Gatão – O homem que enganou a pobreza.

gatão

Por Roberto Carlos Rodrigues.

O dia 21 de setembro de 2017 logo será esquecido. No próximo domingo, nem lembraremos o que almoçamos no dia que nosso amigo Gatão morreu e se despediu definitivamente de Banco da Vitoria. Edvilson Cardoso, assim como todos nós, quando da nossa partida definitiva, será lembrado por uns, – isso, por poucos dias, e com o passar dos dias, existirá apenas na lembrança de um punhado de pessoas.

Infelizmente, vivemos em tempos confusos e sem referências de amizades. Não sabemos amar nossas lendas vivas, nem muito menos as mortas. Gatão foi prova disso.

Hoje, ainda falamos da saudade que agora sentimos de Gatão. Amanhã, não saberemos, nem porque sentiremos saudade dele.

Gatão, em vida, viveu como um palhaço que levava apenas alegria sem restrições ou preconceitos. Ele nunca se queixou da sua dor, da sua vida humilde, nem jamais disse temer a morte. Viveu um dia por vez. Seus anos lhes bastaram.

Em sua franqueza existencial, Gatão brincou com suas dificuldades e transformou-as em apenas coisas imaginárias. Foi um verdadeiro mágico.

Gatão nunca quis riquezas, casas imponentes, coisas caras, crias ou qualquer tipo de bens. Apenas quis viver em um perfeito estado de poesia. Foi um poeta de poemas sem títulos. Não deixou nada escrito. Apenas a sua lembrança poderá provar sua existência.

Se amou alguém, Gatão nunca disse. Se se apaixonou, nunca demonstrou. Se tinha raiva de alguém, soube também esconder. Se teve inveja, por certo, foi apenas dos pássaros que sobrevoam os céus da nossa comunidade e por seus próprios motivos e razões, cantarolam enquanto voam.

Edvilson Cardoso viveu como um eremita urbano. Ajudando uns, ajudado por outros. Teve alguns amigos e talvez dois ou três descontentes com o seu jeito de viver. Inimigos não teve. Tenho certeza.

A sua razão de viver era alegrar as pessoas, principalmente as crianças. Destas, ele jamais se distanciou. Em verdade, ele não quis crescer e em sua mente, era apenas mais uma criança também. Foi feliz deste jeito.

Quando a vida lhe maltratou demais, ralou seus joelhos, secou suas lagrimas e feriu a sua alma, Gatão soube vencer as adversidades, criando para si um mundo prospero, porém ilusório e imaginativo. Em vez de choramingar ou reclamar dos viés do seu existir, ele vestiu-se de um personagem rico, bondoso e generoso e, como quem vive mais no palco de que na vida real, ele se vestiu deste seu heterônimo pomposo e sepultou de vez o cidadão chamado Edvilson Cardoso. Gatão ficou rico de sonhos.

Quem o via falar das suas riquezas imaginárias, podia achar que Gatão estava louco, desvariado. Mas louco ele não era nem nunca foi. Na verdade, foi muito sábio, e dentro do seu mundo imaginário, foi mais feliz do que muita gente que se acha lucida e inteligente.

Junto a Jaia, Marcelo, Fabão, Maroto , Dei, Ericarlos, Elidê, Dine, Jaqueline, Luciana, Elí, Jacy, Rita Nunes e Eu, Gatão viveu seus melhores dias. Éramos amigos inseparáveis e amávamos de forma igual e ele sempre estava no meio do nosso amor.
Mas, quem o amou mais foi sua mãe, Rosilda. Era quem o melhor o entendia.

Agora Gatão se torna saudade para algumas pessoas e lembranças eternas para outras.

O Banco da Vitoria, se tornou um lugar mais triste sem a presença da Gatão.

Apenas as crianças d’agora saberão o tamanho dessa perda.
Daqui a alguns dias Gatão será apenas saudade para alguns dos seus poucos amigos.

Talvez a sua grande lição de vida foi nos ensinar a driblar as dificuldades com imaginação e criatividade. Afinal, pelos menos, em seu castelo de sonhos ele era rico e feliz. Assim dizia.
Por certo, ele era muito mais feliz do que muitos de nós, todos escravos das nossas desmedidas ambições e tantos compromissos. Coisas, por sinal, que Gatão nunca quis tê-las.

Por certo, o milionário Gatão foi mais feliz que o cidadão Edvilson Cardoso. Ele foi sábio na louca opção. Soube driblar a vida e fez um gol no time da morte. Venceu-a de um a zero.
Do seu jeito e forma, Gatão alcançou mais facilmente a eternidade e de lá, tenho certeza, zomba de nós, – todos bobos, tolos e verdadeiramente loucos por tantas coisas que nunca nos pertencerão.

Agora a saudade de Gatão tem gosto ar. O mesmo ar que todos nos respiramos e que ninguém é dono.

O belo é saber que a morte iguala a todos seres humanos. Todos.

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A Feiticeira de Banco da Vitória.

Pfeitiçoor Roberto Carlos Rodrigues.

O mato cobriu tudo. Onde havia uma casa branca com duas janelas azuis, existe apenas tiriricas, quaranas e calumbis. No antigo terreiro onde se dançava as umbigadas e os forrós juninos, agora passeiam carrapatos, cupins e falsas cobras corais. Quem atualmente olha para o antigo alto da Santa Clara, em Banco da Vitória, e só ver mato entre alguns lances de pastos, não imagina a linda casa que havia ali. Bem no meio do morro, com a vista privilegiada daquela localidade e do rio Cachoeira ao fundo.

