São João em Banco da Vitória – #1

forro-do-pedroPor Roberto Carlos Rodrigues

A casa era pequena. Na frente, uma porta e uma janela pintadas de azul. Ambas abertas. No meio do terreiro, a grande fogueira ardia por toda noite. Bombas explodindo nos cantos do terreiro, pistolões explodindo no céu. Este, todo estrelado. No braseiro, milho assado, costela de porco e pertinho dele, o aromático caldeirão cheio de quentão, tampado para não deixar exalar os cheiros das ervas daquele lugar. Na banqueta encostada ao vão da casa, a mesa sortida de diversos licores. O rei jenipapo adoçando os berços das moças, acompanhado dos sabores das garrafas de carambola, groselha, cacau, cravo, pitanga e lúdico licor de creme de leite. Junto ao pé da mesa, um garrafão verdecido, ainda pelo meio, da legitima aguardente Santa Clara. Bebidas para os cabras da peste que não gostavam de bebidas doces.

Amendoins assados e cozidos, pamonhas, mingaus de milho, bolo de tapioca, bolo de puba, lelê, leitão assado, paca cozida, galinha assada, piru cozido, caldeirão de sarapatel. A mesa estava florida das iguarias do lugar. As bocas, todas satisfeitas.

Bebuns por todos os cantos. Crianças correndo no terreiro e na minúscula sala os casais dançam no chamego do forró intermitente. Sanfoneiro caolho. Ruim das vistas, mas bom das mãos. A sanfona gemendo como se estivesse em um surto de epilepsia controlada. O zabumba batendo feito coração em taquicardia. O triangueiro marcando os passos da dança. O violão coordenando a harmonia da música e o pandeiro repicando feito guizo de cascavel. A música não parava nunca. A dança também não.

Dentro da sala apenas dez casais dançando. Não cabia mais. No lado de fora, uma procissão de gente dançando e esperando a vez de entrar na sala de reboco novo, pintado recentemente de azul. Na cumeeira, o lampião acesso. No ar o cheiro de cacau exalando daquele povo feliz e trabalhador.

De vez em quando um dançarino mais animado gritava no meio da sala: – Viva São João! Todo mundo respondia junto: VIVA! Fogos estouravam novamente no céu. O povo inventava uma quadrilha ao redor da fogueira e dança corria solta. A alegria exalava no ar e a poeira se espalhava entre os passos coordenados. Xote e baião, xaxado e forró eram como irmãos siameses. A festa não tinha fim.

Suor pingando no chão. Junta-se ao orvalho da fria madrugada. O arrasta-pé vai até o nascer do dia. O povo nem olha para os relógios. Espera o sol anunciar o novo dia. Enquanto isso, dançam sorridentes. Povo mais feliz que aqueles ribeirinhos não tem naquelas redondezas.

No início da manhã ainda tem gente ao redor da fogueira e bêbados dormindo nas sombras das árvores. Um bêbado acorda debaixo da grande jaqueira e grita: Viva São João! Os demais parceiros acordam subitamente e respondem em coro: Viva. Depois voltam a dormir, como se estivessem sincronizados. A ressaca dos licores durava dias e mais dias.

Os donos da casa se despedem das visitas. – Até para o ano. Dizem, sorridentes e satisfeitos. Até. Respondem os casais com os pés cobertos de poeiras e as roupas suadas. As cabeças estão repletas de alegrias e os corações ainda dançam no ritmo do forró de Banco da Vitória. O famoso forró Danado de bom.

No rádio de pilha, colocado agora em cima da mesa, onde ainda tem as sobras dos licores e das comidas, ouve-se Luiz Gonzaga cantar: Olha pro céu meu amor, ver como ele está lindo… Não podia haver trilha sonora melhor para aquela bela manhã de junho. Era São João.

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O Cabaré do Caroço de Bembeu

Por Roberto Carlos Rodrigues

ppputNaqueles tempos havia em Banco da Vitória um famoso cabaré, reduto de formosas mulheres damas (prostitutas) e ponto de encontro da boemia local. Esse ‘brega’ ficava na antiga Ruinha, mas devido a alta criminalidade entre os seus frequentadores, o estabelecimento foi transferido para uma área que se chamava ‘Perto da Represa Pequena’, no sopé direito do Alto da Bela Vista. Lá na Rua da Represa, Seu Julio da Taiobinha, Bembeú e o ‘angelical’ Dalila atendiam os fregueses e propiciavam os prazeres da carne.

