Chupa Brasa – O Temível molho de pimenta de Banco da Vitória.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

pimenta 2Como era bem sabido por todos os ribeirinhos e matreiros do sul da Bahia, as crianças de Banco da Vitória aprendiam comer pimentas assim que largavam as mamadeiras de vidro. Era comum naquela época encontrar os barrigudinhos daquelas barrancas lascando nos dentes pedaços de carne de jabá assada na brasa, lambuzada com farinha e pincelada no molho de pimenta doce – para ir treinando os buchos infantis.

Meninos e meninas do antigo Banco da Vitória comiam de tudo que pudesse passar pelas gargantas. Siris, camarões, moreia, caruru, pacas, jacarés, miolo de boi, buchada de bode, carne de pescoço de boi, enfim, comia-se de tudo, desde que fossem acompanhado de duas iguarias culinárias: farinha de mandioca e molho de pimenta.

Nos quintais das casa de Banco da Vitória não podiam faltar pés de pimentas. Eram pimenteiras repletas de Malagueta, Dedo-de-Moça, Cumari, De Cheiro, de Bode, Chapéu-de-Frade, Biquinho e Do Reino.

As pimentas temperavam pratos cozidos, assados, crus e até frutas. Uma coisa era certa: no antigo distrito de Ilhéus não se comia sem pimentas – e farinha – é claro.

Cada casa tinha uma cumbuca para fazer o molho de pimentas frescas. Dentro dos armários ficavam as pimentas em conservas e nos quintais centenas de pimentas penduradas em cheirosas e brilhantes pimenteiras.

Contudo, dos molhos de pimentas de Banco da Vitória, o mais temível era o alquímico cozido feito pela viúva dona Alzira da Beirada. O molho do capeta era chamado de Chupa Brasa e tinha motivos de sobra para ser admirado por uns e malvisto por tantos outros.

Dona Alzira da Beirada era uma pequena agricultora que nos finais de semana vendia temperos na antiga feira de Banco da Vitória e entre seus produtos estavam as famosas garrafas de meio litro com o caldo do vulcão do diabo. Era o famoso molho Chupa Brasa.

O produto era tão cobiçado que precisava ser encomendado e normalmente as 20 garrafas trazidas para a feira dominical eram logo vendidas.

O molho Chupa Brasa era famoso em todo sul da Bahia, e se dizia que mais de uma dúzia de gulosos já tinham morrido tentando provar beber uma colher cheia do tal condimento.

Zé de Lidão morrera no bar de João Ruim, depois de comer um prato de fatada regado com duas colheres do temível Chupa Brasa. Assisinho, filho do fiscal Jonatas Oliveira, foi parar no hospital, com um soluço intermitente depois de comer uma peixada também lambuzada no Chupa Brasa. Quase morreu. Dona Filomena Gouvêa quase perdeu os lábios por causas das queimaduras provocadas pelo tal molho de pimenta.

Histórias de pessoas que sofreram de dores de estômago, fígado e no ânus (provocadas por loucas hemorroidas) após comeram o tal molho de Dona Alzira da Beirada não faltavam na feira de Banco da Vitória.

A dona da receita do molho dizia para seus clientes:

– Pinga uma gota só no prato e dilui na água de limão, para não perder a comida. Esse molho é forte feito o cabrunco. Mata a sogra e sogro. Mata qualquer um que for guloso. Falava sorrindo a vendedora.

Quando perguntada sobre a receita do temível molho Chupa Brasa. Dona Alzira desconversava e dizia:

– O segredo está na quantidade exata das pimentas. São 77 de cada tipo. 7 tipos de pimentas. 539 motivos para arder e queimar as goelas. Matematizava alegremente mas não dava o segredo da tal iguaria para ser ingerido por machos com m maiúsculo.

O famoso molho de dona Alzira da Beirada não podia faltar nas mesas dos fazendeiros de Ilhéus. Muitos usavam o tal condimento para desafiar convidados para os almoços e jantares. Mas poucos comilões se atreviam ir além da dose recomendada pela feirante de Banco da Vitória.

Um dia, já tomada pela idade avançada e cansada da lida na roça, Dona Alzira adoeceu e se acamou. Os temperos foram sendo vendidos pelas filhas e netas, mas ninguém conseguia replicar a receita do molho Chupa Brasa. A freguesia domingueira da feira de Banco da Vitória sofreu com a falta que fazia Dona Alzira da Beirada e seu famoso molho, o temível e arredio Chupa Brasa.

Libório Cruz, cachaceiro e conversador dos bares e bodegas de Banco da Vitória, alardeava que sabia qual era o segredo do molho de pimentas de dona Alzira.

– Eu sei. Eu sei. Só não conto porque jurei segredo a minha madrinha. Nem as filhas dela sabem. Só eu sei. E não conto para ninguém, em respeito à minha dinda, que tá tão doente, mas nas mão de Deus. Alardeava o bêbado.

– Se eu quisesse, iria ficar rico com a receita do molho Chupa Brasa. Ia ficar bilionário. Mas, sou homem de palavra. Não conto para ninguém. Eu sei mas não conto. Não adianta perguntar. Falava o bebum escorado no balcão seboso da bodega Alvorada, na esquina da Rua do Campo.

Dona Alzira da Beirada morreu e foi sepultada numa manhã calorenta de janeiro. No mesmo dia, no final da tarde, Libório Cruz entrou na bodega Alvorada, bebeu até quase perder as pernas e por fim disse para os tantos frequentadores do estabelecimento.

– Agora que minha madrinha tá morta e sepultada, eu posso contar o segredo do famoso molho Chupa Brasa. Minha madrinha cozinhava as pimentas malaguetas na urina dela. Ela aparava o mijo da semana inteira no pinico de metal e guardava o azougue num tonel no fundo da casa e na hora de cozinhar o molho de pimentas ela regava o caldeirão com o liquido cáustico do tonel.

Era mijo fermentado o segredo daquele ardor do cão. Mijo. É mijo de velha. Esse era o segredo do Chupa Brasa. Tá revelado.

