Zezinho Sem Cotovelos

Por Roberto Carlos Rodrigues.

DOR 56Só Deus sabe o destino que levou Zezinho Sem Cotovelos. Há quem diga que ele mora no bairro de Monte Cristo, na vizinha cidade de Itabuna, onde é pequeno comerciante. Outros dizem que ele voltou para Santa Brígida, sua terra natal, no tórrido sertão baiano, já quase na divisa do estado de Pernambuco, onde continua trabalhando com gado. Uma coisa é certa: de Banco da Vitória Zezinho sumiu para sempre.

Zezinho sem Cotovelos era freguês vezeiros dos bares de Banco da Vitória. Ali tinha diversos amigos, dois ou três admiradores e um renca de desafetos. Zeferino Francisco do Santos era vagueiro de uma fazenda do outro lado do rio, nas bandas da Vila Cachoeira. Ele era um homem pequeno, branquelo, do rosto fino e cabelos escorridos. Os olhos eram miúdos, pareciam com olhos de pássaros. O bigode fino cobria-lhe os lábios avermelhados e ressecados. O sorriso era amarelado, herança dos anos e mais anos do cigarro na boca. Vestia-se sempre com indumentárias de vaqueiro. Na cinta trazia sempre um facão amolado. Na bota de couro, escondia o punhal com cabo de osso. Nas costas, cruzava-se o rifle de repetição e no bornal, escondido debaixo dos panos, o revolver trinta e oito e mais um punhado de balas. Zezinho sempre andava no lombo de uma mula marrom e arruaceira. Gostava de galopar.

Em Banco da Vitória Zezinho sem Cotovelos nunca deu um tiro ou matou alguém. Mas havia quem acreditasse ser ele criminoso lá nas bandas por onde nascera e que encontrara um bom refúgio sendo vaqueiro numa fazenda do sul da Bahia. No povoado, era pacifico e brincalhão.

Era amigo dos cachaceiros do povoado de Banco da Vitória e de vez em quando jogava futebol com seus pares. Conhecia todos os donos de bodegas da localidade e todas as sextas-feiras se refugiava em Banco da Vitória, onde se divertia, bebia como os amigos e dançava nos cabarés da localidade. Ali se sentia em casa.

Dizia ser solteiro. Não tinha esposa nem filhos. Vivia na casa da fazenda e só tinha amigos em Banco da Vitória. Aos domingos, Zezinho sem Cotovelos gostava de passar o dia nas margens do rio Cachoeira, onde fazia assados, cozinhados e pescarias. Todas, obviamente, regadas a garrafas de cachaças. Foi exatamente em um domingo ensolarado de março que Zeferino Francisco do Santos se tornou Zezinho sem Cotovelos.

Acompanhados dos seus amigos de farras e bebedeiras, Zeferino foi para as correntezas do Rio Cachoeira onde pretendia passar todo o dia de domingo. No local onde hoje se ver erguida a ponte para Maria Jape, aos fundos do convento das freiras, havia uma grande corredeira de pedras escorregadias, onde a água do rio Cachoeira descia fazendo barulho nas pedras. A profundidade neste local não passava de meio metro e as barragens de pedras servia para fazer uma grande piscina na parte de cima do rio. Ali, no meio das mornas correntezas, estava Zeferino com seus amigos de bebedeira quando o pior aconteceu.

Zeferino estava se banhando na parte rasa da correnteza, com o corpo submerso e somente a cabeça do lado de fora da água quando sentiu algo se enrolar ao seu corpo. É uma cobra. Pensou rapidamente. Realmente era uma cobra. Uma cobra grande. O amarelinho tentou se levantar das pedras escorregadias e não conseguiu. Quando ficou de joelhos sobre as pedras. Perceber que realmente era uma cobra enrolado no seu corpo. Zeferino dei um grito tão grande que no dia seguinte, o morubixaba Garapa disse ter ouvido lá nas bandas do matadouro. Osório, disse também ter ouvido o mesmo berro lá no meio da ladeira do Alto da Bela Vista.

Quando conseguiu se levantar nas pedras escorregadias, Zeferino viu que a imensa cobra se enrolara nas suas pernas, pelo seu tronco e pescoço e que a cabeça da serpente estava entre suas mãos firmes. Gritando igual um condenado, Zeferino caiu nas pedras escorregadias, enrolado na cobra. O dois desceram as corredeiras do Rio Cachoeira entre mergulhos e gritos. A cobra tentando morder o rosto de Zeferino e este tanto deslaçar a víbora do seu corpo.

– Pega a facão! Gritou Bigode, parceiro de bebedeira de Zeferino.

– Pega um pau da cerca das freiras. Gritou nego Nide. Idem.
Vamos socorre o homem. Gritou Zé Amarelinho. Idem.
Mas a luta era particular entre Zeferino e a cobra molhada e juntos eles desceram se ralando pelas pedras, tomando solavancos e caldos. Fazendo espumas, remexendo o leito do rio. Derramando sangues entre as tocas dos pitus e calambaus.

Cento e oitenta e oito metros abaixo, quase perto da Pedra de Guerra, a cobra por fim largou o assustado Zeferino e desceu o rio Cachoeira. O vagueiro destemido, todo estropiado e azougue, foi socorrido pelos amigos e levado para a areal do porto de Ares. Ali descobriram que Zeferino estava com o rosto todo machucado das dentadas da cobra assassina. Tinha perdido um dente, a bermuda e os couros dos cotovelos.

– Era uma jiboia. Disse alguém. Não é venenosa não. Morde mais não mata. Não tem peçonha. Conclui o alguém.

