João Delicioso, o Don Juan de Banco da Vitória.

SeduçãoPor Roberto Carlos Rodrigues.

Deus queira que todos os parentes vivos de João Delicioso não lembrem dessas estórias e se lembrarem, duvidem das suas memórias e se ainda restarem dúvidas dessas oralidades, esqueçam-nas. Afinal, como logo veremos, será melhor assim.

João Delicioso de Banco da Vitória, para algumas pessoas da nossa comunidade, era melhor que nunca tivesse existido. Na verdade, sempre foi melhor pensar assim. Agora, porque Deus quis que ele existisse e vivesse exatamente na nossa comunidade, nunca saberemos a resposta certa.

Deixemos, por ora, de subterfúgios e vamos aos relatos dos fatos.

Chamava-se João e não tinha sobrenome (era igual aos antigos escravos africanos que sofreram por mais de 350 anos em solos brasileiros). Se tinha documento de registro, nunca mostrou. Preferia ser chamado apenas de João. Em Banco da Vitória recebeu a alcunha de Delicioso. Mas, este adjetivo nunca foi seu sobrenome. Era apenas um apelido. Um gostoso e problemático apelido.

Poucos se sabia sobre a origem deste João, o tal Delicioso. Uns diziam que ele viera junto aos tantos trabalhadores que aportaram em Banco da Vitória, isso no meado dos anos cinquenta do século passado, quando ali se instalou a empresa que abrira e asfaltara a nova estrada entre Ilhéus e Itabuna. Outros diziam que João, o tal Delicioso, viera numa enchente, rio abaixo e ali ficara. Uma coisa era certa, o João, o tal Delicioso, era o melhor alfaiate de Banco da Vitória. Quiçá de todo o território do município de Ilhéus. Sobre suas medidas e cortes vestiam-se os mais ricos fazendeiros de Ilhéus e Itabuna e era ali, em Banco da Vitória que João sem sobrenome fez fama e fortuna. Muita fama e considerada fortuna.

Quando o povo de Banco da Vitória tomou consciência da presença de João, ele já morava ali por mais de seis meses. Primeiro viveu em um quartinho de um só cômodo na Rua da Cerâmica, perto da Ruinha. Depois se mudou para uma casinha na beira da rodovia Jorge Amado. Ali, ele sua máquina de costura e suas tesouras prosperaram e no ano seguinte eles já tinham um atelier na Rua dos Artistas, (bem em frente a atual casa do nosso lendário conterrâneo Dui). Neste endereço João se tornou o tal Delicioso de Banco da Vitória.

João, naquela época, já beirava os cinquenta anos de idade e era um costureiro famoso em toda a região cacaueira. Se quisera tinha ficado dez vezes mais rico abrindo seu ateliê em Ilhéus ou em Itabuna. Mas, isso ele nunca quis. Seu solo adotivo era Banco da Vitória e foi ali que ele ficou famoso e entrou definitivamente para a nossa história.

João era um negro solteiro, magro, elegante, cheiroso e de média estatura. Tinha o corpo franzino, os olhos pretos e miúdos. Os lábios finos, dentes alvos, braços finos e compridos e os cabelos curtos, – estes cortados todas as semanas, sempre às sextas-feiras – dizia ser promessa para Santa Bárbara, sua protetora. Ao lado do seu atelier ele adquiriu mais um terreno, onde foi instalado uma pequena loja de tecidos e sortido armarinho. Ali trabalhava a moçoila Alaíde, filha do seu amigo Gonçalo, também negociante do lugar, próspero comprador de cacau e pai de quatro lindas filhas e nenhum filho.

João, morava só. Junto, apenas aos seus passarinhos presos em gaiolas. Ali, na rua dos Artistas João era feliz. Diziam que nunca quis casar ou juntar família. Mas se quisesse não teria dificuldades. Teria sido um marido perfeito para muitas moças do então distrito de Banco da Vitória.

Mas a especialidade de João era seduzir mulheres casadas ou comprometidas. Isso ele sabia fazer com prazer, maestria, ou, quem sabe, por alguma patologia mental. Por conta dessa sua outra habilidade ele era amado por muita gente da comunidade e amaldiçoado por tantas outras. Em Banco da Vitória, João devia ser o sonho de genro de muitas famílias ou então o pesadelo de tantos maridos e noivos.