Em Banco da Vitória. Muita gente não acreditou nas revelações do bêbado Libório Cruz. Mas por via das dúvidas, nos dias seguintes, várias garrafas do temível Chupa Brasa foram jogadas fora.

A verdadeira receita e os segredos do temível molho de pimentas morreram junto a sua criadora. O Chupa Brasa saiu do cardápio daquela gente. As comidas ficaram mais doces em Banco da Vitória.

Em Banco da Vitória, não se faz mais bêbados como antigamente.


bêbado-capa

Por Roberto Carlos Rodrigues.

A aguardente é tão velha quanto a humanidade. Sempre, onde há seres humanos, existe álcool em forma de bebidas. Em Banco da Vitória a cachaça tinha diversos nomes e apelidos. Desde Fubuia, Fofa-Toba e Desdobrada, (para as canas de baixa qualidade) e até nomes pomposos como Rainha, Lágrima de Virgem e Urina de Santo para as bebidas mais requintadas, finas e caras.

Segundo relatos históricos se fabricou cachaça na Fazenda Victória por séculos e a aguardente deste local era apreciada pela burguesia do cacau.

No meio do século passado, a Cana de Ilhéus, nome da cachaça produzida na Fazenda Victória era até exportada para a Europa e Estados Unidos e somente os ricaços de Ilhéus podiam comprar e saborear essa fina iguaria etílica.

Além de fabricar uma das melhores cachaças da Bahia, o Banco da Vitória também sabia produzir bêbados famosos, problemáticos, brincalhões e alegres. Eram verdadeiras lendas movidas a álcool.

Os bebuns de Banco da Vitória tinham uma característica peculiar que era beber até cair. Beber para não embebedar não valia. O negócio era beber até cair, ralar os cotovelos e cortar os queixos. Quando isso acontecia, tinha valido cada centavo gasto na bebedeira.

Não vou citar aqui os nomes dos bêbados famosos de Banco da Vitória para não arrumar novos inimigos ou longas desavenças. Mas, em matéria de bêbados, posso afirmar que pouco lugar do mundo teve tantas celebridades etílicas, quanto a nossa comunidade.

Em Banco da Vitória, a cachaça recebia também diversos nomes, como Quebra-goela, Iaiá-me-sacode, Bagaceira, Danada, Lagrima de virgem, Remédio, Ximbica, Tira-juízo, Saideira, Lamparina entre tantos outros nomes.

Segundo Antônio de Isaías, profundo conhecedor de água azeda de cana-de-açúcar, beber cachaça é bom. Agora tem as condições de saber beber. Pois a cachaça, segundo Isaías, tem de ir direto para a cabeça e não para o estômago. Pois cana na barriga maltrata o fígado e irrita as tripas. Dizia. Já a cana na caixola deixa o cidadão tonto e principalmente alegre.

Segundo a autoridade etílica anteriormente descrita, o ruim da cachaça é quando ela vai para as pernas. Aí é queda na certa. Fica o bebedor no prejuízo.

Quando o assunto era música e cachaça, a toada Eu Bebo Sim, cantada originalmente por Elza Soares, sempre foi a trilha sonora dos bebuns locais. Por conta da exaltação do refrão desta música, muita gente partiu, em nossa comunidade, antes do combinado.

Não sei o que aconteceu com a qualidade das atuais cachaças vendidas em Banco da Vitória, pois elas não produzem mais os bêbados alegres, mentirosos e conversadores como os de antigamente.

Hoje os bebuns de Banco da Vitória são todos morfinos, preguiçosos e sem alegrias. Nem parecem que bebem para se alegrar, contar causos, mentir por não ter nada melhor para fazer.

Banco da Vitória já não produz mais cachaça, nem bêbados alegres, nem fedorentas bodegas. O negócio agora é beber a tal da breja gelada. Mas essa bebida, nem de perto, lembra um grande porre provocado por uma legítima Canjimbrina.

Afinal, todo bom porre tem sua história. E um porre azeitado na cachaça, principalmente na barata, tem uma enciclopédia inteira para relatar.

Tim-tim!

A Feiticeira de Banco da Vitória.

Pfeitiçoor Roberto Carlos Rodrigues.

O mato cobriu tudo. Onde havia uma casa branca com duas janelas azuis, existe apenas tiriricas, quaranas e calumbis. No antigo terreiro onde se dançava as umbigadas e os forrós juninos, agora passeiam carrapatos, cupins e falsas cobras corais. Quem atualmente olha para o antigo alto da Santa Clara, em Banco da Vitória, e só ver mato entre alguns lances de pastos, não imagina a linda casa que havia ali. Bem no meio do morro, com a vista privilegiada daquela localidade e do rio Cachoeira ao fundo.

Nesta casa morava dona Zumira. A famosa Madame Zu. A temida feiticeira de Banco da Vitória. A Iyalorixá do terreiro da Pomba Branca.

Os feitiços, encantamentos, bruxarias, rituais macabros e simpatias de Madame Zu eram conhecidos (e principalmente temidos) em toda a região cacaueira do Sul da Bahia.

Em Banco da Vitória, todos sabiam, quem levava uma raiva, um rancor ou uma desilusão amorosa para os ouvidos de Madame Zu, não descia o morro sem uma vingança pronta e acertada.

Os rituais de Madame Zu eram irrevogáveis. Portanto, quem procurava a famosa feiticeira de Banco da Vitória sabia que não podia voltar atrás.

Se era para aleijar, os feitiços de madame Zu aleijava e depois matava aos poucos. Se era para matar, matava logo, não apenas o condenado na magia, mais seus principais familiares e suas criações. Se era para reatar amores descaminhados, as mandigas de madame Zu faziam com que homens antes arredios e insensatos se tornarem amorosos e bestas.

Pendengas de cornos, brigas de bêbados, arruaças de vizinhos não eram aceitos como motivos dos serviços de Madame Zu. O seu negócio era dar nó cego ou desatar nós que ninguém conseguia resolver.