Nesta casa morava dona Zumira. A famosa Madame Zu. A temida feiticeira de Banco da Vitória. A Iyalorixá do terreiro da Pomba Branca.

Os feitiços, encantamentos, bruxarias, rituais macabros e simpatias de Madame Zu eram conhecidos (e principalmente temidos) em toda a região cacaueira do Sul da Bahia.

Em Banco da Vitória, todos sabiam, quem levava uma raiva, um rancor ou uma desilusão amorosa para os ouvidos de Madame Zu, não descia o morro sem uma vingança pronta e acertada.

Os rituais de Madame Zu eram irrevogáveis. Portanto, quem procurava a famosa feiticeira de Banco da Vitória sabia que não podia voltar atrás.

Se era para aleijar, os feitiços de madame Zu aleijava e depois matava aos poucos. Se era para matar, matava logo, não apenas o condenado na magia, mais seus principais familiares e suas criações. Se era para reatar amores descaminhados, as mandigas de madame Zu faziam com que homens antes arredios e insensatos se tornarem amorosos e bestas.

Pendengas de cornos, brigas de bêbados, arruaças de vizinhos não eram aceitos como motivos dos serviços de Madame Zu. O seu negócio era dar nó cego ou desatar nós que ninguém conseguia resolver.

Dessa forma, a feiticeira de Banco da Vitória era também conhecida como a última via. Afinal, o que não achava conserto nas mandigas de Madame Zu, não havia reparo na face da terra. Acreditava-se por todos aqueles cantos.

Fazendeiros do cacau, coronéis de títulos e patentes, altos funcionários públicos, intendentes, delegados, renomados advogados e médicos e principalmente as mulheres dos donos do cacau, eram fregueses assíduos de Madame Zu.

Tinha fazendeiros que não semeavam uma única semente de cacau sem antes consultar Madame Zu. Outros, na hora de comprar novas terras, consultava primeiro a feiticeira de Banco da Vitória. Sem seu aval, nada feito.

Uns, apaixonados pelas mulheres alheias, recorriam as mandigas de Madame Zu para favorecer a morte do marido da pretendida, depois apodera-se da linda viúva. Normalmente isso surtia efeitos.

Em Banco da Vitória e nos quinhentos quilômetros de raio se sabia da fama e dos poderes alquímicos de Madame Zu. Feiticeira igual não havia em toda a Bahia, quiçá no Brasil.

Contudo, havia um grande mistério que rondava a casa branca com janelas azuis que ficava no meio do Alto da Santa Clara e principalmente sobre a origem da sua proprietária.

O mistério era: de onde vinha tanto poder em uma única pessoa?

Ninguém jamais soube responder esta pergunta.

Da senhora septuagenária pouco se sabia no distrito de Banco da Vitória. Uns diziam que Zumira era nascida em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo bBaiano. Outros argumentavam que ela era oriunda de Poções, na boca do sudoeste baiano. Outros, ainda mais criativos, diziam que Madame Zu tinha nascido em Ouro Preto, em terras mineiras.

Uma coisa era certa: Zumira dos Santos Santana, a famosa Madame Zu de Banco da Vitória não era deste mundo. Era do mundo dos espíritos e dos encantamentos.

Madame Zu pouco descia o morro do Alto da Santa Clara. Malmente andava nas ruas de Banco da Vitória ou ia ao centro de Ilhéus em raras ocasiões. Isso somente ocorria quando das procissões de São Jorge, dos festejos de São Sebastião ou da festa de Nossa Senhora da Conceição. Contudo, no dia 6 de janeiro, madame Zu ajuntava sua gente e iam no meio da noite se banharem no mar de Ilhéus. Festejava na data dos Reis, seu aniversário.

Na casa branca com janelas azuis, mas de vinte pessoas cuidavam dos seus interesses e necessidades. Eram abiâs, iaôs e ebômis resignados e seguidores da velha feiticeira.

Olhos pretos e miúdos. Rosto rígido e carismático. Sorriso meio escondido, mas fascinante. Corpo franzino e firme. Pele negra feito a noite. Olhar penetrante, voz profunda, calma e séria. Assim era Madame Zu. Sempre vestida de branco com seus dois grossos colares azuis pendurados no pescoço e na mão direita o terço de nossa senhora. Não chegava a ter 50 quilos em seus um metro e sessenta e quatro de altura. Mas tinha autoridade de gigante.

Os feitiços que Madame Zu fazia não podiam ser desfeitos. Os que ela desfazia, matava seus ordenadores.

Madame Zu chegara ao Banco da Vitória no início dos anos sessenta. Trazia em mãos o comprovante de compra do terreno no meio da ladeira do alto da Santa Clara e uma mala cheia de dinheiro. Em pouco tempo ergueu sua casa branca no meio da mata e começou suas atividades de feitiçaria. Em menos de dois anos já era famosa em toda região cacaueira e tinha súditos em diversas cidades do sul da Bahia.

Madame Zu era festeira. Nos festejos de Cosme e Damião o caruru era servido para mais de duas mil pessoas. Nas festas Juninas o forró durava quase quinze dias e, no dia do seu aniversário, matava-se um boi para o churrasco.

Um dia Madame Zu adoeceu e ficou de cama por longas semanas.