Sabia-se em Banco da Vitória que mulheres casadas não podiam nem olhar para o tal João alfaiate. O bom mesmo era nem falar com ele. Se isso acontece, a mulher estava seduzida e o marido, obviamente corno confirmado.

Mas João era dissimulado e inteligente. Quem o via com as tesouras e a fita métrica nas mãos achava-o meio afeminado, meio baitola, veado enrustido ou coisa igual. Com os homens ele agia e falava de um jeito delicado e afeminado. Já com as mulheres, era de outras formas. Inúmeras formas sexuais.

Dizia em Banco da Vitória que foi Dorotéia Alvarenga, a mulher do soldado José Agripino que colocou a alcunha de Delicioso em João, o alfaiate disfarçado. Dorotéia, na flor da Idade, ainda antes dos trinta, cheia de fogo e vontades sexuais, caiu nas lábias de João, deitou na cama do Alfaiate e ali foi amada como nunca fora em toda sua vida de tantos desencontros. João, com suas mãos habilidosas e sensíveis percorreu todas as curvas e as carnes daquela morena ávida por prazeres e fez amor com ela como ninguém jamais fizera. Naquela noite João beijou sua boca, seus pés, seus dedos e seus cotovelos. Acariciou seus ombros, suas costas, seus cabelos e suas panturrilhas. Sugou seus seios, mordeu seus lábios e orelhas, arrepiou seus pelos. Mordeu suas aureolas. Lambuzou, besuntou, chupou e inflou a vulva de Dorotéia com sua língua, verdadeira víbora do prazer. Ela gozou diversas vezes, muitas vezes, todas as vezes imaginárias e reais. Dorotéia gozou, gozou e gozou mais uma vez como nunca tinha imaginado gozar. Gozou, chorou e gritou no meio da noite. – Delícia! Disse.

No dia seguinte, Doroteia passeou toda sorridente pela Rua dos Artistas. Entrou no armarinho Estrela Dalva, compro uma miudezas e ao sair do estabelecimento, passou pela frente do atelier de João e, sorrindo, sussurrou carinhosamente: “Delicioso”. João fingiu não ouvi. Mas Alaíde ouviu.

Nos dias seguintes, nos plantões do marido, Dorotéia fugia de casa e pelos fundos do quintal de João vinha oferecer-lhes os prazeres da carne.

Mais Dorotéia era apenas uma das tantas esposas que caíram nas graças de João, o tal delicioso. Mas foi Alaíde, que acabou alardeando o apelido sexual do seu patrão. Disse primeiro para sua amiga Tonha de Bau. Essa contou para Márcia Fluentes, professora de datilografia e em pouco tempo, entre as mulheres de Banco da Vitória, João Alfaiate tinha agora sobrenome. Tornou-se João Delicioso.

Zeca de Zerfino, amigo de João, quando bebia umas cachaças, alardeava que seu amigo era o maior chuparino da região cacaueira. Zeca dizia que o tal Delicioso era capaz de chupar uma tabaca por mais de meia hora, sem parar nem para enxugar os cantos da boca. Por conta dessa sua habilidade linguística ele era um verdadeiro sonho de consumo sexual feminino da comunidade. Segundo Zeca, a mulher que era chupada pelo profissional do sexo, o tal João, no dia seguinte chamava-o apenas de delicioso. Daí, a fama, quase culinária.

– Pau grande não tem! – Dizia Zeca nos cantos dos balcões da vila ilheense. – Já vi ele nu umas trezentas vezes. Pau mixuruca, o meu é maior. Seu segredo deve ser a língua ladina e boca nervosa sobre os pelos pubianos. Deve ser isso. Concluía seu argumento.

Um dia a sorte de João mudou. Maria Antônia, esposa de Evódio Ávila, tomou umas cachaças, dançou a noite inteira e na hora do sexo exigiu que o marido chupasse sua vulva. Evódio se assustou com a proposta. Ávila, chuparino? Jamais. Pensou. Você devia tomar umas aulas com João Alfaiate. Aquele homem bem sabe fazer uma mulher feliz com sua língua profissional. Concluiu Maria. Murros e tapas deram lugar aos beijos e aís. O casamento acabou naquela noite.