Dessa forma, a feiticeira de Banco da Vitória era também conhecida como a última via. Afinal, o que não achava conserto nas mandigas de Madame Zu, não havia reparo na face da terra. Acreditava-se por todos aqueles cantos.

Fazendeiros do cacau, coronéis de títulos e patentes, altos funcionários públicos, intendentes, delegados, renomados advogados e médicos e principalmente as mulheres dos donos do cacau, eram fregueses assíduos de Madame Zu.

Tinha fazendeiros que não semeavam uma única semente de cacau sem antes consultar Madame Zu. Outros, na hora de comprar novas terras, consultava primeiro a feiticeira de Banco da Vitória. Sem seu aval, nada feito.

Uns, apaixonados pelas mulheres alheias, recorriam as mandigas de Madame Zu para favorecer a morte do marido da pretendida, depois apodera-se da linda viúva. Normalmente isso surtia efeitos.

Em Banco da Vitória e nos quinhentos quilômetros de raio se sabia da fama e dos poderes alquímicos de Madame Zu. Feiticeira igual não havia em toda a Bahia, quiçá no Brasil.

Contudo, havia um grande mistério que rondava a casa branca com janelas azuis que ficava no meio do Alto da Santa Clara e principalmente sobre a origem da sua proprietária.

O mistério era: de onde vinha tanto poder em uma única pessoa?

Ninguém jamais soube responder esta pergunta.

Da senhora septuagenária pouco se sabia no distrito de Banco da Vitória. Uns diziam que Zumira era nascida em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo bBaiano. Outros argumentavam que ela era oriunda de Poções, na boca do sudoeste baiano. Outros, ainda mais criativos, diziam que Madame Zu tinha nascido em Ouro Preto, em terras mineiras.

Uma coisa era certa: Zumira dos Santos Santana, a famosa Madame Zu de Banco da Vitória não era deste mundo. Era do mundo dos espíritos e dos encantamentos.

Madame Zu pouco descia o morro do Alto da Santa Clara. Malmente andava nas ruas de Banco da Vitória ou ia ao centro de Ilhéus em raras ocasiões. Isso somente ocorria quando das procissões de São Jorge, dos festejos de São Sebastião ou da festa de Nossa Senhora da Conceição. Contudo, no dia 6 de janeiro, madame Zu ajuntava sua gente e iam no meio da noite se banharem no mar de Ilhéus. Festejava na data dos Reis, seu aniversário.

Na casa branca com janelas azuis, mas de vinte pessoas cuidavam dos seus interesses e necessidades. Eram abiâs, iaôs e ebômis resignados e seguidores da velha feiticeira.

Olhos pretos e miúdos. Rosto rígido e carismático. Sorriso meio escondido, mas fascinante. Corpo franzino e firme. Pele negra feito a noite. Olhar penetrante, voz profunda, calma e séria. Assim era Madame Zu. Sempre vestida de branco com seus dois grossos colares azuis pendurados no pescoço e na mão direita o terço de nossa senhora. Não chegava a ter 50 quilos em seus um metro e sessenta e quatro de altura. Mas tinha autoridade de gigante.

Os feitiços que Madame Zu fazia não podiam ser desfeitos. Os que ela desfazia, matava seus ordenadores.

Madame Zu chegara ao Banco da Vitória no início dos anos sessenta. Trazia em mãos o comprovante de compra do terreno no meio da ladeira do alto da Santa Clara e uma mala cheia de dinheiro. Em pouco tempo ergueu sua casa branca no meio da mata e começou suas atividades de feitiçaria. Em menos de dois anos já era famosa em toda região cacaueira e tinha súditos em diversas cidades do sul da Bahia.

Madame Zu era festeira. Nos festejos de Cosme e Damião o caruru era servido para mais de duas mil pessoas. Nas festas Juninas o forró durava quase quinze dias e, no dia do seu aniversário, matava-se um boi para o churrasco.

Um dia Madame Zu adoeceu e ficou de cama por longas semanas.

Levadas aos principais médicos da região, nada foi constatado, a não ser um mal-estar que acometia a velha feiticeira. Da cama a velha feiticeira não levantou mais até aquela segunda-feira, quando pediu para ser levada para a frente da sua casa. Queria contemplar a bela paisagem às margens do rio Cachoeira. Foi atendida.

Enfrente a casa branca com duas janelas azuis, madame Zu falou apenas com Cândida Lázaro, sua principal baba kekere. Deu duas ou três ordens a ela, depois pediu um gole de água. Uma das suas iaôs foi até a cozinha para atender seu pedido. Quando a iaô voltou com a caneca de porcelana com a água, madame Zu já não estava mais no mundo destes vivos. Estava de volta ao mundo dos encantamentos. Padecera em paz.

O corpo de Madame Zu foi purificado com água corrente e incensos. A pemba branca cruzou seu corpo, na testa, na garganta e nas costas das mãos. O óleo de oliva consagrado foi derramado sobre seus pés descalços. Borrifaram essências e óleos aromáticos sobre seu corpo e por fim encomendaram seu espírito.

O velório foi restrito aos amigos e as autoridades de todos os portes e quilates da região.

Naquela noite a falecida foi apresentada no meio do terreiro. Cantos de Oxalá e Obaluaiyê, hinos de Umbanda foram ouvidos até o nascer do dia, quando as danças de Iyamoro se findaram.

No final da tarde daquela terça-feira Madame Zu foi sepultada no cemitério de Banco da Vitória. Era agosto de 1989.

Madame Zu não conheceu a outra feiticeira mais poderosa, – mil vezes mais poderosa que ela, que chegara ao sul da Bahia ainda naquele ano. Essa outra feiticeira chamava-se Moniliophtora perniciosa, mas ficou conhecida em toda aquela região como Vassoura de Bruxa.

A bruxa em si, dessa praga que quase dizimou a lavoura cacaueira do sul da Bahia, nunca botou os pés em solos grapiúnas. Por aqui esteve apenas sua vassoura e seus estragos.

