A Morta-viva do Rio Cachoeira

enterro-2Por Roberto Carlos Rodrigues

Parece fácil a vida de um cronista que resolve reviver a memória do seu povo e de sua aldeia. Mas não é. Muitas vezes os fatos acontecem e as pessoas simplesmente esquecem ou fingem quem não sabem dos ocorridos. A estória que vou descrever agora aconteceu em Banco da Vitória, no início da década de sessenta do século passado e, graças a Deus, muita gente ainda está vivinha da silva para comprovar que não minto, ou que é fruto da minha imaginação. Naqueles dias, em Banco da Vitória uma mulher dada como morta, reviveu em pleno ato fúnebre.

Foi exatamente em um domingo de Feira em Banco da Vitória que chegou a notícia da morte de Dona Maria D’ajuda, mulher de um trabalhador da fazenda Porto Novo e moradora da localidade chamada O Beco.

O Beco ficava nas margens do rio Cachoeira, em terras da fazenda Porto Novo. Era um arruado com poucas casas que serviam de moradias para as famílias dos trabalhadores dessa fazenda. Não havia mais de duas dezenas de casas na localidade. Havia ali um grande armazém de cacau e diversas barcaças, Além de um campo de futebol, uma bodega e um pequeno porto fluvial.

Dona Maria D’ajuda, a morta, morava ao lada da casa de Dona Maria José, essa, era mãe de Siri, excepcional jogador de futebol de Banco da Vitória e foi quem primeiro socorreu a amiga. Mas não teve jeito, a vizinha veio a óbito.

Na tarde daquele domingo e na boquinha na noite daquele dia várias canoas cheias de pessoas saíram de Banco da Vitória para o velório da mais que querida Dona Maria D’ajuda. Provavelmente mais de cinquenta pessoas da localidade foram “beber a morta” em sua residência. Entre as pessoas que se dirigiram para o velório estava o aleijadinho Tonho de Zefa Galega, famoso rezador de exéquias. Tonho era figura mais que importante em todos os velórios da região. Quando alguém morria, Tonho se apresentava na casa do defunto. Sentava ao lado do morto e rezava, sem parar a Oração dos Falecidos.

Tonho de Zefa Galega foi um dos primeiros que chegou ao velório de Dona Maria D’ajuda. Antes de iniciar suas orações, abasteceu o bucho, tomou duas xícaras de café com leite, comeu bolo de puba e uns pedaços de cocada. Depois, com suas duas muletas se dirigiu para sala, sentou-se ao lado da morta e começou sua oração, que duraria até a hora do sepultamento, no cemitério de Banco da Vitória.

O velório de Dona Maria D’ajuda seguiu como os outros. O rezador na cabeceira do morto, os bêbados contando casos na frente da casa e meia dúzia de parente choramingando nos becos da casa.

No dia seguinte, as quatro horas da tarde o caixão da defunta foi colocado no batelão, a maior canoa da fazenda, e Tonho com suas muletas foi colocado na mesma embarcação. Nesta canoa grande três homens fortes remavam e além da morta vinham o marido da falecida mais uma vizinha. Ao todo, mais de trinta canoas acompanhavam o cortejo fúnebre que subia o rio Cachoeira.

Tonho de Zefa Galega nascera com os pés atrofiados e só consegui andar amparado por suas muletas. Ele tinha, na época do ocorrido, uns sessenta e poucos anos de idade. Era um homem pequeno e magro, tinha os olhos miúdos e no rosto galego havia um pequeno bigode. Homem de poucas brincadeiras, era raro vê-lo sorrindo.

Mas voltando ao caso da morta, o cortejo fúnebre vinha tentando vencer as águas da maré de março que inundavam o rio Cachoeira dando-lhe beleza excepcional, quando o fato estranho aconteceu. Quando as embarcações cruzaram bem em frente a Bica da água Boa, se ouviu umas pancadas dentro do caixão de defunto. A princípio, acreditou-se ser barulhos dos remos batendo na canoa. Mas não era. Era a dita como morta.

A morta não estava morta e como quem acorda de um pesadelo, ela deu um forte chute na tampa do caixão e como quem procura o ar, Dona Maria D’ajuda se sentou e deu um tremendo grito. Um dos remadores da canoa com o caixão de defunto, ao ver aquela cena se assustou e se jogou na água. O outro o seguiu. O terceiro remador tentou ainda aprumar a canoa, mas de medo, não conseguiu. Pulou também na água e então a canoa virou.

O marido da morta-viva pulou para um lado, o caixão caiu para o outro. As pessoas se assustaram nas canoas que vinham acompanhando o cortejo fúnebre e várias também afundaram. A gritaria foi geral. Muitas mulheres caíram nas águas e se afogavam. Os homens, vendo as cenas horríveis de possíveis mortes coletivas, se jogaram nas águas e foram socorrê-las. O marido de Dona Maria D’ajuda, mergulhou e foi atrás da sua esposa, que não sabia nadar. A encontrou se afogando ainda dentro do caixão emborcado. Salvou-a.

Em poucos minutos água do rio Cachoeira ficou repleto de flores e velas e várias pessoas foram socorridas e levadas para as pedras da beira do rio. Homens, meninos e mulheres que sabiam nadar se jogaram na água e tentaram salvar o máximo de pessoas. Contudo, muita gente, na verdade, se jogou na água e nadou afoitos para as margens do rio com medo da morta-viva. Dois remadores da canoa que trazia a morta nadaram feitos torpedos, alcançaram a margem direita do rio Cachoeira e entraram na mata gritando feitos loucos. Quatrocentos metros de mata a dentro eles pararam debaixo de uma velha jaqueira e tentaram recuperar o fôlego.