Levadas aos principais médicos da região, nada foi constatado, a não ser um mal-estar que acometia a velha feiticeira. Da cama a velha feiticeira não levantou mais até aquela segunda-feira, quando pediu para ser levada para a frente da sua casa. Queria contemplar a bela paisagem às margens do rio Cachoeira. Foi atendida.

Enfrente a casa branca com duas janelas azuis, madame Zu falou apenas com Cândida Lázaro, sua principal baba kekere. Deu duas ou três ordens a ela, depois pediu um gole de água. Uma das suas iaôs foi até a cozinha para atender seu pedido. Quando a iaô voltou com a caneca de porcelana com a água, madame Zu já não estava mais no mundo destes vivos. Estava de volta ao mundo dos encantamentos. Padecera em paz.

O corpo de Madame Zu foi purificado com água corrente e incensos. A pemba branca cruzou seu corpo, na testa, na garganta e nas costas das mãos. O óleo de oliva consagrado foi derramado sobre seus pés descalços. Borrifaram essências e óleos aromáticos sobre seu corpo e por fim encomendaram seu espírito.

O velório foi restrito aos amigos e as autoridades de todos os portes e quilates da região.

Naquela noite a falecida foi apresentada no meio do terreiro. Cantos de Oxalá e Obaluaiyê, hinos de Umbanda foram ouvidos até o nascer do dia, quando as danças de Iyamoro se findaram.

No final da tarde daquela terça-feira Madame Zu foi sepultada no cemitério de Banco da Vitória. Era agosto de 1989.

Madame Zu não conheceu a outra feiticeira mais poderosa, – mil vezes mais poderosa que ela, que chegara ao sul da Bahia ainda naquele ano. Essa outra feiticeira chamava-se Moniliophtora perniciosa, mas ficou conhecida em toda aquela região como Vassoura de Bruxa.

A bruxa em si, dessa praga que quase dizimou a lavoura cacaueira do sul da Bahia, nunca botou os pés em solos grapiúnas. Por aqui esteve apenas sua vassoura e seus estragos.

Madame Zu foi facilmente destronada do cargo de maior feiticeira do sul da Bahia. Atualmente a vassoura de Bruxa continua fazendo mandigas, feitiços e ebós que ninguém consegue desfazer.

Os poderes de Madame Zu se dizimaram com o tempo e onde havia uma casa branca com duas janelas azuis, o mato cobriu tudo e só ser ver apenas tiriricas, quaranas e calumbis.

Até seus súditos se perderam no tempo.

De Madame Zu só ao mais velhos se lembram e, em Banco da Vitória quem atualmente dar as ordens nos terreiros de umbanda é uma Axopí, muito famosa, chamada Saudade.

Toinha das Flores – A Drag Queen de Banco da Vitória

drag queenPor Roberto Carlos Rodrigues.

Até 28 de março de 1987, Antônio Espíndola dos Santos era conhecido em Banco da Vitória como Toinho de Dona Filomena. Naquele ensolarado e úmido sábado, exatamente as 15 horas Toinho morreu para sempre, como ele mesmo dizia. Neste mesmo dia e horário nasceu Toinha das Flores, a primeira Drag Queen de Banco da Vitória. Tinha 19 anos de idade.

Toinho era um rapaz na flor da idade. De cútis clara, se diferenciava facilmente entre os moradores de Banco da Vitória. Era alto, de pernas e braços compridos, cabelos louros e finos, olhos azuis e nariz e lábios finos. Tinha traço dos povos nórdicos. O pai era um marinheiro norueguês, que aparecia de vez em quando no porto de Ilhéus, engravidava uma nativa e depois sumia. Sua mãe, Filomena, era morena alta a formosa, de traços caboclos e cabelos negros. Dessa junção de sangues nasceu Toinho, mais lindo que uma menina, por certo, uma menina num corpo de menino.

Toinho, ou melhor, Toinha das Flores resolveu naquele dia liberar geral, externar seu lado feminino, mostrar-se poderosa e alegre. Assumir sua sexualidade e dar um foda-se para quem tinha preconceitos e ares de homofobia.

Vestida em longo vestido florido e dançante, atada a cintura com uma fita vermelha de cetim, nos peitos (ou melhor nos seios) um sutiã amarelado à amostra, nos pés uma sandália dourada de salto alto, na cabeça um lindo chapéu primavera e nos braços um lindo buquê de flores. Eram lindos e alvos lírios do campos – dignos das divas do cinema. Rosto maquiado, nos lábios batons do vermelho mais carnal, nos olhos sombras azuladas e na boca, sorrisos e mais sorrisos.

Como um furacão que chega sem avisar Toinha das Flores, vestida de mulher estonteante, saiu da sua casa que ficava na Rua Duque de Caxias e desfilou pelas ruas de Banco da Vitória distribuindo beijos e flores para ao atônitos moradores das barrancas do Rio Cachoeira. Vestiu-se assim até morrer.

– Gente, cheguei! – Gritava no meio das ruas. Depois gargalhava gostosamente e adentrava as casas das conterrâneas e amigas, onde distribuía flores e beijos. Logo atrás de Toinha das Flores vinha o bêbado Epifânio Calunga empurrando um carro de mão cheio de flores, que abasteciam os braços da nossa personagem.

– Só estou empurrando o carro – Advertia Epifânio – Tô sendo pago pelo serviço. O xibungo é ele. Falava o bêbado eximindo de possível associação com a nossa Toinha das Flores.