– Traz a cachaça para queimar os ferimentos. Disse Bigode e foi atendido. Zeferino tomou uma talagada de cana e sentiu o ardor nos cotovelos ensanguentado. Estava em estado de choque.

Foi levado para o hospital em Ilhéus onde foi medicado e no mesmo dia voltou para sua casa na fazenda, onde ficou acamado por três dias. Quando voltou ao Banco da Vitória recebera o apelido de Zezinho Sem Cotovelos. Seus braços em tipoias comprovavam a assertiva.
Havia em Banco da Vitória quem dissesse que Zeferino não gostava da alcunha zombeteira. Mas ele preferia ser chamado de Zezinho Sem Cotovelos do que Zezinho Todo Cagado. Isso, em alusão a situação que o encontraram do dia da luta com aquela maldita cobra no Rio Cachoeira.

Infelizmente os couros dos cotovelos de Zeferino não se recuperaram. Já o apelido, se tornou eterno.

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São João em Banco da Vitória – #1

forro-do-pedroPor Roberto Carlos Rodrigues

A casa era pequena. Na frente, uma porta e uma janela pintadas de azul. Ambas abertas. No meio do terreiro, a grande fogueira ardia por toda noite. Bombas explodindo nos cantos do terreiro, pistolões explodindo no céu. Este, todo estrelado. No braseiro, milho assado, costela de porco e pertinho dele, o aromático caldeirão cheio de quentão, tampado para não deixar exalar os cheiros das ervas daquele lugar. Na banqueta encostada ao vão da casa, a mesa sortida de diversos licores. O rei jenipapo adoçando os berços das moças, acompanhado dos sabores das garrafas de carambola, groselha, cacau, cravo, pitanga e lúdico licor de creme de leite. Junto ao pé da mesa, um garrafão verdecido, ainda pelo meio, da legitima aguardente Santa Clara. Bebidas para os cabras da peste que não gostavam de bebidas doces.

Amendoins assados e cozidos, pamonhas, mingaus de milho, bolo de tapioca, bolo de puba, lelê, leitão assado, paca cozida, galinha assada, piru cozido, caldeirão de sarapatel. A mesa estava florida das iguarias do lugar. As bocas, todas satisfeitas.

Bebuns por todos os cantos. Crianças correndo no terreiro e na minúscula sala os casais dançam no chamego do forró intermitente. Sanfoneiro caolho. Ruim das vistas, mas bom das mãos. A sanfona gemendo como se estivesse em um surto de epilepsia controlada. O zabumba batendo feito coração em taquicardia. O triangueiro marcando os passos da dança. O violão coordenando a harmonia da música e o pandeiro repicando feito guizo de cascavel. A música não parava nunca. A dança também não.

Dentro da sala apenas dez casais dançando. Não cabia mais. No lado de fora, uma procissão de gente dançando e esperando a vez de entrar na sala de reboco novo, pintado recentemente de azul. Na cumeeira, o lampião acesso. No ar o cheiro de cacau exalando daquele povo feliz e trabalhador.

De vez em quando um dançarino mais animado gritava no meio da sala: – Viva São João! Todo mundo respondia junto: VIVA! Fogos estouravam novamente no céu. O povo inventava uma quadrilha ao redor da fogueira e dança corria solta. A alegria exalava no ar e a poeira se espalhava entre os passos coordenados. Xote e baião, xaxado e forró eram como irmãos siameses. A festa não tinha fim.

Suor pingando no chão. Junta-se ao orvalho da fria madrugada. O arrasta-pé vai até o nascer do dia. O povo nem olha para os relógios. Espera o sol anunciar o novo dia. Enquanto isso, dançam sorridentes. Povo mais feliz que aqueles ribeirinhos não tem naquelas redondezas.

No início da manhã ainda tem gente ao redor da fogueira e bêbados dormindo nas sombras das árvores. Um bêbado acorda debaixo da grande jaqueira e grita: Viva São João! Os demais parceiros acordam subitamente e respondem em coro: Viva. Depois voltam a dormir, como se estivessem sincronizados. A ressaca dos licores durava dias e mais dias.

Os donos da casa se despedem das visitas. – Até para o ano. Dizem, sorridentes e satisfeitos. Até. Respondem os casais com os pés cobertos de poeiras e as roupas suadas. As cabeças estão repletas de alegrias e os corações ainda dançam no ritmo do forró de Banco da Vitória. O famoso forró Danado de bom.

No rádio de pilha, colocado agora em cima da mesa, onde ainda tem as sobras dos licores e das comidas, ouve-se Luiz Gonzaga cantar: Olha pro céu meu amor, ver como ele está lindo… Não podia haver trilha sonora melhor para aquela bela manhã de junho. Era São João.

Defuntos no Banguê e a Ladeira do Descansa Caixão.

rede 2Por Roberto Carlos Rodrigues.
 
Antigamente os mortos das regiões rurais de Banco da Vitória eram conduzidos das suas casas até o cemitério da localidade em um tipo de transporte chamado Rede de Banguê. Normalmente, nessas ocasiões, se cortava um pau de Biriba com aproximadamente três metros de comprimento e neste era pendurada uma rede, onde era transportado o morto. Dois homens fortes se encarregavam de conduzir a rede com o defunto e o pau apoiado nos ombros. Ao longo do caminho até o cemitério, os carregadores se reversavam no transporte do morto.
 
Quando o defunto era das regiões de Maria Jape, Japu, Beco, Rio do Engenho, Demanda ou Repartimento, este era conduzido no banguê até a beira do rio Cachoeira, onde era colocado em uma canoa e posteriormente, na Pedra de Guerra, transferido para um caixão de defunto.
 
