Pequena Crônica Ilheense

Por Roberto Carlos Rodrigues

CACAUEm Ilhéus, no século passado, abaixo de Deus, o cacau reinava e comandava. Nem Satanás ousava aparecer por aquelas bandas. O chocolate, com seu gosto adocicado era apenas uma mistura de suor com vaidades e mais umas gotinhas de ilusões. Bebida dos deuses, colchões dos coronéis. Incentivador de sonhos de todos os quilates. O povo marrom dos berços carnudos vivia sorrindo, como quem vive em num sonho sem fim que se sonha acordado. Tudo era belo, possível e ao alcance dos dedos. Uns eram ricos de fato. Outros, de conversas. Quem nascia em Ilhéus era, de alguma forma aparentado com os frutos de ouro. Uns eram filhos, outros irmãos, tios, netos, primos, avós. Apenas o trabalhador rural era vizinho distante. Muito distante. Riqueza por todos os cantos. Progresso pelos ares. Mansões, castelos, talheres de prata todos os dias nos almoços e nas jantas. Na cidade, fábricas e grandes lojas por todas as ruas. Empregos e oportunidades por todos os ares. Um dia, uma bruxa apareceu por aquelas plagas. A velha desgraçada, montada na sua vassoura feita de galhos secos de cacaueiros, açoitou os ares daquele lugar por toda a noite e disseminou sua peste pelos quatro cantos do território da antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus. O cacau quase morreu. Definhou nos galhos. Apodreceu no chão. Nem semente teve para manter a linhagem. Quase sumiu. O povo do lugar, sofreu mais que as roças de cacau queimadas pela peste da vassoura de bruxa. Uns morreram de desgostos, outros de raiva. Os mais fracos se mataram, os mais fortes fugiram. Ilhéus, a antiga princesinha do sul da Bahia, se contentou com posto de dona de pousada e agora vive de suas velhas lembranças e dos seus belos horizontes. O cacau que antes era quase um deus para aquele povo, agora é apenas um macumbeiro sonhador que dizem que anda fazendo milagres por aquelas bandas. De ebós e mandingas, de rezas e patuás, há quem diga que em algumas roças, um novo cacau cresce e floresce, viçoso e cheiroso, iguais seus tataravôs no início do século passado. Há quem não acredite nisso e diz que os novos frutos dos cacaueiros são adubados com novos suores, novos rostos. Só isso. Em Ilhéus, no início deste século, abaixo de Deus, o cacau não reina nem comanda. Mas ainda faz muita gente sonhar. Principalmente, os que não são filhos desta terra.

Revista anuncia nova arma contra a vassoura-de-bruxa

Fonte: Revista Fator

A vassoura de bruxa, doença que tem provocado graves danos às plantações de cacau no Brasil desde 1980, pode estar com os dias contados. Isso porque o biofungicida Tricovab, desenvolvido desde 1999 pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), acaba de ser liberado pelo Ibama. O uso do produto, testado há quase oito anos por técnicos da Ceplac que monitoram cerca 475 mil hectares infestados pela praga na Bahia, já traz resultados excelentes: do total desta área 150 mil hectares já estão sendo recuperados. Apesar disso, o biofungicida precisa da aprovação do Ministério da Agricultura e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para chegar efetivamente às lavouras. As liberações, no entanto, ainda não tem prazo definido.

Para o presidente da Câmara Setorial do Cacau e secretário-executivo do Instituto Cabruca, Durval Libânio, a demora na liberação de um produto de controle biológico gera problemas sociais, econômicos e ambientais. “Além do endividamento do setor cacaueiro na Bahia, principal estado produtor, os produtores sofrem com a ausência de um sistema de produção que dê a segurança necessária para que haja investimentos na área”, afirma Libânio. Ele alerta ainda que o Tricovab é considerado um forte aliado no combate à praga, que devastou a cultura cacaueira no Brasil, fazendo uma produção que já chegou a 460 mil toneladas cair para 120 mil por safra.

A liberação final do Tricovab, segundo Libânio, trará incremento para a produção de cacau no Brasil, com impactos positivos para a conservação dos biomas da Amâzonia e da Mata Atlântica e para toda a cadeia produtiva de cacau e de chocolate.

O Tricovab- Obtido por meio da fermentação de um fungo antagônico ao fungo causador da vassoura de bruxa (Moniliophtora perniciosa), o Tricovab é natural, desenvolvido a partir de cepas do fungo Trichoderma stromaticum cultivados em arroz. Comprovadamente eficaz – com eficiência acima de 80% – o biofungicida não agride o meio ambiente e nem os trabalhadores na lavoura e deve ter um preço bem inferior aos de agrotóxicos utilizados atualmente para controle da praga. Após algumas aplicações, o Tricovab se reproduz naturalmente no ambiente, sendo por isso considerado uma técnica sustentável. Os testes consumiram oito anos de pesquisa no Sul da Bahia e, segundo Manfred Müller, diretor-técnico da Ceplac, neste periodo “as etapas necessárias para o registro foram concluídas e todas as modificações solicitadas foram realizadas”.

