31 – O Fim das Fofoqueiras de Banco da Vitória.

Uma das coisas que o tempo, do seu jeito e modo, se encarregou de quase acabar foram as fofoqueiras. Atualmente, com o advento da Internet e das Rede Sociais as fofoqueiras quase e não tem mais o que fazer, pois quando vão contar um boato, um mexerico novo, todo mundo já sabe. Pode-se acreditar que as fofoqueiras e fofoqueiros estão com os dias contados. Todavia, antigamente, em Banco da Vitória tinha fofoqueiras respeitadas, quase profissionais nas artes das intrigas e dos boatos.

Nas barrancas molhadas pelas marés atlânticas no Rio Cachoeira havia algozes fofoqueira, – mas temidas que as feiticeiras locais. As fofoqueiras eram também classificadas como bisbilhoteiras, mexeriqueiras, intrigantes, leva-e-traz, boateiras, devassas, linguarudas, faladeiras, indiscretas e levianas.

Dizia-se no Nordeste brasileiro que o povo aumenta mas não inventa. Isso, em Banco da Vitória, nunca funcionou. As boateiras inventavam estórias descabidas e mirabolantes, mas com fortes argumentos de veracidade. Aumentavam os tons das desgraças humanas, mudavam os cenários dos fatos, acrescentavam novas personagens e massacravam seus inimigos.

Por conta de boatos e fofocas muitas moças apanhavam dos seus pais, sem merecerem nem mesmo um simples arranhão. Namorados se separavam, casais brigavam, colegas perdiam as velhas amizades, vizinhos deixavam de se falarem. Tudo isso por conta da sanha tenaz das fofoqueiras.

Antigamente, havia até o dia dos surgimentos das fofocas e boatos. Eram as segundas-feiras. Nestes dias, as fofoqueira faziam um apanhado do que tinha ocorrido no final de semana e regado de grandes criatividades, azeitavam suas fofocas e intrigas. O disse-me-disse corria solto neste dia e de vez em quando uma fofoqueira caia no tapa, recebia dois panos de facão nas costas ou até mesmo uma homérica surra. No dia seguinte a delegacia de Ilhéus estava cheia dos envolvidos nas fofocas e intrigas e até advogados eram requisitados nas acusações de falsos testemunhos, difamação e outros flexões do Direito.

Na boca da fofoqueiras locais moças virgens se tornavam mulheres damas. Homens casados e honestos viravam traidores costumazes. Donas de casa trabalhadeiras e direitas viravam preguiçosas e sujas e, de del em del muita gente via a reputação ir de água a baixo. Em Banco da Vitória, a fofoca estragou a vida de muita gente.

Alguns bêbados locais, quando já zimbrados nos efeitos etílicos elegiam as maiores fofoqueiras da localidade. Normalmente eram primeiro escolhida a fofoqueira de cada rua. Depois se classificavam as três principais fofoqueiras do então distrito de Ilhéus. Os cargos eram concorridos, mas merecedores.

Por anos de mais anos, uma senhora local recebeu o título de a maior fofoqueira de Banco da Vitória e redondezas. Mulher de poucas amizades, viveu a vida inteira fazendo intrigas e boatos. Por conta disso, foi a única defunta que foi enterrada no nosso cemitério em dois caixões. Em um caixão pequeno foi seu corpo. No outro, maior, foi sua língua. Que Deus a tenha perdoado de tantas intrigas, mexericos e boatos. Se isso não aconteceu, Satanás tem péssima companhia.

Graças a Deus, não temos em Banco da Vitória mais fofoqueiras como antigamente e as poucas pessoas que atualmente tentam viver no leva-e-traz, não fazem nem cócegas quando comparadas as antigas e temíveis fofoqueiras locais.

Em Banco da Vitória as fofoqueiras se findaram. Há quem acredite o contrário. Mas isso deve ser apenas boatos de quem não tem o que fazer.

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23 – Triste Alvorada nas margens do Rio Cachoeira.

O Banco da Vitória amanheceu triste. Hoje nos despedimos do nosso amigo Marlon. Marlon chegou a nossa comunidade ainda menino. Foi morar com sua família, do outro lado do rio Cachoeira, em um sítio que ficava bem em frente a Pedra de Guerra. Sabia remar como poucos. Conhecia profundamente a Bíblia. Era um desportista nato e ativista social. Era também um excelente escritor. Casado com Carmem Calazães, teve filhos, constituiu uma bela família.

Por certo, Marlon foi o maior talento da escrita que viveu em Banco da Vitória. Sua obra não foi publicada em vida e agora adormece nos seus tantos cadernos e anotações.

Há exatos dois anos estive com Marlon diversas vezes. Ele compareceu ao lançamento do meu livro em Banco da Vitória e no dia seguinte passou uma manhã inteira comigo, na casa de Ivone Santos, onde mostrou-me seus novos escritos, falou sobre seus projetos editoriais e seus sonhos.

