O feitiço do Rio Cachoeira

Por Roberto Carlos Rodrigues

Quem ver o rio Cachoeira, nas imediações de Banco da Vitória, quando da maré alta, acredita estar diante de um belo espelho d’água encantador e enfeitiçante. As águas marinas oxigenam o velho e sofrido rio, dando-lhe uma matiz mágica, levemente azulado, em nuances de um verdadeiro braço de mar.

Quem ver este rio escorrer esquálido e desanimado entre tantas pedras, lamaçais e tristes sobras e esgotos, desde a sua nascente, na Serra de Itararaca, no sopé do município de Itororó, até pouco acima de Banco da Vitória, ao vê-lo novamente, agora caudaloso, resplandecente e azulado, nas barranca da nossa localidade, por certo, acredita estar diante de outro rio. O Rio da Esperança.

Em Banco da Vitória as marés diárias dá ao velho e poluído Rio Cachoeira uma roupagem nova. Ali ele encontra o sabor do mar de Ilhéus e em suas águas brilhosas e festeiras, celebra sua árdua e sofrida jornada com frondosas mágicas feitas de águas encantadas.

Quem o ver passar por nossa aldeia se encanta. Ali, este rio faz isso com todo mundo. Preto ou branco, rico ou podre, famoso ou desconhecido. O escritor Jorge Amado adorava vê-lo diante da Bica da Água Boa. Recentemente o jornalista Fernando Gabeira esteve neste mesmo local e disse que ficou encantado com a bucólica paisagem. Muita gente se maravilha quando ver o nosso lindo rio resplendente serpentear matas e bambuzais.

Os mais felizes são os moradores que veem essas paisagens todos os dias. Os nativos que banham-se no belo rio cachoeira não sofrem as agruras da poluição que este rio recebe de tantas localidades. Estes, por questões genéticas, são imunes as tantas doenças e males que o nosso Rio Cachoeira trás e que magicamente o mar, em Banco da Vitória, dizima-as.

Vitoriosos e felizes são os que se banham no rio Cachoeira. Isso eu tenho certeza.

Em Banco da Vitória, o rio Cachoeira rega e fomenta todos os tipos de sonhos.

Quanto a sua poluição, eu posso afirmar: este maué um problema de todos nós. Mas, mesmo assim, procure encontrar beleza em todas as coisas. Principalmente em seus atos e seus instantes.

Se todos nós soubéssemos renovar nossas esperanças com o mesmo vigor que faz o rio cachoeira com suas águas tão poluídas, ao encontrar o mar em Banco da Vitória, por certo, teríamos um mundo muito bem melhor. E mais azul. Azul da cor do mar.

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30 – Saudades do Matadouro Municipal de Ilhéus, em Banco da Vitória.

matadouro

Segundo os Anais Ilheenses, o antigo prédio do Matadouro Municipal de Ilhéus foi inaugurado no meio dos anos cinquenta do século passado. Naquela época, quem passava pela recém inaugurada rodovia Ilhéus Itabuna (asfaltada em 1958) via naquele prédio imponente e majestoso, um possível modelo de fabriqueta de sonhos e possibilidades. Para os moradores de Banco da Vitória, a construção daquele prédio foi a segunda coisa mais importante da comunidade. Só perdia, por importância e valor social, para construção da Escola Herval Soledade, inaugurado em 1960, que por certo revolucionou toda nossa gente.

A escola Herval Soledade ficava na margem esquerda do Rio Cachoeira e o matadouro ficava na margem direita da Rodovia Ilhéus Itabuna, recuado desta, no mínimo, 15 metros.

O prédio do Matadouro Municipal de Ilhéus devia ter as dimensões de 40 metros de comprimento por 25 metros de fundos. A construção tinha alvenarias altas, (aproximadamente 1,2 metros de altura para poder sobressair as possíveis enchentes do Rio Cachoeira) e o imóvel sempre era pintado de azul e branco.

Na parte da frente do prédio, bem no centro, havia a entrada principal do matadouro. Aos lados, dez salas serviam de depósitos e escritórios das empresas que atuavam nos abates e comercialização de carnes bovinas, suínas, couros, sebos e pedras de rins dos bois. Por trás destas salas havia a área de despostas dos bois. Por trás desta ficava o abatedouro. Por trás deste ficava o curral e a área da caldeiraria, onde os couros e as vísceras dos bois abatidos eram limpos.

Na parte oriental do prédio havia o matadouro de suínos e próximo a este imóvel havia o depósito de couros bovinos e a saboaria.

No matadouro de Banco da Vitória trabalhavam mais de 100 pessoas. Isso, na lida direta dos abates, limpezas e transportes de carnes bovinas e suínas. Nos arredores do matadouro, por certo, mais outras 100 pessoas atuavam como comerciantes diretos e indiretos dessa atividade mercantil. O matadouro municipal de Ilhéus foi o maior empregador da mão de obra da nossa comunidade.