Oficina discute cacau cabruca em Ilhéus

Nos dias 18 e 19 de junho acontece no Centro de Treinamento da Ceplac, em Ilhéus, a II Oficina do Diálogo do Cacau, um fórum de debates que conta com a participação de profissionais ligados à cadeia produtiva do cacau e as questões socioambientais.

A oficina é promovida pelo Instituto Cabruca, com organizações como Care Internacional Brasil, Conservação Internacional (CI), Iesb, Instituto Floresta Viva, Instituto Uiraçu, The Nature Conservancy e entidades locais.

Também participam produtores de cacau e indústriais, como Cargill Cocoa, Delfi Cocoa, Cooperativa Cabruca, Associação dos Produtores de Cacau (APC) e a Câmara Setorial do Cacau, vinculada ao Ministério da Agricultura.

Com o título “FNE, Verde Desafios e Oportunidades”, o fórum tem como foco a produção no agroecossistema cacau-cabruca, a conservação dos remanescentes de Mata Atlântica e a valorização do cacau por meio de pagamentos por serviços ambientais.

Será discutido o FNE Verde, que contempla agropecuária orgânica; manejo florestal, reflorestamento, agrossilvicultura e sistemas agroflorestais; geração de energia alternativa; sistemas de coleta e reciclagem de resíduos sólidos.

De acordo com Henrique Almeida, presidente da APC, “o Cacau é uma cultura agroflorestal que durante 250 anos, além de gerar divisas e riquezas, é reconhecida como a atividade agrícola que menos impactos provoca no bioma Mata Atlântica”.

Isso se deve ao fato de cerca de 70% do cacau da Bahia ser cultivado sob as copas das florestas, dentro de um sistema agroflorestal denominado “cabruca”.

Fonte: Jornal A Região

Cacau 1 X Vassoura de Bruxa 0

Pesquisa ajudou a derrotar fungo de cacau.

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Cabrucas são plantações de cacau misturadas com árvores de mata atlântica

Se depender do sul da Bahia –mais precisamente da Ilhéus de “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado–, os “chocólotras” podem ter mais esperanças. Vítima do fungo vassoura-de-bruxa, o cacau da região está ressurgindo, com promessa de gerar exportação, incentivar o ecoturismo e ajudar a preservar a mata atlântica.

Um dos exemplos onde esse tripé já existe é a fazenda Porto Novo, que tem entre os sócios o geneticista Gonçalo Pereira, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“Fechamos negócio com dez navios neste verão para que turistas visitem a fazenda e compreendam desde a cabruca até como se faz chocolate”, disse à Folha.

Cabrucas são plantações de cacau misturadas com árvores de mata atlântica, que refrescam o cacaueiro fazendo sombra.

A ligação de Pereira com a região surgiu quando ele resolveu estudar a genética da vassoura-de-bruxa, praga que acabou com a produção cacaueira na Bahia durante os anos 1990. A produção de cacau em Ilhéus despencou das 390 mil toneladas anuais em 1988 para 100 mil toneladas em 2000.

O tempo de prejuízos, porém, começa a virar apenas uma lembrança. Em 2005, a Porto Novo voltou a exportar. “Foram 13 toneladas de cacau. Somos o maior exportador do país”, diz Raphael Hercelin, parisiense radicado em Ilhéus que agora administra os 870 hectares da fazenda.

O mérito pelo ressurgimento do cacau em Ilhéus é repartido pela ciência, pela cultura e pelo trabalho empírico –neste caso, o crédito é de Edvaldo Sampaio, de outra fazenda.

O agrônomo, que nunca aceitou a derrota imposta pelo fungo, conseguiu fazer seus pés de cacau reagirem no campo. Primeiro com enxertos de plantas mais resistentes. Depois, com uma adubação especial. E, terceiro, induzindo o florescimento do cacau no primeiro semestre– o fungo, devido ao ciclo, ataca mais no segundo.

Quando o trabalho de Pereira deu os seus primeiros resultados, produtor e cientista uniram seus conhecimentos, e tudo foi para o campo. Sampaio, até então, trabalhava sozinho.

Hoje, explica Hercelin, a receita tem como base os dados empíricos, mas, em alguns casos, a ciência também está presente. Primeiro vem a poda para deixar o cacau forte. Depois a adubação química especial e, em terceiro lugar, o corte dos anéis da planta, necessário para alterar a data de floração.

Mas o trunfo atual da centenária cultura cacaueira baiana é a cabruca, que não existe na África. Além de o cacaueiro ficar à sombra no meio da mata, a diversidade botânica se torna maior. Assim, a área fica mais refratária a eventuais pragas.

Os produtores, dentro desse ressurgimento, reivindicam que esse tipo de plantação seja considerado área de reserva para poderem ampliá-la. Segundo Durval Mello, da ONG Instituto Cabruca, a região tem hoje 400 mil hectares de cabruca.

“Caso a cabruca não seja aceita como reserva”, diz o ambientalista, “70% dela deixará de existir”. O manejo, que hoje defende Ilhéus do fungo, é apenas o passo inicial. A região, mesmo investindo em cacau fino, não pode ainda produzir como a África.

Fonte: Gazeta