O Bebê e o Garçom.

LIVRO: NÓDOAS ESCARLATES DO CACAU – ROBERTO CARLOS RODRIGUES
Prólogo escrito por Geraldo Silveira Goulart para o meu livro inédito Nódoas Escarlates  do Cacau.

Por Geraldo Silveira Goulart

No final da década de setenta do século passado fui morar no Rio de Janeiro, na Guanabara. Um choque cultural. Tudo lindo, tudo imponente, tudo diferente, moderno, brilhante. Como bom tabaréu de Ilhéus e me sentia maravilhado. Bairros diferentes e do tamanho de minha cidade, uns mais populares, outros mais chiques. Copacabana, Ipanema, Leblon… Cada um mais chique que outro. Leblon era… digamos… a Monte Carlo brasileira.

Um domingo meu irmão me falou que nós iríamos almoçar na casa de um amigo dele. – Coloque sua melhor roupa, sentenciou. Depois de uma checagem no meu visual e uma série de instruções comportamentais, nos dirigimos ao Leblon. O amigo morava na Delfim Moreira, apartamento de esquina, de cara para a praia. Muito, muito chique.

Chegamos, subimos e entramos em um apartamento imenso, lindo, palaciano. O amigo era amigo antigo, de Ilhéus. O apartamento era fruto da riqueza do cacau. Eu fiquei olhando, meio embasbacado, a sala imensa, piso de tábua corrida, sinteco que parecia um espelho, móveis de grife salpicados aqui e acolá. O lavabo era todo brilhante, espelhado, toalhas felpudas, sabonetes coloridos, papel perfumado. Quase não consegui verter minha urina plebeia naquele nobre vaso. Enquanto estava na sala, olhando a linda vista da praia do Leblon, um bebê engatinhava pela sala. – Quem é, perguntei. Era o filho do amigo de meu irmão, um neto das árvores dos frutos de ouro. Fiquei olhando, e brincando com a sortuda criança eu ia à praia no Leblon, passeava em carro importado e tinha duas babás. Guardaria na memória aquele domingo, aquele apartamento, aquele bebê.

O tempo passou, estudei, casei, trabalhei, fui morar nos Estados Unidos.

Quase duas décadas depois eu estava de volta ao Brasil, de volta a Ilhéus. Mudando de vida, mudando de ares, o bom filho a casa retornava.

A região estava em pânico e quase falida. A famigerada vassoura-de-bruxa havia chegado á região cacaueira dizimando fazendas e fortunas indiscriminadamente. Cidades definhavam, empregos desapareciam, uma legião de esfomeados se deslocava para Ilhéus e Itabuna. CRISE, na mais vil de suas definições.

Apesar disso o turismo ainda atraia gente, e outra novela da Globo havia novamente posto a cidade em destaque nacional. Abri uma pequena pousada e comecei vida nova.

Um dia meu irmão me chamou para comer uma pizza. Uma pizzaria havia inaugurado e ele havia provado e aprovado. Fomos então comer a pizza e conversar sobre a onipresente crise. Um jovem garçom muito educado nos atendia. Rápido, cortês e prestativo era o oposto dos garçons normalmente encontrados na cidade. Após servir a pizza ele perguntou a meu irmão se queria mais alguma coisa: – Mais alguma coisa, tio? Tio? TIO? Estranhando, perguntei a meu irmão. Ele olhou para mim e perguntou se eu não reconhecia o garçom. Neguei. Então ele explicou quem era.

Era ele, o bebê que eu vira engatinhar, quase duas décadas antes, naquele fantástico apartamento de frente para a praia do Leblon, Monte Carlo brasileira.