Além de atuar como matadouro bovino e suíno do município de Ilhéus por décadas, o prédio abrigava também alguns órgãos municipais, como a coletadoria de impostos municipais, o posto da vigilância sanitária e a delegacia policial do distrito ilheense. No início da década de oitenta do século passado funcionou ali também, por poucos meses e provisoriamente, uma base da polícia rodoviária estadual.

O Matadouro Municipal de Ilhéus em Banco da Vitória funcionava também como escola informal de açougueiros e empreendedores. Entre suas paredes dezenas de jovens da comunidade aprenderam a lida com os cortes de carnes, os segredos das preparações de linguiças, das carnes do sol, das dobras de peles e das vísceras e identificações de cálculos biliares.

No período que o matadouro municipal de Ilhéus funcionou em Banco da Vitória, a nossa comunidade viveu um dos seus melhores e prósperos anos.

9 – Um passo atrás da saudade

Quando eu era menino meu sonho era ser escritor. Rabiscava todo papel que via pela frente. Os lápis, em minhas mãos tinham vidas breves. Canetas se esvaziam em poucos dias. Lia jornais velhos utilizados para enrolar mercadoria compradas nas feiras. Lia a Bíblia, o Almanaque do Biotônico, Almanaque Brasil, os livros da casa da Professora Cremilda, as Revistas Manchete da casa de Roquinha e as revistas de cortes e costuras do meu tio Jair. O que tivesse letras eu lia.

Um dia, vi o saudoso Nafital escrevendo numa máquina de escrever, a famosa “datilográfica” e quase fiquei louco com aquela “máquina”. Todos os dias quando voltava da escola eu entrava na sede da administração do distrito de Banco da Vitória só para ver seu Nafital escrevendo com aquela máquina maravilhosa. Os sons das teclas e dos ferros batendo sobre a folha de papel era a melhor melodia do mundo. Drummond sabia disso.

Um dia encontrei uma máquina datilográfica na casa da Professora Cremilda, onde todos seus irmãos e irmãs treinavam para os famosos testes datilográficos exigidos para contratações de empregados e funcionários públicos. Eu auto adotado pelos Martins Santana, entrei no rol dos estudantes de datilografia e chorava quando acabava a minha vez de escrever com aquela preciosidade.

De tecla em tecla a vida realizou o meu sonho. Escrevo todos os dias e vivo basicamente do que escrevo.

Hoje recebi esta preciosidade que aparece na foto abaixo. Máquina antiga, dos anos setenta, coisa de colecionador. Funcionando perfeitamente. Vou mandar fazer a manutenção desta máquina e em breve a sinfonias das teclas ecoará pelo meu humilde lá.

Na minha vida, de tecla em tecla Deus cumpriu sua promessa. O meu sonho é sólido.

29 – A morte e a morte do Rio Cachoeira.

A jornalista Inês Calixto, provavelmente, ainda não conhece o Rio Cachoeira do Sul da Bahia. Mas, pelo que descreveu quando viu o Rio Araçuai no distrito de Turmalina, (MG), por certo, fala também do nosso moribundo rio Cachoeira. Inês descreveu na Folha de São Paulo em 25/10/2010 o seguinte:

“Os rios nascem pequenos, quase um fio de água, depois começam a correr e encontram-se com córregos e ribeirões. Então crescem. Mas, quando um rio morre, no lugar fica só o seu desenho.”

Faço do relato de Inês Calixto o testamento do nosso Rio Cachoeira que agoniza, quase morre, pouco acima de Banco da Vitória até sua nascente no sul da Serra da Itararaca, nas pandas derradeiras do município de Vitória da Conquista (BA).

A foto que ilustra este texto foi publicada no Blog Pimenta e mostra as vísceras de pedras expostas no leito do Rio Cachoeira, pouco acima da cidade de Itabuna, nos alicerces do bairro de Nova Ferradas.

Ver-se facilmente que o Rio Cachoeira apenas lagrimeja. Nem corre mais. Apenas empossa aqui, empossa ali e morre sem alarde.

Quando outubro chegar, o quase morto Rio Cachoeira ressuscitará aos sons dos trovões e inundará suas margens com mais de 300 quilômetros de extensão. Ninguém lembrará da cena da foto anexa.

Mas um rio não pode viver apenas nos períodos de enchentes. Um rio tem de correr sempre, sempre e sempre até desaguar no mar. Se um rio não corre não é rio. É apenas um lago ou lagoa. E o nosso Rio Cachoeira nem lagoa consegue ser.

Se continuar como estar em breve o nosso Rio Cachoeira se chamará Rio das Chuvas ou então Rio da Ingratidão.