Quando o féretro vinha da região norte da localidade de Banco da Vitória, de Morro do Miliqui, Lava-pés e Lava-pés de Baixo, por exemplos, o morto era conduzindo no banguê até o meio da ladeira da Alto da Santa Clara, onde em uma pedra localizada a esquerda dessa ladeira, era colocado em um caixão de defunto. Daí o nome deste local ser também conhecido em Banco da Vitória como Ladeira do Descansa Caixão.
 
Como descritos nos anais da cidade de Ilhéus, desde o meado do século XVIII só era permitido no município sul baiano o sepultamento por meio de caixão de defuntos. Para as pessoas carentes ao governo municipal oferecia gratuitamente o caixão de defunto. Para os escravos não se aplicavam este critério. Normalmente estes eram sepultados nos confins das fazendas e sesmarias, envoltos apenas de sujos lençóis. Mesmo anos depois da abolição da escravatura no Brasil, muitas cidades proibiam o sepultamento de negros nos cemitérios municipais. Acredita-se que este critério racista só foi mudado a partir da segunda década do sédulo XX.
 
Apesar da rede de carregar defunto ser chamada de banguê na região de Banco da Vitória, na verdade, este termo era conhecido no Brasil afora como identificador de um tipo de transporte feito com madeiras e couros, utilizado para carregar os restos de canas de açúcar, usando para tal tarefa a força de dois escravos. O banguê dos engenhos de açúcar era carregado pelas mãos dos homens. Já a rede de banguê era carregada nos ombros destes.
 
A rede de Banguê era também utilizada nessa região ilheense para transportar doentes, das suas casas até os postos médicos e hospitais. Naquela época, quando uma pessoa chegava viva ao Banco da Vitória, sendo carregada na rede de banguê, logo se sabia que a doença era grave. Por conta disso, o termo Rede de Banguê, era, para aquele povo ribeirinho, quase uma extrema-unção.
 
Antigamente a Ladeira do Descansa Caixão era um local assombrado em Banco da Vitória. Hoje, esta via de acesso ao Alto da Santa Clara é apenas um aplausível mirante. Agora, vivos e mortos são transportados em reluzente e potentes veículos. Banguê? nunca mais.

O Segredo de Brabão – O cachorro mais feroz de Banco da Vitória.

brabãoPor Roberto Carlos Rodrigues

Esta estória não é minha. Não inventei nada e, se por ventura, os possíveis herdeiros do cachorro Brabão quiserem processar alguém, que processem João Santana, filho dos saudosos Antônio de Isaías e Dona Lindaura, pois foi ele quem propagou a fama de Brabão em toda a região de Banco da Vitória. Na verdade, eu que não conheci Brabão – o cachorro mais feroz de Banco da Vitória, nunca acreditei nesta estória deveras surpreendente. Mas, tratando de relatos de João Cu de Leão, quem sou eu para duvidar.

Segundo João Santana, Brabão era o cachorro de estimação de Odilon, este funcionário da Prefeitura Municipal de Ilhéus e encarregado, junto ao seu amigo Alfredo (pai de Liminha e Jovali) das limpezas das ruas do então distrito de Banco da Vitória.

Brabão era um cão de poucos amigos e seu nome se justificava pela quantidade de pessoas que ele tinha mordido. Cachorro classificado como vira-lata raciado com parentes distantes dos pastores alemães, Brabão, era conhecido na Rua dos Artistas como o cachorro mais valente da localidade. Mordia desde pequeninas moscas até mocotós de cavalos, burros e bois. Para ser sincero, Brabão era um cão assassino. Na sua rua ele era implacável, violento e cruel. Mordia. Mordia e m.o.r.d.i.a.

Criado na coleira e preso como condenado, Brabão quando fugia de casa o povo gritava:

– Fechem as portas, prendam as crianças e socorram os cachorros e gatos pois Brabão fugiu. Era um alvoroço quase regional.

Em Banco da Vitória se sabia: o cachorro mais violento e cruel de todas as beiradas do Rio Cachoeira era Brabão de Odilon.

Mas o tempo foi passando e Brabão foi diminuindo a ferocidade e se tornou um cão de porta de casa, sem coleira, sem amarras, sem arruaças. Ali, no batente da sua casa Brabão continuou sendo o valente cão da localidade. Mais não mordia mais ninguém. A não ser alguns bêbados arrelientos e meninos perturbados.

Porém, Brabão continuou mantendo sua autoridade nas redondezas. Nenhum cachorro ou gato se atrevia passar pela Rua dos Artistas sem antes receber uma carreira quase mortal de Brabão. Pode-se dizer que Brabão era o rei da Rua dos Artista. Isso, até os seus dez anos de idade.

Um dia, na verdade uma manhã de sábado ensolarado, Brabão estava no seu posto, isto no degrau da casa de Odilon, tomando um sol matinal, quando sem mais nem menos, um caminhão de mudança parou pouco em frente da casa vizinha a de Brabão.

Era um caminhão de mudanças. Um novo inquilino iria morar na vizinhança. Quando abriram o caminhão baú quem saiu de dentro foi um pequeno cachorro piche. De um tiro só o cachorro adentrou a casa nova, em menos de cinco segundos ele percorreu todos os ambientes e como um raio, saiu da casa e começou a correr pela Rua dos Artistas, reconhecendo o território e pingando sua urina nas portas das casas.

Brabão quando viu aquele toloco de bosta preta correndo feito um raio da silibrina, ficou alerta e pensou: – Quem está tripa preta pensa que é? Vou matar numa dentada só. Ele vai ver.