A estrada dessa rua era de barro vermelho e quando chovia nem caranguejo subia a ladeira que se iniciava perto do matadouro. As esposas e mães preocupadas, – para saberem se seus maridos e filhos tinham idos até o brega de Bembeu -, inspecionavam as bainhas das calças e as solas dos sapatos dos maridos rueiros. Se tivesse marcas de lamas vermelhas neles, a resposta era certa: os ‘rapazes’ tinham frequentado o famoso bate-coxas da Rua da Represas. Antro da perdição. Lugar indecente para homens de bens e exemplares pais de famílias.

Foi Dantinha, (Dantas Oliveira, irmão de seu Oliveira), notório “raparigueiro” que era maior dançarino de Banco da Vitória, que nomeou o local de “O Caroço” e o nome pegou ao gosto dos fregueses. As ‘meninas”, – como eram chamadas as carinhosas mulheres damas do local -, de vez em quando desciam o morro e desfilavam pelas ruas de Banco da Vitória agarradas em Dantinhas como siris em cordas. Todas faceiras, elas mostravam os seus vestidos floridos e seus andares rebuculosos.

“Isso é um ‘assunte’ da peste!” Protestava Dona Normélia. “Renca de Quenga do Cão’. Dizia Dona Chica, mãe de Ivone Santos. Mas Dantinha não se importava com isso e com as suas meninas, ele bebia e dançava o dia inteiro na venda “A Visgueira”, que pertencia ao meu pai, Carrinho.

Todas as noites Dantinha e Seu Júlio iam ‘bater ponto” no Caroço, onde a dança corria solta e a alegria exalava pelos ares. Lá não havia arruaças e quando alguém resolvia brigar no recinto, descia preso pelas mãos severas de Odilon Soldado. Normalmente o arruaceiro dormia na cadeia que ficava no matadouro municipal e só era solto no meio da tarde. (- para passar vergonha, como dizia Odilon Soldado).

Todas as noites o Banco da Vitória dormia embalado pelas as músicas que tocavam nas radiolas do Caroço. Eram músicas para alegrar os corações de gente grande e despertar ciúmes nas esposas solitárias que esperavam os seus maridos boêmios.

Dantinha, dizia que deu o nome de ‘Caraço’ ao brega de Banco da Vitória em homenagem as suas peripécias sexuais. Afinal, ele dizia que toda noite ai até o brega e ‘acertava no caroço’. Seu Juca, pai de Dui, dizia que o caroço que Dantinha acertava era o ‘caroço’ do seu ‘bolso furado’. Garapa, exímio preparador das famosas ‘garrafadas Levanta até Morto’, dizia que Dantinha era o seu melhor freguês e que as ‘meninas’ cientificavam que ele ‘dava no couro’ todas as noites.

Tonho de Nouzinho dizia que Dantinha dava mesmo era no couro dos sapatos, pois dançava a noite toda e não se cansava. Lindor, nunca duvidou das artimanhas do seu irmão dançarino. Afinal o sucesso de Dantinha com as ‘meninas’ corria aos quatro cantos de Banco da Vitória e já tinha feito até seguidores como Xisto Gomes, Seu Luiz do violão e Cuorinho, que todas as noites ‘batiam pontos’ no Caroço de Bembeu.

Um dia, Deus precisou de um instrutor de danças nordestinas para alegrar o céu e convidou Dantinha. O nosso famoso frequentador do Caroço não recusou o convite e em plena noite de uma segunda-feira, ele se apresentou ao Reino Divino. Nesse dia  o xaxado então se tornou a dança preferida dos santos.

O Forró da Peste, Em Banco da Vitória

LIFEPor Roberto Carlos Rodrigues

Naqueles tempos havia uma festa que o povo de Banco da Vitória não perdia por nada deste mundo. Era o forró de Maria Alcina, uma baiana nascida no sertão de Jeremoabo e que veio para o Sul da Bahia, expulsa pela seca que assolava o Nordeste brasileiro, no inicio do século passado.

