Eu também já fui negro.

Por Roberto Carlos Rodrigues

santa rosaNo último parágrafo da página 169 do livro O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, ver-se alguns relatos das vísceras expostas do racismo no Brasil. Cita o autor que um jovem negro que aspirava ser diplomata comenta com o artista plástico Thomas Santa Rosa, este último também negro, contudo, famoso, as dificuldades e as imensas barreiras que enfrentava por conta do preconceito de cor. Segundo Darcy, o pintor Santa Rosa teria dito em tom comovido: “Compreendo perfeitamente o seu caso, meu caro. Eu também já fui negro”.

No meu caso, se fosse relatar as tantas vezes que fui descriminado daria para escrever um livro sem números de páginas. Uma vez fui apresentado a uma vultosa autoridade brasileira como sendo “um negro de alma branca”. Não gostei da camuflagem do racismo explícito na frase e indaguei ao apresentador: “Desde quando branco escravista e racista tem alma?”. O desembargador sorriu e amenizou a atroz situação com outra frase: “Saber a raça não é difícil. Nada fácil é entender o significado da alma”. Filosofou.

Sou negro, nessa e na outra vida. Minha alma não conhece cores. Que Deus perdoe a alma de Santa Rosa (foto ao lado).

Anúncios

Quilombos de Banco da Vitória

Por Roberto Carlos Rodrigues

Um dos quilombos mais famosos da região de Ilhéus ficava nos limites da Fazenda Victória e era conhecido como Cafua do Morro do Miliqui (atual região da rodovia entre dos municípios de Ilhéus e Uruçuca).

Como veremos a seguir, os proprietários da então Sesmaria Victoria preferiam viver em paz com esses escravos foragidos simplesmente por duas questões elementares e primordiais para a manutenção dos seus negócios rurais. A primeira questão era o fato dos quilombolas do Morro do Miliqui ocuparem as terras pertencentes a Sesmaria do Iguape e não as terras da Sesmaria Victória. A segunda questão era o fato religioso dos proprietários da Fazenda Victória. Em 1857, o então proprietário da Fazenda Victória Ferdinado Steiger e sua família eram cristãos protestantes. Por princípios os Steiger não aceitavam escravos que não fossem de suas propriedades e direitos e não permitam que caçadores de escravos foragidos entrassem em suas terras para aprisionar escravos de terceiros.

Há também algumas evidências claras entre essa ‘proteção’ dada por Steiger aos negros da Cafua do Morro do Miliqui, pois esses revoltosos, ocupando aquela posição geográfica, evitavam que os escravos da Fazenda Victória fugissem pelos confins das propriedades rurais próximas.

Nos documentos da Cúria de Ilhéus há mais de 10 registros de escravos capturados pelos quilombolas da cafua do Morro do Miliqui e devolvidos aos seus respectivos donos, depois, obviamente, de devidos pagamentos. (vide Estudo de Mary Ann Mahony).

Vale ainda citar que a Cafua do Morro do Miliqui ficava localizada a mais de cinco quilômetros do local onde hoje conhece-se como o Morro do Miliqui. Provavelmente essa cafua ficava localizada nas proximidades da zona rural da cidade de Uruçuca.

A historiadora Mary Ann Mahony cita em sua obra que os escravos africanos chegaram a região do Banco da Vitória no início do século XVI, indo trabalhar nas lavouras das margens do Rio Cachoeira e na sesmaria e depois Fazenda Victória. Em documentos pesquisados por essa historiadora, ver-se que Ferdinand Steiger, dono da Fazenda Victória, tinha em 1840 mais de 120 escravos, sendo que destes 104 tinham sido transferidos suas posses no ano de 1831 pelo investidor suíço Gabriel May. Dessa forma e época a Fazenda Victória era uma das maiores detentoras de escravos do sul da Bahia.

Segundo May, o maior plantel de escravos na região de Ilhéus estava no Engenho Santana. Aproximadamente 220 escravos no ano de 1828.

Em 1988, quando da abolição da escravatura no Brasil, a Fazenda Victória tinha ainda mais de 50 escravos, sendo que muitos deles já eram velhos ou estavam fatalmente doentes.

Assim como ocorreu em todo o Brasil, os escravos da Fazenda Victória foram literalmente expulsos das propriedades rurais e muitos deles morrem como mendigos nas ruas de Ilhéus e Itabuna.

Alguns permaneceram em Banco da Vitória e deste temos até hoje centenas de descendentes.

 

Parte do livro Banco da Vitória – A História Esquecida