No outro lado da rua o cachorro piche preto correu até a casa de Gerolino, atravessou a rua. Veio mijando de porta em porta e passou bem em frente à casa de Brabão como se este nem estivesse ali. O minúsculo cachorro entrou no bar de Xisto gomes. Saiu e foi até a venda de Seu Joaquim. Atravessou a rua, entrou na padaria de seu Hugo, cruzou as frentes das casas de seu Antônio de Isaías, a Visquera, seu José Lavigne e, dobrando a esquina, desceu mijando nas portas das casas da Rua Aldair.

Neste instante, Brabão que só assistia aquele desaforo minúsculo, já estava embebecido de raiva e mais raiva e com os dentes preparados para destroçar o intruso, quando ouviu a nova vizinha chamá-lo: – Mickey vem cá.

– Ora ora, chama-se Mickey o futuro morto. Pensou Brabão, se preparando para o bote e arrematou. Do jeito que está vai mijar logo logo no meu focinho. – Deixa ele subir a rua que eu vou mostrar quem manda neste pedaço. Conclui seus pensamentos malignos.

A vizinha entrou na casa e em seguida, com a mesma velocidade que desceu a rua o tal Mickey a subiu. Quando ele chegou no cruzamento da Rua Aldair com a Rua dos Artista, Brabão estava a sua espera. Em um só bote Brabão latiu ferozmente e tentou morder mortalmente o pobre piche. O cachorro pequenino se esquivou, escorregou sobre as pedras do calçamento da rua e desceu a rua dos Artista no dobro da velocidade de quando a conheceu. Na sua cola, desceu Brabão latindo e fungando no rastro do podre cachorrinho.

O piche dobrou a esquerda, depois a direita, depois mais uma vez a direita, correu, correu e correu e Brabão no seu encalço, latindo e mostrando seus dentes afiados. No meio da praça Guilherme Xavier, o assustado piche teve um surto de redenção, parou de correr bruscamente e ficou imóvel feito uma estátua.

Brabão que corria na velocidade de um míssil soviético, diante daquela súbita parada do piche quase perdeu as unhas nos cimentos da praça, tentando frear. Desorientado, ele caiu sobre o pescoço, ralou o focinho e machucou as costas. Mesmo assim, Brabão se levantou e partiu para o ataque do piche que se mantinha imóvel no meio da praça.

Chegando perto do piche, Brabão percebeu que o desgraçado se mantinha imóvel feito uma minúscula estátua preta. Fingia ser o que não era. Brabão então se aproximou do desgraçado e desaforado cão e rugiu nas suas orelhas. O piche continuou imóvel e silencioso.

– Corre miserável. Corre agora para eu rasgar você em dois em uma só mordida. Pensou Brabão com a boca cheia de salivas, os dentes brilhando e o gosto de sangue já quase sendo sentido na garganta.

Quanto mais Brabão rugia nos ouvidos do piche mais este ficava imóvel e sério. Virou estátua.

Foi aí que o segredo de Brabão foi revelado.

Depois de mais de dez minutos de ameaças, o medroso piche começou a piscar os olhos, mexer com as orelhas, balançar levemente o rabo e se mover cautelosamente. Primeiro o piche cheirou o focinho de Brabão, depois suas patas e por fim alcançou o rabo. Debaixo deste, bem no furico de Brabão, o piche deu duas cheiradas profundas e depois carinhosamente lambeu o cu de Brabão.

Brabão, agora já relaxado e acalmado, olhou meigamente para o pequeno piche, piscou os olhos e como uma cadela latiu melodicamente:

– Uau! Uau! Uau!

Naquele dia descobriram que Brabão queimava o aro. Era gay.

A Morta-viva do Rio Cachoeira

enterro-2Por Roberto Carlos Rodrigues

Parece fácil a vida de um cronista que resolve reviver a memória do seu povo e de sua aldeia. Mas não é. Muitas vezes os fatos acontecem e as pessoas simplesmente esquecem ou fingem quem não sabem dos ocorridos. A estória que vou descrever agora aconteceu em Banco da Vitória, no início da década de sessenta do século passado e, graças a Deus, muita gente ainda está vivinha da silva para comprovar que não minto, ou que é fruto da minha imaginação. Naqueles dias, em Banco da Vitória uma mulher dada como morta, reviveu em pleno ato fúnebre.

Foi exatamente em um domingo de Feira em Banco da Vitória que chegou a notícia da morte de Dona Maria D’ajuda, mulher de um trabalhador da fazenda Porto Novo e moradora da localidade chamada O Beco.

O Beco ficava nas margens do rio Cachoeira, em terras da fazenda Porto Novo. Era um arruado com poucas casas que serviam de moradias para as famílias dos trabalhadores dessa fazenda. Não havia mais de duas dezenas de casas na localidade. Havia ali um grande armazém de cacau e diversas barcaças, Além de um campo de futebol, uma bodega e um pequeno porto fluvial.

Dona Maria D’ajuda, a morta, morava ao lada da casa de Dona Maria José, essa, era mãe de Siri, excepcional jogador de futebol de Banco da Vitória e foi quem primeiro socorreu a amiga. Mas não teve jeito, a vizinha veio a óbito.

Na tarde daquele domingo e na boquinha na noite daquele dia várias canoas cheias de pessoas saíram de Banco da Vitória para o velório da mais que querida Dona Maria D’ajuda. Provavelmente mais de cinquenta pessoas da localidade foram “beber a morta” em sua residência. Entre as pessoas que se dirigiram para o velório estava o aleijadinho Tonho de Zefa Galega, famoso rezador de exéquias. Tonho era figura mais que importante em todos os velórios da região. Quando alguém morria, Tonho se apresentava na casa do defunto. Sentava ao lado do morto e rezava, sem parar a Oração dos Falecidos.