– Vala-me Deus! – Disse dona Isaura, na janela da sua casa. O que aconteceu com esse menino. Será que perdeu o juízo? Argumentava perante o marido Juvenal que assistia aquela cena inusitada.

– Nossa senhora da Conceição que tenha compaixão desse ser. Disse a beata Lurdinha, filha de seu Ademar do armarinho Estrela Dalva, enquanto se benzia e beijava seu velho crucifixo.

– Eita! Tem carne nova para os papacus de Banco da Vitória. Disse sorrindo Elzo de Santinha, encostado no balcão do Bar de Xisto Gomes.

– Amores, meus amores, eu estou aqui! Cantarolava Toinha das Flores enquanto literalmente desfilava pelas ruas de Banco da Vitória.

– Novidade! Disse dona Terta, sentada na sua cadeira de balanço, na varanda da casa azulada. – Eu sempre soube que esse menino era invertido. Esse queima rosca, baitola do cão sempre foi afeminado. Os parentes que não queriam ver. Agora ele vai envergonhar a família inteira.

Indiferentes das críticas, Toinha das Flores continuou sua caminhada pelas ruas de Banco da Vitória e quando voltou a sua casa encontrou sua mãe nas mãos das amigas. Dona Filomena tomava água com açúcar para acalmar o coração.
– Mãe, disse Toinha, – aquieta seu coração, pois o meu está radiante, feliz e vibrante. Hoje eu sou o que sempre fui. Morre Toinho, nasce Toinha das Flores. Uma coisa é certa: aquele menino ali da foto na parede estava aprisionando esta moça linda aqui. Hoje eu sou o assunto mais falado neste povoado. E daí? Quem vai pagar nossas contas? Que dane-se todos! falou enquanto entrava na cozinha da casa.
Não demorou e se sentiu o cheiro de pano queimado no fundo do quintal.

– Enlouqueceu de vez. Disse a mãe choramingando. – Oh meu Deus, vão lá no quintal ver em que este menino está tocando fogo. Pediu Filomena para uma vizinha.

No fundo do quintal, perto do pé de mamão, Toinha tocava fogo nas roupas de Toinho. – Adeus cuecas, venham coloridas calcinhas. Adeus bermudas, venham saias rodadas. Adeus calças, que venham vestidos. Cantarolava Toinha enquanto nutria o fogo com as peças de roupa.

Mas nem tudo foi festa e flores nos dias seguintes de Toinha em Banco da Vitória. Primeiros se ouviram os escárnios escondidos, depois os palavrões e xingamentos públicos. Alguns moleques jogavam pedras em Toinha. Teve até quem jogasse bosta na nossa personagem. Há quem diga que Toinha foi até ameaçada de morte. Tudo isso foi pouco até o susto que ela tomara numa noite de agosto.

Numa noite, atraída pelo suposto amante, Toinha se dirigiu até o local do encontro marcado. Era noite velha, já no segundo sereno da madrugada. O local distante e silencioso. Perto da antiga pedreira da Cerâmica Vitória. Ali, local de amores escondidos e traições de casais.

Como quem andava sobre flores umedecidas, Toinha se dirigiu até o homem que a esperava envolto da nebrina. – Tira a roupa. Disse o homem no meio da escuridão. Toinha sorriu e atendeu a ordem. Tentou acariciá-lo. Mais não pode. Sentiu uma fisgada na costela esquerda. Um frio repentino por todo o corpo. A escuridão nos olhos, o silêncio eternos nos ouvidos. Já não estava mais entre nós.

Acharam o corpo de Toinha das Flores no dia seguinte. Logo cedo, uma lavadeira de nome Luiza Morão foi pegar água na bica da cerâmica Vitória e deparou com a cena macabra. Toinha das Flores morta no meio de um tapete de flores de malmequer. Uma flor pálida entre as flores amarelas.

Um grito no meio do mato. O balde d’água caído ao chão. Uma carreira trilhada pelo choro.

O povo logo acordou e foi ver Toinha morta. O Banco da Vitória entristeceu de vez. O nome Antônio Espíndola dos Santos foi descrito no atestado de óbito. O enterro comoveu todo o povo do lugar e naquele final de tarde Toinha das Flores foi sepultada sobre aplausos, choros e tristezas.

O assassino de Toinha das Flores jamais foi descoberto. Pode ser que ele ainda esteja anônimo entre nós. Somente Toinha das Flores soube quem a matou. Somente ela e as flores dos malmequer que ainda adornam as pedras da Cerâmica Vitória.

Mas Deus sabe quem fez esse terrível ato contra a alegre e estonteante Toinha das Flores e, somente Ele poderá julgar e perdoar. Como sempre, Deus agirá no seu tempo.

Toinha das Flores foi a primeira Drag Queen de Banco da Vitória. A primeira e única.

 

 

Feliz aniversário, Banco da Vitória.

feliz

Não se sabe ao certo a data da “fundação” do atual bairro de Banco da Vitória. Contudo, tendo como base as incursões nas margens do rio Cachoeira feitas pelos jesuítas portugueses no meio do século XV e registradas nas suas missivas do ano de 1554, onde se ler: “levados pelas grandes últimas marés de março, alcançamos no ano passado as barragens de pedras do rio que vem do sertão distante (rio Cachoeira) e ali fizemos um acampamento para auxiliar nossas expedições ás margens do rio e nas matas”. Carta do padre Leonardo Nunes (1554).