Madame Zu foi facilmente destronada do cargo de maior feiticeira do sul da Bahia. Atualmente a vassoura de Bruxa continua fazendo mandigas, feitiços e ebós que ninguém consegue desfazer.

Os poderes de Madame Zu se dizimaram com o tempo e onde havia uma casa branca com duas janelas azuis, o mato cobriu tudo e só ser ver apenas tiriricas, quaranas e calumbis.

Até seus súditos se perderam no tempo.

De Madame Zu só ao mais velhos se lembram e, em Banco da Vitória quem atualmente dar as ordens nos terreiros de umbanda é uma Axopí, muito famosa, chamada Saudade.

Toinha das Flores – A Drag Queen de Banco da Vitória

drag queenPor Roberto Carlos Rodrigues.

Até 28 de março de 1987, Antônio Espíndola dos Santos era conhecido em Banco da Vitória como Toinho de Dona Filomena. Naquele ensolarado e úmido sábado, exatamente as 15 horas Toinho morreu para sempre, como ele mesmo dizia. Neste mesmo dia e horário nasceu Toinha das Flores, a primeira Drag Queen de Banco da Vitória. Tinha 19 anos de idade.

Toinho era um rapaz na flor da idade. De cútis clara, se diferenciava facilmente entre os moradores de Banco da Vitória. Era alto, de pernas e braços compridos, cabelos louros e finos, olhos azuis e nariz e lábios finos. Tinha traço dos povos nórdicos. O pai era um marinheiro norueguês, que aparecia de vez em quando no porto de Ilhéus, engravidava uma nativa e depois sumia. Sua mãe, Filomena, era morena alta a formosa, de traços caboclos e cabelos negros. Dessa junção de sangues nasceu Toinho, mais lindo que uma menina, por certo, uma menina num corpo de menino.

Toinho, ou melhor, Toinha das Flores resolveu naquele dia liberar geral, externar seu lado feminino, mostrar-se poderosa e alegre. Assumir sua sexualidade e dar um foda-se para quem tinha preconceitos e ares de homofobia.

Vestida em longo vestido florido e dançante, atada a cintura com uma fita vermelha de cetim, nos peitos (ou melhor nos seios) um sutiã amarelado à amostra, nos pés uma sandália dourada de salto alto, na cabeça um lindo chapéu primavera e nos braços um lindo buquê de flores. Eram lindos e alvos lírios do campos – dignos das divas do cinema. Rosto maquiado, nos lábios batons do vermelho mais carnal, nos olhos sombras azuladas e na boca, sorrisos e mais sorrisos.

Como um furacão que chega sem avisar Toinha das Flores, vestida de mulher estonteante, saiu da sua casa que ficava na Rua Duque de Caxias e desfilou pelas ruas de Banco da Vitória distribuindo beijos e flores para ao atônitos moradores das barrancas do Rio Cachoeira. Vestiu-se assim até morrer.

– Gente, cheguei! – Gritava no meio das ruas. Depois gargalhava gostosamente e adentrava as casas das conterrâneas e amigas, onde distribuía flores e beijos. Logo atrás de Toinha das Flores vinha o bêbado Epifânio Calunga empurrando um carro de mão cheio de flores, que abasteciam os braços da nossa personagem.

– Só estou empurrando o carro – Advertia Epifânio – Tô sendo pago pelo serviço. O xibungo é ele. Falava o bêbado eximindo de possível associação com a nossa Toinha das Flores.

– Vala-me Deus! – Disse dona Isaura, na janela da sua casa. O que aconteceu com esse menino. Será que perdeu o juízo? Argumentava perante o marido Juvenal que assistia aquela cena inusitada.

– Nossa senhora da Conceição que tenha compaixão desse ser. Disse a beata Lurdinha, filha de seu Ademar do armarinho Estrela Dalva, enquanto se benzia e beijava seu velho crucifixo.

– Eita! Tem carne nova para os papacus de Banco da Vitória. Disse sorrindo Elzo de Santinha, encostado no balcão do Bar de Xisto Gomes.

– Amores, meus amores, eu estou aqui! Cantarolava Toinha das Flores enquanto literalmente desfilava pelas ruas de Banco da Vitória.

– Novidade! Disse dona Terta, sentada na sua cadeira de balanço, na varanda da casa azulada. – Eu sempre soube que esse menino era invertido. Esse queima rosca, baitola do cão sempre foi afeminado. Os parentes que não queriam ver. Agora ele vai envergonhar a família inteira.

Indiferentes das críticas, Toinha das Flores continuou sua caminhada pelas ruas de Banco da Vitória e quando voltou a sua casa encontrou sua mãe nas mãos das amigas. Dona Filomena tomava água com açúcar para acalmar o coração.
– Mãe, disse Toinha, – aquieta seu coração, pois o meu está radiante, feliz e vibrante. Hoje eu sou o que sempre fui. Morre Toinho, nasce Toinha das Flores. Uma coisa é certa: aquele menino ali da foto na parede estava aprisionando esta moça linda aqui. Hoje eu sou o assunto mais falado neste povoado. E daí? Quem vai pagar nossas contas? Que dane-se todos! falou enquanto entrava na cozinha da casa.
Não demorou e se sentiu o cheiro de pano queimado no fundo do quintal.

– Enlouqueceu de vez. Disse a mãe choramingando. – Oh meu Deus, vão lá no quintal ver em que este menino está tocando fogo. Pediu Filomena para uma vizinha.

No fundo do quintal, perto do pé de mamão, Toinha tocava fogo nas roupas de Toinho. – Adeus cuecas, venham coloridas calcinhas. Adeus bermudas, venham saias rodadas. Adeus calças, que venham vestidos. Cantarolava Toinha enquanto nutria o fogo com as peças de roupa.