Dona Maria Alcina morava na antiga estrada da beira do rio Cachoeira, que iniciava em Banco da Vitória e ia até a fazenda Progresso, nas franjas de Itabuna. A roça de dona Maria Alcina ficava na beira do rio, nos fundo de onde se tem hoje um posto de combustível, depois da fazenda Pirataquisé. A data da festa era 19 de junho e se chamava de Forró da Peste. Quem recebia o povo na porteira da roça era o saudoso Nelson Fontes, amigo dos filhos de dona Maria Alcina.

João de Coló, Antônio Isaias, seu Oliveira, Dantinha, seu Jeoval e Paulo Rocha eram freqüentadores assíduos e dançavam a noite inteira nesta festa. Os músicos que tocavam no forró de dona Maria Alcina eram todos sertanejos, seus irmãos, cunhados, filhos e sobrinhos.

Segundo Tio João de Coló, ele nunca tinha visto um forro daquele em toda sua vida. Ele dizia que a festa era tão animada e cheio de detalhes impressionantes, que era impossível esquecê-la.

Um dia, na casa de minha vó dona Cabocla, tio João de Coló se preparava para almoçar conosco, quando meu avô seu Feliciano de Assis, lhe perguntou:

– E ai João, como foi aquele forró que você foi à casa de dona Maria Alcina?

Tio João de Coló, não perdeu a oportunidade de re-contar a mesma estória pela octogésima sexta vez e disse:

– Foi um forró da peste! Igual, eu nunca vi. O folgueirão ardia no meio do terreiro feito o sol de verão em Picos,  no tórrido Piauí. A meninada soltando bombas e balões toda hora. O milho assado estava por todo canto. O licor de jenipapo escorria pelos cantos das bocas. A carne assada aromava os ares. As moças dançavam todas faceiras e perfumadas. Os homens todos nos trinques e, no carramachão, montado ao lado da casa, o forró corria solto e sem descanso. Tinha gente saindo pelas janelas.

– Cabocla – disse tio João – Nelson Fontes e Antônio Isaias estão ai de testemunhas. Vivinhos da silva e não me deixarão mentir. O forró era esquentado na chapa quente. Igual, eu nunca vi. O sanfoneiro era um músico extraordinário. Tocava a sanfona, ajudado por dois rapazotes magricelos. O homem tocava a sanfona e batia o pé no chão para marcar o compasso da música.  Ele batia o pé com tanta força que fazia um buraco deste tamanho no chão. De hora em hora os dois rapazotes pegavam o sanfoneiro de dentro do buraco e botava ele para fora. Tinha de trazer dois caçoais de terra para tapar o buraco.

O zabumbeiro tocava com um estoque preparado de dez a quinze couros de bode e cinco zabundas de reservas. O zabunba sofria sobre porrada dura  e de hora em hora se trocava o couro rasgado. O pandeirista, um magricelo chamado Aranha, parecia que sofria de epilepsia. Tocava o pandeiro e tremia todo com se estivesse numa crise de convulsão nervosa. Mas O som era gostoso e eu só fungando nos cangotes das meninas. Minha especialidade!

Agora o mais impressionante era o tocador de triângulo. – Feliciano de Assis, – disse João de Coló- o homem tocava o triângulo encostado a um balde grande cheio de água fria. Os ferros gemiam nos tuligulim, tuligulim,  tuligulim, tuligulim, tuligulim. O macho batia os ferros com tanta força, que o triângulo fica vermelho em brasa. Aí o tocador de triângulo enfiava o instrumento na água fria e: xiiiiiiiiiiiissssssssss!!!. A água fervia! O cabra puxava o triângulo da água fervente e tudo começa de novo: tuligulim,  tuligulim,  tuligulim,  tuligulim,  tuligulim… e eu só no rasta-pé e no fungado gostoso..

Meu avô Feliciano sorria das lorotas de João de Coló e minha avó Dona Cabocla sorria de orgulho do seu irmão festiero e mentiroso. João de Colo ainda argumentava:

– Foi lá no forró de Dona Maria Alcina que eu conheci Eufrásia, filha de Antônio Antão, morena faceira, ancas largas, boca carnuda, boa de dança e chamego…

Meus avôs sabiam que ia começar uma nova estória, desta vez com muitos mais detalhes e poucas verdades, como de costume.

O Forró de Dona Raquel

Por Roberto Carlos Rodrigues

Você já dançou no Forró de Dona Raquel?

Se a sua resposta for sim, meus parabéns. Se não, me desculpe, mas você é menos feliz que muitos de nós.