Como sabemos que as últimas marés do mês de março ocorrem entre os dias 21 e 31, então supõe-se que a expedição descrita pelo padre Leonardo Nunes ocorreu na última semana deste mês. Portanto, o embrião do atual bairro de Banco da Vitória foi ocupado neste período.

Então, por suposição ao descrito pelo padre Leonardo Nunes, o Banco da Vitória foi “fundado” na última semana do mês de março de 1553.

Vale frisar que o relato do padre Leonardo Nunes não descreve nenhuma fundação de localidade ou vila. Mas sim, do acampamento feito a margem esquerda do Rio Cachoeira que serviria de base operacional para a catequese na região oeste da capitania de São Jorge dos Ilhéus.

Portanto, Feliz aniversário (extra- oficial) Banco da Vitória. 464 anos!

O povoado de banco da Vitória foi instituído no ano de 1830. O Banco da Vitória foi elevado à categoria de bairro de Ilhéus em 11 de julho de 1989.

Quando o Banco da Vitória virou as costas para o Rio Cachoeira.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

livro banco da vitória - CópiaQuem passa pela comunidade de Banco da Vitória, pela Rodovia Jorge Amado, e ver as casas e comércios que atualmente adornam as duas margens dessa rodovia, acredita que o rio Cachoeira fica nos fundos da localidade. Geograficamente isso ocorre. Mas, nos primórdios da fundação dessa secular localidade sul baiana, as ruas e as casas de Banco da Vitória ficavam de frente para este rio.

O atual bairro de Banco da Vitória é uma das localidades mais antigas do Sul da Bahia e a sua ocupação ocorreu no final do século XV, quando do desbravamento inicial feito pelos portugueses na antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus.

Segundo o historiador João da Silva Campos, em Crônicas da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, a ocupação das margens do rio Cachoeira teve início na década de cinquenta dos anos quinhentistas. É desse período a abertura de uma picada a margem esquerda do rio Cachoeira que, léguas acima, iria encontrar o assentamento jesuítico da localidade das Árvores ferradas (atual bairro de Ferradas, em Itabuna).

O tosco caminho feito pelos desbravadores portugueses se iniciava na atual localidade de Banco da Vitória e ia até Ferradas. Neste ponto a Trilha do Banco se encontrava com a estrada aberta pelos jesuítas que interligava a Vila de Nossa Senhora das Escadas de Olivença (atual Olivença) à Ferradas.  

A partir dali essa estrada se chamava Caminho do Sertão, passava pela Palestina (atual Ibicaraí) alcançava o Planalto da Conquista, cortava todo o sudoeste do estado da Bahia até encontrar as terras distantes de Minas Gerais.

Segundo Silva Campos, os jesuítas e desbravadores portugueses criaram diversas localidades ao longo do Rio Cachoeira, como Tanguape, Mariape (Atual Região de Maria Jape), Banco do Furtado, (localidade próxima ao atual Banco da Vitória), Pirataquicê, Cachoeira de Itabuna etc.

Inicialmente o Banco da Vitória ficava de frente para o Rio Cachoeira e sua primeira rua se Chamava Trilha do Banco. A Trilha do Banco se iniciava nas proximidades da atual escola Herval Soledade, margeava a atual rua Dois de Julho, os fundos da Praça Guilherme Xavier e a Travessa da Rua Aldair. A partir deste ponto o caminho margeava o Rio Cachoeira.

As primeiras cabanas e depois casas de moradias foram erguidas na margem da Trilha do Banco e ficavam todas de frente para o Rio Cachoeira.  Isso perdurou até o meado do século XIX quando foi implantado o Porto do Jenipapo que ficava na atual Rua Dois de Julho (bem em frente a atual quadra de esportes). Naquela época a trilha do Banco mudou de nome e se chamava Rua do Porto.

No final do século XIX e início do século XX o Porto do Jenipapo era o maior porto fluvial do Sul da Bahia e por ele eram escoadas milhares de toneladas de cacau. Nessa época, o povoado de Banco da Vitória tinha um comércio pujante e a localidade era conhecida como a primeira capital do cacau, (segundo o geógrafo Milton Santos que em seu livro Zona do Cacau, dedicou um capítulo inteiro ao Banco da Vitória).

Quando da abertura da estrada que interliga Ilhéus à Itabuna na década de 20 do século passado, o comércio de Banco da Vitória se transferiu da margem do Rio Cachoeira para margem da nova estrada. Por fim, quando do primeiro asfaltamento dessa estrada, na década de 50 do século passado, a localidade de Banco da Vitória deu as costas definitivamente para o Rio Cachoeira e concentrou sua atenção os movimentos da rodovia.

O Rio Cachoeira que foi a artéria principal do Banco da Vitória, atualmente apenas recebe os dejetos e esgotos da localidade. O povo que era apaixonado por embarcações, hoje só tem olhos para veículos de todos os portes e cores.

Quem passa apenas por Banco da Vitória e não conhece sua história não acredita que essa simples localidade Ilheensse foi no início do século passado um dos maiores centros comerciais do estado da Bahia. Ao redor do porto do Jenipapo haviam diversos órgãos municipais e estaduais, dezenas de armazéns de cacau e diversas empresas de exportação do ouro das terras do sul da Bahia.