Mas nem tudo foi festa e flores nos dias seguintes de Toinha em Banco da Vitória. Primeiros se ouviram os escárnios escondidos, depois os palavrões e xingamentos públicos. Alguns moleques jogavam pedras em Toinha. Teve até quem jogasse bosta na nossa personagem. Há quem diga que Toinha foi até ameaçada de morte. Tudo isso foi pouco até o susto que ela tomara numa noite de agosto.

Numa noite, atraída pelo suposto amante, Toinha se dirigiu até o local do encontro marcado. Era noite velha, já no segundo sereno da madrugada. O local distante e silencioso. Perto da antiga pedreira da Cerâmica Vitória. Ali, local de amores escondidos e traições de casais.

Como quem andava sobre flores umedecidas, Toinha se dirigiu até o homem que a esperava envolto da nebrina. – Tira a roupa. Disse o homem no meio da escuridão. Toinha sorriu e atendeu a ordem. Tentou acariciá-lo. Mais não pode. Sentiu uma fisgada na costela esquerda. Um frio repentino por todo o corpo. A escuridão nos olhos, o silêncio eternos nos ouvidos. Já não estava mais entre nós.

Acharam o corpo de Toinha das Flores no dia seguinte. Logo cedo, uma lavadeira de nome Luiza Morão foi pegar água na bica da cerâmica Vitória e deparou com a cena macabra. Toinha das Flores morta no meio de um tapete de flores de malmequer. Uma flor pálida entre as flores amarelas.

Um grito no meio do mato. O balde d’água caído ao chão. Uma carreira trilhada pelo choro.

O povo logo acordou e foi ver Toinha morta. O Banco da Vitória entristeceu de vez. O nome Antônio Espíndola dos Santos foi descrito no atestado de óbito. O enterro comoveu todo o povo do lugar e naquele final de tarde Toinha das Flores foi sepultada sobre aplausos, choros e tristezas.

O assassino de Toinha das Flores jamais foi descoberto. Pode ser que ele ainda esteja anônimo entre nós. Somente Toinha das Flores soube quem a matou. Somente ela e as flores dos malmequer que ainda adornam as pedras da Cerâmica Vitória.

Mas Deus sabe quem fez esse terrível ato contra a alegre e estonteante Toinha das Flores e, somente Ele poderá julgar e perdoar. Como sempre, Deus agirá no seu tempo.

Toinha das Flores foi a primeira Drag Queen de Banco da Vitória. A primeira e única.

 

 

Talvez, algumas coisas suas ainda estejam por lá.

banco 366.jpgPor Roberto Carlos Rodrigues.

Muitos filhos de Banco da Vitória, atualmente vivem longe destes horizontes. Uns, levados por sonhos de dias melhores, seguiram as estradas das suas ambições e foram para terras distantes, alicerçar suas conquistas. Outros, sem chances de escolhas, pegaram ônibus sujos e foram embora para outras plagas. De lá sentem saudade de sua terra distante e sonham em um dia voltarem para o mesmo solo em que seus umbigos foram enterrados. Outros filhos da comunidade, moram ali em Ilhéus ou Itabuna, Salobrinho ou Vila Cachoeira e passam todos os dias pela Rodovia Jorge Amado e veem o Banco da Vitória apenas por trás das janelas dos seus carros ou dos ônibus. Estes, talvez não saibam, mas o Banco da Vitória tem mais saudade deles do que eles têm da sua terra.

Deve ser triste e doloroso passar todos os dias diante do seu lugar de nascimento, da sua terra-mãe, das suas raízes, das casas dos seus parentes, do seu baú de todas as lembranças e não ter tempo para adentrar a velha comunidade e rever sua gente, suas ruas antigas, seu casario e principalmente suas lembranças.

Os filhos e amantes de Banco da Vitória que vivem distante tem suas razões para não poderem neste exato momento lambuzarem seus pés nas poeiras das nossas ruas. Estes, acredito, sonham todas as noites com o seu lugar amado.

Agora os apressados da Rodovia Jorge Amado e colecionadores de tantos compromissos, que apenas veem o Banco da Vitória como uma paisagem que passa pelas janelas dos seus carros, eu tenho um conselho a dá:

Tire um dia para, ao invés de ver sua terra mãe apenas pelas janelas dos veículos, vá lá passear de pés no chão, camisa sobre o ombro, sol na testa e o cheiro da maresia do velho Cachoeira nas fuças.

Vá lá rever sua gente, andar na “sua” antiga rua, visitar a casa que você morou, sentar na praça Guilherme Xavier, falar com seus conterrâneos, abraçar seus parentes e velhos amigos e sentir o ar do lugar.

Talvez, algumas coisas suas ainda estejam por lá. Pode ser uma lembrança antiga, uma saudade escondida ou apenas um sorriso singelo de alguém que se alegra ao ver-lhe de novo pisando no nosso solo sagrado.

Talvez, quem sabe, você ainda arrume tempo para ver as margens do Rio Cachoeira, andar na Rua do Campo, cruzar a Rua dos Artista e escorrer pela Rua Dois de Julho. Dá ainda para subir o Alto da Bela Vista, depois o Alto do Iraque e as franjas da Mata da Rinha.

Por certo, nessas suas caminhadas, você poderá encontrar velhos amigos, parentes distantes, sonhos perdidos no tempo. Uma coisa é certa: você encontrará o seu Banco da Vitória com tanta saudade de você, que jurará que não mais passará mais de um mês sem adentrar a sua velha comunidade.

Não posso afirmar, mas acredito que se o Banco da Vitória fosse uma pessoa, por certo ficaria muito triste ao vê-lo passar todos os dias bem em frente da sua casa e nunca a visitasse.

Talvez, em Banco da Vitória, alguma coisa sua ainda esteja por lá. Ou será que você realmente levou tudo quando se mudou?

Mas se você não quiser ir rever nossa gente, tudo bem. Você deve ter suas razões e seus motivos, que são todos inquestionáveis.

Assim como também são inquestionáveis os choros das mães abandonadas pelos filhos e o silêncio dos filhos que sofrem de um tipo de amnésia que se sustenta nas desculpas e nas pressas.