No dia seguinte Evódio Ávila comprou um revolver trinta e oito e naquela mesma noite deu três tiros em João Delicioso.

Atirador medroso e amador, acertou um tiro no ombro de João, outro tiro no braço do alfaiate e um na sua própria perna. Nas paredes ele acertou mais três disparos. Não demorou e foi preso pela polícia.

João foi socorrido ao hospital de Ilhéus, sobreviveu sem nenhuma sequela. No dia que teve alta hospitalar desapareceu de Ilhéus. Dias depois um procurador apareceu na Rua dos Artistas para pegar os bens de João. Os produtos do Armarinho Estrela Dalva foram doados a Alaíde e os imóveis vendidos. João Delicioso sumiu definitivamente de Banco da Vitória.

Foi nesta ocasião que surgiu a lista das mulheres que tinham caído nas lábias e encantos sexuais do tal João Delicioso. A lista era longa e secreta. Afinal, João Delicioso tinha feito um verdadeiro harém em Banco da Vitória. Sabia-se.

Em pouco tempo o povo de Banco da Vitória se encarregou de esquecer de João, o tal Delicioso e os matrimônios abalados pelas peripécias sexuais do antigo alfaiate foram reestabelecidos.

Em Banco da Vitória, o único homem que ainda lembrava de João Delicioso era Evódio Ávila, que recebera o apelido de O Maldito. Algumas esposas da comunidade tinha motivos de sobras para chama-lo assim.

 

Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

seiosContou-me essa história pouco antes de morrer. Fez isso, acredito, como intuito que eu desse letras a sua voz. Acreditou que eu pudesse dar posteridade as suas façanhas amorosas. Relatou tudo, do início ao fim, como quem descreve uma saga pessoal ou outra forma de heroísmo.

Naquela tarde de sábado, ele contou-me a sua maior conquista amorosa e como ele próprio sugeriu, se um dia eu escrevesse este texto, devia chamar-lhe Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Como prometi para o saudoso amigo, transcrevo aqui a história de Aderval Monteiro e sua amante Dona Ana da Conceição.

Segundo o personagem principal dessas linhas, tudo começou com um olhar e um sorriso. Um olhar dele e um sorriso dela. Aderbal era funcionário público e trabalhava na coletoria de impostos do Governo da Bahia, em Banco da Vitória. Ana da Conceição era esposa do Odilon Coutinho, comprador de cacau da firma Lord & Charmann, também instalada neste distrito Ilheense.

Havia pouco tempo da vinda de Odilon e sua família para o Banco da Vitória e em poucos dias eles tornaram-se amigos de bebedeiras e pescarias no Rio Cachoeira. Aderbal era um negro solteiro e já vivido, na casa dos quarenta anos, jamais se casou e tinha fama de namorador e bom de bola. Já Odilon era um homem branco, já beirando as sessenta primaveras, dedicado ao trabalho, mas aos finais de semanas, gostava de beber até cair. Normalmente ele era levado bêbado para sua casa, onde a esposa e a filha única o recebiam em silêncio. Era um bom marido.

Foi numa dessas bebedeira de Odilon que Aderval levou o amigo bêbado para casa. Lá chegando encontrou sua esposa lavando o quintal. A filha estava na casa de uma amiga. Dona Ana da Conceição pediu que Aderval colocasse o marido numa rede estendida no quintal. Aderval arrastou o amigo até o fundo da casa e o acomodou na rede. Dona Ana da Conceição, com as roupas do corpo ainda molhadas ajudou ajeitar o marido. Foi neste instante que Aderval percebeu que os seios da esposa do seu amigo estavam quase a amostra, por trás da roupa fina, que molhada, ficara quase transparente.

Que formosura de seios. Pensou, mas não disse. Se disse, foi só com seus olhar.

Dona Ana da Conceição percebeu o olhar invasivo do homem ao seu lado e respondeu apenas com um sorriso. Quer toca-lo. Ela pensou em pergunta-lo, mas não disse. Se disse, foi só com o sorriso. Ficaram nisso.