Tonho de Zefa Galega foi um dos primeiros que chegou ao velório de Dona Maria D’ajuda. Antes de iniciar suas orações, abasteceu o bucho, tomou duas xícaras de café com leite, comeu bolo de puba e uns pedaços de cocada. Depois, com suas duas muletas se dirigiu para sala, sentou-se ao lado da morta e começou sua oração, que duraria até a hora do sepultamento, no cemitério de Banco da Vitória.

O velório de Dona Maria D’ajuda seguiu como os outros. O rezador na cabeceira do morto, os bêbados contando casos na frente da casa e meia dúzia de parente choramingando nos becos da casa.

No dia seguinte, as quatro horas da tarde o caixão da defunta foi colocado no batelão, a maior canoa da fazenda, e Tonho com suas muletas foi colocado na mesma embarcação. Nesta canoa grande três homens fortes remavam e além da morta vinham o marido da falecida mais uma vizinha. Ao todo, mais de trinta canoas acompanhavam o cortejo fúnebre que subia o rio Cachoeira.

Tonho de Zefa Galega nascera com os pés atrofiados e só consegui andar amparado por suas muletas. Ele tinha, na época do ocorrido, uns sessenta e poucos anos de idade. Era um homem pequeno e magro, tinha os olhos miúdos e no rosto galego havia um pequeno bigode. Homem de poucas brincadeiras, era raro vê-lo sorrindo.

Mas voltando ao caso da morta, o cortejo fúnebre vinha tentando vencer as águas da maré de março que inundavam o rio Cachoeira dando-lhe beleza excepcional, quando o fato estranho aconteceu. Quando as embarcações cruzaram bem em frente a Bica da água Boa, se ouviu umas pancadas dentro do caixão de defunto. A princípio, acreditou-se ser barulhos dos remos batendo na canoa. Mas não era. Era a dita como morta.

A morta não estava morta e como quem acorda de um pesadelo, ela deu um forte chute na tampa do caixão e como quem procura o ar, Dona Maria D’ajuda se sentou e deu um tremendo grito. Um dos remadores da canoa com o caixão de defunto, ao ver aquela cena se assustou e se jogou na água. O outro o seguiu. O terceiro remador tentou ainda aprumar a canoa, mas de medo, não conseguiu. Pulou também na água e então a canoa virou.

O marido da morta-viva pulou para um lado, o caixão caiu para o outro. As pessoas se assustaram nas canoas que vinham acompanhando o cortejo fúnebre e várias também afundaram. A gritaria foi geral. Muitas mulheres caíram nas águas e se afogavam. Os homens, vendo as cenas horríveis de possíveis mortes coletivas, se jogaram nas águas e foram socorrê-las. O marido de Dona Maria D’ajuda, mergulhou e foi atrás da sua esposa, que não sabia nadar. A encontrou se afogando ainda dentro do caixão emborcado. Salvou-a.

Em poucos minutos água do rio Cachoeira ficou repleto de flores e velas e várias pessoas foram socorridas e levadas para as pedras da beira do rio. Homens, meninos e mulheres que sabiam nadar se jogaram na água e tentaram salvar o máximo de pessoas. Contudo, muita gente, na verdade, se jogou na água e nadou afoitos para as margens do rio com medo da morta-viva. Dois remadores da canoa que trazia a morta nadaram feitos torpedos, alcançaram a margem direita do rio Cachoeira e entraram na mata gritando feitos loucos. Quatrocentos metros de mata a dentro eles pararam debaixo de uma velha jaqueira e tentaram recuperar o fôlego.

– O que foi aquilo? O que foi aquilo meu Deus? Questionou o homem assustado e com os olhos esbugalhados.

– Eu não sei. Eu não sei. Disse o outro. – Só sei que a morta deu um grito da peste e me assustou. Pulei na água, nadei feito um louco e corri a até aqui sem olhar para trás. Nunca sentir tamanho medo na minha vida. Dona Maria D’ajuda deu um grito infernal naquele caixão de defunto. Quase me matou de susto. Tô com o coração na garganta. Disse o outro se escorando na jaqueira.

– Oh! meu Deus! Oh! meu Deus! Disse o outro medroso. A mulher não estava morta! Como pode morto se levantar e gritar, como fez Dona Maria D’ajuda?

– E eu sei lá. Respondeu o outro. – Só sei que quase morri de susto. Lá eu não volto não. A mulher reviveu. Será? Disse se agachando nas raízes da grande jaqueira.

– A canoa virou com o caixão de defunto e tudo. Disse o outro, ainda tremendo de medo. – Não sei como que aconteceu aquilo… – Oh! meu Deus! Quase gritou o homem. – O meu Deus! Disse o homem se levantando e colocando as mãos na cabeça, indagando: – E o rezador? O pobre aleijadinho que estava na canoa da defunta. Será que salvaram ele? Será que aquele condenado sabia nadar?

Do alto da jaqueira, quase do último galho se ouviu uma voz:

– Condenado é a senhora sua mãe. Eu sei nadar e sei correr também muito bem. Disse o aleijadinho, todo molhado e com as duas muletas penduradas nos galhos da jaqueira.

Os dois homens nem procuraram certificar quem falava em cima da árvore. Gritaram de medo e voltaram a correr no meio da mata. Aquele não era um dia bom. Sabiam.

Em Banco da Vitória, a fantástica fuga do rezador, o aleijadinho Tonho de Zefa Galega ficou mais famosa que a revida de Dona Maria d’ajuda. Que muitos anos depois, morreu de verdade.