Vá rever o Banco da Vitória, antes que seja tarde demais. Isso, não para a localidade.

Feliz aniversário, Banco da Vitória.

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Não se sabe ao certo a data da “fundação” do atual bairro de Banco da Vitória. Contudo, tendo como base as incursões nas margens do rio Cachoeira feitas pelos jesuítas portugueses no meio do século XV e registradas nas suas missivas do ano de 1554, onde se ler: “levados pelas grandes últimas marés de março, alcançamos no ano passado as barragens de pedras do rio que vem do sertão distante (rio Cachoeira) e ali fizemos um acampamento para auxiliar nossas expedições ás margens do rio e nas matas”. Carta do padre Leonardo Nunes (1554).

Como sabemos que as últimas marés do mês de março ocorrem entre os dias 21 e 31, então supõe-se que a expedição descrita pelo padre Leonardo Nunes ocorreu na última semana deste mês. Portanto, o embrião do atual bairro de Banco da Vitória foi ocupado neste período.

Então, por suposição ao descrito pelo padre Leonardo Nunes, o Banco da Vitória foi “fundado” na última semana do mês de março de 1553.

Vale frisar que o relato do padre Leonardo Nunes não descreve nenhuma fundação de localidade ou vila. Mas sim, do acampamento feito a margem esquerda do Rio Cachoeira que serviria de base operacional para a catequese na região oeste da capitania de São Jorge dos Ilhéus.

Portanto, Feliz aniversário (extra- oficial) Banco da Vitória. 464 anos!

O povoado de banco da Vitória foi instituído no ano de 1830. O Banco da Vitória foi elevado à categoria de bairro de Ilhéus em 11 de julho de 1989.

Barão Von Steiger

ferdinand von steiger fotTexto publicado por Ramiro Berbert de Castro, no Jornal Dom Casmurro de 06/01/1940. Fonte Biblioteca Nacional.
 
Transcrito por Roberto Carlos Rodrigues.
 
“No ano de 1846, precisamente a 8 de novembro, segundo anotações da Suíça na Baia, aportava a capital do Estado, passageiro do vapor “Josephine”, embarcado em Havre (França) o tenente da guarnição de Rei da Prússia. Ferdinand Von Steiger, nascido em 15 de junho de 1825 em Berne (Suíça). Era filho do coronel do exército Albert Von Steiger, de Musssingen, (Suíça) e de D. Carolina Mau Stieger. Residia em Colônia (Alemanha) quando resolveu seguir para o Brasil, obtendo passaporte do governo prussiano a 11 de novembro de 1846.
 
Da capital baiana dirigiu-se a Ilhéus, fixando a sua residência nesse município, adquirindo aí, por comprar, de um colono suíço, uma propriedade agrícola, a Fazenda Vitória, à margem do Rio Cachoeira, pouco acima do arraial do Banco.
 
Desenvolveu a sus propriedade agrícola, construiu um grande solar avarandado, confortável e de atraente aspecto.
 
Casou-se mais tarde com uma ilheensse, d. Amélia de Sá Bithencourt e Câmara, filha de Egydio Luiz de Sá Bithencourt e Câmara, fidalgo, proprietário da Fazenda Esperança, à margem do Rio Itaípe, cavalheiro condecorado com a medalha da Restauração da Baia pele Independência, e tenente-coronel, chefe dp Batalhão de Guardas Nacionais do município da Vila de S. Jorge dos Ilhéus, e de sua esposa D. Ritta Constança de Sá Bithencourt e Câmara.
 
Após o seu consórcio no Brasil, recebeu o título de Barão.
Von Steiger era dotado de viva inteligência, instruído e conhecedor de várias línguas, falando corretamente o alemão, inglês, francês e português. Fez de sua aprazível morada em Ilhéus, um centro de civilização. Todas as notabilidades estrangeiras que visitavam o antigo município do sul baiano encontravam carinhosa acolhida na Fazenda Vitória.
 
O príncipe Maximiliano, Arquiduque d’Áustria, depois imperador do México, foi seu hóspede, com toda sua ilustre comitiva, e janeiro de 1860. Com o Barão Von Steiger e o germânico Henrique Berbert, o arquiduque conheceu o interior de Ilhéus, fazendo estudos de botânica e, ao mesmo tempo, caçando e pescando.
Assim teve o nobre austríaco a ocasião de penetrar nas matas virgens do nosso litoral, passando mesmo alguns dias em um rancho improvisado, que se levantou em meio da exuberante flora tropical da região.
 
Em um dos volumes de sua obra, com o título Matto Virgem, publicada em alemão, descreve minuciosamente a excursão, tendo especial referência a Von Steiger e Henrique Berbert.
 
Outras obras, publicadas na Suíça e na Alemanha, por vários escritores e cientistas, que visitaram Ilhéus, aludem a Fazenda Vitória e ao seu ilustre proprietário, Heinrich Wahra, médico e naturalista, em sua notável obra, Botanische Ergeniasse, publicada em 1960, faz referências, na introdução da mesma, ao fidalgo suíço Von Steiger e o arquiduque D’Áustria, cuja comitiva fazia parte.
 
O Barão Von Steiger exerceu influência predominantes no meio em que se habitou a viver, instalado em uma magnífica propriedade agrícola, naquelas terras dadivosas. Vinculou-se ao solo ilheenses, fez relações e tonou-se um grande amigo dos agricultores, que encontravam nele um conselheiro amável. Era generoso e querido. As portas de sua residência estavam sempre franqueadas à gente simples e bôa de Ilhéus, bem como aos homens de cultura e de alta linhagem que aportavam à Vila, que havia de ser, mas tarde, um dos principais núcleos de civilização e de progresso em nossa terra. Deixou Ferdinand Von Steiger a seguinte prole:
 
1 – Fernando Steiger Junior – nascido em 10 de 1854. Foi educado na Suíça. Falava alemão, francês e português. Casou-se neste páis com sua prima Martha, moça de fina educação e virtudes.
 