Julho 2017

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Pequena Crônica Ilheense

Por Roberto Carlos Rodrigues

CACAUEm Ilhéus, no século passado, abaixo de Deus, o cacau reinava e comandava. Nem Satanás ousava aparecer por aquelas bandas. O chocolate, com seu gosto adocicado era apenas uma mistura de suor com vaidades e mais umas gotinhas de ilusões. Bebida dos deuses, colchões dos coronéis. Incentivador de sonhos de todos os quilates. O povo marrom dos berços carnudos vivia sorrindo, como quem vive em num sonho sem fim que se sonha acordado. Tudo era belo, possível e ao alcance dos dedos. Uns eram ricos de fato. Outros, de conversas. Quem nascia em Ilhéus era, de alguma forma aparentado com os frutos de ouro. Uns eram filhos, outros irmãos, tios, netos, primos, avós. Apenas o trabalhador rural era vizinho distante. Muito distante. Riqueza por todos os cantos. Progresso pelos ares. Mansões, castelos, talheres de prata todos os dias nos almoços e nas jantas. Na cidade, fábricas e grandes lojas por todas as ruas. Empregos e oportunidades por todos os ares. Um dia, uma bruxa apareceu por aquelas plagas. A velha desgraçada, montada na sua vassoura feita de galhos secos de cacaueiros, açoitou os ares daquele lugar por toda a noite e disseminou sua peste pelos quatro cantos do território da antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus. O cacau quase morreu. Definhou nos galhos. Apodreceu no chão. Nem semente teve para manter a linhagem. Quase sumiu. O povo do lugar, sofreu mais que as roças de cacau queimadas pela peste da vassoura de bruxa. Uns morreram de desgostos, outros de raiva. Os mais fracos se mataram, os mais fortes fugiram. Ilhéus, a antiga princesinha do sul da Bahia, se contentou com posto de dona de pousada e agora vive de suas velhas lembranças e dos seus belos horizontes. O cacau que antes era quase um deus para aquele povo, agora é apenas um macumbeiro sonhador que dizem que anda fazendo milagres por aquelas bandas. De ebós e mandingas, de rezas e patuás, há quem diga que em algumas roças, um novo cacau cresce e floresce, viçoso e cheiroso, iguais seus tataravôs no início do século passado. Há quem não acredite nisso e diz que os novos frutos dos cacaueiros são adubados com novos suores, novos rostos. Só isso. Em Ilhéus, no início deste século, abaixo de Deus, o cacau não reina nem comanda. Mas ainda faz muita gente sonhar. Principalmente, os que não são filhos desta terra.

Grapiunês – O Idioma da Civilização Cacaueira.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

Não é um idioma propriamente estruturado nem tão pouco um dialeto jocoso, mas o Grapiunês pode ser considerado a Língua oficial dos antigos moradores da Região Cacaueira do Sul da Bahia. Recheada de expressões curiosas e fascinantes, com forte apelo ao sotaque nordestino, o linguajar alegre daquele povo tomou vulto mundial principalmente nas obras dos escritores Adonias Filho e Jorge Amado. Esses escritores usavam e abusavam destes termos lingüísticos nas suas estórias para descrever as falas das pessoas que habitavam aquelas plagas baianas no meio do século passado

Há fortes evidências que o linguajar grapiunês se formou a partir utilização das falas matreiras dos trabalhadores rurais que viviam nas cidades do que se conhecia no século passado como a Civilização Cacaueira. Esses trabalhadores eram retirantes em maioria expressiva oriunda dos Estados de Sergipe, Pernambuco e Alagoas. O termo Civilização Cacaueira foi criado por Adonias Filho para designar toda região do Sul da Bahia que tinha naquela época o cacau com seu produto principal de geração de riquezas.

Acredita-se que esse linguajar específico do Sul da Bahia advém das junções de expressões faladas pelos nordestinos brasileiros, remanescentes indígenas sul baianos, colonizadores estrangeiros e ex-escravos das antigas sesmarias e fazendas de cacau.  Desse bojo lingüístico surgiu o que se conhece como o Grapiunês, um linguajar cheio de sotaques regionais dentro do lindo, porém, complexo idioma português.

Facilmente se vêem citações dos neologismos grapiúnas nas prosas de Jorge Amado, Adonias Filho, Euclides Neto, Florisvaldo Mattos, Sosígenes Costa, Jorge Medauar, Ildásio Tavares, Odilon Pinto, Hélio Pólvoras, Adelino Kfoury Silveira e mais recentemente nos textos de Daniel Thame e Romualdo Lisboa.

BAIXE AQUI O ARTIGO COMPLETO E OS VERBETES DO GRAPIUNÊS (EM PDF).

