente do peso ou altura do adversário.

Um dia houve uma luta de box memorável no clube social de Banco da Vitória. Seu Tum desafiou um outro lutador de box e outras artes marciais, conhecido como Florêncio, o então marido de Dona Eunice do carramachão.

Florêncio era um homem tarugado e forte, negro de quase dois metros de altura e beirava os cem quilos de peso. Quando a luta começou todo mundo já sabia do resultado. Ia haver o massacre de seu Tum. Florêncio, auto intitulado ‘O Matador’ ia acabar aquela luta logo no primeiro round.

tum234Isso de fato ocorreu, em parte. Seu Tum apanhou igual uma mala velha para largar a poeira antiga, mas não desistiu do desafio. Florêncio bateu em Seu Tum por mais de 10 minutos e a torcida pedia o fim da luta.

Mas ai apareceu o elemento surpresa. Cabo Jonas piscou o olho para seu boxer, indicando o golpe secreto e Seu Tum ganhou a luta.

O fato aconteceu assim: no meio da pancadaria, ‘Seu Tum’ deu um  chute nos culhões (testículos) de Florêncio. O negão desabou no chão feito um saco cheio de cacau e de lá não se levantou. Florêncio gemia feito um bezerro capado enquanto Seu Tum pulava e mostrava os bíceps.

Seu Tum foi então logo dado como vencedor da luta, pelo árbitro, que por ocasião oportuna, era o próprio Cabo Jonas. O clube social só faltou vir abaixo diante dos gritos dos espectadores! As mais de 400 pessoas presentes desta luta memorável saíram com o vitorioso Seu Tum nos ombros, gritando e festejando pelas ruas de Banco da Vitória. Florêncio foi carregado para casa, onde ficou muitos dias sem sair da cama.

‘Seu Tum’ passou uns dias ‘entocado’, sem sair de casa, como medo do revide jurado por Florêncio, diante da imagem de São Jorge, seu santo protetor. Depois, os dois boxeres se encontraram na Taiobinha de Seu Júlio e tudo se acertou entre amizades, risadas e doses de pinga.

Uma noite, havia festa no clube social, onde o Good Som de Jorjão animava o baile de Banco da Vitória. O porteiro era Jorjão e os seus mais de dois metros de altura, cento e cinqüenta quilos de raiva e pouca paciência. Foi então que chegou Seu Tum já afogado na cangibrina e os outros sinônimos da aguardente de Banco da Vitória – e subiu os degraus de acesso ao clube. Na portaria, ele tentou entrar na festa sem pagar o ingresso.

Jorjão repudiou a sua investida e num só golpe, tirou o pequenino Tum da porta do clube social. Seu Tum se sentiu ofendido pela aversão de Jorjão e por mais de meia hora tentou furar o bloqueio do já irritado porteiro. Por último, o Jorjão deu um violento cascudo em seu Tum e o empurrou de escada a baixo. O pobre Seu Tum caiu quase no meio da Praça Guilherme Xavier e saiu de lá chorando pelas ruas. As pessoas da praça zombaram do choro infantil do nosso fantástico jogador de futebol.

‘Seu Tum’ foi se consolar no bar de Zé da Linhagem, na rua do campo. Lá ele se queixou do acontecido e sensibilizou Cabo Jonas, que resolveu tirar satisfação do ocorrido.

Cabo Jonas saiu de venta aberta pela Rua do Campo rumando para aportaria do clube social. Foi seguido por Seu Tum que ainda choramingava e se queixava. Cabo Jonas chegou à porta do clube bradando e enfurecido. De lá gritou forte:

– Quem bateu em Tum? Quem bateu em Tum? Quem bateu em Tum? Eu quero saber agora! Me digam que fez essa maldade!

Jorjão, vendo a assombração sonora que Cabo Jonas fazia na portaria do clube social, se aproximou do nosso ilustre amigo e também gritando disse, nos bigodes de Cabo Jonas:

– Fui eu!! e daí?

Cabo Jonas olhou o porte físico de Jorjão, tosou o cidadão de cima a baixo, mediu com os olhos a largura dos seus ombros e retrucou na hora:

– Bem feito! Bem feito! Tum tá muito ousado quando bebe. Bem feito. Bem feito mesmo. Se fosse eu dava uns dez cascudos nesse menino ousado e teimoso…

Cabo Jonas foi logo embora pela mesma rua por aonde veio.