Regressando a Ilhéus, instalou-se nas matas das Alegrias e, dentro de pouco temo, fundou uma propriedade modelo, plantando cacau e cereais. Vizinha da Fazenda Paraíso de meu pai, Ramiro Castro, de quem fora sempre amigo, prosperou e ainda hoje, é uma das mais bem organizadas do Município de Ilhéus.
 
Faleceu em 28 de Junho de 1823, sendo sepultado ao lado de seu pai, no Cemitério os Estrangeiros, no CAMPO Santo, da capital baiana. Sua viúva, anos depois, contraiu novas núpcias com um alemão ar. Hermano Lussenhop, de instrução inferior e sem descortino comercial.
 
Com o falecimento de D. Martha, em 11 de novembro de 1939, o ar. Hermano Lussenhop terminado o inventário, vendeu a tradicional fazenda e prédios na cidade de Ilhéus retirando-se para o estrangeiro afim de gozar de uma herança que lhe veio como uma dádiva dos céus.
 
2 – Cherabino Steiger – Nascido em 20 de julho de 1854. Era engenheiro civil, trabalhando muito tempo como técnico da Estrada de Ferro Central do Brasil, onde deixou uma magnífica tradição. Morreu solteiro.
 
3 – Aberto Steiger – nascido em 6 de dezembro de 1858. Era agricultor. Morreu solteiro.
 
4 – Libuça Streiger – nascida em 23 de junho de 1859. Viúva do comerciante João Adami. Não deixou descendentes.
 
5 – Constansa Steiger – nascida em 10 de dezembro de 1860. É viúva do funcionário público Luis Magalhães Castro Junior, que deixou diversos filhos.
 
6 – Júlia Steiger – nascida em 3 de agosto de 1862. É viúva do agricultor UIysses de Sá Bithencourt e Câmara.
 
7- Eugênia Steiger – nascida em 13 de maio de 1864. É viúva de Hermano Braem, que foi gerente da firma C. F. Keller & Cia, e depois sócio de Braem, Wildeberger % Cia, de 1900 a 1902.
Faleceu na Suíça, onde fora a passeio em 1 de janeiro de 1903.
 
8 – Maximiliano Steiger – nascido em 23 de junho de 1866.
Pretendia o Barão Von Steiger ir ao México, devendo ser, aí, batizado pelo imperador Maximiliano I , e jovem a quem dera o nome do seu grande amigo. Não realizou o seu intento por ter em dezembro daquele ano, falecido o pequeno Maximiliano, vítima de meningite, o último dos seus descendentes diretos.
 
Sua esposa d. Amélia de Sá Bithencourt e Câmara Steiger, nascida em 4 de março de 1834, faleceu em Ilhéus em 1889, precisamente a 10 de março, foi sepultada no interior da Igreja do Rio Santana, construída pelos padres do Colégio São Antão de Lisboa, em 1573, onde tinham também os padres do mesmo colégio uma excelente casa e uma próspera fazenda com 300 escravos.
 
Sete anos após, a 13 de maio de 1887, falecia na baia o Barão Ferdinand Von Steiger, tendo sido sepultado no cemitério dos Estrangeiros, onde lhe foi soerguido um mausoléu pelos filhos.”
 
Sobre o autor do texto – Ramiro Berbert de Castro era Médico, Odontólogo, Advogado, Agricultor e Pecuarista e deputado estadual. Nasceu em Ilhéus em 06 de Junho de 1894. Faleceu em 24 de Outubro de 1966. Era filho de Ramiro Ildefonso de Araújo Castro e Libuça Berbert de Castro. Foi casado com Elvira Augusta de Carvalho Brito e Castro.

Em Ilhéus, as localidades de Pontal, Rio do Braço, Banco da Vitória e Salobrinho tem histórias para contar.

DSC_0017.JPGSegundo o IBGE, 72 bairros, distritos e localidades compõem o município de Ilhéus (BA). No ano de 2016, segundo essa mesma fonte, a população da cidade era de 178.210 habitantes.

Quando o assunto é história a cidade de Ilhéus tem vastos e precisos documentos e livros que relatam sua trajetória desde o ano de 1535, quando se iniciou a ocupação da capitania de São Jorge dos Ilhéus, até os dias atuais.

Contudo, as histórias dos bairros ilheenses são poucas conhecidas ou raramente relatadas. Isso quando, oficialmente.

Além da sede do munícipio, temos relatos históricos genéricos descritos por João da Silva Campos no livro Crônicas da Capitania de São Jorge dos Ilhéus (1936), das ocupações das localidades de Olivença, Outeiro de São Sebastião, São João da Barra do Pontal, Rio do Engenho, margens do Rio Cachoeira, Lagoa Encantada e região das antigas sesmarias da Esperança, Victória e do Iguape.

José Nazal Soub faz no livro, Minha Ilhéus (2005), um excelente resgate histórico da cidade. Principalmente pelos registros fotográficos e documentais.

Maria Luiza Heine, em Ilhéus, uma cidade 50 anos depois, faz uma excelente descrição prosaica do município.

Afora isso, das 72 localidades, distritos e bairros de Ilhéus apenas três tem livros descrevendo suas trajetórias e histórias. O primeiro bairro ilheense que teve sua história contada foi o Pontal, no primoroso livro Pontal Ontem e Hoje, de José Rezende Mendonça. Temos também o livro Rio do Braço, de Osman Matos, o livro Salobrinho: Encanto e Desencanto de um Povoado de Sherney Pereira. e, ultimamente, o bairro de Banco da Vitória teve sua história descrita no livro Banco da Vitória – A História Esquecida, de Roberto Carlos Rodrigues (2015).

Vemos então pelo exposto, que a cidade de Ilhéus está em grande débito para com as histórias dos seus bairros, distritos e localidades.