O Banco da Vitória deu as costas para o Rio Cachoeira e o desenvolvimento social econômico esqueceu da localidade.

Atualmente o Banco da Vitória é um bairro dormitório e seu comércio nem de longe lembra as reluzentes memórias do início do século passado.

O rio Cachoeira continua passando pelo Banco da Vitória. A história do desenvolvimento do Sul da Bahia continua passando bem distante deste povo ribeirinho.

A Enterrada Viva de Banco da Vitória

A Enterrada Viva de Banco da Vitória

Agosto sempre foi um mês perverso com o povo de Banco da Vitória. Mortes, tragédias, crimes e até assombrações aconteciam neste mês invernoso. Desde que o arruado tomou cara de povoado, como moradores fixos pelas redondezas e algumas casas comerciais espalhadas pelas ruas tortas e empoeiradas, o povo de Banco da Vitória sonhava com um ano que não tivesse o mês de agosto na sua composição.

Na época dos antigos festejos juninos o povo da localidade se alegrava e os forrós de são João e são Pedro se estendiam até o meado de julho. Contudo, quando esse mês se findava, o povo de Banco da Vitória se entristecia e guardava suas lágrimas para serem derramadas no próximo mês. Era certo que haviam mortos em agosto. Sabiam certamente.

Foi no mês de agosto que morreram carbonizados os Moreira, num incêndio cruel que consumiu a casa onde eles moravam e por conta disso cinco almas voltaram para a casa do Pai Celestial.

Foi no mês de agosto de 1958 que o louco Adonael matou em Banco da Vitória o pai e a mãe, seus três irmãos pequeninos, as duas meninas, suas sobrinhas. Adonoel também matou o gato da família e aleijou para sempre o cão Cacique. Depois foi tomar banho no rio como que nada estivesse acontecido.

Foi no mês de agosto de 1962 que um surto de gripe dizimou 23 pessoas da localidade em menos de 20 dias. Foi nessa triste ocasião que morreram dona Lela, Seu Timóteo, Aristide de Terta, Neuzinha de Lau, a jovem Cleide, filha de Luiz Antão, Soraia Antofil, filha de Antero Batista e a querida professora Carmem Miranda, entre outros.

Porém, nada se compara ao pavor que o povo de Banco da Vitória viveu no mês de agosto de 1976, quando uma tragédia abalou a localidade e durante os 31 dias daquele mês o povo sofreu atônito e calado.

Primeiro de agosto, quando tudo começou, caiu num sábado e quando o mês terminou numa terça-feira, dia trinta e um, o povo estava apavorado e certo que aquele tinha sido o pior mês de agosto de todos os tempos.

Do mês de agosto que agora relato, foi o único mês que quase não morreu ninguém em Banco da Vitória. Soube-se que desde a contagem dos tempos naquelas bandas, aquele foi o primeiro e o único mês de agosto que o cemitério da localidade engoliu apenas um único corpo humano. Isso jamais se repetiu na história de Banco da Vitória e mesmo sem tantas mortes o mês de agosto de 1976 ficou para sempre marcado como o mês da enterrada viva de Banco da Vitória.

Vamos aos fatos e relatos dessa história.

Contam os mais velhos que uma linda moça chamada Júlia morava com seus pais no início da Rua Dois de Julho. Filha amada, nascera sobre os confortos que seus pais jamais tiveram quando nasceram pobres nos tórridos sertões das Alagoas. Atraídos pelas fortunas criadas pela lavoura cacaueira, seus pais vieram para o sul da Bahia como retirantes e encontraram nas margens do Rio Cachoeira a forma exata da realização dos seus sonhos. Em Banco da Vitória, Seu Pedro Azevedo e dona Carminha encontraram o solo fértil para suas ambições e ali enriqueceram, e puderam criar seus cinco filhos e uma única menina, Júlia.

Quando nascera em janeiro de 1955, Júlia parecia um anjo de olhos verdes, iguais a duas gudes de vidro. De tão bonita, sua beleza infantil intrigava o povo local que nunca tinha visto uma criança tão bonita como aquela. Muita gente vinha até a casa comercial da família Azevedo para ver a criancinha que mais parecia um dos anjos pintados nos tetos da capela Cistina, na distante Roma, capital da Itália.

Contra o mau olhado dos agourento a criança tinha sempre duas figas de ouro penduradas nos braços gordos. No peito trazia um pequenino crucifixo que tinha sido benzido pelo bispo de Ilhéus, quando do seu batizado na lendária igreja de São Jorge, no centro da cidade secular baiana. Atrás da porta da casa havia uma ferradura pendurada num prego velho e enferrujado e, no berço da pequenina Julia, uma diminuta bíblia vivia escondida entre os alvos e quentes lençóis.

De bebê celestial, a criança linda e educada, depois, de moçoila encantadora, a jovem desejada e mulher fatal duraram 21 anos, que foi a idade que ela tinha quando morrera na noite de 30 de julho de 1976 e fora sepultada no dia seguinte, no cemitério de Banco da Vitória.

A notícia da morte repentina da bela Júlia Azevedo estremeceu toda a sociedade de Ilhéus e surpreendeu todo o povo de Banco da Vitória.

– Como pode uma jovem sadia, bela e encantadora dormir serenamente e não acordar mais? Questionava o povo de Banco da Vitória e ninguém achava respostas.