Conversamos sobre seus tantos projetos, sobre sua obra-prima, o romance inédito Asas Feridas e os tantos contos que tinham como temática a cultura cacaueira.

Marlon faleceu ontem à noite e foi sepultado no final da tarde de hoje, em Banco da Vitória. Morre um homem íntegro, inteligente, ativista social e amigo de grande caráter.

Ficou sua obra literária inédita. Deus queira que seus familiares e amigos possam realizar o sonho do nosso amigo Marlon, que era ver seus escritos publicados.

O povo das barrancas do Rio Cachoeira dorme hoje triste. Perdemos o nosso amigo Marlon. O grande escritor Marlon. O grande ser humano Marlon. O Marlon de Banco da Vitória. O escritor da saga do cacau.

Foi muito bom ter te conhecido, ser seu amigo e parceiro de tantos sonhos.

Tenha boa jornada meu amigo Marlon. Siga a luz.

20 – Dona Maroca – A Fada de Banco da Vitória.

Nos livros de estórias fantásticas, as fadas são representadas por moças lindas, reluzentes e mágicas. As fadas realizam sonhos, protegem as crianças de todos os tipos de males ou ainda fazem todos os tipos de encantamentos e surpreendentes magias. Em Banco da Vitória, a nossa fada não era jovem, tinha mais de sessenta anos de idade e se chamava Dona Maroca. Dona Maroca do Lelê.

Dona Maroca era uma viúva que vivia sozinha num terreno grande, numa casa com um quintal enorme que ficava nas imediações do atual restaurante Camarão na Moranga, de Marta Duarte. A casa de Dona Maroca ficava onde hoje está o quintal da casa dos pais de Cachaça e André. Em torno da casa da nossa fada havia um grande jardim repleto de flores e um pomar repleto de frutos.

Dona Maroca era famosa como quituteira e fazia um doce de milho cozido chamado de Lelê. Este doce era um tipo de canjica de grãos de milhos e temperado com coco ralado, leite de vaca, açúcar, e aromáticos cravos e canelas.

O Lelê de dona Maroca era vendido em um tabuleiro de madeira pintado de azul. Aos sábados e domingos Dona Maroca instalava seu tabuleiro encostado ao muro do antigo barracão da feira de Banco da Vitória, (bem em frente à casa de Dona Lia), na Praça Guilherme Xavier. Ali ela vendia, além do famoso Lelê, mingau de milho e de tapioca, canjica e pamonhas. Aromáticas e deliciosas guloseimas.

Dona Maroca era um ser angelical, amável, cheirosa e principalmente generosa. Na sua casa as crianças eram sempre bem vindas. No pomar e no jardim da sua casa todo mundo podia brincar, se lambuzar de diversas frutas e colher radiantes flores. Além, é claro, comer suas deliciosas guloseimas.

Dona Maroca parecia uma avó que todo mundo queria ter e todos a admirava por sua alegria.

Maroca era uma senhora branca, pequenina, gorda e alegremente sorridente. Adorava cuidar das suas plantas cantando. No seu quintal tinha também uma fabulosa fonte de água. Muitas pessoas da nossa comunidade pegava água de beber neste poço.

Dona Maroca vendia doces também no campo de futebol, aos domingos à tarde. As noites destes dias, ela se dirigia a igreja católica onde, além de fazer os seus louvores, cantava magnificamente bem.

Todas as crianças de Banco da Vitória adoravam Dona Maroca e nenhum “serzinho” passava pela avó comunitária sem pedir-lhes a benção. Junto com a benção afável e carinhosa vinha sempre um sorriso alegre e um pedido:

– Passa lá em casa para comer um docinho e brincar no meu jardim.

Por conta deste seu amor pelas crianças Dona Maroca se transformou numa verdadeira fada da nossa comunidade. Sua casa era encantada. Seu jardim era maravilhoso e magistralmente cheiroso. Seus doces eram irresistíveis. Seu sorriso era hipnótico e seu abraço simplesmente analgésico.

Nos livros de Banco da Vitória, a fada tem nome e se chamava Dona Maroca. Maria da Conceição dos Santos foi apenas uma personagem que a nossa verdadeira fada usou para poder conviver com a nossa gente e alegrar nossas crianças.

Agora Dona Maroca mora no céu e de lá continua amando todo nosso povo. Principalmente as crianças, de Banco da Vitória e do mundo inteiro.

 

 

19 – Zezeu, quase 50, relembra nossa bela infância.

No dia 12 de outubro de 1978, Maria Amélia Rhem da Silva, esposa do então prefeito de Ilhéus Antônio Olímpio distribuiu brinquedos e doces para as crianças de Banco da Vitória. Meninos receberam bolas ou carros de plástico e as meninas receberam bonecas. Os carrinhos coloridos foram entregues as criancinhas e as bolas para os pré adolescentes. Em apenas meia hora o Banco da Vitória estava repletos de novos craques de futebol e as centenas de bonecas recebiam nomes das personagens da novela O Astro, de Janete Clair, que fazia um estupendo sucesso na televisão.