Aderval, quase hipnotizado com os volumes e robustez daqueles belos seios e a cor amorenada das auréolas arrebitadas, quase babou pelo canto da boca. Se conteve como quem segura um soluço.

Sem ter o que falar, falou o que primeiro veio a boa úmida e disse:

– Deus sabe o que faz. Divagou.

– Concordo. Respondeu a mulher do bêbado dorminhoco, alisando os cabelos negros e molhados.

– E como sabe. Arrematou a conversa o funcionário público e disse:

O homem está entregue. Deixe-me ir.

– Muito obrigado, seu Aderval. Disse a mulher, inflando o tórax e realçando ainda mais o volume dos seus seios molhados. E concluir: fazer o quê? Ele prefere a cachaça a mim.

– Deve ser louco. Disse Aderval, já na passagem pela sala, rumo a porta de saída para a rua. Deve ser louco mesmo. Concluiu e saiu da casa se olhar para trás. Nos seus pensamentos, martelavam todos os tipos de pecados.

Naquele resto de dia e durante vários dias e várias noites a imagem dos belos seios de dona Ana da Conceição não saíram da cabeça de Aderval. Para ser sincero, ele conseguia relembrar todos os detalhes daqueles seios mais do que do rosto de sua dona. Os seios de Dona Ana da Conceição eram verdadeiramente formosos, majestosos e opíparos. Nunca vira nada igual em toda sua vida.

Assim os descreveu: os seios dela são firmes e duros, como se nunca tivesse dado de mamar para as crianças; são morenos claros feito o bronze africano e as auréolas são escuras, firmes e pontiagudas feito os canos das lanças militares. Precisaria de duas mãos para cobrir cada seio. Mesmo assim, sobrariam ainda músculos próximos aos dedos mindinhos. Se fosse lambê-los, chupá-los e suga-los prazerosamente precisaria de no mínimo vinte e sete minutos de passeios de língua e por certo terminaria com dores no queixo. Acariciá-lo já seria um verdadeira oração a vida. Vê-los nus já seria um espetáculo. Concluiu.

Os dias se passaram e dona Ana Da Conceição, toda vez que encontrava como Aderval, sorria para ele e arrumava o calorento sutiã. Essa era a senha secreta entre eles dois.

Aderval, por respeito ao amigo, tentou tirar aquela tentação da cabeça e até chegou a evitar encontros com o amigo e sua esposa por perto. Agindo assim, acreditava estava se livrando daquele pecado.

Porém, o destino tece o seu próprio bordado e por conta dos pontos sem nós, Odilon Coutinho veio a adoecer, foi acamado e de lá jamais saiu vivo. Acometido por um severo derrame cerebral, o comprador de cacau perdeu o movimento do corpo, deixou de falar e mal-mente gesticulava com uma das mãos. Padeceu tristemente.

A filha e a esposa cuidaram do homem doente. Nos primeiros dias da doença a casa estava cheia de amigos e vizinhos. Contudo, com o passar dos dias, este sumiram e aqueles rarearam. Apenas Aderval continuou visitando o seu amigo todos os dias. Durante a semana, todos os dias, após o expediente na coletoria, ele ia visitar o amigo, contar-lhe alguma novidade do mundo do cacau ou então levar algumas frutas que recebia no seu trabalho. As sábados, Aderval ia as tardes e ficava conversando com o seu amigo doente. Aos domingos, ante de ir a missa, passava na casa do doente e tecia algum comentário incentivador com homem postado na cama.

Naquele tempo, o belo sorriso de dona Ana da Conceição perdeu a luz e olhar de Aderval evitava focar em seus lindos e volumosos seios.

Um dia, o tempo deu um nó final na rede dos dias de Odilon e este faleceu numa friorenta manhã de quarta-feira. Dona Ana da Conceição se tornara viúva. E não tinha ainda trinta e sete anos de idade.

Após o enterro do amigo, Aderval foi até a casa de dona Ana da Conceição, se despediu da viúva e de sua filha e disse que não retornaria mais lá. Não tinha mais o que fazer ali. Argumentou. Ana da Conceição entendeu a situação e vestiu-se de luto por um ano inteiro. No Natal do ano seguinte, ela abandonou as vértices pretas e como que recupera a formosura, voltou a usar seus vestidos floridos e provocantemente decotados. Tornou-se a viúva mais desejada de Banco da Vitória e invejada pelas demais mulheres casadas.