Dona Raquel era uma católica devota de Nossa Senhora da Conceição e morava na Rua São Pedro. Todos os anos, em sua casa, ela realizava o melhor forró de Banco da Vitória. Dona Raquel era mulher forte e iluminada. Ela sabia sorri da vida e bailava como se fosse uma pluma ao vento.

No seu famoso São João, ela era a dançarina mais requisitada e tinha até fila de homens, esperando uma ‘mão de dança’ com a famosa dona casa e festeira.

Todos os anos, no mês de junho, Dona Raquel pedia aos seus filhos Canuto e Julinho que pintasse a casa e reformasse o piso da sala. Os garrafões de licor já estavam esfriando debaixo da mesa da cozinha. Ela enfeitava a frente da casa com bandeirolas coloridas e mandava fazer uma grande fogueira no meio da rua. No dia de São João, as exatas seis horas da tarde, dona Raquel ligava a radiola Tarteka e o forró começava para jamais acabar.

Primeiro, se tinha as crianças dançando e comendo milho cozido e bolo de milho. Depois, a partir das nove horas, se iniciava o forró mais procurados pelos festeiros de Banco da Vitória.

A casa de dona Raquel não era grande e na sala pequena só cabiam no máximo doze casais dançando. A festa tinha regras bem definida, como por exemplo: era proibido dá pum no meio do salão; homem não podia portar armas na cintura (todos que chegavam armados entravam pelo beco da casa e davam as suas armas para dona Raquel guardá-las); não se podia dançar a ‘indecente bate-coxa”; as mulheres não podiam ‘dar malas’; os bêbados não entravam no salão; dançarino ‘cintura de pedra’ dançava sozinho; mulher vestida de calça não era bem vinda; não podia dançar de rosto colado nem se chamegar demais. Além disto, havia mais duas regras irredutíveis: só se tocava músicas juninas e só haviam dois tipos de licor, o de primeira, oferecido para a ‘velha guarda’ e freqüentadores ilustres e o de segunda, feito com álcool desdobrado que era oferecidos para os gulosos e perturbados beberrões.

Todos os anos, na noite de São João, a casa de dona Raquel ficava pequena devido a quantidade de gente que ia lá dançar forró. Dona Raquel recebia todos com um sorriso encantador, um copo de licor de jenipapo e um punhado de amendoim cozido. Seu João de Coló, Nestor Cotó, Jonas Porco-e-touro, Seu Xisto Gomes, seu Júlio, Dantinha, Antônio Isaias e Nelson Fontes não perdiam este forró por nada deste mundo. Carmerindo, Gogó de Sola, Pedro Melo, Jarinho, Oficial, Seu Alfredo, Deca e muitos outros moradores gastavam os seus sapatos dançando a noite inteira no forró de dona Raquel.

As damas não faltavam para a dança. Além de dona Raquel, tinha dona Constância, Dete Catatau, Yracy, Maria Zoinho, Dona Rosália do Alto, dona Margarida, Estelita de Rabada Gorda, dono Maria, Loura, Teca, Dona Vaninha, dona Dete de Cabo Jonas e sua filha Edinha, Maria de Aries, Guda e muitas outras dançarinas de primeira mão.

Todos os anos seu Nestor Cotó e seu Diva levavam as suas quadrilhas para dançar na porta casa de dona Raquel e ai então a festa era completa e a nossa geração podia dançar no forró mais animado da região. A festa mesmo só acabava às oito horas da manhã do dia seguinte e dependendo do estoque de licor, no dia de São Pedro tinha mais forró e a casa ficava  lotada de porta-a-porta.

Quando junho acabava, dona Raquel ia dançar na festa da Rua Dois de Julho. Ali ela era recebida como a primeira dama das festas juninas.

Até hoje é impossível passar pela Rua São Pedro sem olhar para a velha casa de dona Raquel e não sentir saudade da sua festa magistral nas noites de São João. Há quem diga que, passando por lá ainda se ouve as musicas que ali tocava e animava mais da metade da nossa gente festeira.

Um dia, Deus percebeu que Dantinha andava triste no céu e pensou em arrumar uma dançarina de primeira, especialista em forró, para animar os ares celestiais. No dia seguinte, no meio da tarde morna do outono de Banco da Vitória, dona Raquel mudou de endereço e foi bailar no céu dos justos e alegres.

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