– Fomos, somos e seremos ingratos com rio Cachoeira até quando?

Nas margens do Rio Cachoeira tardes mornas e água doce agora são coisas raras. Tão raras quanto a nossa irresponsabilidade no cuidar da natureza.

Pelo visto Pero Vaz de Caminha acertou apenas na sua temporalidade quando escreveu a primeira carta do Brasil. Disse Caminha sobre nossos rios: “ Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa [a terra] que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!”

O Rio Cachoeira tinha água o ano inteiro. Agora tem apenas lembranças líquidas.

Quem tiver dinheiro que compre uma passagem para a lua, pois o projeto Terra faliu. O ser humano não gosta de fazer parte da natureza.

24 – Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Contou-me essa história pouco antes de morrer. Fez isso, acredito, como intuito que eu desse letras a sua voz. Acreditou que eu pudesse dar posteridade as suas façanhas amorosas. Relatou tudo, do início ao fim, como quem descreve uma saga pessoal ou outra forma de heroísmo.

Naquela tarde de sábado, ele contou-me a sua maior conquista amorosa e como ele próprio sugeriu, se um dia eu escrevesse este texto, devia chamar-lhe Os Formosos, Majestosos e Opíparos Seios de Dona Ana da Conceição.

Como prometi para o saudoso amigo, transcrevo aqui a história de Aderval Monteiro e sua amante Dona Ana da Conceição.

Segundo o personagem principal dessas linhas, tudo começou com um olhar e um sorriso. Um olhar dele e um sorriso dela. Aderbal era funcionário público e trabalhava na coletoria de impostos do Governo da Bahia, em Banco da Vitória. Ana da Conceição era esposa do Odilon Coutinho, comprador de cacau da firma Lord & Charmann, também instalada neste distrito Ilheense.

Havia pouco tempo da vinda de Odilon e sua família para o Banco da Vitória e em poucos dias eles tornaram-se amigos de bebedeiras e pescarias no Rio Cachoeira. Aderbal era um negro solteiro e já vivido, na casa dos quarenta anos, jamais se casou e tinha fama de namorador e bom de bola. Já Odilon era um homem branco, já beirando as sessenta primaveras, dedicado ao trabalho, mas aos finais de semanas, gostava de beber até cair. Normalmente ele era levado bêbado para sua casa, onde a esposa e a filha única o recebiam em silêncio. Era um bom marido.

Foi numa dessas bebedeira de Odilon que Aderval levou o amigo bêbado para casa. Lá chegando encontrou sua esposa lavando o quintal. A filha estava na casa de uma amiga. Dona Ana da Conceição pediu que Aderval colocasse o marido numa rede estendida no quintal. Aderval arrastou o amigo até o fundo da casa e o acomodou na rede. Dona Ana da Conceição, com as roupas do corpo ainda molhadas ajudou ajeitar o marido. Foi neste instante que Aderval percebeu que os seios da esposa do seu amigo estavam quase a amostra, por trás da roupa fina, que molhada, ficara quase transparente.

Que formosura de seios. Pensou, mas não disse. Se disse, foi só com seus olhar.

Dona Ana da Conceição percebeu o olhar invasivo do homem ao seu lado e respondeu apenas com um sorriso. Quer toca-lo. Ela pensou em pergunta-lo, mas não disse. Se disse, foi só com o sorriso. Ficaram nisso.

Aderval, quase hipnotizado com os volumes e robustez daqueles belos seios e a cor amorenada das auréolas arrebitadas, quase babou pelo canto da boca. Se conteve como quem segura um soluço.

Sem ter o que falar, falou o que primeiro veio a boa úmida e disse:

– Deus sabe o que faz. Divagou.

– Concordo. Respondeu a mulher do bêbado dorminhoco, alisando os cabelos negros e molhados.

– E como sabe. Arrematou a conversa o funcionário público e disse:

O homem está entregue. Deixe-me ir.

– Muito obrigado, seu Aderval. Disse a mulher, inflando o tórax e realçando ainda mais o volume dos seus seios molhados. E concluir: fazer o quê? Ele prefere a cachaça a mim.

– Deve ser louco. Disse Aderval, já na passagem pela sala, rumo a porta de saída para a rua. Deve ser louco mesmo. Concluiu e saiu da casa se olhar para trás. Nos seus pensamentos, martelavam todos os tipos de pecados.

Naquele resto de dia e durante vários dias e várias noites a imagem dos belos seios de dona Ana da Conceição não saíram da cabeça de Aderval. Para ser sincero, ele conseguia relembrar todos os detalhes daqueles seios mais do que do rosto de sua dona. Os seios de Dona Ana da Conceição eram verdadeiramente formosos, majestosos e opíparos. Nunca vira nada igual em toda sua vida.

