Talvez, algumas coisas suas ainda estejam por lá.

banco 366.jpgPor Roberto Carlos Rodrigues.

Muitos filhos de Banco da Vitória, atualmente vivem longe destes horizontes. Uns, levados por sonhos de dias melhores, seguiram as estradas das suas ambições e foram para terras distantes, alicerçar suas conquistas. Outros, sem chances de escolhas, pegaram ônibus sujos e foram embora para outras plagas. De lá sentem saudade de sua terra distante e sonham em um dia voltarem para o mesmo solo em que seus umbigos foram enterrados. Outros filhos da comunidade, moram ali em Ilhéus ou Itabuna, Salobrinho ou Vila Cachoeira e passam todos os dias pela Rodovia Jorge Amado e veem o Banco da Vitória apenas por trás das janelas dos seus carros ou dos ônibus. Estes, talvez não saibam, mas o Banco da Vitória tem mais saudade deles do que eles têm da sua terra.

Deve ser triste e doloroso passar todos os dias diante do seu lugar de nascimento, da sua terra-mãe, das suas raízes, das casas dos seus parentes, do seu baú de todas as lembranças e não ter tempo para adentrar a velha comunidade e rever sua gente, suas ruas antigas, seu casario e principalmente suas lembranças.

Os filhos e amantes de Banco da Vitória que vivem distante tem suas razões para não poderem neste exato momento lambuzarem seus pés nas poeiras das nossas ruas. Estes, acredito, sonham todas as noites com o seu lugar amado.

Agora os apressados da Rodovia Jorge Amado e colecionadores de tantos compromissos, que apenas veem o Banco da Vitória como uma paisagem que passa pelas janelas dos seus carros, eu tenho um conselho a dá:

Tire um dia para, ao invés de ver sua terra mãe apenas pelas janelas dos veículos, vá lá passear de pés no chão, camisa sobre o ombro, sol na testa e o cheiro da maresia do velho Cachoeira nas fuças.

Vá lá rever sua gente, andar na “sua” antiga rua, visitar a casa que você morou, sentar na praça Guilherme Xavier, falar com seus conterrâneos, abraçar seus parentes e velhos amigos e sentir o ar do lugar.

Talvez, algumas coisas suas ainda estejam por lá. Pode ser uma lembrança antiga, uma saudade escondida ou apenas um sorriso singelo de alguém que se alegra ao ver-lhe de novo pisando no nosso solo sagrado.

Talvez, quem sabe, você ainda arrume tempo para ver as margens do Rio Cachoeira, andar na Rua do Campo, cruzar a Rua dos Artista e escorrer pela Rua Dois de Julho. Dá ainda para subir o Alto da Bela Vista, depois o Alto do Iraque e as franjas da Mata da Rinha.

Por certo, nessas suas caminhadas, você poderá encontrar velhos amigos, parentes distantes, sonhos perdidos no tempo. Uma coisa é certa: você encontrará o seu Banco da Vitória com tanta saudade de você, que jurará que não mais passará mais de um mês sem adentrar a sua velha comunidade.

Não posso afirmar, mas acredito que se o Banco da Vitória fosse uma pessoa, por certo ficaria muito triste ao vê-lo passar todos os dias bem em frente da sua casa e nunca a visitasse.

Talvez, em Banco da Vitória, alguma coisa sua ainda esteja por lá. Ou será que você realmente levou tudo quando se mudou?

Mas se você não quiser ir rever nossa gente, tudo bem. Você deve ter suas razões e seus motivos, que são todos inquestionáveis.

Assim como também são inquestionáveis os choros das mães abandonadas pelos filhos e o silêncio dos filhos que sofrem de um tipo de amnésia que se sustenta nas desculpas e nas pressas.

Vá rever o Banco da Vitória, antes que seja tarde demais. Isso, não para a localidade.

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Quando a minha hora chegou.

Por Roberto Carlos Rodrigues.

Pfogeor fim vieram buscar-me. São seis e cada um tem o seu lugar definido neste translado. Na porta da casa outros também estão postados e esperam suas vezes de ajudar-me na viagem. Uns estão tristes, outros surpresos. Uns estão até orgulhosos e outros são insossos feitos os perfumes das margaridas murchas que exalam no canto da sala. Num canto da varanda alguém choraminga. Outra soluça escondida. A maioria está em silêncio. Assim eu saio desta vida como cheguei, mudo e cheio de planos, sempre nas mãos de alguém.

A rua não está clama e algumas crianças acompanham a minha partida a distância. Elas têm medo de mim e do meu silêncio infinito. Eu lembro que eu também era assim na minha adolescência sem rédeas. Algumas mulheres velhas olham minha partida e cochicham alguma coisa. Umas estão orgulhosas por tem me conhecido. Outras querem ser somente testemunha deste instante. Continuar lendo