Um dia, domingo de feira, ela encontrou com Aderval e disse que queria vê-lo na sua casa naquela tarde. Ele concordou e disse que não perderia aquele encontro por nada deste mundo

A tarde de domingo ia pela metade, a rua quase deserta, quando Aderval bateu a porta da casa de dona Ana da Conceição. Nas mãos uma sacola cheia de frutas. Ela abriu a porta como quem recebe uma brisa fresca do rosto e sorriu para ele e questionou:

– Quanto tempo, em? Não sentiu saudades minhas?

– Saudade é um prato que se como em silêncio. Respondeu Aderval, sentindo o perfume daquele fêmea magistral.

– Helena, onde está. Perguntou pela filha do amigo?

– Na casa da tia. Está no Pontal, por certo, numa hora dessa passeia na beira da praia de mãos dados com o noivo. Só vem terça-feira. Entre homem. Vamos para o nosso quintal.

Ele atendeu, deu-lhe a sacola com as frutas e ela então disse:

– Toma um cana pura ou uma cerveja?

– Os dois. Disse Aderval, se dirigindo para o fundo da casa. – Vou pegar. Disse a mulher. 

Sentado numa cadeira junto a um pequena mesa, ela o serviu e disse tenho algo para te mostrar. Achou que o senhor vai gostar.

Ele sorriu como resposta de sim.

No quintal tinha um formosa goiabeira. Perto da árvore um tangue cheio de água morna. Dona Ana da Conceição tirou as sandálias, soltou os cabelos e foi até o tanque e começou a se banhar. Então questionou o homem que não acreditava no que via.

– E ái seu Aderval, conte-me as novidades?

– Deus continua justo e cumpridor das suas promessas. E por certo ouve minhas preces. Respondeu.

Ela sorriu fartamente e jogou mais um balde água sobre o corpo.

O vestido fino quase desapareceu e as formas avantajadas do seu corpo moreno resplandeceram como quem recebe um facho de luz. Aderval tocou a dose de cachaça em um gole só e depois bebericou a cerveja. Teve vontade de sorriu, mas não fez isso. Preferiu apenas olhar aquela cena, que por mais sonhada ou imaginada por ele, era muito mais bela e fascinante.

Dona Ana da Conceição continuou conversado enquanto prazerosamente se banhava. Quando por fim, terminou de banhar-se ela disse:

-POr favor, seu Aderval, pega essa toalha aí para mim.

Ele levantou e foi até a rede onde a toalha estava pendura e quando virou, a mulher mais bonita que vira em toda sua vida estava completamente nua a sua frente. Sorrindo ela disse: me enxuga, homem. Não sabe enxugar uma mulher não?

Aderval sorriu e disse:

– Faz tempo que não faço isso, mas sou bom aluno.

– Quero ver se aprendeu bem? Respondeu ela sorrindo e indo até sua direção.

– Enxuga minhas costas. Ordenou. Depois minha bunda e pernas. Deixa meus seios por último.

Não era só os seios de dona Ana da Conceição que eram formosos, majestosos e Opíparos. Ela era totalmente bela e atraente. A cor morena se estendia dos calcanhares atém o crânio. As costas eram largas, a bunda avolumada e firme. As pernas, como se torneadas em madeira de lei, seguravam o corpo de mais de sessenta quilos, os pés eram finos e delicados, a barriga rígida. Os braços eram suaves e calmos e os seios… Ah, os seios. Estes eram fartos, duros e hipnotizantes, fatais para um home de coração fraco.

Só mais belo que aquele seios. Confidenciou-me. Somente o sorriso daquela mulher, naquele rosto moreno, molhado e ávido por beijos e mais beijos.

Após enxugar o corpo daquele fêmea sem igual, Dona Ana da Conceição pegou as duas mãos de Aderval e as colocou sobre seus seios e disse: ver se consegue sentir meu coração.

Ele sorriu. Nada disse. Estava realizado. Já podia morreu. Pensou.