Naquele dia ocorreram babas em todas as ruas do então distrito de Ilhéus, e, pelo menos por um único dia, cada menino da nossa localidades pôde realizar seu sonho de ter uma bola de futebol.

Na tarde daquele dia, muitas das bolas presenteadas já estavam furadas, estouradas ou rasgadas. Muitas pelotas não resistiram as unhas amoladas da meninada nem os assassinos grampos dos arames farpados que se viam por todas as cercas e até mesmo nos varais.

As bonecas, como já esperado, duraram bem mais que as bolas de plástico. Nas semanas seguintes teve até batizados de bonecas e há quem diga que algumas dessas duraram até o natal daquele ano. Outras, infelizmente, foram rasgadas por cachorros danados ou carregadas pelas enxurradas daquela primavera.

No dia seguinte, era um sábado, conta-me Zezeu (José Carlos Ramos), meu amigo desde a infância, que eu o presenteei com a bola que tinha recebido da mulher do então prefeito de Ilhéus. A bola de Zezeu tinha estourado na tarde do dia anterior e eu vendo a tristeza do meu amigo, dei-lhe a minha bola.

Até hoje Zezeu lembra dessa história e todas as vezes que conversamos ele a cita como um fato especial e relevante. Afinal, naquela época nós Compartilhávamos tudo que tínhamos. Os brinquedos eram coletivos, a comida dividida e as alegrias somadas.

Eu não lembrava desse ocorrido relembrado por Zezeu, mas fico muito feliz por ter tido este gesto colaborativo que marcou tanto o meu amigo a vida inteira. Afinal Zezeu tem orgulho do meu gesto juvenil.

Para minha família e meus amigos, gestos como este não são novidades na minha vida. Sempre acreditei que ajudando seria ajudado e sendo ajudado devia sempre compartilhar, desde bênçãos até coisas materiais.

A vida me ensinou que perder é ganhar e tudo que ganhamos devemos compartilhar. Sempre.

Hoje eu sei, que devo ter influenciado meu amigo Zezeu em alguma coisa. Afinal, ele, mais que eu, adora ajudar, contribuir, compartilhar e principalmente alegrar as pessoas.

A lição que fica dessa bela história é que gestos pequenos ou até mesmo simples, podem nortear as convicções das pessoas.

Zezeu, que fará 50 anos de idade no próximo dia 13 de novembro fará uma festa digna da sua brilhante vida. Seus tantos amigos estão todos convidados. A festança acontece em Içara, na beira mar de Santa Catarina, onde o nosso amigo mora e felicita.

Zezeu mora lá, em ares sulistas, mas seu coração continua batendo em Banco da Vitória e exalando os aromas do dendê e do cacau secando em barcaça…

17 – Zé Lavigne e Dona Alice – Edificadores de Banco da Vitória.

As minhas lembranças iniciais do casal Zé Lavigne(Lavino) e Dona Alice são do meado da década de setenta. Naquela época eu tinha pouco mais de dez anos de idade e o casal em voga já eram senhores de idades avançadas.

Lembro-me muito bem do velho seu Zé Lavigne, homem pequenino, enorme barba grisalha, sempre usando um facão embainado, preso à cintura, botas Sete Léguas nos pés, vestido de calça e camisa comprida, uma espingarda pendurada nas costas e, principalmente, do seu cheiro de cacau. Sempre, sempre mesmo, ele pitava um cigarro pacaya e adorava dar borrifadas de fumaça nos rostos das pessoas.

Zé Lavigne era o único morador de Banco da Vitória que tinha um sítio dentro da localidade. Esse sítio compreendia uma parte da rua dos Artistas, fundos da atual Rua Aldair, até a beira do rio Cachoeira e, no outro extremo um pedaço delimitava com a atual Rodovia Jorge Amado e o posto de combustíveis.

A entrada principal do sítio ficava ao lado da casa do casal que se localizava na esquina da Rua dos Artistas com a Rua Aldair (atual casa da professora Cremilda). Neste imóvel, além da casa de moradia, havia uma garagem (onde ficava o famoso automóvel conhecido como Jipe Rompedor), um depósito de cacau e uma grande barcaça para secar os frutos de ouro.

Nessa casa, seu Zé Lavigne e dona Alice moravam com os seus quatro filhos (Aparecida, Georgina, Zé Buscapé e Tonho). O sítio que se estendia até a beira do rio era repleto de cacauais e dezenas de pés de frutas. Ali a criançada de Banco da Vitória podia comer jacas, abius, carambolas, cerejas, jenipapos, goiabas, araçás, jabuticabas, groselhas, jamelões, jambos e principalmente as açucaradas canas.

