A Morta-viva do Rio Cachoeira

enterro-2Por Roberto Carlos Rodrigues

Parece fácil a vida de um cronista que resolve reviver a memória do seu povo e de sua aldeia. Mas não é. Muitas vezes os fatos acontecem e as pessoas simplesmente esquecem ou fingem quem não sabem dos ocorridos. A estória que vou descrever agora aconteceu em Banco da Vitória, no início da década de sessenta do século passado e, graças a Deus, muita gente ainda está vivinha da silva para comprovar que não minto, ou que é fruto da minha imaginação. Naqueles dias, em Banco da Vitória uma mulher dada como morta, reviveu em pleno ato fúnebre.

Foi exatamente em um domingo de Feira em Banco da Vitória que chegou a notícia da morte de Dona Maria D’ajuda, mulher de um trabalhador da fazenda Porto Novo e moradora da localidade chamada O Beco.

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Morrer, Falecer ou Se Fuder, em Banco da Vitória

Por Roberto Carlos Rodrigues.

covaQuem nunca matou a sede na Bica da Água Boa ou a fome, comendo uma jaca mole da casca verde, colhida na Fazenda Victória, em Banco da Vitória, talvez estranhe o linguajar próprio desse povo que habita as barrancas do Rio Cachoeira, onde todos os dias as marés atlânticas fazem dengos nesta gente parda.

Em Banco da Vitória o dicionário Aurélio, instrutor mor da Língua Portuguesa, tem grande autoridade. Porém, parece que a gramática de Bechara tem pouca serventia nos diálogos dessa gente. Isso se justifica, pois, dependendo da construção da frase, um pingo vira letra mesmo. Uma simples vírgula, dependendo do tamanho da respiração do leitor, pode significar um silêncio sideral ou até mesmo um prenúncio de uma tragédia.

Exemplo claro disso é como a morte é tratada em nossa comunidade. Morrer, como bem sabemos, é ato imutável e igualitário. Porém, em Banco da Vitória, dependendo do tipo do defunto, sua classe social, parentesco com quem chora, ele pode morrer, falecer ou se fuder.

Se o morto foi uma pessoa comum, dessas que acorda todos os dias, vai trabalhar, mantém sua família com o suor do corpo e não perturba a vizinhança, logo se diz: Fulano de Tal morreu. Descanse em paz. Este vai ser enterrado no meio do cemitério da localidade.

Se a morta foi a mãe de um, avó de outro, a tia de alguém, madrinha de duas dúzias de barrigudinhos, essa, mesmo morta, não receberá essa alcunha. Normalmente se diz: Mainha faleceu. Vovó desencarnou. Minha madrinha foi chamada pelo Senhor. Vai com Deus. Normalmente essa figura é sepultada na parte de baixo do cemitério.

Agora se o morto foi um bebum irritante, arruaceiro e velhaco, preguiçoso, arrumador de confusão e mentiroso, logo este não morre de morte morrida em Banco da Vitória. Mesmo morto, ninguém diz que ele morreu ou faleceu. Mas sim: se fudeu. Quase gritam. Neste caso, o morto é enterrado na parte de cima do cemitério. Só para dar trabalho para seus poucos amigos para carrega-los no íngreme chão. Acredita o coveiro.

Ver-se então que em Banco da Vitória, os mortos podem ainda ser classificados conforme suas sepulturas. Lá, se diz, por exemplos: José de Antão foi enterrado ali. Mainha está sepultada aqui e o filho da puta do João Testinha recebeu barro na cara e está “plantado” lá no pé da cerca do sítio de Meinha.

Em suma: em Banco da Vitória morrer é para os comuns. Falecer é para os mais amados e se fuder é para quem não prestava.

Que Deus perdoe todos que pensam assim.

Afinal, sabemos que no mundo inteiro os pobres descem as sepulturas em caixões de defuntos. Os ricos vão revestidos em seus reluzentes ataúdes. Já os filhos da puta vão em Camisas de Onze Varas.

Indiferentes dos tamanhos das saudades dos mortos, uns serão eternos, outros logo esquecidos. Mas na verdade, em Banco da Vitória, ninguém morre. Uns descansam, outros partem sem voltas, mas ninguém vai para os quintos dos infernos. Acreditam os vivos.