Por certo. Ele sentia o seu próprio coração querer sair pelos punhos.

Dona Ana da Conceição o beijou prazerosamente e ele sentiu o seu cabelo molhado molhar sua camisa domingueira.

Ela puxou ele pelo braço e levou-o para seu quanto.

Sem falar uma única palavra. Se amaram feitos loucos adolescentes e só não foram felizes para sempre porque na manhã da quarta-feira seguinte um caminhão encostou em frente à casa de Dona Ana da Conceição e levou toda a mudança. Dona Ana da Conceição se mudara definitivamente de Banco da Vitória. Foi mora em Vila Velha, no Espirito Santo, onde tinha parentes e jamais voltara ao Banco da Vitória. Para Aderval, nem deu adeus.

Aderval olhou para mim e disse:

– Às vezes eu acho que nada disso aconteceu de verdade comigo, meu amigo Roberto. Acho que foi apenas um sonho louco. Uma louca ilusão minha. Aí, quando eu lembro da minha boca naqueles belos e divinos seios, das minhas mãos naquele corpo, dos aís dela no meu ouvido. Sorriu de prazer e agradeço a Deus por ter levado meus anos, mas não ter apagado minhas memórias. Graças a Ele, isso me sobrou.

E concluiu:

– Na verdade os seios de dona Ana da Conceição não são tão formosos, ajestosos e opíparos. Eles são divinos, encantadores e magnéticos.  Loucamente Magnéticos! – isso mesmo – são magnéticos atraem olhares e irradiam tentações.

Aderval, então me olhou seriamente. Bebericou mais um gole de cerveja e disse:

– Se os seios de dona Ana da Conceição eram assim tão belos e encantadores, imagine sua vulva. Sorriu prazerosamente e concluiu:

– Aquela vulva, que mais coisa linda, gostosa e embriagante. Dei-lhe tantos beijos que até agora deve estar ainda tonta. Nem nos melhores dicionários do mais requintado idioma Latim existem os melhores adjetivos para descrevê-la.

 – Aquilo não era uma vulva, uma xoxota qualquer, uma boceta carnuda. Era uma taça de vinho morno bebida numa madrugada de inverno.

– Você já bebeu vinho morno, meu filho? Perguntou-me.

Eu respondi que não.

– Só perde em sabor para a xoxota de Dona Ana da Conceição. Tenha certeza e acredite no que digo.

– E se eu te falar que a minha amada é especialista em boquete, você acredita?

Sorri como resposta de sim.

– Ele me pegou de jeito e com sua língua morna banhou-me de beijos e mais beijos. Só não sugou a minha alma pois não chupou meu crânio. O resto, valha-me Deus. Conclui Aderval sorrindo.

Foi a última vez que eu conversei como o meu amigo Aderval. Até hoje tenho saudade dos belos seios de Dona Ana da Conceição. Mesmo, sem jamais tê-los vistos.

Que Deus o tenha, Aderval.

A Sereia de Banco da Vitória. Contos de Banco da Vitória.

sereia

Por Roberto Carlos Rodrigues.

Maré igual, aquele povo nunca tinha visto. O rio Cachoeira parecia um lençol de água prateada lambendo os matagais das suas margens. As aguas foram aumentando no meio de março e, já no final deste mês, exatamente no dia 28, a maré subiu a níveis jamais visto. As grandes marés de março eram famosas e vezeiras naquelas beiradas. Porém, igual àquela do ano de 1984, nunca teve outra igual. E foi exatamente na maré fabulosa e resplandecente deste ano que a sereia voltou a aparecer e intrigar o povo de Banco da Vitória.

Aparições da bela sereia não era novidade em Banco da Vitória até o meio do século passado. O povo deste arruado incrustado na margem esquerda do rio Cachoeira já vivia com quase cem anos de relatos de aparições de sereias nas margens do rio, principalmente nas noites de lua cheia, quando este astro facheava sua luz prateada sobre as águas claras do velho rio sul-baiano.

Canoeiros, pescadores, trapicheiros e empregados de fazendas de cacau ribeirinhas já relatavam aparições da linda mulher-peixe que aparecia nas noites de lua cheia, cantando sobre as pedras do rio, enfeitiçando os desavisados e levando para o fundo dos mares pobres homens apaixonados.