Seus pais, abalados com o triste passamento da exuberante e jovial filha, levaram o corpo da jovem para a Santa Casa de Misericórdia de Ilhéus, onde após uma manhã de exames e mais exames, os médicos constataram a sua morte.

O corpo da jovem Júlia chegou ao Banco da Vitória no início da tarde daquele sábado e ali a comunidade chorou aquele triste acontecimento.

A antes jovem e bela Júlia estava Irreconhecível no seu caixão de defunto. A pele, antes bela, clara e lisa, se escurecera e mostrava rígida, quase enrugada. Os olhos antes verdes envermelharam, e inchados, não se fecharam. Ficaram abertos como em ares de espantos. A boca, antes carnudas e desejada, também não pode ser fechada e mesmo um lenço atado ao crânio utilizado para fechá-la, parece que contribuiu para deformar seu queixo que se deslocou para o lado direito e deformou totalmente seu rosto.

– Não é Júlia dentro daquele caixão. Dizia quem a via adornada de tantas flores de várias cores e tantos perfumes.

– Não pode ser Júlia. Confirmavam suas tristes amigas. – Não pode ser ela nesse caixão.

Mas era sim Júlia que ali estava morta, feia, Irreconhecível e tristemente fria.

A Sereia de Banco da Vitória. Contos de Banco da Vitória.

sereia

Por Roberto Carlos Rodrigues.

Maré igual, aquele povo nunca tinha visto. O rio Cachoeira parecia um lençol de água prateada lambendo os matagais das suas margens. As aguas foram aumentando no meio de março e, já no final deste mês, exatamente no dia 28, a maré subiu a níveis jamais visto. As grandes marés de março eram famosas e vezeiras naquelas beiradas. Porém, igual àquela do ano de 1984, nunca teve outra igual. E foi exatamente na maré fabulosa e resplandecente deste ano que a sereia voltou a aparecer e intrigar o povo de Banco da Vitória.

Aparições da bela sereia não era novidade em Banco da Vitória até o meio do século passado. O povo deste arruado incrustado na margem esquerda do rio Cachoeira já vivia com quase cem anos de relatos de aparições de sereias nas margens do rio, principalmente nas noites de lua cheia, quando este astro facheava sua luz prateada sobre as águas claras do velho rio sul-baiano.

Canoeiros, pescadores, trapicheiros e empregados de fazendas de cacau ribeirinhas já relatavam aparições da linda mulher-peixe que aparecia nas noites de lua cheia, cantando sobre as pedras do rio, enfeitiçando os desavisados e levando para o fundo dos mares pobres homens apaixonados.

O canto da sereia – dizia os marinheiros estrangeiros que abundavam o velho centro de Ilhéus – é uma melodia divina, cantada com uma doçura sem igual, quase angelical e apaixonante. – Quem ouve o canto da sereia se joga no mar e morre afogado nos lábios de Iara. Profetizavam os trapicheiros do Porto do Jenipapo em Banco da Vitória.

Em toda a beira-mar ilheense haviam diversos relatos de pessoas que ouviram o canto da sereia e muitos dessas pessoas, ou morreram afogadas tentando tocar na bela sereia ou então ficaram por dias e mais dias, como loucas, alunadas, tân-tân das cabeças.

Nas beiradas dos rios Almada, do Engenho e principalmente no Cachoeira não faltavam relatos de homens seduzidos pela sereia. Muitos morreram nas águas e seus corpos jamais foram encontrados. Outros, depois foram encontrados nos areais como moribundos. Mas jamais foram os mesmos. Viveram como loucos até morrerem velhos. Assim como morrem os velhos lobos do mar.

Os relatos da sereia sempre eram os mesmos. Diziam que a rainha das águas aparecia sentada numa pedra, com a calda submersa e alisando seus lindos e brilhosos cabelos longos, que em parte cobriam seus seios e outra parte escorria sobre as costas e mergulhavam nas águas. Normalmente a sereia tinha um espelho em uma das suas mãos e usava uma grande concha como pente. A sua beleza era singular e encantadora. Os cabelos eram pretos e brilhosos. A pele era clara e fina. O rosto era arredondado. Neste, faiscantes olhos azuis refletiam a luz do luar. O nariz era afinado e delicadamente avermelhado. Os lábios eram carnudos, e em cores de morangos maduros, cantavam a mais bela canção do mundo. O sorriso, de um branco sem igual, parecia as espumas mais claras das ondas do alto mar. O corpo era forte a avolumado. Não se via costelas sobre sua silhueta esbelta, porém, era sexualmente atraente.

– Mulher de beleza igual não existia sobre o manto da terra. Diziam os que jurava ter visto uma sereia. – Voz mais bela, também. Argumentavam outros.

Em Banco da Vitória tinha quem jurava ter visto a sereia nas pedras do velho rio Cachoeira. Havia quem acreditava nessas aparições. Havia quem dizia que eram apenas conversas de bêbados e pescadores. Uma coisa era certa, até o dia 28 de março de 1984, a sereia de Banco da Vitória era apenas uma lenda, uma superstição ou suposição. Porém, após essa data a sereia de Banco da Vitória se tornou um fato concreto, real e vivido e, muita gente da comunidade, – e não apenas um ou outro pescador mentiroso -, pôde de fato ver uma sereia.