Na parte mais extrema do sítio corria um riacho que desaguava no rio cachoeira bem em frente ao atual final da Rua Aldair. Perto deste riacho havia uma excelente fonte de água doce que abastecia dezenas de famílias de Banco da Vitória.

Lembro-me do ser rústico, homem sério, trabalhador e principalmente prestativo que era seu Zé Lavigne e, da candura, amabilidade e paciência de dona Alice, principalmente com as crianças.

Dona Alice, uma mãe de todo mundo. Mulher amante de flores e plantas. Costureira de mão cheia e católica fervorosa. Voz mansa, gestos comedidos, um ser exemplar.

Naquela época, quem queria conhecer uma mini fazenda de cacau só precisava entrar no sítio de seu Zé Lavigne. Ali tinha tudo que uma grande fazenda de cacau possuía. Das árvores aos cochos, da barcaça ao armazém.

Um dos dias mais alegres da comunidade na época era quando seu zé Lavigne ia vender o cacau seco em Ilhéus. Ele colocava quase vinte sacas de cacau no seu jipe, amarrava tudo e ia para a Princesinha do Sul. Quem via o carro com aquela quantidade de sacas de cacau amarradas a lataria acreditava que o veículo tombaria na primeira curva. Mas isso jamais aconteceu. Seu Zé Lavigne dirigia sempre devagar e com muita cautela.

Por sinal, seu jipe era um tipo de ambulância comunitária de Banco da Vitória e socorreu centenas de pessoas da localidade. Nessas ocasiões, a única coisa que não podia exigir do motorista era pressa. Coisa que ele jamais teve ao volante.

Seu Zé Lavigne e dona Alice foram moradores respeitados em Banco da Vitória e muito contribuíram para o desenvolvimento da nossa comunidade. O seu melhor amigo era Joaquim Araújo, pai de Tânia, mas ele era amigo de todo mundo.

Zé Lavigne e dona Alice repousam no solo de Banco da Vitória. Ali são eternamente amados.

 

 

11 – Cabo Jonas – O polímata de Banco da Vitória.

Chamava-se Jonas Neves de Souza, mas era conhecido em Ilhéus como Cabo Jonas, o polímata de Banco da Vitória. Dizia ter nascido em São João da Barra do Pontal, no final dos anos trinta. Viveu no Pontal por mais de trinta anos. Passou uns dias no Alto da Conquista. Depois se mudou de mala e cuia para o Banco da Vitória, onde formou família, se tornou lenda, viveu seus restantes dos dias e ali foi sepultado. Cabo Jonas foi um do moradores mais ilustres de Banco da Vitória, quiçá de todo o município de Ilhéus.

Cabo Jonas é personagem constante dos textos dos escritores José Rezende Mendonça e José Henrique Abobreira, ambos pontalenses. Rezende cita-o no livro Pontal – Ontem e Hoje, como um ativista cultural do secular bairro ilheense. Abobreira gosta de contar as façanhas homéricas de Cabo Jonas e suas predileções por deliciosas mentiras. No Livro Cotidianos de Banco da Vitória, citei a figura de Cabo Jonas em 8 causos e prosas. No livro Banco da Vitória – A História Esquecida, citei a colaboração cultural, esportista e cultural de Cabo Jonas para com a nossa comunidade.

Cabo Jonas foi um verdadeiro polímata autodidata. Detinha conhecimentos de diversas áreas humanas e atuava em diversas profissões como eletricista, eletrotécnico, pintor, pedreiro, marceneiro, sapateiro, encanador, açougueiro, capoeirista, marujo amador, compositor, locutor, árbitro de futebol, massagista, puxador de blocos carnavalesco e pai de santo.

No Pontal e em Banco da Vitória Cabo Jonas se tornou uma verdadeira lenda, não apenas por suas multifacetadas profissões, mas sim, por suas gostosas e incríveis estórias, mentiras e lorotas. Conviver com ele era algo altamente prazeroso e alegre. O Banco da Vitória era um lugar mais feliz quando Cabo Jonas vivia entre nossa gente. Casado com Dona Dete, Jonas foi pai de Teco, Bira, Ció e Edinha (já falecida). Sua prole continua vivendo em Banco da Vitória.

Cabo Jonas tinha uma energia positiva e entusiasmo para tudo na vida. Perto dele, as dificuldades se dissipavam e em suas estórias haviam sempre um final feliz, alegre e surpreendente. Era realmente um ser humano extraordinário e iluminado.

Jonas Neves de Souza devia ser nome de Ruas no Pontal e em Banco da Vitória. Cabo Jonas devia ser nome de bloco carnavalesco em Ilhéus.

Para conhecer algumas das façanhas e lorotas de Cabo Jonas, leia o fascinante texto de Abobreira no link baixo. https://goo.gl/tt6Ao1

 

 

Direitos Legais

Cotidianos de Banco da Vitória – Volume 2

Prosas e Causos.