Assim os descreveu: os seios dela são firmes e duros, como se nunca tivesse dado de mamar para as crianças; são morenos claros feito o bronze africano e as auréolas são escuras, firmes e pontiagudas feito os canos das lanças militares. Precisaria de duas mãos para cobrir cada seio. Mesmo assim, sobrariam ainda músculos próximos aos dedos mindinhos. Se fosse lambê-los, chupá-los e suga-los prazerosamente precisaria de no mínimo vinte e sete minutos de passeios de língua e por certo terminaria com dores no queixo. Acariciá-lo já seria um verdadeira oração a vida. Vê-los nus já seria um espetáculo. Concluiu.

Os dias se passaram e dona Ana Da Conceição, toda vez que encontrava como Aderval, sorria para ele e arrumava o calorento sutiã. Essa era a senha secreta entre eles dois.

Aderval, por respeito ao amigo, tentou tirar aquela tentação da cabeça e até chegou a evitar encontros com o amigo e sua esposa por perto. Agindo assim, acreditava estava se livrando daquele pecado.

Porém, o destino tece o seu próprio bordado e por conta dos pontos sem nós, Odilon Coutinho veio a adoecer, foi acamado e de lá jamais saiu vivo. Acometido por um severo derrame cerebral, o comprador de cacau perdeu o movimento do corpo, deixou de falar e mal-mente gesticulava com uma das mãos. Padeceu tristemente.

A filha e a esposa cuidaram do homem doente. Nos primeiros dias da doença a casa estava cheia de amigos e vizinhos. Contudo, com o passar dos dias, este sumiram e aqueles rarearam. Apenas Aderval continuou visitando o seu amigo todos os dias. Durante a semana, todos os dias, após o expediente na coletoria, ele ia visitar o amigo, contar-lhe alguma novidade do mundo do cacau ou então levar algumas frutas que recebia no seu trabalho. As sábados, Aderval ia as tardes e ficava conversando com o seu amigo doente. Aos domingos, ante de ir a missa, passava na casa do doente e tecia algum comentário incentivador com homem postado na cama.

Naquele tempo, o belo sorriso de dona Ana da Conceição perdeu a luz e olhar de Aderval evitava focar em seus lindos e volumosos seios.

Um dia, o tempo deu um nó final na rede dos dias de Odilon e este faleceu numa friorenta manhã de quarta-feira. Dona Ana da Conceição se tornara viúva. E não tinha ainda trinta e sete anos de idade.

Após o enterro do amigo, Aderval foi até a casa de dona Ana da Conceição, se despediu da viúva e de sua filha e disse que não retornaria mais lá. Não tinha mais o que fazer ali. Argumentou. Ana da Conceição entendeu a situação e vestiu-se de luto por um ano inteiro. No Natal do ano seguinte, ela abandonou as vértices pretas e como que recupera a formosura, voltou a usar seus vestidos floridos e provocantemente decotados. Tornou-se a viúva mais desejada de Banco da Vitória e invejada pelas demais mulheres casadas.

Um dia, domingo de feira, ela encontrou com Aderval e disse que queria vê-lo na sua casa naquela tarde. Ele concordou e disse que não perderia aquele encontro por nada deste mundo

A tarde de domingo ia pela metade, a rua quase deserta, quando Aderval bateu a porta da casa de dona Ana da Conceição. Nas mãos uma sacola cheia de frutas. Ela abriu a porta como quem recebe uma brisa fresca do rosto e sorriu para ele e questionou:

– Quanto tempo, em? Não sentiu saudades minhas?

– Saudade é um prato que se como em silêncio. Respondeu Aderval, sentindo o perfume daquele fêmea magistral.

– Helena, onde está. Perguntou pela filha do amigo?

– Na casa da tia. Está no Pontal, por certo, numa hora dessa passeia na beira da praia de mãos dados com o noivo. Só vem terça-feira. Entre homem. Vamos para o nosso quintal.

Ele atendeu, deu-lhe a sacola com as frutas e ela então disse:

– Toma um cana pura ou uma cerveja?

– Os dois. Disse Aderval, se dirigindo para o fundo da casa. – Vou pegar. Disse a mulher. 

Sentado numa cadeira junto a um pequena mesa, ela o serviu e disse tenho algo para te mostrar. Achou que o senhor vai gostar.

Ele sorriu como resposta de sim.

No quintal tinha um formosa goiabeira. Perto da árvore um tangue cheio de água morna. Dona Ana da Conceição tirou as sandálias, soltou os cabelos e foi até o tanque e começou a se banhar. Então questionou o homem que não acreditava no que via.

– E ái seu Aderval, conte-me as novidades?

– Deus continua justo e cumpridor das suas promessas. E por certo ouve minhas preces. Respondeu.

Ela sorriu fartamente e jogou mais um balde água sobre o corpo.