Sabe-se que maré monstruosa que agora relato invadiu as beiradas de Banco da Vitória na boca da noite. Nos dias anteriores, a maré já tinha avisado que estava despontando de forma anormal e espichada. Porém, foi naquela noite que as águas atlânticas invadiram os casebres da beira do rio e alagou vários brejos e riachos da região. A maré daquela noite invadiu a estrada entre Ilhéus e Itabuna, na altura da fazenda de Lilito e pela primeira vez na história contada do rio Cachoeira, ela atingiu a altura dos batentes da fazenda Pirata.

Em Banco da Vitória, aquela maré cobriu a Pedra de Guerra, alagou o campo do Pacaembu e adentrou nos brejais da Fazenda Victória.

Por certo, a sereia da nossa história subiu o caudaloso rio Cachoeira, então avolumado naquela maré grande de março e, apaixonada por nossas paisagens, se embriagou com aquelas plagas e se perdeu quando a maré vazou. A pobre sereia afoita e desesperada se alojou no riacho que escorre pelas terras do convento das freiras e ali fez sua morada por aquela noite, enquanto esperava a nova maré alta e com ela, o caminho para o mar.

Porém, a rainha das águas não contava com os latidos incessantes dos cães de guarda do convento, que percebendo aquela figura estranha nas águas do riacho, latiram a noite inteira e não deixaram as freiras dormirem.

Na manhã do dia seguinte, seu Assis Calazans, (pai de Nem, Carmem, Rosilda e Fiu), então funcionário do convento, quando chegou para trabalhar, percebeu que havia algo estranho na água do riacho e depois de averiguar o vulto nas águas percebeu que se tratava de um peixe grande que ficara preso no remanso do riacho. Seu Assis adentrou o riacho e descobriu que o vulto na água era apenas uma pele estranha de algum peixe mas estranho ainda. A pele fedia como couro de curtume, era meio esverdeada e se soltava em pequenos pedaços. Após sair do riacho, Seu Assis pensou: – Isso é pele de sereia. É melhor deixar onde está. Ele não se enganou. Aquela pele era apenas o disfarce da nossa sereia. A sereia estava viva, bem viva, por sinal, no fundo daquele riacho, bem pertinho do seu pé, quando ele ali entrou.

Quando a maré encheu no dia seguinte, o sol ardia no meio do céu e a pobre sereia não pôde sair do seu esconderijo. Teve de esperar a maré da noite para poder ir embora. Ela só não contava com um fato trágico que ocorrera naquele dia nas margens do Rio Cachoeira, em Banco da Vitória. Naquela tarde, duas pobres crianças morreram afogadas no rio, e grande parte da população do então distrito de Ilhéus foi para suas margens, acompanhar as buscas e resgates dos corpos.

Já era tardinha quando por fim a maré grande invadiu novamente o riacho do convento das freiras e a jovem sereia pôde sair do seu refúgio.

A pobre e bela princesa das águas estava tão agitada e louca para sair daquele riacho,  que nem percebeu as pessoas nas margens do rio. Saltando sobre as águas naquela boca de noite, a sereia foi vista por dezenas de pessoas que gritavam, se assustavam e assustavam o ser saltitantes sobre as águas.

– É uma sereia. É uma sereia. Gritou alguém, na Pedra de Guerra.

Não! É apenas um boto? Argumentou outrem.

É uma sereia. Afirmou veementemente Cabo Jonas. E arrematou: – É Elísia, minha amiga sereia lá das águas de São João da Barra do Pontal. É uma sereia sim. Posso afirmar. De sereias conheço tudo e mais um pouco. Concluiu.

Os corpos das duas crianças foram encontrados minutos depois da sereia assustar tanta gente na beira do rio Cachoeira e por dias só se falou desse fato em Banco da Vitória.

Dias depois, seu Assis pescando durante a madrugada, avistou uma mulher sentada sobre uma pedra no meio do rio. Ele se assustou. Pensou ser uma sereia ou uma assombração. Mas a mulher sentada na pedra do rio não cantava nem se alisava, como fazem as sereias. Apenas olhava as águas do rio e nessas, o brilho da lua minguante. Com medo e na dúvida, Seu Assis deu como concluída sua pescaria noturna e remou de volta sua canoa até o porto de João de Coló.

Assim que chegou perto da Bica da água Boa, ele olhou para trás e viu que o vulto não estava mais sentado na pedra, mas sim seguia sua canoa.

– Vale-me Deus. Disse trêmulo seu Assis, enquanto via o vulto da sereia acompanhando sua embarcação até o porto.

Antes de chegar ao porto de João de Coló, a sereia submergiu, olhou alegremente para ele, sorriu suave, jogou duas pérolas brancas dentro da sua canoa e depois sumiu nas águas.

Somente Seu Assis viu o rosto daquela bela sereia e ele afirmou até morrer: – A sereia era negra. A mais bela mulher negra que seus olhos aimorés puderam ver.

A sereia negra das águas de Banco da Vitória sumiu e jamais foi vista por essas bandas. Ela voltou para sua eterna morada no fundo da Lagoa Encantada. Acreditou-se.

As duas pérolas dadas de presente pela sereia a seu Assis encontram-se guardadas na casa de dona Conceição, sua viúva. Dona Conceição mostra as pérolas para quem quer vê-las. Porém, apenas quem acredita em sereias podem vê-las como pérolas. Os incrédulos veem apenas dois pedaços de pedras sem valor.

Dona Conceição todos os dias alisa suas duas belas pérolas. Depois, sorri alegremente e lembra do seu grande amor, que o tempo levou.

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