Localidades seculares de Ilhéus como Olivença, Iguape, Lagoa Encantada, Maria Jape, Inema, Cururupe não tem descritivos históricos. A mesma situação se ver com as localidades mais novas como os bairros do Malhado, Teotônio Vilela, Nossa Senhora da Vitória, Salobrinho etc.

Se a prefeitura de Ilhéus quisesse, bem que poderia publicar um livro com o título História dos Bairros de Ilhéus. Por certo, o departamento de História da UESC e diversos renomados historiadores ilheenses poderiam contribuir e coordenar os trabalhos, bem como a publicação de uma excelente obra.

Mas como preservação histórica parece não ser hábito governamental de Ilhéus, não podemos esperançar nessa proposta. A outra opção é a busca da iniciativa privada para alimentar o sonho dessa obra.

Por enquanto, em Ilhéus, apenas os nativos do Pontal, Rio do Braço e Banco da Vitória podem apresentar suas histórias descritas em livros.

Os demais bairros de Ilhéus orbitam apenas no imaginário da história dessa cidade sul baiana.

A cidade de Ilhéus precisa rever essa situação e colocar as histórias dos seus bairros, distritos e localidades no bojo da sua bela e deslumbrante história.

Como Chegar em Banco da Vitória

banco logoComo Chegar em Banco da Vitória – Ilhéus – Bahia.

No município de Ilhéus, o bairro de Banco da Vitória se situa entre o rio Cachoeira e os três montes ao noroeste (Alto Santa Clara, Alto da Bela Vista e Alto da Mata da Rinha, (onde se encontra a Invasão do Iraque). Todos esses montes têm coberturas remanescentes da Mata Atlântica e fazem divisa com a Reserva Florestal da Mata da Esperança.

O acesso convencional ao Banco da Vitória ocorre pela Rodovia Jorge Amado (BA 415) que interliga as cidades de Ilhéus e Itabuna e corta esse bairro de Ilhéus. A localidade de Banco da Vitória dista 6 quilômetros de Ilhéus e 19 quilômetros de Itabuna.

De veículo, saindo do centro de Ilhéus, gasta-se em média 15 minutos para chegar ao Banco da Vitória. Diversas linhas de ônibus passam pelo Banco da Vitória, inclusive o ônibus municipal de Ilhéus que tem como ponto final o bairro de Salobrinho.

O Banco da Vitória fica localizado a 8 quilômetros do bairro de Salobrinho, onde está instalada a UESC (Universidade Estadual de  Santa Cruz) e a 16 quilômetros da sede nacional da CEPLAC –  (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira).

Ao Leste a localidade faz divisa com o bairro Teotônio Villela e ao oeste com o distrito de Vila Cachoeira. Ao Norte a divisa é com o bairro do Iguape e ao Sul, com o rio Cachoeira.

Pode-se também chegar ao Banco da Vitória navegando pelo Rio Cachoeira. O percurso é o seguinte: adentrando a foz da baía do Pontal (Coroa Grande, formada pelos encontros dos rios Itacanoeira, Cachoeira e Santana) em Ilhéus, as embarcações pequenas podem seguir a ‘entrada do meio’ e chegar ao Rio Cachoeira. Navegando o rio a cima, passa-se pela antiga localidade chamada Golmeira (atual bairro Teotônio Villela). Um pouco acima atravessa a Fazenda Porto Novo e por fim se chega ao Banco da Vitória. A partir deste ponto o Rio Cachoeira não é mais navegável.

Saindo de Banco da Vitória tem ainda diversas estradas rurais. Uma inicia na ponte sobre o Rio Cachoeira (atrás do Convento das Freiras) e passa pelo povoado de Maria Jape, onde se tem uma derivação para o Rio do Engenho e a Alta Demanda (fazendas da região do distrito de Cachoeira).

Outra estrada se inicia no final da Rua São Pedro e ruma para a Fazenda Victória. Antes desta propriedade, logo após o cemitério da comunidade, tem um desvio a direita, rumando para o alto da Santa Clara. Aí, essa derivação encontra com outra estrada que se inicia no alto da Bela Vista. A partir desse ponto, uma estrada alcança a Represa do Iguape e depois a Rodovia Ilhéus Uruçuca.

Por último, outra estrada se inicia na Rua da Represa, no meio sopé do Alto da Bela Vista, circunda parte do Alto do Iraque e alcança a Mata da Rinha e depois a Mata da Esperança.

Saindo de Banco da Vitória em direção a Ilhéus se encontra a famosa Bica da Água Boa, local preferido pelo escritor Jorge Amado para apreciar o Rio Cachoeira. Mas a frente é possível conhecer a centenária Fazenda Porto Novo, onde se faz turismo ecológico e se conhece plantações de cacau orgânico.

Em Banco da Vitória é possível saborear diversas iguarias da culinária regional como as saborosas moquecas de peixes e camarões e pitus aferventados. Há também na localidade diversas churrascarias e vários bares. Além disto, vendem-se ao longo da rodovia frutas regionais e principalmente os famosos cocos gelados. Encontram-se também nessa localidade diversas casas de artesanatos e produtos naturais.

Em Banco da Vitória, comi pontos de visitações recomenda-se a visitação a Bica da Água Boa, o antigo porto do Jenipapo, a Pedra de Guerra, o cruzeiro da Rua Dois de Julho, a ponte sobre o Rio Cachoeira, A ladeira do Alto da Santa Clara (Descansa Caixão), a histórica Fazenda Victória, o Convento das Freiras, a Creche, os seminários católicos, a escola Daniel Rebouças, a Fazenda Pirataquisé e a Fazenda Aliança.

Pode-se também entrar na localidade e conhecer a Rua Aldair, bem como conhecer a casa onde o jogador da Seleção Brasileira de Futebol nasceu. Na Praça Guilherme Xavier tem a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e o famoso Clube Social. Pode também conhecer o campo de futebol da localidade, A Rua dos Artistas, Rua Dois de Julho e o Grupo Escolar Herval Soledade. Atrás deste, se localiza o Campo do Pacaembu.