Roberto Carlos RodriguesEditora: Intercriar Infoeditora.

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Roberto Carlos Rodrigues, detentor dos direitos dessa obra poderá a qualquer instante utilizar de meios de rastreabilidade para identificar cópias deste livro eletrônico na Internet e notificar judicialmente os seus responsáveis.

O Pinguelo de Ana Abigail.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

morena 2Antigamente, isso nos anos setenta passados, se um menino visse a cor da calcinha que uma menina usava, o pobre infante ficava vesgo, gago e trazia nos lábios um sorriso que durava dias e mais dias. Ver os seios de uma moça, era o mesmo que ganhar na loteria. Ver uma mulher nua era coisa rara, raríssima. Porém, em Banco da Vitória, a história era outra e b

em mais alegre. Pois ali havia Ana Abigail que adorava banhar-se nua no Rio Cachoeira. E ela fazia isso todos os dias. Graças a Deus.

A família de Ana Abigail era muito religiosa. Porém, tinha a banda podre da laranja exatamente em Ana Abigail. Quando criança, seus pais trouxeram-na sobre suas ordens e costumes. Contudo, quando se tornou moça, a bela morena das margens do rio Cachoeira destrambelhou de vez e tornou-se uma namoradeira de primeira, especializada em tirar virgindade dos meninos daquelas barrancas.

Todos os dias, exceto aos domingos, no final das tardes, Ana Abigail dirigia-se a Pedra de Guerra, com uma bacia cheia de pratos na cabeça. Nas margens do rio Cachoeira ela cantava e lavava seus pratos. Depois mergulhava nas águas mornas, nadava até uma pedra no meio do rio e ali tirava o vestido e a calcinha (na época chamada de calçola). Da meninada só via as cabeças fora da água. Mas pareciam cabeças de cágados em épocas de acasalamentos. Tinha no mínimo uns trinta.

Ana Abigail nadava nua por longas e mais longas braçadas. Depois subia na pedra no meio do rio, vestia a calçola e depois o vestido e por fim voltava sorrindo para a margem do rio. Agora também cheia de meninos escondidos entre os matos. Todos pecadores.

Ver uma morena daquela nua nas águas do rio cachoeira era uma verdadeira benção para rapaziada de Banco da Vitória. Além das aparições nuas nas águas do rio Cachoeira, Ana Abigail, as noites, oferecia os prazeres das carnes para seus tantos namorados e admiradores. Nos escuros da Cerâmica Victória ela “traçava” os donzelos do lugar. Fazia súditos.
Corria a boca miúda em Banco da Vitória, que depois do coito Ana Abigail pegava a mão do jovem namorado e colocava-a sobre seu clitóris e dizia: “Quase do tamanho do seu, olha!”. Normalmente, diante do pinguelo agigantado de Ana Abigail os rapazes se assustavam e ficavam com medo da jovem sedutora.

Um dia, Ana Abigail, se engraçou com um jovem que vivia com um violão preso as costas e resolveu seduzi-lo. Marcou um encontro as nove horas, nas bandas da Ruinha, por trás de um monte de telhas da Cerâmica Vitória. Na hora marcada lá estava o amarelinho (sem seu o violão). Não demorou e chegou sorrindo Ana Abigail. Logo começaram os amassos, a pegação, as taras e as volúpias. O amarelinho tirou o vestido de Ana Abigail. Beijou seu pescoço suado. Mamou nos seus seios fartos e quentes, untou com a língua sua barriga e umbigo escuro, rasgou a calçola florida e sugou a sua vulva como quem desentope uma vagina ainda virgem. Depois deu uma pequena dentada da cabeça do grelo, como quem o acordasse. Chupo-o lentamente, como quem chupa uma cajarana verde.

Ana Abigail viu estrelas, arco-íris e cometas. Ouviu sinos, gongos e rojões. Sentiu uma tremedeira súbita nas pernas e com as duas mãos segurava a cabeça do amarelinho que domava seu pinguelo como quem amansa um potro no meio do pasto. Depois de quase meia hora de lambuzação, esponjação e embebecimento lingual, o amarelinho por fim penetrou-a e juntos gozaram. Dias depois estavam morando juntos e foram felizes. Triste ficou a meninada de Banco da Vitória, sem a sua musa sexual.

Entre os despeitados e órfãos das sutilezas sexuais de Ana Abigail que odiavam o músico amarelinho, estava Nelito Canela Seca que dizia, encostado aos balcões sujos das bodegas de Banco da Vitória:

– Aquele amarelo desgraçado é viado, rapaz! É ela que come ele. Uma mulher com um pinguelo daquele, quase do tamanho de uma garrafa de Coca-Cola deve enfiar no cu daquele tocador de violão sem corda todos os dias. Ela come ele e ele chupa ela. Depois ele come ela e ela chupa ele. Duas cobras transando. Só isso.