O vestido fino quase desapareceu e as formas avantajadas do seu corpo moreno resplandeceram como quem recebe um facho de luz. Aderval tocou a dose de cachaça em um gole só e depois bebericou a cerveja. Teve vontade de sorriu, mas não fez isso. Preferiu apenas olhar aquela cena, que por mais sonhada ou imaginada por ele, era muito mais bela e fascinante.

Dona Ana da Conceição continuou conversado enquanto prazerosamente se banhava. Quando por fim, terminou de banhar-se ela disse:

-POr favor, seu Aderval, pega essa toalha aí para mim.

Ele levantou e foi até a rede onde a toalha estava pendura e quando virou, a mulher mais bonita que vira em toda sua vida estava completamente nua a sua frente. Sorrindo ela disse: me enxuga, homem. Não sabe enxugar uma mulher não?

Aderval sorriu e disse:

– Faz tempo que não faço isso, mas sou bom aluno.

– Quero ver se aprendeu bem? Respondeu ela sorrindo e indo até sua direção.

– Enxuga minhas costas. Ordenou. Depois minha bunda e pernas. Deixa meus seios por último.

Não era só os seios de dona Ana da Conceição que eram formosos, majestosos e Opíparos. Ela era totalmente bela e atraente. A cor morena se estendia dos calcanhares atém o crânio. As costas eram largas, a bunda avolumada e firme. As pernas, como se torneadas em madeira de lei, seguravam o corpo de mais de sessenta quilos, os pés eram finos e delicados, a barriga rígida. Os braços eram suaves e calmos e os seios… Ah, os seios. Estes eram fartos, duros e hipnotizantes, fatais para um home de coração fraco.

Só mais belo que aquele seios. Confidenciou-me. Somente o sorriso daquela mulher, naquele rosto moreno, molhado e ávido por beijos e mais beijos.

Após enxugar o corpo daquele fêmea sem igual, Dona Ana da Conceição pegou as duas mãos de Aderval e as colocou sobre seus seios e disse: ver se consegue sentir meu coração.

Ele sorriu. Nada disse. Estava realizado. Já podia morreu. Pensou.

Por certo. Ele sentia o seu próprio coração querer sair pelos punhos.

Dona Ana da Conceição o beijou prazerosamente e ele sentiu o seu cabelo molhado molhar sua camisa domingueira.

Ela puxou ele pelo braço e levou-o para seu quanto.

Sem falar uma única palavra. Se amaram feitos loucos adolescentes e só não foram felizes para sempre porque na manhã da quarta-feira seguinte um caminhão encostou em frente à casa de Dona Ana da Conceição e levou toda a mudança. Dona Ana da Conceição se mudara definitivamente de Banco da Vitória. Foi mora em Vila Velha, no Espirito Santo, onde tinha parentes e jamais voltara ao Banco da Vitória. Para Aderval, nem deu adeus.

Aderval olhou para mim e disse:

– Às vezes eu acho que nada disso aconteceu de verdade comigo, meu amigo Roberto. Acho que foi apenas um sonho louco. Uma louca ilusão minha. Aí, quando eu lembro da minha boca naqueles belos e divinos seios, das minhas mãos naquele corpo, dos aís dela no meu ouvido. Sorriu de prazer e agradeço a Deus por ter levado meus anos, mas não ter apagado minhas memórias. Graças a Ele, isso me sobrou.

E concluiu:

– Na verdade os seios de dona Ana da Conceição não são tão formosos, ajestosos e opíparos. Eles são divinos, encantadores e magnéticos.  Loucamente Magnéticos! – isso mesmo – são magnéticos atraem olhares e irradiam tentações.

Aderval, então me olhou seriamente. Bebericou mais um gole de cerveja e disse:

– Se os seios de dona Ana da Conceição eram assim tão belos e encantadores, imagine sua vulva. Sorriu prazerosamente e concluiu:

– Aquela vulva, que mais coisa linda, gostosa e embriagante. Dei-lhe tantos beijos que até agora deve estar ainda tonta. Nem nos melhores dicionários do mais requintado idioma Latim existem os melhores adjetivos para descrevê-la.

 – Aquilo não era uma vulva, uma xoxota qualquer, uma boceta carnuda. Era uma taça de vinho morno bebida numa madrugada de inverno.

– Você já bebeu vinho morno, meu filho? Perguntou-me.

Eu respondi que não.

– Só perde em sabor para a xoxota de Dona Ana da Conceição. Tenha certeza e acredite no que digo.

– E se eu te falar que a minha amada é especialista em boquete, você acredita?

Sorri como resposta de sim.

– Ele me pegou de jeito e com sua língua morna banhou-me de beijos e mais beijos. Só não sugou a minha alma pois não chupou meu crânio. O resto, valha-me Deus. Conclui Aderval sorrindo.

