31 – O Fim das Fofoqueiras de Banco da Vitória.

Uma das coisas que o tempo, do seu jeito e modo, se encarregou de quase acabar foram as fofoqueiras. Atualmente, com o advento da Internet e das Rede Sociais as fofoqueiras quase e não tem mais o que fazer, pois quando vão contar um boato, um mexerico novo, todo mundo já sabe. Pode-se acreditar que as fofoqueiras e fofoqueiros estão com os dias contados. Todavia, antigamente, em Banco da Vitória tinha fofoqueiras respeitadas, quase profissionais nas artes das intrigas e dos boatos.

Nas barrancas molhadas pelas marés atlânticas no Rio Cachoeira havia algozes fofoqueira, – mas temidas que as feiticeiras locais. As fofoqueiras eram também classificadas como bisbilhoteiras, mexeriqueiras, intrigantes, leva-e-traz, boateiras, devassas, linguarudas, faladeiras, indiscretas e levianas.

Dizia-se no Nordeste brasileiro que o povo aumenta mas não inventa. Isso, em Banco da Vitória, nunca funcionou. As boateiras inventavam estórias descabidas e mirabolantes, mas com fortes argumentos de veracidade. Aumentavam os tons das desgraças humanas, mudavam os cenários dos fatos, acrescentavam novas personagens e massacravam seus inimigos.

Por conta de boatos e fofocas muitas moças apanhavam dos seus pais, sem merecerem nem mesmo um simples arranhão. Namorados se separavam, casais brigavam, colegas perdiam as velhas amizades, vizinhos deixavam de se falarem. Tudo isso por conta da sanha tenaz das fofoqueiras.

Antigamente, havia até o dia dos surgimentos das fofocas e boatos. Eram as segundas-feiras. Nestes dias, as fofoqueira faziam um apanhado do que tinha ocorrido no final de semana e regado de grandes criatividades, azeitavam suas fofocas e intrigas. O disse-me-disse corria solto neste dia e de vez em quando uma fofoqueira caia no tapa, recebia dois panos de facão nas costas ou até mesmo uma homérica surra. No dia seguinte a delegacia de Ilhéus estava cheia dos envolvidos nas fofocas e intrigas e até advogados eram requisitados nas acusações de falsos testemunhos, difamação e outros flexões do Direito.

Na boca da fofoqueiras locais moças virgens se tornavam mulheres damas. Homens casados e honestos viravam traidores costumazes. Donas de casa trabalhadeiras e direitas viravam preguiçosas e sujas e, de del em del muita gente via a reputação ir de água a baixo. Em Banco da Vitória, a fofoca estragou a vida de muita gente.

Alguns bêbados locais, quando já zimbrados nos efeitos etílicos elegiam as maiores fofoqueiras da localidade. Normalmente eram primeiro escolhida a fofoqueira de cada rua. Depois se classificavam as três principais fofoqueiras do então distrito de Ilhéus. Os cargos eram concorridos, mas merecedores.

Por anos de mais anos, uma senhora local recebeu o título de a maior fofoqueira de Banco da Vitória e redondezas. Mulher de poucas amizades, viveu a vida inteira fazendo intrigas e boatos. Por conta disso, foi a única defunta que foi enterrada no nosso cemitério em dois caixões. Em um caixão pequeno foi seu corpo. No outro, maior, foi sua língua. Que Deus a tenha perdoado de tantas intrigas, mexericos e boatos. Se isso não aconteceu, Satanás tem péssima companhia.

Graças a Deus, não temos em Banco da Vitória mais fofoqueiras como antigamente e as poucas pessoas que atualmente tentam viver no leva-e-traz, não fazem nem cócegas quando comparadas as antigas e temíveis fofoqueiras locais.

Em Banco da Vitória as fofoqueiras se findaram. Há quem acredite o contrário. Mas isso deve ser apenas boatos de quem não tem o que fazer.

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