Na verdade, Cabo Jonas foi para casa tomar um engrossante feito por Dona Deth, sua querida e dedicada esposa. Seu Tum foi para a Pedra de Guerra, tomar banho e curar a ressaca.

Por Roberto Carlos Rodrigues

Cabo Jonas Banco da Vitória Ilhéus

Antigamente em Banco da Vitória comia-se ate concreto.

gulaAntigamente, quem nascia em Banco da Vitória era conhecido como os ‘comem concreto’. Isso porque a nossa gente era boa de boca, comia de tudo e não fazia cerimônia na hora da mastigação. O nosso povo jamais soube o que era fome, pois tinha os frutos das matas, a abundância de caças e um rio farto de peixes e mariscos.

Gente magra em Banco da Vitória não existia. Todo mundo era buchudo e pançudo. Desde criancinha todo mundo aprendia a gostar de pirão de siris, de visgo de jaca e do travor do biri-biri. Comer siris e caranguejos se aprendia aos três anos de idade. Aos cinco anos já se sabia pescar carapicuns, robalos e moréias. Aos oito anos, os meninos mergulhavam no fundo do rio e de lá trazia siris, pitus e aratanhas. As meninas já sabiam pescar de redes e jererés.

Comer bem sempre foi uma das nossas qualidades maiores. Em Banco da Vitória todo mundo era bom de boca e comia de tudo. Na verdade a gente comia mesmo era de mão, desprezando talheres de todas as naturezas e fins. As frutas abundavam em todos os quintais. Eram bananas, mamões, jacas, abius, jenipapos, laranjas, carambolas, mangas, cocos e siriquelas. Nas beiras do rio Cachoeira havia as goiabas, araçás, canas, taramarindo, carambolas, groselhas, amêndoas etc. Junto aos pássaros, todos nós comíamos as frutas e éramos duros de sermos vencidos por doenças bobas.

Do rio cachoeira viam os peixes e mariscos. Eram as tainhas gordas, robalos ovados, carapebas, moréias, carapicuns, traíras entre tantos outros peixes. Os mariscos fervilhavam sobre as pedras. Eram siris, caranguejos, guaimúns cevados, moapéns, ostras, pititingas, camarões e os famosos pitus.

Das matas vinham as caça como as pacas, tatus,  teiús, veados, capivaras, sarués, jacaré e até jibóias que eram comidas pelos ‘bebúns’.

Naquela época frango se chamava galo e era comida de dia de domingo. Marcarão era comida de rico e leite em pó era capricho de poucos. O povo simples comia mesmo era feijão com arroz e farinha torrada e uma lasca de carne assada na brasa.

Moquecas e pirão faziam parte da nossa janta e sopa era comida de doente. As meninas quando estavam apaixonadas chupam limões com sal e pirão de mulher parida se fazia com caldo de galinha cozida no fogão a lenha.

No dia de Cosme e Damião se servia um farto caruru e tinha menino que corria as sete-freguesias e cominam mais de dez pratos da iguaria rara e deliciosa.

Agente não adoecia facilmente, pois éramos todos bem alimentados pelos ares de Banco da Vitória. Nos ‘babas’ de futebol, as canelas dos meninos se chocavam e só faltava sair labaredas das jogadas pouco amistosas. Raramente se via um menino ou menina com o braço ou pé quebrado. Tudo isso só era possível devido a nossa alimentação farta e principalmente natural.

 

As canas eram rasgadas nos dentes. O coco seco era  comido como pudim de menino pobre e o mocotó moqueado se comia desde pequenininho. Como não havia miojos e iogurtes, a gente se lambuzada de frutos e o próprio banho de rio já servia para trazer uns camarões para se comer aferventados.

Normalmente se tomava café com banana da terra, batata-doce, aimpim ou então fruta-pão.

Concreto mesmo a gente não comia, como se dizia. Mas barro era comida de muitas crianças da barriga verde. Tinha gente que não aquetava ver um buraco no reboca da casa de taipas. Ali se ajeitava e fazia uma boquinha naturalista.

Mas isso já é uma outra velha e longa estória do nosso Banco da Vitória do Rio Cachoeira.

Roberto Carlos Rodrigues