Foi a última vez que eu conversei como o meu amigo Aderval. Até hoje tenho saudade dos belos seios de Dona Ana da Conceição. Mesmo, sem jamais tê-los vistos.

Que Deus o tenha, Aderval.

21 – Vivendo com as Lendas.

Em poucos lugares do mundo é tão fácil andar com verdadeiras lendas vivas quanto no Banco da Vitória. Ali, caminhando pelas ruas, você encontra vultosas figuras que fazem parte da nossa fantástica história. Em cada rua, em cada passo, em cada janela, estão postadas as figuras importantes da nossa comunidade e fazendo parte da nossa história viva.

Não tem como não encontrar essas personagens vivas da nossa história por todos os cantos da nossa comunidade.

Na verdade, graça a Deus, encontramos nas ruas de Banco da Vitória lendas vivas como Bibogo, Gogó de Sola, Ivone Santos, Ivony, Iracy, Dona Loura, Jailton Ramos, Dona Helena, Rosival Calazans (Nem), Dona Mira, Nelson Vitório (Orelha de Nico), Osmário (Seu Tum), Valter Ramos, Veinho, Zé Ivonildo, Coió, Railda Ribeiro, Maria das Graças Menezes, Zé Orlando, Pedro Filho, Jerusa Cardoso, Juracy Martins, Cremilda Santana, Crew, Creuza Santana, Dona Lia Araújo, Jair Rodrigues, Bigu, Ana Palmira, Gerolino, Mário Lapa, Kika Melo, Onésio, Jarinho, Dico, Beré, Dinne Meneses, Dona Geovânia, Carlos Oliveira, Rodrigo Matarazzo, Marilda, Nerilda Pereira, Enéas, Tonho de Miguel Farias, Ratinho, Célia, Formiga, Edna Cabeleireira, Carlos Oliveira, Marinalva Soares, Manuala Oliveira, Catarí Borges, Loulinha, Biinha, Seu Roque, Tânia Araújo, Teca, Nete Cardoso, José Reis, Luis Delegado, Bujão, Veio, Renato da Peixaria, Luciana Alves, Bego, Patrícia Regina, César, Álvaro Pereira, Marilene e Pedro, Chico, Dupó, Tonho, Paulo, Carmé, Julinho, Lito, João Marreco, Cabeludo, Lourival Pitu, Carlos Cambal, Dona Nilza, Cassé, Clodualdo, Meire, Zé Sucena, professora Apolônia, Jonga, Zé Trator, Marlito, Zabelê, Carlinhos de Nilza, Nado de Gaguinho, Roberto de Dolores, Liminha, Jovaly, Rael, Dui, Índio Pato Mole, Galo, Antônio Francisco e tantos outros.

Talvez você não perceba, mas por certo, está cercado de verdadeiras lendas vivas da nossa comunidade. Por conta disso, a nossa estória acontece sob sua retina.

Ao encontrar um desses personagens por nossas ruas, abrace-o, beije-o, valorize-o. Afinal, você também faz parte desta vitoriosa história.

Em Banco da Vitória vivemos e convivemos com nossas lendas vivas. No mundo inteiro, isso é privilégio de poucos lugares.

 

18 – Paulo Coragem – A voz de Banco da Vitória.

Paulo Sérgio Pereira de Souza é conhecido em Banco da Vitória como Paulo Coragem. Mas poderia muito bem se chamar Paulo Violão ou, mais ao seu agrado, Paulinho do Rio Cachoeira. Paulo Coragem parece que nasceu tocando violão e cantando as belezas da nossas matas e principalmente do nosso rio. Só consigo lembrar do meu grande amigo Paulo da seguinte forma: ele com seu violão e o seu violão com ele.

Paulo é filho de ícones e verdadeiras lendas de Banco da Vitória. Seu pai era Nafital Souza e sua mãe, a bem-amada, professora Gláucia Pereira. Dessa alquimia cultural, ele nasceu (ou melhor estreou) em 3 de dezembro de 1962. A quem diga que Paulinho puxou aos Souza na arte de tocar violão e aos Pereiras na arte de cantar.

Paulo Souza é um espetacular músico, brilhante compositor e magistral cantor. Com sua voz aveludada, calma e melodiosamente envolvente, ele canta como quem conversa com as matas, resenha com a flora e murmura com as águas.

Sua poesia é provinciana, terral, intimista e contemplativa. É o poeta de Banco da Vitória.
Como quem faz um louvor à vida, as músicas de Paulo Coragem não só cantam as belezas da nossa aldeia e do nosso rio Cachoeira como também servem de alerta ecológico, um grito de socorro em prol do nosso planeta. Dessa forma, Paulinho não apenas canta, mas também encanta e nos conscientiza da importância da preservação da natureza e do planeta Terra.