No outro extremo do balcão Cabo Jonas arrematou:

– Pinguelo é um termo muito feio. Do mesmo lastro de feiura está o grelo. O nome certo do pequeno órgão eréctil do aparelho genital feminino, situado na junção dos pequenos lábios, na parte superior da vulva, é clitóris. Ana Abigail deve ter apenas um clitóris avantajado. Só isso e nada mais. Se ela tivesse caído no meu bigode eu ia capinar aquela mata escura e deixar a grama baixinha. Ela ia viver cantarolando por ai:

“Mamãe eu quero, mamãe eu quero, 
Mamãe eu quero mamar! 
Dá a chupeta! Dá a chupeta! 
Dá a chupeta pro bebê não chorar!”

Cabo Jonas sorriu conclusivamente, acendeu seu cigarro e foi para casa, ver a amada esposa Deth.

Graças a Deus, em Banco da Vitória, Ana Abigail tinha outro nome. O Amarelinho nunca foi amarelo, nem nunca tocou violão e eu nunca vi o pinguelo, nem o grelo ou o clitóris de Ana Abigail. Apenas imagino. Só isso.

Série: Os Sete Seres Fantásticos de Banco da Vitória. 1 – O Caipora.

 

caiporaPor Roberto Carlos Rodrigues

O Caipora de Banco da Vitória era um ser que protegia as nossas matas e os ribeirões e ninguém podia entrar na floresta sem pedir sua autorização. Nossa Caipora era um índio anão, com voz de menina, corpo pintado de verde, cabelos vermelhos, orelhas pontiagudas, olhos pretos e miúdos e sempre estava na companhia de um grande porco do mato.

O Caipora tinha muitos poderes. Ele sabia desaparecer em um piscar de olhos. Podia estar em um instantes em cima de uma pedra, depois sumia e aparecia nos galhos das árvores, depois sumia e aparecia montado no seu porco do mato. Por conta desses poderes ninguém nunca pode pegar o Caipora.

Mas o seu maior poder era enganar as pessoas que entravam nas matas para maltratar os animais. Muitas vezes, mesmo os velhos caçadores se perdiam nas matas e ficavam dias e mais dias sem saberem encontrar o caminho de volta. Nessas ocasiões só se ouviam o sorriso do Caipora zombando do homem perdido e alucinado. Quando por fim o caçador malvado conseguia sair da mata, ele ficava impressionado com o poder do Caipora de enganá-lo com tanta facilidade e depois daquele dia o caçador nunca mais maltratava os animais ou tocava fogo na mata.

O Caipora era protetora das matas e dos bichos e ninguém podia fazer maldades com seus amiguinhos, senão ele pegava esses seres cruéis e davam-lhe uma grande lição. Houve casos de caçadores ficarem mais de uma semana presos na mata e, mesmo tendo seus amigos tentando acha-los, nunca conseguiam. Na verdade, era o Caipora que fechava e abria as portas das matas. No seu território era ele que mandava e desmandava.

Quem não podia entrar na mata sozinhas eram as crianças danadas, travessas e maus educadas. Essas, o Caipora castigavam-nas deixando-as perdidas por horas e mais horas no meio da mata. Já as crianças estudiosas, educadas e amantes dos animais jamais se perdiam nas matas e se isso acontecesse, o próprio Caipora e seu porco do mato guiavam a criança até a estrada da sua casa. Nessas ocasiões o Caipora chegava até conversar com as crianças e oferecer-lhes deliciosos frutos e lindas flores.

Quando uma criança encontrava o Caipora e com ela conversava e depois contava isso para seus pais, muitos destes não acreditavam e diziam que a criança estava inventando estórias ou então estava com febre alta e imaginando coisas. Contudo, para aquela criança pouco importava o que os adultos acreditavam ou não. Afinal, o Caipora só conversava com as crianças. Com os adultos ele gostava mesmo era de assustá-los.

Em Banco da Vitória, quando uma criança dizia ser amiga do Caipora logo se sabia que ali tinha mais uma criança estudiosa, bem educada, protetora das matas e amiga do animais.

O Caipora de Banco da Vitória continua morando na Mata da Rinha. Tem dia que ele está em Maria Jape, Japu, outro dia estar na Represa do Iguape ou passeando no Rio do Engenho ou ainda nos arredores da Vila Cachoeira. Mas todas as noites ele volta para sua terra querida. Banco da Vitória do Rio Cachoeira. Ali ele é um dos nossos setes seres fantásticos.

Os sete seres fantásticos de Banco da Vitória eram o Caipora, o Negro D’água, o Caruá, A Mulher de Sete Metros, a Menina Encantada, a Yara e o Lobisomem.

João Delicioso, o Don Juan de Banco da Vitória.

SeduçãoPor Roberto Carlos Rodrigues.