No dia da revida da morta-viva ninguém morreu afogado no rio cachoeira.

Naquele trágico dia, muita gente em Banco da Vitória chegou em casa cagado e mijado. Mais isso já é uma outra história.

31 – O Fim das Fofoqueiras de Banco da Vitória.

Uma das coisas que o tempo, do seu jeito e modo, se encarregou de quase acabar foram as fofoqueiras. Atualmente, com o advento da Internet e das Rede Sociais as fofoqueiras quase e não tem mais o que fazer, pois quando vão contar um boato, um mexerico novo, todo mundo já sabe. Pode-se acreditar que as fofoqueiras e fofoqueiros estão com os dias contados. Todavia, antigamente, em Banco da Vitória tinha fofoqueiras respeitadas, quase profissionais nas artes das intrigas e dos boatos.

Nas barrancas molhadas pelas marés atlânticas no Rio Cachoeira havia algozes fofoqueira, – mas temidas que as feiticeiras locais. As fofoqueiras eram também classificadas como bisbilhoteiras, mexeriqueiras, intrigantes, leva-e-traz, boateiras, devassas, linguarudas, faladeiras, indiscretas e levianas.

Dizia-se no Nordeste brasileiro que o povo aumenta mas não inventa. Isso, em Banco da Vitória, nunca funcionou. As boateiras inventavam estórias descabidas e mirabolantes, mas com fortes argumentos de veracidade. Aumentavam os tons das desgraças humanas, mudavam os cenários dos fatos, acrescentavam novas personagens e massacravam seus inimigos.

Por conta de boatos e fofocas muitas moças apanhavam dos seus pais, sem merecerem nem mesmo um simples arranhão. Namorados se separavam, casais brigavam, colegas perdiam as velhas amizades, vizinhos deixavam de se falarem. Tudo isso por conta da sanha tenaz das fofoqueiras.

Antigamente, havia até o dia dos surgimentos das fofocas e boatos. Eram as segundas-feiras. Nestes dias, as fofoqueira faziam um apanhado do que tinha ocorrido no final de semana e regado de grandes criatividades, azeitavam suas fofocas e intrigas. O disse-me-disse corria solto neste dia e de vez em quando uma fofoqueira caia no tapa, recebia dois panos de facão nas costas ou até mesmo uma homérica surra. No dia seguinte a delegacia de Ilhéus estava cheia dos envolvidos nas fofocas e intrigas e até advogados eram requisitados nas acusações de falsos testemunhos, difamação e outros flexões do Direito.

Na boca da fofoqueiras locais moças virgens se tornavam mulheres damas. Homens casados e honestos viravam traidores costumazes. Donas de casa trabalhadeiras e direitas viravam preguiçosas e sujas e, de del em del muita gente via a reputação ir de água a baixo. Em Banco da Vitória, a fofoca estragou a vida de muita gente.

Alguns bêbados locais, quando já zimbrados nos efeitos etílicos elegiam as maiores fofoqueiras da localidade. Normalmente eram primeiro escolhida a fofoqueira de cada rua. Depois se classificavam as três principais fofoqueiras do então distrito de Ilhéus. Os cargos eram concorridos, mas merecedores.

Por anos de mais anos, uma senhora local recebeu o título de a maior fofoqueira de Banco da Vitória e redondezas. Mulher de poucas amizades, viveu a vida inteira fazendo intrigas e boatos. Por conta disso, foi a única defunta que foi enterrada no nosso cemitério em dois caixões. Em um caixão pequeno foi seu corpo. No outro, maior, foi sua língua. Que Deus a tenha perdoado de tantas intrigas, mexericos e boatos. Se isso não aconteceu, Satanás tem péssima companhia.

Graças a Deus, não temos em Banco da Vitória mais fofoqueiras como antigamente e as poucas pessoas que atualmente tentam viver no leva-e-traz, não fazem nem cócegas quando comparadas as antigas e temíveis fofoqueiras locais.

Em Banco da Vitória as fofoqueiras se findaram. Há quem acredite o contrário. Mas isso deve ser apenas boatos de quem não tem o que fazer.

23 – Triste Alvorada nas margens do Rio Cachoeira.

O Banco da Vitória amanheceu triste. Hoje nos despedimos do nosso amigo Marlon. Marlon chegou a nossa comunidade ainda menino. Foi morar com sua família, do outro lado do rio Cachoeira, em um sítio que ficava bem em frente a Pedra de Guerra. Sabia remar como poucos. Conhecia profundamente a Bíblia. Era um desportista nato e ativista social. Era também um excelente escritor. Casado com Carmem Calazães, teve filhos, constituiu uma bela família.

Por certo, Marlon foi o maior talento da escrita que viveu em Banco da Vitória. Sua obra não foi publicada em vida e agora adormece nos seus tantos cadernos e anotações.

Há exatos dois anos estive com Marlon diversas vezes. Ele compareceu ao lançamento do meu livro em Banco da Vitória e no dia seguinte passou uma manhã inteira comigo, na casa de Ivone Santos, onde mostrou-me seus novos escritos, falou sobre seus projetos editoriais e seus sonhos.

Conversamos sobre seus tantos projetos, sobre sua obra-prima, o romance inédito Asas Feridas e os tantos contos que tinham como temática a cultura cacaueira.

Marlon faleceu ontem à noite e foi sepultado no final da tarde de hoje, em Banco da Vitória. Morre um homem íntegro, inteligente, ativista social e amigo de grande caráter.