O canto da sereia – dizia os marinheiros estrangeiros que abundavam o velho centro de Ilhéus – é uma melodia divina, cantada com uma doçura sem igual, quase angelical e apaixonante. – Quem ouve o canto da sereia se joga no mar e morre afogado nos lábios de Iara. Profetizavam os trapicheiros do Porto do Jenipapo em Banco da Vitória.

Em toda a beira-mar ilheense haviam diversos relatos de pessoas que ouviram o canto da sereia e muitos dessas pessoas, ou morreram afogadas tentando tocar na bela sereia ou então ficaram por dias e mais dias, como loucas, alunadas, tân-tân das cabeças.

Nas beiradas dos rios Almada, do Engenho e principalmente no Cachoeira não faltavam relatos de homens seduzidos pela sereia. Muitos morreram nas águas e seus corpos jamais foram encontrados. Outros, depois foram encontrados nos areais como moribundos. Mas jamais foram os mesmos. Viveram como loucos até morrerem velhos. Assim como morrem os velhos lobos do mar.

Os relatos da sereia sempre eram os mesmos. Diziam que a rainha das águas aparecia sentada numa pedra, com a calda submersa e alisando seus lindos e brilhosos cabelos longos, que em parte cobriam seus seios e outra parte escorria sobre as costas e mergulhavam nas águas. Normalmente a sereia tinha um espelho em uma das suas mãos e usava uma grande concha como pente. A sua beleza era singular e encantadora. Os cabelos eram pretos e brilhosos. A pele era clara e fina. O rosto era arredondado. Neste, faiscantes olhos azuis refletiam a luz do luar. O nariz era afinado e delicadamente avermelhado. Os lábios eram carnudos, e em cores de morangos maduros, cantavam a mais bela canção do mundo. O sorriso, de um branco sem igual, parecia as espumas mais claras das ondas do alto mar. O corpo era forte a avolumado. Não se via costelas sobre sua silhueta esbelta, porém, era sexualmente atraente.

– Mulher de beleza igual não existia sobre o manto da terra. Diziam os que jurava ter visto uma sereia. – Voz mais bela, também. Argumentavam outros.

Em Banco da Vitória tinha quem jurava ter visto a sereia nas pedras do velho rio Cachoeira. Havia quem acreditava nessas aparições. Havia quem dizia que eram apenas conversas de bêbados e pescadores. Uma coisa era certa, até o dia 28 de março de 1984, a sereia de Banco da Vitória era apenas uma lenda, uma superstição ou suposição. Porém, após essa data a sereia de Banco da Vitória se tornou um fato concreto, real e vivido e, muita gente da comunidade, – e não apenas um ou outro pescador mentiroso -, pôde de fato ver uma sereia.

Sabe-se que maré monstruosa que agora relato invadiu as beiradas de Banco da Vitória na boca da noite. Nos dias anteriores, a maré já tinha avisado que estava despontando de forma anormal e espichada. Porém, foi naquela noite que as águas atlânticas invadiram os casebres da beira do rio e alagou vários brejos e riachos da região. A maré daquela noite invadiu a estrada entre Ilhéus e Itabuna, na altura da fazenda de Lilito e pela primeira vez na história contada do rio Cachoeira, ela atingiu a altura dos batentes da fazenda Pirata.

Em Banco da Vitória, aquela maré cobriu a Pedra de Guerra, alagou o campo do Pacaembu e adentrou nos brejais da Fazenda Victória.

Por certo, a sereia da nossa história subiu o caudaloso rio Cachoeira, então avolumado naquela maré grande de março e, apaixonada por nossas paisagens, se embriagou com aquelas plagas e se perdeu quando a maré vazou. A pobre sereia afoita e desesperada se alojou no riacho que escorre pelas terras do convento das freiras e ali fez sua morada por aquela noite, enquanto esperava a nova maré alta e com ela, o caminho para o mar.

Porém, a rainha das águas não contava com os latidos incessantes dos cães de guarda do convento, que percebendo aquela figura estranha nas águas do riacho, latiram a noite inteira e não deixaram as freiras dormirem.