Deus queira que todos os parentes vivos de João Delicioso não lembrem dessas estórias e se lembrarem, duvidem das suas memórias e se ainda restarem dúvidas dessas oralidades, esqueçam-nas. Afinal, como logo veremos, será melhor assim.

João Delicioso de Banco da Vitória, para algumas pessoas da nossa comunidade, era melhor que nunca tivesse existido. Na verdade, sempre foi melhor pensar assim. Agora, porque Deus quis que ele existisse e vivesse exatamente na nossa comunidade, nunca saberemos a resposta certa.

Deixemos, por ora, de subterfúgios e vamos aos relatos dos fatos.

Chamava-se João e não tinha sobrenome (era igual aos antigos escravos africanos que sofreram por mais de 350 anos em solos brasileiros). Se tinha documento de registro, nunca mostrou. Preferia ser chamado apenas de João. Em Banco da Vitória recebeu a alcunha de Delicioso. Mas, este adjetivo nunca foi seu sobrenome. Era apenas um apelido. Um gostoso e problemático apelido.

Poucos se sabia sobre a origem deste João, o tal Delicioso. Uns diziam que ele viera junto aos tantos trabalhadores que aportaram em Banco da Vitória, isso no meado dos anos cinquenta do século passado, quando ali se instalou a empresa que abrira e asfaltara a nova estrada entre Ilhéus e Itabuna. Outros diziam que João, o tal Delicioso, viera numa enchente, rio abaixo e ali ficara. Uma coisa era certa, o João, o tal Delicioso, era o melhor alfaiate de Banco da Vitória. Quiçá de todo o território do município de Ilhéus. Sobre suas medidas e cortes vestiam-se os mais ricos fazendeiros de Ilhéus e Itabuna e era ali, em Banco da Vitória que João sem sobrenome fez fama e fortuna. Muita fama e considerada fortuna.

Quando o povo de Banco da Vitória tomou consciência da presença de João, ele já morava ali por mais de seis meses. Primeiro viveu em um quartinho de um só cômodo na Rua da Cerâmica, perto da Ruinha. Depois se mudou para uma casinha na beira da rodovia Jorge Amado. Ali, ele sua máquina de costura e suas tesouras prosperaram e no ano seguinte eles já tinham um atelier na Rua dos Artistas, (bem em frente a atual casa do nosso lendário conterrâneo Dui). Neste endereço João se tornou o tal Delicioso de Banco da Vitória.

João, naquela época, já beirava os cinquenta anos de idade e era um costureiro famoso em toda a região cacaueira. Se quisera tinha ficado dez vezes mais rico abrindo seu ateliê em Ilhéus ou em Itabuna. Mas, isso ele nunca quis. Seu solo adotivo era Banco da Vitória e foi ali que ele ficou famoso e entrou definitivamente para a nossa história.

João era um negro solteiro, magro, elegante, cheiroso e de média estatura. Tinha o corpo franzino, os olhos pretos e miúdos. Os lábios finos, dentes alvos, braços finos e compridos e os cabelos curtos, – estes cortados todas as semanas, sempre às sextas-feiras – dizia ser promessa para Santa Bárbara, sua protetora. Ao lado do seu atelier ele adquiriu mais um terreno, onde foi instalado uma pequena loja de tecidos e sortido armarinho. Ali trabalhava a moçoila Alaíde, filha do seu amigo Gonçalo, também negociante do lugar, próspero comprador de cacau e pai de quatro lindas filhas e nenhum filho.

João, morava só. Junto, apenas aos seus passarinhos presos em gaiolas. Ali, na rua dos Artistas João era feliz. Diziam que nunca quis casar ou juntar família. Mas se quisesse não teria dificuldades. Teria sido um marido perfeito para muitas moças do então distrito de Banco da Vitória.

Mas a especialidade de João era seduzir mulheres casadas ou comprometidas. Isso ele sabia fazer com prazer, maestria, ou, quem sabe, por alguma patologia mental. Por conta dessa sua outra habilidade ele era amado por muita gente da comunidade e amaldiçoado por tantas outras. Em Banco da Vitória, João devia ser o sonho de genro de muitas famílias ou então o pesadelo de tantos maridos e noivos.

Sabia-se em Banco da Vitória que mulheres casadas não podiam nem olhar para o tal João alfaiate. O bom mesmo era nem falar com ele. Se isso acontece, a mulher estava seduzida e o marido, obviamente corno confirmado.

Mas João era dissimulado e inteligente. Quem o via com as tesouras e a fita métrica nas mãos achava-o meio afeminado, meio baitola, veado enrustido ou coisa igual. Com os homens ele agia e falava de um jeito delicado e afeminado. Já com as mulheres, era de outras formas. Inúmeras formas sexuais.

