Eu também já fui negro.

Por Roberto Carlos Rodrigues

santa rosaNo último parágrafo da página 169 do livro O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, ver-se alguns relatos das vísceras expostas do racismo no Brasil. Cita o autor que um jovem negro que aspirava ser diplomata comenta com o artista plástico Thomas Santa Rosa, este último também negro, contudo, famoso, as dificuldades e as imensas barreiras que enfrentava por conta do preconceito de cor. Segundo Darcy, o pintor Santa Rosa teria dito em tom comovido: “Compreendo perfeitamente o seu caso, meu caro. Eu também já fui negro”.

No meu caso, se fosse relatar as tantas vezes que fui descriminado daria para escrever um livro sem números de páginas. Uma vez fui apresentado a uma vultosa autoridade brasileira como sendo “um negro de alma branca”. Não gostei da camuflagem do racismo explícito na frase e indaguei ao apresentador: “Desde quando branco escravista e racista tem alma?”. O desembargador sorriu e amenizou a atroz situação com outra frase: “Saber a raça não é difícil. Nada fácil é entender o significado da alma”. Filosofou.

Sou negro, nessa e na outra vida. Minha alma não conhece cores. Que Deus perdoe a alma de Santa Rosa (foto ao lado).