Os Souza e Pereira tem orgulho do seu irmão artista, querido, altamente bondoso e do ser humano mais que especial.

O Banco da Vitória tem prazer de dizer que Paulo Coragem nasceu e vive no seu coração. Ele é a verdadeira voz da nossa comunidade e as suas melodias são nossas canções de ninar gente grande.

Se eu fosse você, ao encontrar Paulo Coragem por aí, daria-lhe um forte abraço. Afinal, não é todo lugar que tem uma “voz” que anda, canta e encanta. Paulo Coragem faz isso com tanta naturalidade que a sua voz, muitas vezes, se confundem com os sussurros dos ventos que abanam o nosso povo e embalam os nossos sonhos.

Paulo Coragem tem nome de cantor. Faz jus a sua estirpe. O Banco da Vitória orgulha-se deste artista completo e sereno.

 

17 – Zé Lavigne e Dona Alice – Edificadores de Banco da Vitória.

As minhas lembranças iniciais do casal Zé Lavigne(Lavino) e Dona Alice são do meado da década de setenta. Naquela época eu tinha pouco mais de dez anos de idade e o casal em voga já eram senhores de idades avançadas.

Lembro-me muito bem do velho seu Zé Lavigne, homem pequenino, enorme barba grisalha, sempre usando um facão embainado, preso à cintura, botas Sete Léguas nos pés, vestido de calça e camisa comprida, uma espingarda pendurada nas costas e, principalmente, do seu cheiro de cacau. Sempre, sempre mesmo, ele pitava um cigarro pacaya e adorava dar borrifadas de fumaça nos rostos das pessoas.

Zé Lavigne era o único morador de Banco da Vitória que tinha um sítio dentro da localidade. Esse sítio compreendia uma parte da rua dos Artistas, fundos da atual Rua Aldair, até a beira do rio Cachoeira e, no outro extremo um pedaço delimitava com a atual Rodovia Jorge Amado e o posto de combustíveis.

A entrada principal do sítio ficava ao lado da casa do casal que se localizava na esquina da Rua dos Artistas com a Rua Aldair (atual casa da professora Cremilda). Neste imóvel, além da casa de moradia, havia uma garagem (onde ficava o famoso automóvel conhecido como Jipe Rompedor), um depósito de cacau e uma grande barcaça para secar os frutos de ouro.

Nessa casa, seu Zé Lavigne e dona Alice moravam com os seus quatro filhos (Aparecida, Georgina, Zé Buscapé e Tonho). O sítio que se estendia até a beira do rio era repleto de cacauais e dezenas de pés de frutas. Ali a criançada de Banco da Vitória podia comer jacas, abius, carambolas, cerejas, jenipapos, goiabas, araçás, jabuticabas, groselhas, jamelões, jambos e principalmente as açucaradas canas.

Na parte mais extrema do sítio corria um riacho que desaguava no rio cachoeira bem em frente ao atual final da Rua Aldair. Perto deste riacho havia uma excelente fonte de água doce que abastecia dezenas de famílias de Banco da Vitória.

Lembro-me do ser rústico, homem sério, trabalhador e principalmente prestativo que era seu Zé Lavigne e, da candura, amabilidade e paciência de dona Alice, principalmente com as crianças.

Dona Alice, uma mãe de todo mundo. Mulher amante de flores e plantas. Costureira de mão cheia e católica fervorosa. Voz mansa, gestos comedidos, um ser exemplar.

Naquela época, quem queria conhecer uma mini fazenda de cacau só precisava entrar no sítio de seu Zé Lavigne. Ali tinha tudo que uma grande fazenda de cacau possuía. Das árvores aos cochos, da barcaça ao armazém.

Um dos dias mais alegres da comunidade na época era quando seu zé Lavigne ia vender o cacau seco em Ilhéus. Ele colocava quase vinte sacas de cacau no seu jipe, amarrava tudo e ia para a Princesinha do Sul. Quem via o carro com aquela quantidade de sacas de cacau amarradas a lataria acreditava que o veículo tombaria na primeira curva. Mas isso jamais aconteceu. Seu Zé Lavigne dirigia sempre devagar e com muita cautela.

Por sinal, seu jipe era um tipo de ambulância comunitária de Banco da Vitória e socorreu centenas de pessoas da localidade. Nessas ocasiões, a única coisa que não podia exigir do motorista era pressa. Coisa que ele jamais teve ao volante.

Seu Zé Lavigne e dona Alice foram moradores respeitados em Banco da Vitória e muito contribuíram para o desenvolvimento da nossa comunidade. O seu melhor amigo era Joaquim Araújo, pai de Tânia, mas ele era amigo de todo mundo.

Zé Lavigne e dona Alice repousam no solo de Banco da Vitória. Ali são eternamente amados.

 

 

15 – Os Decanos do Alto da Bela Vista.