Dizia em Banco da Vitória que foi Dorotéia Alvarenga, a mulher do soldado José Agripino que colocou a alcunha de Delicioso em João, o alfaiate disfarçado. Dorotéia, na flor da Idade, ainda antes dos trinta, cheia de fogo e vontades sexuais, caiu nas lábias de João, deitou na cama do Alfaiate e ali foi amada como nunca fora em toda sua vida de tantos desencontros. João, com suas mãos habilidosas e sensíveis percorreu todas as curvas e as carnes daquela morena ávida por prazeres e fez amor com ela como ninguém jamais fizera. Naquela noite João beijou sua boca, seus pés, seus dedos e seus cotovelos. Acariciou seus ombros, suas costas, seus cabelos e suas panturrilhas. Sugou seus seios, mordeu seus lábios e orelhas, arrepiou seus pelos. Mordeu suas aureolas. Lambuzou, besuntou, chupou e inflou a vulva de Dorotéia com sua língua, verdadeira víbora do prazer. Ela gozou diversas vezes, muitas vezes, todas as vezes imaginárias e reais. Dorotéia gozou, gozou e gozou mais uma vez como nunca tinha imaginado gozar. Gozou, chorou e gritou no meio da noite. – Delícia! Disse.

No dia seguinte, Doroteia passeou toda sorridente pela Rua dos Artistas. Entrou no armarinho Estrela Dalva, compro uma miudezas e ao sair do estabelecimento, passou pela frente do atelier de João e, sorrindo, sussurrou carinhosamente: “Delicioso”. João fingiu não ouvi. Mas Alaíde ouviu.

Nos dias seguintes, nos plantões do marido, Dorotéia fugia de casa e pelos fundos do quintal de João vinha oferecer-lhes os prazeres da carne.

Mais Dorotéia era apenas uma das tantas esposas que caíram nas graças de João, o tal delicioso. Mas foi Alaíde, que acabou alardeando o apelido sexual do seu patrão. Disse primeiro para sua amiga Tonha de Bau. Essa contou para Márcia Fluentes, professora de datilografia e em pouco tempo, entre as mulheres de Banco da Vitória, João Alfaiate tinha agora sobrenome. Tornou-se João Delicioso.

Zeca de Zerfino, amigo de João, quando bebia umas cachaças, alardeava que seu amigo era o maior chuparino da região cacaueira. Zeca dizia que o tal Delicioso era capaz de chupar uma tabaca por mais de meia hora, sem parar nem para enxugar os cantos da boca. Por conta dessa sua habilidade linguística ele era um verdadeiro sonho de consumo sexual feminino da comunidade. Segundo Zeca, a mulher que era chupada pelo profissional do sexo, o tal João, no dia seguinte chamava-o apenas de delicioso. Daí, a fama, quase culinária.

– Pau grande não tem! – Dizia Zeca nos cantos dos balcões da vila ilheense. – Já vi ele nu umas trezentas vezes. Pau mixuruca, o meu é maior. Seu segredo deve ser a língua ladina e boca nervosa sobre os pelos pubianos. Deve ser isso. Concluía seu argumento.

Um dia a sorte de João mudou. Maria Antônia, esposa de Evódio Ávila, tomou umas cachaças, dançou a noite inteira e na hora do sexo exigiu que o marido chupasse sua vulva. Evódio se assustou com a proposta. Ávila, chuparino? Jamais. Pensou. Você devia tomar umas aulas com João Alfaiate. Aquele homem bem sabe fazer uma mulher feliz com sua língua profissional. Concluiu Maria. Murros e tapas deram lugar aos beijos e aís. O casamento acabou naquela noite.

No dia seguinte Evódio Ávila comprou um revolver trinta e oito e naquela mesma noite deu três tiros em João Delicioso.

Atirador medroso e amador, acertou um tiro no ombro de João, outro tiro no braço do alfaiate e um na sua própria perna. Nas paredes ele acertou mais três disparos. Não demorou e foi preso pela polícia.

João foi socorrido ao hospital de Ilhéus, sobreviveu sem nenhuma sequela. No dia que teve alta hospitalar desapareceu de Ilhéus. Dias depois um procurador apareceu na Rua dos Artistas para pegar os bens de João. Os produtos do Armarinho Estrela Dalva foram doados a Alaíde e os imóveis vendidos. João Delicioso sumiu definitivamente de Banco da Vitória.

Foi nesta ocasião que surgiu a lista das mulheres que tinham caído nas lábias e encantos sexuais do tal João Delicioso. A lista era longa e secreta. Afinal, João Delicioso tinha feito um verdadeiro harém em Banco da Vitória. Sabia-se.

Em pouco tempo o povo de Banco da Vitória se encarregou de esquecer de João, o tal Delicioso e os matrimônios abalados pelas peripécias sexuais do antigo alfaiate foram reestabelecidos.

Em Banco da Vitória, o único homem que ainda lembrava de João Delicioso era Evódio Ávila, que recebera o apelido de O Maldito. Algumas esposas da comunidade tinha motivos de sobras para chama-lo assim.