Revista anuncia nova arma contra a vassoura-de-bruxa

Fonte: Revista Fator

A vassoura de bruxa, doença que tem provocado graves danos às plantações de cacau no Brasil desde 1980, pode estar com os dias contados. Isso porque o biofungicida Tricovab, desenvolvido desde 1999 pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), acaba de ser liberado pelo Ibama. O uso do produto, testado há quase oito anos por técnicos da Ceplac que monitoram cerca 475 mil hectares infestados pela praga na Bahia, já traz resultados excelentes: do total desta área 150 mil hectares já estão sendo recuperados. Apesar disso, o biofungicida precisa da aprovação do Ministério da Agricultura e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para chegar efetivamente às lavouras. As liberações, no entanto, ainda não tem prazo definido.

Para o presidente da Câmara Setorial do Cacau e secretário-executivo do Instituto Cabruca, Durval Libânio, a demora na liberação de um produto de controle biológico gera problemas sociais, econômicos e ambientais. “Além do endividamento do setor cacaueiro na Bahia, principal estado produtor, os produtores sofrem com a ausência de um sistema de produção que dê a segurança necessária para que haja investimentos na área”, afirma Libânio. Ele alerta ainda que o Tricovab é considerado um forte aliado no combate à praga, que devastou a cultura cacaueira no Brasil, fazendo uma produção que já chegou a 460 mil toneladas cair para 120 mil por safra.

A liberação final do Tricovab, segundo Libânio, trará incremento para a produção de cacau no Brasil, com impactos positivos para a conservação dos biomas da Amâzonia e da Mata Atlântica e para toda a cadeia produtiva de cacau e de chocolate.

O Tricovab- Obtido por meio da fermentação de um fungo antagônico ao fungo causador da vassoura de bruxa (Moniliophtora perniciosa), o Tricovab é natural, desenvolvido a partir de cepas do fungo Trichoderma stromaticum cultivados em arroz. Comprovadamente eficaz – com eficiência acima de 80% – o biofungicida não agride o meio ambiente e nem os trabalhadores na lavoura e deve ter um preço bem inferior aos de agrotóxicos utilizados atualmente para controle da praga. Após algumas aplicações, o Tricovab se reproduz naturalmente no ambiente, sendo por isso considerado uma técnica sustentável. Os testes consumiram oito anos de pesquisa no Sul da Bahia e, segundo Manfred Müller, diretor-técnico da Ceplac, neste periodo “as etapas necessárias para o registro foram concluídas e todas as modificações solicitadas foram realizadas”.

ADONIAS FILHO GANHA MEMORIAL EM ITAJUÍPE

Será inaugurado nesta terça-feira, 2, às 18 horas, em Itajuípe, o Memorial Adonias Filho. A criação do espaço cultural é fruto de uma iniciativa da Associação Brasileira de Apoio aos Recursos Ambientais (Abara), em parceria com o governo local, a Diretoria de Museus da Bahia, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac), Fundo de Cultura, Secretaria da Cultura do Estado e governo baiano.

Segundo os autores da iniciativa, o memorial será dedicado a preservar a história e a obra do intelectual baiano, que foi membro da Academia Brasileira de Letras e atuou como escritor, jornalista e crítico literário.

O espaço abrigará exemplares de livros escritos por Adonias Filho, títulos e homenagens feitas ao literato, além de textos acadêmicos e materiais fotográficos e audiovisuais.

Jorge Amado, 98 anos

Hoje, 10 de agosto, dia em que Jorge Amado completaria 98 anos se vivo estivesse, reproduzo uma belíssima entrevista autobiográfica, talvez a mais importante que o autor de “Mar Morto” concedeu em toda sua vida. Ocorrida em julho de 1981 ao jornalista Antônio Roberto Espinosa para o caderno Literatura Comentada da Editora Abril.

Entrevista com Jorge Amado.