Na manhã do dia seguinte, seu Assis Calazans, (pai de Nem, Carmem, Rosilda e Fiu), então funcionário do convento, quando chegou para trabalhar, percebeu que havia algo estranho na água do riacho e depois de averiguar o vulto nas águas percebeu que se tratava de um peixe grande que ficara preso no remanso do riacho. Seu Assis adentrou o riacho e descobriu que o vulto na água era apenas uma pele estranha de algum peixe mas estranho ainda. A pele fedia como couro de curtume, era meio esverdeada e se soltava em pequenos pedaços. Após sair do riacho, Seu Assis pensou: – Isso é pele de sereia. É melhor deixar onde está. Ele não se enganou. Aquela pele era apenas o disfarce da nossa sereia. A sereia estava viva, bem viva, por sinal, no fundo daquele riacho, bem pertinho do seu pé, quando ele ali entrou.

Quando a maré encheu no dia seguinte, o sol ardia no meio do céu e a pobre sereia não pôde sair do seu esconderijo. Teve de esperar a maré da noite para poder ir embora. Ela só não contava com um fato trágico que ocorrera naquele dia nas margens do Rio Cachoeira, em Banco da Vitória. Naquela tarde, duas pobres crianças morreram afogadas no rio, e grande parte da população do então distrito de Ilhéus foi para suas margens, acompanhar as buscas e resgates dos corpos.

Já era tardinha quando por fim a maré grande invadiu novamente o riacho do convento das freiras e a jovem sereia pôde sair do seu refúgio.

A pobre e bela princesa das águas estava tão agitada e louca para sair daquele riacho,  que nem percebeu as pessoas nas margens do rio. Saltando sobre as águas naquela boca de noite, a sereia foi vista por dezenas de pessoas que gritavam, se assustavam e assustavam o ser saltitantes sobre as águas.

– É uma sereia. É uma sereia. Gritou alguém, na Pedra de Guerra.

Não! É apenas um boto? Argumentou outrem.

É uma sereia. Afirmou veementemente Cabo Jonas. E arrematou: – É Elísia, minha amiga sereia lá das águas de São João da Barra do Pontal. É uma sereia sim. Posso afirmar. De sereias conheço tudo e mais um pouco. Concluiu.

Os corpos das duas crianças foram encontrados minutos depois da sereia assustar tanta gente na beira do rio Cachoeira e por dias só se falou desse fato em Banco da Vitória.

Dias depois, seu Assis pescando durante a madrugada, avistou uma mulher sentada sobre uma pedra no meio do rio. Ele se assustou. Pensou ser uma sereia ou uma assombração. Mas a mulher sentada na pedra do rio não cantava nem se alisava, como fazem as sereias. Apenas olhava as águas do rio e nessas, o brilho da lua minguante. Com medo e na dúvida, Seu Assis deu como concluída sua pescaria noturna e remou de volta sua canoa até o porto de João de Coló.

Assim que chegou perto da Bica da água Boa, ele olhou para trás e viu que o vulto não estava mais sentado na pedra, mas sim seguia sua canoa.

– Vale-me Deus. Disse trêmulo seu Assis, enquanto via o vulto da sereia acompanhando sua embarcação até o porto.

Antes de chegar ao porto de João de Coló, a sereia submergiu, olhou alegremente para ele, sorriu suave, jogou duas pérolas brancas dentro da sua canoa e depois sumiu nas águas.

Somente Seu Assis viu o rosto daquela bela sereia e ele afirmou até morrer: – A sereia era negra. A mais bela mulher negra que seus olhos aimorés puderam ver.

A sereia negra das águas de Banco da Vitória sumiu e jamais foi vista por essas bandas. Ela voltou para sua eterna morada no fundo da Lagoa Encantada. Acreditou-se.

As duas pérolas dadas de presente pela sereia a seu Assis encontram-se guardadas na casa de dona Conceição, sua viúva. Dona Conceição mostra as pérolas para quem quer vê-las. Porém, apenas quem acredita em sereias podem vê-las como pérolas. Os incrédulos veem apenas dois pedaços de pedras sem valor.

Dona Conceição todos os dias alisa suas duas belas pérolas. Depois, sorri alegremente e lembra do seu grande amor, que o tempo levou.