Ficou sua obra literária inédita. Deus queira que seus familiares e amigos possam realizar o sonho do nosso amigo Marlon, que era ver seus escritos publicados.

O povo das barrancas do Rio Cachoeira dorme hoje triste. Perdemos o nosso amigo Marlon. O grande escritor Marlon. O grande ser humano Marlon. O Marlon de Banco da Vitória. O escritor da saga do cacau.

Foi muito bom ter te conhecido, ser seu amigo e parceiro de tantos sonhos.

Tenha boa jornada meu amigo Marlon. Siga a luz.

20 – Dona Maroca – A Fada de Banco da Vitória.

Nos livros de estórias fantásticas, as fadas são representadas por moças lindas, reluzentes e mágicas. As fadas realizam sonhos, protegem as crianças de todos os tipos de males ou ainda fazem todos os tipos de encantamentos e surpreendentes magias. Em Banco da Vitória, a nossa fada não era jovem, tinha mais de sessenta anos de idade e se chamava Dona Maroca. Dona Maroca do Lelê.

Dona Maroca era uma viúva que vivia sozinha num terreno grande, numa casa com um quintal enorme que ficava nas imediações do atual restaurante Camarão na Moranga, de Marta Duarte. A casa de Dona Maroca ficava onde hoje está o quintal da casa dos pais de Cachaça e André. Em torno da casa da nossa fada havia um grande jardim repleto de flores e um pomar repleto de frutos.

Dona Maroca era famosa como quituteira e fazia um doce de milho cozido chamado de Lelê. Este doce era um tipo de canjica de grãos de milhos e temperado com coco ralado, leite de vaca, açúcar, e aromáticos cravos e canelas.

O Lelê de dona Maroca era vendido em um tabuleiro de madeira pintado de azul. Aos sábados e domingos Dona Maroca instalava seu tabuleiro encostado ao muro do antigo barracão da feira de Banco da Vitória, (bem em frente à casa de Dona Lia), na Praça Guilherme Xavier. Ali ela vendia, além do famoso Lelê, mingau de milho e de tapioca, canjica e pamonhas. Aromáticas e deliciosas guloseimas.

Dona Maroca era um ser angelical, amável, cheirosa e principalmente generosa. Na sua casa as crianças eram sempre bem vindas. No pomar e no jardim da sua casa todo mundo podia brincar, se lambuzar de diversas frutas e colher radiantes flores. Além, é claro, comer suas deliciosas guloseimas.

Dona Maroca parecia uma avó que todo mundo queria ter e todos a admirava por sua alegria.

Maroca era uma senhora branca, pequenina, gorda e alegremente sorridente. Adorava cuidar das suas plantas cantando. No seu quintal tinha também uma fabulosa fonte de água. Muitas pessoas da nossa comunidade pegava água de beber neste poço.

Dona Maroca vendia doces também no campo de futebol, aos domingos à tarde. As noites destes dias, ela se dirigia a igreja católica onde, além de fazer os seus louvores, cantava magnificamente bem.

Todas as crianças de Banco da Vitória adoravam Dona Maroca e nenhum “serzinho” passava pela avó comunitária sem pedir-lhes a benção. Junto com a benção afável e carinhosa vinha sempre um sorriso alegre e um pedido:

– Passa lá em casa para comer um docinho e brincar no meu jardim.

Por conta deste seu amor pelas crianças Dona Maroca se transformou numa verdadeira fada da nossa comunidade. Sua casa era encantada. Seu jardim era maravilhoso e magistralmente cheiroso. Seus doces eram irresistíveis. Seu sorriso era hipnótico e seu abraço simplesmente analgésico.

Nos livros de Banco da Vitória, a fada tem nome e se chamava Dona Maroca. Maria da Conceição dos Santos foi apenas uma personagem que a nossa verdadeira fada usou para poder conviver com a nossa gente e alegrar nossas crianças.

Agora Dona Maroca mora no céu e de lá continua amando todo nosso povo. Principalmente as crianças, de Banco da Vitória e do mundo inteiro.

 

 

19 – Zezeu, quase 50, relembra nossa bela infância.

No dia 12 de outubro de 1978, Maria Amélia Rhem da Silva, esposa do então prefeito de Ilhéus Antônio Olímpio distribuiu brinquedos e doces para as crianças de Banco da Vitória. Meninos receberam bolas ou carros de plástico e as meninas receberam bonecas. Os carrinhos coloridos foram entregues as criancinhas e as bolas para os pré adolescentes. Em apenas meia hora o Banco da Vitória estava repletos de novos craques de futebol e as centenas de bonecas recebiam nomes das personagens da novela O Astro, de Janete Clair, que fazia um estupendo sucesso na televisão.

Naquele dia ocorreram babas em todas as ruas do então distrito de Ilhéus, e, pelo menos por um único dia, cada menino da nossa localidades pôde realizar seu sonho de ter uma bola de futebol.

Na tarde daquele dia, muitas das bolas presenteadas já estavam furadas, estouradas ou rasgadas. Muitas pelotas não resistiram as unhas amoladas da meninada nem os assassinos grampos dos arames farpados que se viam por todas as cercas e até mesmo nos varais.

As bonecas, como já esperado, duraram bem mais que as bolas de plástico. Nas semanas seguintes teve até batizados de bonecas e há quem diga que algumas dessas duraram até o natal daquele ano. Outras, infelizmente, foram rasgadas por cachorros danados ou carregadas pelas enxurradas daquela primavera.

No dia seguinte, era um sábado, conta-me Zezeu (José Carlos Ramos), meu amigo desde a infância, que eu o presenteei com a bola que tinha recebido da mulher do então prefeito de Ilhéus. A bola de Zezeu tinha estourado na tarde do dia anterior e eu vendo a tristeza do meu amigo, dei-lhe a minha bola.