– O que foi aquilo? O que foi aquilo meu Deus? Questionou o homem assustado e com os olhos esbugalhados.

– Eu não sei. Eu não sei. Disse o outro. – Só sei que a morta deu um grito da peste e me assustou. Pulei na água, nadei feito um louco e corri a até aqui sem olhar para trás. Nunca sentir tamanho medo na minha vida. Dona Maria D’ajuda deu um grito infernal naquele caixão de defunto. Quase me matou de susto. Tô com o coração na garganta. Disse o outro se escorando na jaqueira.

– Oh! meu Deus! Oh! meu Deus! Disse o outro medroso. A mulher não estava morta! Como pode morto se levantar e gritar, como fez Dona Maria D’ajuda?

– E eu sei lá. Respondeu o outro. – Só sei que quase morri de susto. Lá eu não volto não. A mulher reviveu. Será? Disse se agachando nas raízes da grande jaqueira.

– A canoa virou com o caixão de defunto e tudo. Disse o outro, ainda tremendo de medo. – Não sei como que aconteceu aquilo… – Oh! meu Deus! Quase gritou o homem. – O meu Deus! Disse o homem se levantando e colocando as mãos na cabeça, indagando: – E o rezador? O pobre aleijadinho que estava na canoa da defunta. Será que salvaram ele? Será que aquele condenado sabia nadar?

Do alto da jaqueira, quase do último galho se ouviu uma voz:

– Condenado é a senhora sua mãe. Eu sei nadar e sei correr também muito bem. Disse o aleijadinho, todo molhado e com as duas muletas penduradas nos galhos da jaqueira.

Os dois homens nem procuraram certificar quem falava em cima da árvore. Gritaram de medo e voltaram a correr no meio da mata. Aquele não era um dia bom. Sabiam.

Em Banco da Vitória, a fantástica fuga do rezador, o aleijadinho Tonho de Zefa Galega ficou mais famosa que a revida de Dona Maria d’ajuda. Que muitos anos depois, morreu de verdade.

No dia da revida da morta-viva ninguém morreu afogado no rio cachoeira.

Naquele trágico dia, muita gente em Banco da Vitória chegou em casa cagado e mijado. Mais isso já é uma outra história.

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Morrer, Falecer ou Se Fuder, em Banco da Vitória

Por Roberto Carlos Rodrigues.

covaQuem nunca matou a sede na Bica da Água Boa ou a fome, comendo uma jaca mole da casca verde, colhida na Fazenda Victória, em Banco da Vitória, talvez estranhe o linguajar próprio desse povo que habita as barrancas do Rio Cachoeira, onde todos os dias as marés atlânticas fazem dengos nesta gente parda.

Em Banco da Vitória o dicionário Aurélio, instrutor mor da Língua Portuguesa, tem grande autoridade. Porém, parece que a gramática de Bechara tem pouca serventia nos diálogos dessa gente. Isso se justifica, pois, dependendo da construção da frase, um pingo vira letra mesmo. Uma simples vírgula, dependendo do tamanho da respiração do leitor, pode significar um silêncio sideral ou até mesmo um prenúncio de uma tragédia.

Exemplo claro disso é como a morte é tratada em nossa comunidade. Morrer, como bem sabemos, é ato imutável e igualitário. Porém, em Banco da Vitória, dependendo do tipo do defunto, sua classe social, parentesco com quem chora, ele pode morrer, falecer ou se fuder.

Se o morto foi uma pessoa comum, dessas que acorda todos os dias, vai trabalhar, mantém sua família com o suor do corpo e não perturba a vizinhança, logo se diz: Fulano de Tal morreu. Descanse em paz. Este vai ser enterrado no meio do cemitério da localidade.

Se a morta foi a mãe de um, avó de outro, a tia de alguém, madrinha de duas dúzias de barrigudinhos, essa, mesmo morta, não receberá essa alcunha. Normalmente se diz: Mainha faleceu. Vovó desencarnou. Minha madrinha foi chamada pelo Senhor. Vai com Deus. Normalmente essa figura é sepultada na parte de baixo do cemitério.

Agora se o morto foi um bebum irritante, arruaceiro e velhaco, preguiçoso, arrumador de confusão e mentiroso, logo este não morre de morte morrida em Banco da Vitória. Mesmo morto, ninguém diz que ele morreu ou faleceu. Mas sim: se fudeu. Quase gritam. Neste caso, o morto é enterrado na parte de cima do cemitério. Só para dar trabalho para seus poucos amigos para carrega-los no íngreme chão. Acredita o coveiro.

Ver-se então que em Banco da Vitória, os mortos podem ainda ser classificados conforme suas sepulturas. Lá, se diz, por exemplos: José de Antão foi enterrado ali. Mainha está sepultada aqui e o filho da puta do João Testinha recebeu barro na cara e está “plantado” lá no pé da cerca do sítio de Meinha.

Em suma: em Banco da Vitória morrer é para os comuns. Falecer é para os mais amados e se fuder é para quem não prestava.

Que Deus perdoe todos que pensam assim.

Afinal, sabemos que no mundo inteiro os pobres descem as sepulturas em caixões de defuntos. Os ricos vão revestidos em seus reluzentes ataúdes. Já os filhos da puta vão em Camisas de Onze Varas.

Indiferentes dos tamanhos das saudades dos mortos, uns serão eternos, outros logo esquecidos. Mas na verdade, em Banco da Vitória, ninguém morre. Uns descansam, outros partem sem voltas, mas ninguém vai para os quintos dos infernos. Acreditam os vivos.