Fonte: Sopa da Poesia

É PRECISO VIVER ARDENTEMENTE

LITERATURA COMENTADA – Há meio século, Jorge Amado, você lan­çou seu primeiro livro. Em setembro de 1981 comemora-se o cinqüentená­rio de O País do Carnaval. Esta entre­vista será incluída num livro dedicado especialmente a você, que será lança­do no dia 10 de agosto, exatamente o dia em que você estará completando 69 anos de idade. Nossa intenção é fa­zer uma entrevista biográfica. Mas, nu­ma entrevista de 1980, à revista france­sa Lui, você disse que não gostava de falar de si mesmo. Por quê?
JORGE AMADO
– É verdade, não gosto. Tem gente que adora fa­lar de si próprio, alguns porque não têm importância nenhuma e falam para se dar importância, e outros, que são importantes, falam porque gostam. Agora, eu não sou importan­te e não gosto de falar sobre mim; aliás, não gosto nem de ouvir falar a meu respeito: fico encabuladíssimo, fico assim sem jeito… eu não gosto, é uma maneira de ser.

LC – Portanto, é normal que o públi­co tenha uma grande curiosidade so­bre o homem Jorge Amado. Em grande parte, os leitores de Literatura Comentada são jovens que não viveram tudo isso e querem saber suas opiniões, suas versões. Insistindo: essa entrevista tem um objetivo basicamente biográfico.
JA
– Está bem, concordo. Estou às ordens. Toca o bonde!

LC – Para começar, você poderia fa­lar um pouco sobre seu pai, João Ama­do de Faria, e sobre dona Eulália Leal, a dona Lalu, sua mãe.
JA
– Eu quero falar um pouco tam­bém sobre o meu nascimento porque há uma coisa controvertida. Há notícias diferentes, erradas. Há muitíssimos anos, na Enciclopédia Larousse, da França, existe um verbete que me dá como nascido em Piranji. Pi­ranji é uma coisa que não existe mais. Deve existir outro no Brasil, porque aquele teve que mudar de no­me, passou a ser Itajuípe. Outro dia, num texto que escrevi para uma re­vista que dedicou um número a mim, a Vogue, eu disse que não nas­ci em Piranji, ao contrário, Piranji eu vi nascer. Eu assisti ao seu nasci­mento, desde as primeiras casas que foram construídas.
Em geral, me dão como nascido em Ilhéus, o que é muito compreen­sível, pois eu fui pra Ilhéus com um ano, ou, para ser exato, com um ano e cinco meses, pois fui pra lá em janeiro de 14 e nasci em agosto de 12. Mas eu nasci realmente numa fazen­da de cacau que meu pai estava montando, perto de um arraial cha­mado Ferradas, distrito do municí­pio de Itabuna. O nome da fazenda era Auricídia… hoje, o arraial cres­ceu, chegou lá, chegou até a casa on­de nasci. Aliás, faz poucos anos, eu estive lá e a população foi muito ge­nerosa comigo, muito cordial, todo mundo me esperando na rua…
Sou nascido em Ferradas, distrito de Itabuna, sou itabunense, ou seja, sou um grapiúna da região do ca­cau. Mas Ilhéus também é minha ci­dade no sentido de que é o lugar on­de eu vivi a minha infância – a in­fância, um tempo muito importante na vida da gente. E também a mi­nha adolescência, as férias. Ilhéus é uma cidade extremamente ligada à minha vida, como todo o sul da Ba­hia, toda a região do cacau. Itabuna fica a 25 quilômetros de Ilhéus. Quando estava em Ilhéus, ia pra Ita­buna sempre. Quando morreu meu irmão Jofre, nós fomos pra Itabuna porque minha mãe não quis ficar em Ilhéus. Passamos lá um ano e tanto, foi quando nasceu meu irmão Joelson, que é médico e mora em São Paulo. Dos três irmãos, o único nascido em Ilhéus é James.
Assim, eu sou, ao mesmo tempo, um menino de Itabuna e Ilhéus, co­mo o Adonias Filho, que é nascido em ltajuípe, o antigo Piranji, e cria­do em Ilhéus.

LC – Seu pai era fazendeiro, pioneiro do cacau …
JA
– Meu pai foi um homem que viera muito cedo de Sergipe, da cida­de de Estância. Viera no início do sé­culo, quando das grandes lutas en­volvendo o cacau, ele se envolveu nessas lutas, participou delas…

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