Antigamente o Alto da Bela Vista era conhecido como Panavueiro. Na década de setenta do século passado, os padres das Caritas construíram e distribuíram casas no Alto de um dos morros da Santa Clara e trocaram o nome da localidade. O nome atual faz jus a visão que temos do lugar.

Foi nesta época que abriram a segunda ladeira e o alto da Bela Vista ficou com duas ruas. Antigamente só havia uma ladeira que seguia o rumo das casas dos padres. Onde temos a segunda ladeira, antes era apenas um caminho escorregadio entre várias casas.

No Alto da Bela Vista já moraram vários e vários ilustres conterrâneos. Contudo, por ora, vou tecer alguns comentários apenas sobre dois: Deraldo e Careca (Valdirene de Osório). Em breve farei um artigo exclusivo sobre os moradores do Alto da Bela Vista.

Deraldo era uma espécie de decano da comunidade. Altamente inteligente e instruído, Deraldo tomava a frente das discussões sociais e saia sempre em defesa da sua comunidade. Como babalorixá ele era respeitado nos cultos do candomblés.

Careca era um tipo de delegada da alegria. Onde ela chegava tudo se transformava. Ela brincava com todo mundo, dançava com todos, contagiava todos com a sua alegria e vitalidade. Para Careca não havia tempo ruim nem falta de ânimo. Sempre ela estava disposta a ajudar, contribuir, colaborar. Era uma guerreira nata.

Nas festas do antigo salão do Alto da Bela Vista a alegria só começava quando Pai Deraldo chegava, vestido com seus trajes coloridos, seus chales brilhantes e seu sorriso cativante. Deraldo gostava também de, nas tardes dos domingos, assistir as partidas de futebol no campo de Banco da Vitória. Ali ele era o torcedor mais animado do Bahia do Alto da Bela Vista (time de Zé Pote de João Ruim).

Careca era também torcedora do Bahia e assim como Deraldo era loucamente apaixonada pelo clube. Careca foi um das melhores dançarinas que já existiu em Banco da Vitória. Dançava todos os ritmos, com todos os dançarinos e até com quem não sabia dançar. Assim como na vida, ela sabia bailar.

De todos os belos e justos filhos e filhas de Osório e dona Nieta, Careca era mais especial, iluminada, alegre e envolvente. Era a filha que todos os casais queriam ter. era uma das minhas melhores amigas.

Deraldo e Careca não estão mais entre nós e repousam no nosso solo sagrado. Desde as suas partidas o Alto da Bela Vista jamais foi o mesmo. A vista continua bela e exuberante. Porém, sem Deraldo e Careca a paisagem ficou entristecida, pálida e distante.

13  – Onde termina Rua dos Artistas começa a Casa da Felicidade.

A Rua dos Artista termina na esquina da Praça Guilherme Xavier. O número é 146. Ali fica a casa de Gerolino e sua família. Gerolino Ramos de Souza, com seus 78 anos de idade, mora neste endereço há mais de 50 anos. Casado com Zilda Soares de Souza, Geró, como é carinhosamente conhecido em Banco da Vitória, encabeça sua família de dez filhos. Todos são felizes.

Geró é um tipo de decano da comunidade. Como membro da Igreja Batista ele sempre desenvolveu e participou de diversos projetos sociais e religiosos.

Amante primaz das leituras, Geró é desenvolto em diversas áreas do conhecimento humano e versa com facilidade em temas como Teologia, História, Geografia e sua grande paixão: a Filosofia.

Conversar com Geró é sempre um ato enaltecedor, elucidativo e principalmente didático. Geró, como servo de Deus, discorre sobre os assuntos cristãs com muita naturalidade e leveza. Por este motivo ele é conhecido em nossa comunidade como um crente carismático e envolvente.

No lastro da sua família está a esposa dona Zilda que, com esmero e dedicação, criou uma prole extensa. Todos muito bem educados, honestos e principalmente trabalhadores.

Em Banco da Vitória sabe-se que Gerolino e Dona Zilda sabem muito bem criar filhos e fomentar cidadãos. Recentemente o casal fez bodas de ouro e a comemoração foi digna da festiva data. Todo o Banco da Vitória se alegrou. Tínhamos motivos de sobra para isto.

Geró é mestre em marcenaria e por suas mãos já foram construídos milhares de móveis e utensílios. Na igreja Batista de Banco da Vitória, Gerolino já lapidou centenas de pessoas que aceitaram Jesus Cristo como seu redentor. Por essas atividades, Geró é também um ser realizado e feliz.

No final da Rua dos Artistas, mora uma família feliz onde os pais constroem novas lendas da nossa comunidade e seus filhos honram este legado. O Banco da Vitória é realmente um lugar de sorte. Sabe-se disso em toda comunidade. O casal Geró e Zilda comprova essa assertiva.