Até hoje Zezeu lembra dessa história e todas as vezes que conversamos ele a cita como um fato especial e relevante. Afinal, naquela época nós Compartilhávamos tudo que tínhamos. Os brinquedos eram coletivos, a comida dividida e as alegrias somadas.

Eu não lembrava desse ocorrido relembrado por Zezeu, mas fico muito feliz por ter tido este gesto colaborativo que marcou tanto o meu amigo a vida inteira. Afinal Zezeu tem orgulho do meu gesto juvenil.

Para minha família e meus amigos, gestos como este não são novidades na minha vida. Sempre acreditei que ajudando seria ajudado e sendo ajudado devia sempre compartilhar, desde bênçãos até coisas materiais.

A vida me ensinou que perder é ganhar e tudo que ganhamos devemos compartilhar. Sempre.

Hoje eu sei, que devo ter influenciado meu amigo Zezeu em alguma coisa. Afinal, ele, mais que eu, adora ajudar, contribuir, compartilhar e principalmente alegrar as pessoas.

A lição que fica dessa bela história é que gestos pequenos ou até mesmo simples, podem nortear as convicções das pessoas.

Zezeu, que fará 50 anos de idade no próximo dia 13 de novembro fará uma festa digna da sua brilhante vida. Seus tantos amigos estão todos convidados. A festança acontece em Içara, na beira mar de Santa Catarina, onde o nosso amigo mora e felicita.

Zezeu mora lá, em ares sulistas, mas seu coração continua batendo em Banco da Vitória e exalando os aromas do dendê e do cacau secando em barcaça…

17 – Zé Lavigne e Dona Alice – Edificadores de Banco da Vitória.

As minhas lembranças iniciais do casal Zé Lavigne(Lavino) e Dona Alice são do meado da década de setenta. Naquela época eu tinha pouco mais de dez anos de idade e o casal em voga já eram senhores de idades avançadas.

Lembro-me muito bem do velho seu Zé Lavigne, homem pequenino, enorme barba grisalha, sempre usando um facão embainado, preso à cintura, botas Sete Léguas nos pés, vestido de calça e camisa comprida, uma espingarda pendurada nas costas e, principalmente, do seu cheiro de cacau. Sempre, sempre mesmo, ele pitava um cigarro pacaya e adorava dar borrifadas de fumaça nos rostos das pessoas.

Zé Lavigne era o único morador de Banco da Vitória que tinha um sítio dentro da localidade. Esse sítio compreendia uma parte da rua dos Artistas, fundos da atual Rua Aldair, até a beira do rio Cachoeira e, no outro extremo um pedaço delimitava com a atual Rodovia Jorge Amado e o posto de combustíveis.

A entrada principal do sítio ficava ao lado da casa do casal que se localizava na esquina da Rua dos Artistas com a Rua Aldair (atual casa da professora Cremilda). Neste imóvel, além da casa de moradia, havia uma garagem (onde ficava o famoso automóvel conhecido como Jipe Rompedor), um depósito de cacau e uma grande barcaça para secar os frutos de ouro.

Nessa casa, seu Zé Lavigne e dona Alice moravam com os seus quatro filhos (Aparecida, Georgina, Zé Buscapé e Tonho). O sítio que se estendia até a beira do rio era repleto de cacauais e dezenas de pés de frutas. Ali a criançada de Banco da Vitória podia comer jacas, abius, carambolas, cerejas, jenipapos, goiabas, araçás, jabuticabas, groselhas, jamelões, jambos e principalmente as açucaradas canas.

Na parte mais extrema do sítio corria um riacho que desaguava no rio cachoeira bem em frente ao atual final da Rua Aldair. Perto deste riacho havia uma excelente fonte de água doce que abastecia dezenas de famílias de Banco da Vitória.

Lembro-me do ser rústico, homem sério, trabalhador e principalmente prestativo que era seu Zé Lavigne e, da candura, amabilidade e paciência de dona Alice, principalmente com as crianças.

Dona Alice, uma mãe de todo mundo. Mulher amante de flores e plantas. Costureira de mão cheia e católica fervorosa. Voz mansa, gestos comedidos, um ser exemplar.

Naquela época, quem queria conhecer uma mini fazenda de cacau só precisava entrar no sítio de seu Zé Lavigne. Ali tinha tudo que uma grande fazenda de cacau possuía. Das árvores aos cochos, da barcaça ao armazém.

Um dos dias mais alegres da comunidade na época era quando seu zé Lavigne ia vender o cacau seco em Ilhéus. Ele colocava quase vinte sacas de cacau no seu jipe, amarrava tudo e ia para a Princesinha do Sul. Quem via o carro com aquela quantidade de sacas de cacau amarradas a lataria acreditava que o veículo tombaria na primeira curva. Mas isso jamais aconteceu. Seu Zé Lavigne dirigia sempre devagar e com muita cautela.

Por sinal, seu jipe era um tipo de ambulância comunitária de Banco da Vitória e socorreu centenas de pessoas da localidade. Nessas ocasiões, a única coisa que não podia exigir do motorista era pressa. Coisa que ele jamais teve ao volante.

Seu Zé Lavigne e dona Alice foram moradores respeitados em Banco da Vitória e muito contribuíram para o desenvolvimento da nossa comunidade. O seu melhor amigo era Joaquim Araújo, pai de Tânia, mas ele era amigo de todo mundo.

Zé Lavigne e dona Alice repousam no solo de Banco da Vitória. Ali são eternamente amados.